22 de jun de 2016

A Abelha


1. A Abelha

1.1 Que abelhas são criadas no Brasil?

A espécie de abelha mais comum, criada no Brasil e no mundo inteiro é a Apis mellifera (o seu nome científico). Também são criadas aqui algumas espécies de abelhas nativas (ou indígenas ou sem ferrão), que são menores e muito menos produtivas, mas que fornecem um tipo de mel diferente, muito apreciado por alguns.
Este documento contém informações apenas sobre Apis mellifera. Para obter informações sobre abelhas nativas, consulte os grupos de discussão mencionados no item 12.9).

1.2 O que significa esse nome científico?

A classificação dos seres vivos é feita em diversos níveis (reino, classe, ordem...). Ao se mencionar um determinado indivíduo, o mais comum é usar-se apenas o gênero e a espécie. No caso, a nossa abelha comum pertence ao gênero Apis e à espécie mellifera.
Um outro nível é usado às vezes para identificar subespécies, variedades ou raças, como em Apis mellifera carnica. Ao final do nome científico, freqüentemente aparece o nome do responsável pela identificação da espécie, geralmente abreviado. Por exemplo, Apis mellifera mellifera L. (de Linnaeus).
Quando se está fazendo referência a mais de uma espécie do mesmo gênero, ele é escrito seguido da abreviatura spp. Por exemplo, Apis spp.
Os elementos do nome científico são palavras em Latim, ou latinizadas, quando a palavra correspondente não existe neste idioma. O gênero é grafado com a primeira letra em maiúscula, a espécie e subespécie, em minúscula. Nenhum deles leva acento.

1.3 Que raças de abelhas existem?

A Apis mellifera possui diversas subespécies (raças). Algumas são originárias da Europa e outras da África. Entre as européias mais conhecidas, estão a mellifera, a ligustica (popularmente conhecida como "italiana"), a carnica e a caucasica. Entre as africanas, destacam-se a scutellata, a capensis, a monticola e a adansonii.

1.4 Que raças existem no Brasil?

No Brasil, e em quase toda a América Latina, a predominância é de uma raça híbrida entre a A.m.scutellata e as raças européias citadas acima. Como essa hibridização não está padronizada, ou seja, ainda há uma enorme variedade morfológica e comportamental, não foi registrada uma raça específica, mas essas abelhas são genericamente referidas como abelhas africanizadas.

1.5 Como essas abelhas chegaram aqui?

Rainhas de A.m.scutellata (originalmente chamada de A.m.adansonii) foram introduzidas no Brasil em 1956, para uma experiência de melhoramento genético. Fora de controle, enxames abandonaram as colméias e passaram a viver na natureza. A partir de então, enxameações sucessivas e cruzamentos de zangões africanos com princesas européias deram início a uma longa e impressionante ocupação do continente. Em 1990, os genes africanos chegaram à fronteira sul dos EUA, tendo percorrido cerca de 8.000 km em 34 anos.
Ao longo do tempo, os cruzamentos deram origem a enxames híbridos, com diferentes graus de predominância dos caracteres genéticos africanos.

1.6 As abelhas africanizadas são mais agressivas?

Sim, em intensidade variada. Há enxames excepcionalmente agressivos e outros relativamente mansos.
A propósito, a tendência de "correção política", amplamente difundida nos EUA e importada livremente pelo resto do mundo, caracteriza o comportamento da abelha como defensivo, e não agressivo, porque o ataque seria sempre uma resposta a um estímulo externo. Na minha opinião, isso é apenas uma confusão semântica. O intuito pode ser de defesa, mas a ação é de agressão. Se um cachorro resolver estraçalhar uma pessoa na rua por se sentir ameaçado, alguém diria que ele é muito defensivo? É claro que não.
Neste texto, apenas a expressão agressividade é usada para qualificar uma resposta de ataque.

1.7 Quando um ataque de abelhas pode ser fatal?

A literatura registra que um indivíduo hipersensível pode morrer em virtude de uma única ferroada, mas isso é muito raro. Mais comum é morrer a pessoa ou o animal que, impossibilitado de fugir por qualquer razão, fica exposto a um número muito grande de ferroadas. Crianças e deficientes físicos que estejam nas proximidades de um enxame agressor correm maior risco. Animais amarrados ou cercados também. Apicultores bem protegidos raramente sofrem mais do que umas poucas e inofensivas ferroadas.
Há casos registrados de morte com 100-300 ferroadas, e há um caso de sobrevivência registrada com 2.243 ferroadas. Em geral, a dose letal mediana (para a qual 50% das vítimas morrem) fica em torno de 19 ferroadas por quilo, para adultos [SCH92].

1.8 A apicultura pode ser considerada uma atividade perigosa?

Mexer com abelhas, sem conhecimento, pode ser considerado perigoso. A apicultura racional, praticada com os critérios de segurança bem conhecidos, é provavelmente uma atividade muito menos perigosa que algumas outras profissões e passatempos. Ao longo deste texto, há várias considerações sobre segurança. Independentemente disso, fazer um bom curso teórico-prático é uma condição essencial à formação de um bom apicultor.

1.9 Quantas vezes uma abelha pode ferroar?

Normalmente, uma única vez. O ferrão é uma estrutura que se parece com um arpão e que fica cravado na vítima. Ao se desprender, a abelha deixa para trás não apenas o ferrão, mas também o saco de veneno e parte do seu aparelho digestivo. Enquanto o ferrão permanece cravado, o veneno continua a ser instilado por ação involuntária (veja os itens 4.13 e 4.14). A abelha morre em horas ou dias.

1.10 A rainha ferroa? E os zangões?

Normalmente, a rainha só ferroa outra rainha, quando em disputa pela colméia. Ferroada de rainha em humanos é bastante rara, e, quando acontece, geralmente é após a manipulação de outra rainha pelo apicultor. O ferrão da rainha é mais firme que o das operárias e tem menos rebarbas, o que quase sempre evita o seu arrancamento após a ferroada.
Zangões não ferroam porque não possuem ferrão.

1.11 Afinal, por que as abelhas ferroam?

As abelhas ferroam quando sentem que a sua própria integridade ou a de sua família está ameaçada. Por isso, uma abelha longe de sua colméia nunca ataca ninguém, a menos que seja molestada diretamente, ou que tenha saído há pouco de uma colméia atacada. Pessoas que desconhecem esse fato assustam-se desmesuradamente quando uma abelha voa próximo a elas, imaginando que se trata de um ataque, e não uma simples investigação sobre a possível utilidade daquelas vestes coloridas ou daquele perfume exótico.

1.12 As abelhas são criaturas boas?

Nem boas, nem más. São apenas insetos, que apresentam um comportamento baseado num conjunto limitado de respostas aos diferentes estímulos que sofrem. Abelhas não raciocinam, não planejam, não ficam de mau ou de bom humor. Também não se afeiçoam ao apicultor nem se acostumam a ser manipuladas. Todos esse sentimentos são próprios de alguns vertebrados, especialmente os mamíferos, mas não de insetos.

1.13 Como as abelhas não planejam, se elas guardam mel para o inverno?

Elas não guardam mel para o inverno, simplesmente porque a grande maioria das abelhas que estocam o mel nunca viram e nem verão o inverno, já que elas raramente chegam a viver dois meses na época de forrageamento. Elas simplesmente respondem ao estímulo "secreção de néctar nas proximidades" coletando e armazenando tudo o que podem. Do ponto de vista da seleção natural, os enxames que assim procedem conseguem sobreviver aos tempos difíceis e têm oportunidade de passar seus genes adiante. Os demais simplesmente morrem, sem conseguir perpetuar esse comportamento na espécie.

1.14 O que as abelhas reconhecem como ameaça?

Barulhos normais, como o ruído de passos e conversa raramente perturbam as abelhas. Elas são estimuladas por vibrações fortes (de motores, por exemplo), odores (suor, perfumes), movimento (quanto mais rápido, pior) e cores (as escuras mais do que as claras). Pêlos em geral, cabelos e roupas felpudas estimulam fortemente o ataque, mais ainda se forem escuros.
Dentre os maiores estímulos, pode-se destacar o dióxido de carbono, exalado em quantidade pelos humanos. Por essa razão, evite, sempre que possível, respirar ou soprar próximo às abelhas.
Um detalhe interessante é que as condições ambientais parecem influir decisivamente no comportamento mais ou menos agressivo das abelhas. Dias nublados, úmidos e ventosos são, quase com certeza, dias de manejo difícil (embora também haja uma boa surpresa de vez em quando).

1.15 O que são as castas de abelhas?

Casta é cada um dos tipos de abelha existentes nos enxames: rainhas, operárias e zangões.

1.16 O que diferencia a rainha das operárias?

Visualmente, a rainha é muito maior que as operárias. Uma rainha é produzida pelas operárias sempre que necessário, a partir de uma larva jovem, de operária, de até 3 dias de vida.
Três fatores determinam que uma larva comum se transformará numa rainha, e não numa operária [WIN03]. Primeiro, a qualidade da alimentação. Larvas de rainhas são alimentadas com geléia real, uma mistura de secreções das glândulas mandibulares e hipofaringeanas das operárias. Larvas de operárias são alimentadas com uma mistura semelhante, mas com uma proporção muito menor da substância mandibular e ainda com a adição de pólen.
Segundo, a quantidade de alimentação. As larvas de rainha não apenas "bóiam" numa quantidade enorme de geléia real, como a ingerem com muito mais apetite do que as larvas de operária. Isso acontece porque elas são estimuladas pelo conteúdo maior de açúcar na geléia real do que na comida das larvas nos primeiros dias.
Terceiro, o tamanho da célula de rainha, chamada de realeira. Ela é muito mais ampla do que os alvéolos de operárias, e permitem um crescimento muito maior da rainha.
Outra diferença é que a rainha é a única fêmea a acasalar e, portanto, somente ela é capaz de pôr os ovos que gerarão novas operárias e zangões (veja o item 1.28 abaixo).

1.17 E o que é uma princesa?

É como é chamada uma rainha muito jovem, que ainda não foi fecundada.

1.18 Como é a fecundação da rainha?

Alguns dias após o seu nascimento, a princesa faz um ou mais vôos nupciais, nos quais copula com diversos zangões (entre 7 e 17, provavelmente). Depois disso, retorna à colméia e nunca mais acasala. O sêmen introduzido fica armazenado num órgão da rainha chamado espermateca, pelo resto da sua vida reprodutiva. No momento da postura, o óvulo que desce pela vagina será fertilizado por um espermatozóide da espermateca, caso a rainha esteja pondo um ovo numa célula de operária, ou não será fertilizado, caso a célula seja de zangão (que é maior que a de operária).

1.19 Como podem os zangões nascer de ovos não fertilizados?

Trata-se de um fenômeno conhecido como partenogênese, comum também em vespas e formigas. O indivíduo resultante não tem pai e é haplóide, isto é, possui metade dos cromossomos de sua mãe - apenas 16. Essa situação curiosa determina que a rainha que gerou um zangão seja o "pai genético" das filhas desse zangão.

1.20 Qual é a função dos zangões?

Aparentemente, eles existem apenas para a procriação. Eles não defendem a colônia (não possuem ferrão), nem coletam nada de útil para a colméia na natureza.

1.21 Como identificar um zangão?

O zangão é maior que as operárias e, por isso, é freqüentemente confundido com a rainha por apicultores iniciantes. Na verdade, ele é completamente diferente, tanto das operárias quanto da rainha. O seu corpo é mais largo, e o abdômen termina numa forma rombuda, e não pontiaguda. Além disso, os seus olhos compostos são muito grandes, juntando-se no topo da cabeça.

1.22 Zangões são sempre “puros”? 

Talvez em razão de os zangões serem haplóides, espalhou-se a crença de que eles são sempre de raça pura. O filho de uma rainha pura também será puro (embora possa ter características diferentes da sua mãe), e o filho de uma rainha mestiça poderá ser mestiço e, havendo coincidência, também poderá até ser puro (veja item 1.23).

1.23 Os zangões irmãos são idênticos? 

Não necessariamente. Pode haver zangões irmãos idênticos, mas isso é apenas uma coincidência. Ocorre que uma célula comum da rainha possui 32 cromossomos ligados dois a dois (16 pares) e os óvulos produzidos possuem apenas 16 cromossomos, nenhum ligado a outro. Estes 16 cromossomos resultam da combinação aleatória de um dos cromossomos do par 1, mais um dos cromossomos do par 2, e assim por diante. Como em cada par de cromossomos a carga genética varia de um cromossomo para outro, cada óvulo produzido – e cada zangão, por conseqüência - carregará uma carga genética particular. Posto em números, uma rainha pode gerar 216 = 65.536 óvulos (zangões) diferentes, considerando-se apenas o agrupamento randômico dos cromossomos durante a meiose. Na verdade, este número pode ser muito maior, pois há um segundo fenômeno de variabilidade genética importante, conhecido por crossing over [ARM01].
Pela mesma razão, zangões não são idênticos à sua mãe. Uma característica qualquer (determinada por gene recessivo) que não se manifeste na rainha pode estar presente no zangão, se ele ficar com o cromossomo que carrega este gene.

1.24 Qual é a função da rainha?

A rainha dá origem a todos os indivíduos da colméia, pela postura de ovos fertilizados (para operárias) e não fertilizados (para zangões). Além disso, a sua presença (mais precisamente os feromônios que ela produz) determina o comportamento "normal" das demais abelhas.

1.25 Quantos ovos a rainha põe por dia?

No pico da postura, ela chega a pôr 2.000 ovos por dia.

1.26 O que acontece quando a rainha morre?

A rainha pode morrer acidentalmente, por exemplo, durante um manejo de rotina do apicultor, ou ser morta pelas próprias abelhas, caso o seu desempenho seja insatisfatório. Em qualquer dos casos, as abelhas, assim que percebem a falta da rainha, tratam de produzir outra, a partir de uma larva jovem de operária (de até 3 dias).

1.27 E se não houver uma larva jovem?

Se não houver uma larva disponível, ou se as rainhas produzidas não sobreviverem por qualquer motivo, o enxame não será mais capaz de produzir uma nova rainha. Se o apicultor estiver atento, ele poderá fornecer ao enxame uma nova rainha ou um quadro de cria, para que elas tentem de novo, caso contrário, a colméia tornar-se-á zanganeira.

1.28 O que é uma colméia zanganeira?

É a colméia em que as abelhas, na falta da rainha, começam a pôr ovos. Como não são fecundados, esses ovos geram apenas zangões, e a colméia acaba extinguindo-se com a morte das operárias.

1.29 Por que as abelhas começam a pôr ovos?

Uma visão popular e antropomórfica explica que a postura das operárias é um "esforço desesperado" de preservação da colônia, mas isso não é verdade. Elas simplesmente passam a pôr ovos porque, sem rainha e sem crias, interrompe-se a produção de feromônios que inibem o desenvolvimento dos seus ovários.
Uma questão interessante é por que esse mecanismo foi preservado ao longo da seleção natural, se ele, aparentemente, é inútil. A resposta pode estar na subespécie africana A.m.capensis, que apresenta uma característica interessante: os ovos não fertilizados podem produzir fêmeas também, além de machos. Assim, uma colméia pode produzir uma nova rainha a partir de um ovo posto por uma operária e realmente conseguir voltar ao normal. Em freqüência muito menor, a geração de fêmeas a partir de ovos não fertilizados ocorre também nas demais subespécies, o que pode indicar que esse mecanismo já foi mais útil e mais eficiente no passado.

1.30 Como saber se uma colméia está sem rainha?

A ausência de ovos em época de postura normal é um forte indicativo. Mas isso também pode significar preparação para a enxameação, se houver realeiras no ninho. Também pode indicar a presença de uma rainha virgem, o que pode ser presumido se forem encontradas realeiras já abertas.
Se a colméia fica sem rainha durante vários dias na época da safra, pode-se perceber a situação visualmente, pelo acúmulo anormal de mel e pólen no centro dos favos de cria.
Apicultores mais experientes, porém, podem suspeitar da orfandade no instante em que abrem a colméia. O que acontece é que, à medida que aumenta o tempo de ausência da rainha, as operárias começam a apresentar um padrão anormal de agitação. Muitas saem voando imediatamente, não necessariamente para atacar, num comportamento visivelmente diferente dos enxames normais.

1.31 Como saber se uma colméia está zanganeira?

Nada mais fácil: no momento da postura, as operárias não percebem (ou não fazem caso) se um alvéolo já tem outro ovo nele depositado. Por isso, os ovos vão se empilhando, e cada alvéolo acaba contendo vários deles, o que é facilmente percebido pelo apicultor.
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Os ovos são depositados nas paredes dos alvéolos, porque o abdômen das operárias não alcança o fundo. A operculação das células é protuberante, típica das de zangão. Depois de algum tempo, os zangões começam a nascer, mas são todos pequenos, porque foram gerados em alvéolos de operárias, que são muito menores.

1.32 Em quanto tempo uma colméia fica zanganeira?

Depende. Enquanto houver cria, aberta ou fechada, é pouco provável que as operárias ponham ovos. Quando não houver mais rainha e crias, as operárias começarão a pôr dentro de 14 dias, em média [WIN03].

1.33 Como identificar a rainha?

A rainha se parece com uma operária, mas é maior e tem o abdômen proporcionalmente mais alongado. Encontrar uma rainha pode ser uma das tarefas mais complicadas da apicultura. No capítulo 7, são mencionadas algumas técnicas úteis.

1.34 Qual é a função das operárias?

Como o nome sugere, trabalho duro. Enquanto são jovens, dedicam-se ao trabalho interno: limpam as células, alimentam as larvas jovens e a rainha com substâncias nutritivas que elas mesmas secretam, alimentam as larvas mais velhas com pólen e mel, empilham o pólen recolhido nas células, secretam cera, constroem favos, recebem, processam e armazenam o néctar, vedam frestas com própolis, defendem e ventilam a colméia, operculam células. Quando mais velhas, dedicam-se, principalmente à coleta de néctar, pólen, água e própolis. A coleta de néctar ou mel pode ser feita também em outras colméias, especialmente as mais fracas, num comportamento de pilhagem (saque).

1.35 Qual é a relação entre a idade das abelhas e as tarefas executadas?

Há uma grande variação na relação entre idade e atividades executadas. Há períodos de vida preferenciais para as abelhas executarem determinadas tarefas, mas eles podem mudar completamente em caso de necessidade. Além disso, a abelha pode executar diversas tarefas diferentes durante um dia. Uma relação comum, em situação normal da colméia é a seguinte [WIN03]:
Tarefa
Idade (dias)
Limpeza de alvéolos
0 a 8
Operculação de cria
2 a 9
Atendimento de cria
5 a 15
Atendimento da rainha
3 a 14
Recebimento de néctar
8 a 16
Remoção de detritos
7 a 21
Compactação de pólen
8 a 19
Construção de favos
11 a 22
Ventilação da colméia
13 a 22
Guarda da colméia
14 a 27
Primeiro forrageamento
18 a 28

1.36 Quanto tempo vive uma abelha?

Durante a safra, uma operária africanizada vive, em média, 38 dias, sendo 23 executando tarefas domésticas e fazendo as primeiras coletas, e 15 somente forrageando. Na entressafra, a expectativa de vida aumenta, e elas chegam a viver 5 meses ou mais em climas muito frios. Uma operária européia chegou a viver 320 dias [WIN03].
Aparentemente, a distância total voada é um determinante muito mais importante para a longevidade da abelha do que a sua idade. Um estudo de Neukirch, citado em [WIN03], estabeleceu um limite teórico médio de 800 km voados, não importando se eles se acumulam ao longo de 5 ou de 30 dias.

1.37 Quantas abelhas vivem numa colméia?

O número real é extremamente variável, a cada época do ano, de colméia para colméia. No pico da safra, por exemplo, considere as seguintes hipóteses:
· Postura diária de 2 mil ovos
· Tempo de desenvolvimento ovo-adulto de 20 dias
· Viabilidade de 100% da cria
· Ciclo de vida de 38 dias para as operárias
Nesse caso, teoricamente, a colônia poderia crescer até chegar à população abaixo, permanecendo em equilíbrio enquanto a postura se mantivesse.
· 1 rainha
· algumas centenas de zangões
· 38 mil crias (ovos, larvas, pupas)
· 44 mil operárias domésticas/campeiras (até 23 dias)
· 32 mil campeiras

1.38 Quando as abelhas pilham as colméias vizinhas?

Geralmente quando a produção de néctar é baixa, e uma colméia vizinha tem mel em estoque e está desprotegida por falta de operárias. Esse comportamento freqüentemente é ativado pelo próprio apicultor que, durante o manejo, expõe o estoque de mel das colméias à investigação das vizinhas ou fornece alimentação artificial com xarope de forma descuidada ou em alimentadores deficientes (veja capítulo 6).

1.39 Como as abelhas se comunicam?

Principalmente, por meio de interações químicas. Essas interações se processam pela produção de feromônios, substâncias secretadas por diversas glândulas que são percebidas pelo olfato. Os feromônios são o principal meio de estimulação e coordenação de quase todas as atividades das abelhas. Os feromônios produzidos pela rainha, por exemplo, inibem a construção de realeiras pelas operárias, inibem o crescimento dos ovários das operárias, atraem zangões nos vôos nupciais, atraem as operárias em geral e particularmente as nutrizes, que alimentam a rainha com geléia real.
Feromônios de operárias estão muito ligados à defesa da colméia. A ferroada libera um feromônio que induz outras abelhas a atacarem. Por esta razão, é comum a ocorrência de várias ferroadas no mesmo local. Também por isso, é conveniente a limpeza freqüente das roupas de proteção.
Um outro feromônio de operária é o de localização, usado para atrair ou orientar outras abelhas em direção ao alvado, água ou fonte de alimento. A liberação desse feromônio se dá numa posição bastante familiar aos apicultores: a abelha ergue o seu abdômen, expõe a glândula de Nasanov, localizada próximo à extremidade, e bate as asas para dispersar a substância.
As crias também produzem feromônios que estimulam as operárias a atendê-las e ajudam a inibir o desenvolvimento dos ovários das operárias.

1.40 E a dança das abelhas?

Feromônios são o principal, mas não único meio de comunicação. Interações táteis e sonoras, como o roçar de antenas ou as danças também são muito usadas. As danças são padrões de movimento, vibração, ruído e direção utilizados com diferentes propósitos, dos quais o mais conhecido é a passagem de informações sobre uma fonte de alimento. Nessa dança, por exemplo, a abelha percorre um trecho reto do favo "requebrando-se" e depois volta ao início desse trecho num trajeto de semicírculo. Em seguida, percorre de novo o mesmo trecho reto e volta em outro semicírculo, mas desta vez pelo lado oposto.
Para saber a qualidade e a distância dessa fonte, as abelhas levam em conta o entusiasmo da dançarina, o tempo gasto no trecho reto e o número de vezes em que os passos foram executados. Já a direção da fonte é passada como um ângulo, formado entre o trecho reto da dança e uma linha vertical. Este ângulo corresponde ao formado pelos pontos sol-colméia-fonte (a colméia no vértice).
Assim como o achado de alimento, o de novas casas no momento da enxameação também é comunicado por danças. Além disso, elas também estimulam determinadas atividades, como o forrageamento e a enxameação [WIN03].

1.41 Como elas fazem quando o sol não está visível?

O sol pode não estar visível para nós, mas estar para as abelhas. Ocorre que elas enxergam um espectro de luz diferente dos humanos, que não inclui as freqüências mais baixas (próximas do vermelho), mas inclui as mais altas, já na faixa ultravioleta. E as freqüências ultravioletas atravessam camadas finas de nuvens, de forma que o sol permanece visível para as abelhas mesmo em muitos dias nublados.
Mas é possível que a visualização do sol não seja tão importante. Acontece que as abelhas são capazes de se orientar após o pôr-do-sol e, eventualmente, até de forragear à noite. Para isso, elas consideram a posição exata do sol no momento, como se pudessem enxergá-lo através da Terra ou estimar a sua posição.

1.42 Como elas informam uma posição atrás de um obstáculo?

A direção é informada como se ele não existisse. Por exemplo, uma florada atrás de um morro é indicada na dança como se as abelhas tivessem de atravessá-lo para chegar lá. A distância informada, porém, corresponde ao gasto de energia necessário para alcançar o objetivo e ela, nesse caso, é maior do que seria se não houvesse morro. Na busca, as campeiras que assistiram a dança fazem as voltas que forem necessárias para alcançar o destino.

1.43 A que velocidade voa uma abelha?

Em média, a 24 km/h.

1.44 Quanto tempo uma abelha leva para nascer?

Este tempo, ao contrário do que muitos imaginam, é variável. Temperaturas altas na área de cria podem acelerar o processo, enquanto que as temperaturas baixas retardam-no. O ciclo médio de desenvolvimento das abelhas européias, em dias, é o seguinte:
Casta
Ovo
Larva
Pupa
Total
Rainha
3
5,5
7,5
16
Operária
3
6
12
21
Zangão
3
6,5
14,5
24
Já as africanizadas são um pouco mais precoces, a rainha nasce em 15 dias, e a operária, em 19-20 dias.

1.45 O que as abelhas comem?

Resumidamente, néctar e mel, como fonte de carboidratos, e pólen, como fonte de proteínas, gorduras, vitaminas e minerais, além de água. As larvas de operárias e zangões, até 4 dias de vida, são alimentadas pelas abelhas com secreções nutritivas, produzidas pelas glândulas hipofaringeanas e mandibulares das operárias. Após o 4º dia, a alimentação das larvas muda para outros tipos de geléia e uma mistura de néctar, mel diluído e pólen. Após o nascimento, durante cerca de duas semanas, a operária consome muito pólen, pois depende dele para, nessa fase da vida, produzir as substâncias que alimentarão as larvas e a rainha. Gradualmente, a dieta da operária começa a mudar para néctar e mel, à medida que ela abandona o serviço de alimentação e assume outros serviços, como a coleta de água, néctar, pólen e própolis.
A rainha alimenta-se quase que somente de geléia real, tanto na fase larval quanto em toda a sua vida adulta. A geléia real é um produto semelhante à comida da larva, mas com uma proporção muito maior da secreção mandibular e, por essa razão, mais rica em algumas substâncias nutritivas.
Zangões adultos são alimentados pelas operárias nos primeiros dias, e depois se alimentam sozinhos, basicamente de néctar e mel.

1.46 Como os enxames se reproduzem?

Em algumas situações, uma colônia resolve se dividir, e a isso se dá o nome de enxameação. Ela ocorre com freqüência durante floradas abundantes, quando o espaço na colméia torna-se insuficiente para armazenar o néctar que entra e a nova prole que está sendo gerada pela rainha. Quando a rainha não produz feromônios em quantidade suficiente para todo o enxame, a enxameação também pode ocorrer (é o que acontece com rainhas mais velhas).
O primeiro passo do processo de enxameação é a produção de princesas.
Antes de nascerem as princesas, as operárias submetem a rainha a um regime forçado, negando-lhe alimento e tratando-a rudemente, para que não fique parada. Supostamente, isso serve para interromper a postura e deixá-la mais leve para a viagem da enxameação. No dia da saída, muitas operárias engolem o máximo de mel, para garantir a sua sobrevivência até que uma nova morada seja encontrada, e para poderem produzir cera para a construção dos primeiros favos. Muitas operárias, especialmente as mais jovens, abandonam a colméia, levando junto a rainha (ou arrastando-a, em alguns casos).
Ao abandonar a colméia, o enxame agrupa-se nas imediações, num galho de árvore, num poste, num automóvel, onde ele achar mais conveniente. Em seguida, abelhas batedoras saem em busca de um lugar seguro para formar a nova colméia (em alguns casos, essa pesquisa pode iniciar antes mesmo da saída do enxame). Elas avaliam ocos de árvores, cupins abandonados e cavidades em rochas, além de espaços em telhados, caixas vazias, tonéis abandonados e muitos outros. Quando uma batedora acha um bom lugar, volta ao enxame e comunica a boa notícia dançando. Mais abelhas aparecem para avaliar a escolha e, se ela for melhor que as alternativas encontradas por outras batedoras, o enxame decide fazer a nova colméia ali.

1.47 O que acontece com a colméia que perdeu um enxame? 

Fica com a casa, toda a cria, as reservas de pólen, parte das reservas de néctar e mel, parte das operárias, especialmente as mais velhas, e uma ou mais princesas ou rainhas novas, que lutarão até a morte até que só sobre uma para comandar a colméia.
Dependendo do tamanho original do enxame e das condições da colméia, outros enxames podem ser produzidos - os enxames secundários. Eles são menores e podem conter uma ou mais princesas.
Numa colméia de um apiário, a enxameação representa um prejuízo certo, uma vez que, não apenas parte do mel foi levada embora, como foi drasticamente diminuída a força de trabalho para coletar mais. Em geral, de colméias que enxameiam, não se consegue nenhuma produção significativa de mel na temporada. Algumas vezes, porém, especialmente se houver bastante espaço para crias e mel na colméia, a enxameação ocorre suficientemente tarde, para que bastante mel já tenha sido estocado.

1.48 Por que as abelhas abandonam a colméia?

Quando as abelhas são submetidas a um nível de estresse ou privação muito grande, elas podem abandonar a colméia e tentar a sorte em outro lugar. Uma causa comum é o calor excessivo. Caixas com pouco espaço e sem ventilação, quando deixadas ao sol, provocam abandono (é o caso de caixas-isca de papelão, por exemplo). Períodos de carência alimentar muito prolongados e ataque de formigas também. O mesmo com manejos descuidados ou muito freqüentes.

1.49 Por que as abelhas às vezes matam a sua rainha?

Diversos fatores podem provocar a substituição da rainha. Quando ela já não produz feromônios em quantidade suficiente, as abelhas podem resolver trocá-la. Também quando o seu desempenho é baixo (postura deficiente) ou o seu estoque de esperma acaba (ela só consegue produzir zangões). Em alguns casos, as abelhas parecem culpar a rainha por algum distúrbio maior na colméia, e liquidam-na por "peloteamento" (formam uma bola em torno dela até sufocá-la). Em qualquer caso, o propósito parece ser sempre obter uma rainha nova, melhor que a atual.

1.50 Como as abelhas lidam com as variações de temperatura?

A capacidade de as abelhas lidarem com variações de temperatura está ligada ao tamanho do enxame. Uma abelha sozinha tem mínima proteção, uma colméia numerosa pode manter o seu centro a 35 ºC, em situações externas de extremo calor (até 70 ºC) e de extremo frio (até -80 ºC) [SOU92].
Para resfriar uma colméia, as abelhas utilizam a evaporação da água, um processo eficiente, porque absorve grande quantidade de calor ao ocorrer. Elas expõem a água, na forma de películas nas suas mandíbulas ou gotículas espalhadas pela colméia, a uma corrente de ar provocada por elas mesmas, com o bater de suas asas. Dessa forma, conseguem sobreviver em ambientes muito quentes, desde que haja água suficiente disponível.
Para esquentar uma colméia, as abelhas agrupam-se em torno do centro, onde estão as crias. Quanto mais baixa a temperatura, mais apertado será o agrupamento. As abelhas, nessa situação, assumem uma posição relativa que força o entrelaçamento dos seus pêlos torácicos, aumentando a capacidade de isolamento térmico das sucessivas camadas. Essas camadas são formadas por abelhas voltadas para o centro do grupo, e há um revezamento entre as que estão em posição mais externa e as que estão mais ao centro.
Elas também são ajudadas pela presença de alvéolos vazios, que formam câmaras de ar parado, que é um bom isolante. Se ainda assim a temperatura continuar caindo, as abelhas passam a produzir calor pela vibração da sua musculatura torácica. Nesse caso, porém, elas necessitam ingerir quantidades maiores de mel para repor a energia perdida. Em outras palavras, transformam-se em estufas movidas a mel.

1.51 Por que o apicultor põe fumaça nas abelhas?

A principal razão é bloquear ou diminuir a resposta agressiva. Um dos efeitos da fumaça é impedir que os feromônios de alarme sejam bem percebidos pelas operárias, o que evita que muitas abelhas saiam da colméia para defendê-la.
Muitos acreditam também que a fumaça dispare na colméia um comportamento de preparação para a fuga: as operárias passariam a engolir mel e armazená-lo na vesícula melífera, para um eventual abandono da colméia. Isso, ocuparia as abelhas por algum tempo e alteraria o seu comportamento de defesa, mudando de agressão para fuga. As abelhas que engolem mel também teriam maior dificuldade para ferroar. Este efeito, porém, não está bem documentado na literatura, e, pessoalmente, admito sérias dúvidas sobre a sua realidade.
Outra utilidade muito importante da fumaça é a condução das abelhas. Como elas geralmente são repelidas pela fumaça, o apicultor a utiliza para afastar as abelhas de terminados locais, como a superfície da caixa antes da recolocação da tampa.

1.52 A fumaça não estressa as abelhas?

Sim, bastante. Manejos muito freqüentes podem até provocar o abandono de toda a colméia. A fumaça é quase sempre necessária, mas, por qualquer ângulo que se examine (estresse das abelhas, contaminação de favos e mel), sempre será preferível usar a menor quantidade possível de fumaça numa manipulação.

1.53 Quanto pesa uma abelha?

Em média, uma abelha recém nascida (com o aparelho digestivo vazio) pesa cerca de 65 mg (africanizada) e 83 mg (européia). Isso dá 15.000 africanizadas/kg e 12.000 européias/kg, mas não use esses dados para calcular o peso de um enxame, pois nele, as abelhas possuem um conteúdo intestinal variável, que pode chegar a 80% do seu peso líquido. Em média, estima-se de 7.000 a 10.000 abelhas por quilograma.

1.54 Como a abelha coleta néctar?

A abelha suga a substância adocicada (néctar, pseudonéctar, calda, suco, refrigerante, etc.) com a ajuda da sua prosbócide (língua). A substância é então conduzida até uma porção do aparelho digestivo chamado de vesícula melífera, uma espécie de antecâmara do estômago, que pode ser amplamente distendida.

1.55 Quanto néctar a abelha pode transportar?

Em média, a carga de néctar de uma européia situa-se entre 20 e 40 mg, podendo chegar, ocasionalmente a 80 mg. A carga média da africanizada é um pouco menor, e a máxima pode chegar a 60 mg ou um pouco mais.

1.56 A que distância uma abelha voa para colher néctar?

O mais próximo possível. Três quilômetros é uma distância máxima freqüentemente mencionada, mas as abelhas voarão mais do que isso se necessário. Economicamente, quanto mais próxima do apiário estiverem as flores, melhor, pois as abelhas consumirão menos mel durante a atividade da coleta.
Na prática, freqüentemente considera-se que a flora apícola útil ao apiário está circunscrita num raio de 1 a 1,5 km, o que corresponde a uma área circular de 300 a 700 hectares.
A certificação de apicultura orgânica exige que não haja cultura convencional (não orgânica) num raio de 3 km do apiário.

1.57 Como a abelha coleta pólen?

Ela usa a língua e as mandíbulas para tirar algum pólen das anteras e umedecê-lo. Muitos grãos também ficam presos ao seu pêlo na operação. Depois, ela "escova" esses grãos, geralmente durante o vôo, mistura-os ao pólen umedecido e compacta tudo na corbícula, uma reentrância existente no seu par de pernas posterior. A medida que mais pólen vai sendo coletado, a carga nas corbículas aumenta, e alguns pêlos são envolvidos pelas bolotas, para que elas permaneçam firmes no lugar.

1.58 Como a abelha coleta própolis?

Com ajuda das mandíbulas e do primeiro par de patas, ela remove o material resinoso da planta. Depois, armazena-o na corbícula, de forma semelhante ao que faz com o pólen. Antes de usar a própolis, a abelha ainda mistura-a com cera, numa proporção que pode chegar a 30%, para tornar a sua consistência mais trabalhável.

1.59 Como a abelha coleta água?

Ela suga a água e armazena-a tal como faz com o néctar, na vesícula melífera.

1.60 O que estimula as abelhas para a colheita?

Basicamente, a necessidade das abelhas, a disponibilidade de espaço na colméia e a abundância local dos recursos. Num clima quente, por exemplo, a necessidade de refrigerar a colméia comanda a busca de água. Em floradas grandes, a necessidade por pólen e néctar e o espaço de armazenamento disponível orientam a sua colheita.
Em vários estudos, observou-se que a alocação de campeiras para colheita de um recurso específico estava relacionada à pronta aceitação deste recurso pelas abelhas domésticas na hora da chegada da campeira. Por exemplo, se uma campeira que coletou água é imediatamente aliviada da sua carga na chegada à colméia, ela provavelmente voltará para buscar mais água. Se, por outro lado, ela demora muito a conseguir livrar-se da sua carga, ela provavelmente dirigirá seus esforços a outro produto na próxima viagem.

1.61 Onde as abelhas guardam esses produtos?

O pólen é armazenado nos alvéolos próximos à área de cria, que é o seu principal consumidor. O néctar é armazenado nos alvéolos que estão acima e ao lado da área de cria e pólen. A própolis é usada diretamente no objetivo: tapar frestas e envolver corpos estranhos que não puderam ser removidos. A água não é armazenada nos favos, mas distribuída entre diversas abelhas jovens, que a manterão nas suas vesículas melíferas até que ela seja necessária.

1.62 Como as abelhas produzem cera?

Operárias, normalmente entre 8 e 17 dias de idade, secretam cera na forma de flocos, através de glândulas cerígenas, localizadas na parte frontal do abdômen. Para produzir cera, as abelhas precisam ingerir muito mel.

1.63 Quanto mel deve ser ingerido para a produção de 1 kg de cera?

Em média, as abelhas ingerem 8 kg de mel para produzir 1 kg de cera.

1.64 Que abelha devo criar, européia ou africanizada?

Essa pergunta é nitroglicerina na apicultura brasileira. Desconheço algum estudo formal que tenha comparado o desempenho das duas raças no Brasil, mas os relatos informais de apicultores que tentaram trabalhar com européias (inclusive eu) sistematicamente indicam produtividade e agressividade significativamente menores do que as das africanizadas.
No entanto, ainda pairam dúvidas sobre a qualidade das européias testadas por aqui, grande parte delas proveniente de um mesmo fornecedor brasileiro. O sucesso das européias em outros países, inclusive de clima mais quente, como a Austrália, entusiasma muitos criadores, embora muito mais no plano teórico do que no prático.
Por enquanto, a criação de africanizadas parece ser quase um consenso nacional, apesar de algumas vozes contrárias. O argumento decisivo é a rusticidade muito maior das africanizadas, que podem ser criadas sem nenhum medicamento, o que não ocorre com as européias, em quase todo o resto do mundo.
Uma lista parcial das vantagens e argumentos favoráveis a umas e outras encontra-se a seguir:
Pró Africanizadas:

· Estudos já confirmaram que a africanizada é uma abelha mais rústica, menos sujeitas a doenças. Por exemplo, a podridão de cria americana, que atinge colméias européias argentinas, nunca chegou aqui.
· Talvez pelo mesmo motivo, o comportamento higiênico mais apurado, parasitas como a varroa, que infernizam as européias, não costumam causar maiores prejuízos às africanizadas. É verdade que o clima quente da maior parte do Brasil é desfavorável à varroa, mas alguns estudos já determinaram a superioridade das africanizadas em condições idênticas.
· Por essa razão, é possível manter-se um apiário de africanizadas mais natural, sem o uso de medicações, o que é uma grande vantagem. Pelo que se sabe de outros países, essa é uma situação bastante incomum em colméias européias, que normalmente dependem de antibióticos e acaricidas para se manter produtivas.
· A maior agressividade das africanas é às vezes uma aliada do apicultor, pois dificulta o roubo das colméias.
· Diversos relatos informais de apicultores brasileiros dão conta que a produtividade das africanizadas é, quase sempre, muito maior do que a das européias.
Pró Européias:
· São muito menos agressivas. Demoram mais a iniciar um ataque, atacam com menos abelhas, perseguem a vítima por uma distância muito menor e recompõem-se em um tempo muito menor do que as africanizadas.
· Têm menor propensão a enxamear.
· Têm menor propensão a abandonar o ninho.
· Pilham menos.
· Quando um quadro é manipulado, comportam-se mais calmamente, sem correrias frenéticas de um lado para outro. Isso facilita muito o manejo em geral e a localização da rainha, especificamente.
· São maiores e carregam cargas maiores - precisam de menos viagens para colher a mesma quantidade de néctar, por exemplo.
· Vivem mais.
· Muitos países que usam apenas européias têm produtividades médias que chegam a três ou quatro vezes a do Brasil.











20 de jun de 2016

A Colméia


2. A Colméia

2.1 O que é uma colméia?

É a casa das abelhas. Por extensão, a palavra também é usada para fazer referência às abelhas que a habitam.

2.2 Como é uma colméia?

A colméia dita racional é uma caixa, ou um conjunto de caixas empilháveis, dispostas sobre um fundo (ou chão) e cobertas por uma tampa (ou teto). Geralmente, é feita de madeira. Dentro das caixas, ficam os quadros (ou caixilhos), que são estruturas retangulares, como molduras, destinadas a conter os favos feitos pelas abelhas.
Esse é o modelo moderno básico, mas inúmeros outros são possíveis. No passado, as colméias eram cestos de palha emborcados. Caixas comuns, sem quadros, também foram usados por décadas.

2.3 De que outros materiais podem ser feitas as colméias?

Há muitos anos existe no mercado internacional colméias feitas de material sintético, como o poliuretano. Embora ocasionalmente alguém se manifeste favoravelmente a elas, o mais comum é ouvir-se queixas e suspeitas. Seja como for, elas parecem estar no mercado há tempo demais para ainda não terem emplacado, já que o peso leve é um grande atrativo para os apicultores. Talvez com a adoção de melhores tecnologias e materiais, a colméia sintética acabe se tornando uma boa alternativa.
Mais raramente, ouve-se falar em outros materiais, como isopor ou concreto, mas nenhum deles com resultados importantes.
Na apicultura orgânica, somente caixas de madeira são permitidas.

2.4 Qual é o melhor tipo de colméia?

É difícil dizer. Hoje em dia, a apicultura mundial inclina-se para o modelo Langstroth (ou americana), talvez nem tanto pela sua funcionalidade, e mais pela sua popularidade. É um caso em que usar o mesmo modelo que todo mundo é melhor porque todos os insumos, equipamentos e acessórios disponíveis já estão padronizados e são, portanto, muito mais baratos e facilmente encontrados. Quando não mencionado, esse texto sempre fará referência a colméias Langstroth.
Várias alternativas ao modelo Langstroth já existiam ou foram desenvolvidas depois que ela apareceu no Brasil. As mais importantes são a Schenk, a Curtinaz e a Schirmer. Algumas foram projetadas para usarem as bitolas de madeira padrão no país. Outras foram adequadas para climas mais frios ou mais quentes. Outras são reversíveis, para que a disposição dos quadros em relação ao alvado possa mudar de acordo com a temperatura. Outras tiveram os seus quadros desenhados para facilitar a desoperculação. Outras previram a unificação das dimensões, com caixas e sobrecaixas idênticas. Quase todas têm uma ou mais vantagens em relação à Langstroth, mas nenhuma delas foi capaz de superá-la a ponto de tornar-se um novo padrão de fato. Portanto, se você estiver iniciando na apicultura, compre caixas Langstroth.

2.5 O que são ninhos e melgueiras?

Ninhos (ou caixas, ou câmaras de criação) contêm os quadros que serão usados para a postura de ovos e desenvolvimento das crias. Geralmente são mais altas e formam o primeiro ou os primeiros andares, se a colméia for vista como um edifício.
Melgueiras (ou sobrecaixas) são destinadas apenas à produção de mel, para que os seus quadros não contenham também crias e pólen. Geralmente são mais baixas que os ninhos e formam os andares mais altos do "prédio". Alguns apicultores preferem usar apenas ninhos nas colméias, inclusive fazendo o papel de melgueiras (os sobreninhos).
Ocasionalmente, usa-se a palavra caixa para fazer referência a um ninho ou a uma melgueira, indistintamente. A mesma palavra pode ser empregada no sentido de colméia - "tenho dez caixas de abelhas".

2.6 O que é melhor, melgueiras ou sobreninhos?

Sobreninhos são melhores porque permitem uma padronização de quadros - com ninhos e melgueiras, o apicultor precisa manter estoques de dois tamanhos de quadros e de lâminas de cera alveolada. Com sobreninhos, a tela excluidora torna-se totalmente dispensável, porque qualquer quadro com postura pode ser remanejado para o ninho.
Por outro lado, sobreninhos carregados de mel são pesados demais, e praticamente inviabilizam o manejo por uma só pessoa. Os favos de ninho também precisam ser centrifugados com muito mais cuidado, para não se partirem. Além disso, floradas não muito intensas ou enxames não muito fortes, que poderiam encher uma melgueira, talvez não sejam suficientes para encher um sobreninho, dificultando a colheita.

2.7 Não há uma alternativa intermediária?

Sim. Alguns apicultores usam e recomendam um tamanho intermediário de caixa, a ser usado como ninho (2 unidades) e melgueiras. O ninho padrão tem 24,4 cm de altura, a melgueira padrão tem 14,4 cm e essa caixa intermediária tem 16,8 cm. Por simplificação, essas alturas são eventualmente referidas como 24, 14 e 17 cm, respectivamente.Outros tamanhos também são ocasionalmente testados e recomendados por alguns apicultores.

2.8 Quanto pesam uma melgueira e um sobreninho?

Em colméias Langstroth, uma melgueira com dez quadros cheios de mel operculado contém cerca de 11 a 12 kg de mel. Um sobreninho nas mesmas condições contém cerca de 20 a 22 kg de mel. A caixa intermediária contém aproximadamente 13 a 15 kg de mel.
O peso das caixas varia com o tipo de madeira empregada. Uma melgueira de cedrinho, com dez quadros aramados e lâminas de cera alveolada pesa em torno de 5 kg. Um ninho nas mesmas condições, pesa cerca de 8 kg.
Quando são usados menos quadros na melgueira ou no sobreninho (8 ou 9), o peso do mel é um pouco maior.

2.9 Afinal, quantos quadros devem ser usados, 8, 9 ou 10?

Dez quadros é a capacidade normal, tanto das melgueiras quanto dos ninhos, e os espaçadores Hoffmann dos quadros são projetados para manter a distância de 35 mm entre os centros de dois favos contíguos. Em melgueiras e sobreninhos, porém, muitos apicultores removem um ou dois quadros, para que os favos de mel fiquem mais largos ("gordos"). Isso facilita muito a desoperculação com faca, economiza quadros e promove um melhor aproveitamento da caixa, já que um ou dois espaços vazios entre os favos são substituídos por mel. A remoção de quadros, porém, não pode ser feita a qualquer momento (veja item 8.14).
Em relação ao ninho, não há vantagem para as abelhas em usar-se menos de 10 quadros, porque elas não teriam o que fazer com o espaço excedente. Os alvéolos de cria têm um comprimento padrão, adequado para o seu desenvolvimento. No entanto, alguns apicultores recomendam a manutenção de 9 quadros no ninho para facilitar a retirada e reposição dos quadros durante o manejo.
É bom frisar que o transporte de caixas com menos de 10 quadros pode acarretar muitas quebras e esmagamentos de favos e abelhas, pelas colisões ocorridas em razão dos movimentos pendulares dos quadros.

2.10 O que são espaçadores Hoffmann?

São laterais de quadros mais largas na parte superior do que na inferior. O seu formato diminui a área propolisada entre dois quadros contíguos, facilitando a remoção do quadro. Ao mesmo tempo, o estreitamento curto e arredondado dos espaçadores facilita a inserção do quadro entre os demais.

2.11 Como as abelhas sabem onde devem colocar cada produto?

Não sabem. O apicultor apenas aproveita a sua tendência de organizar a colméia em camadas: primeiro crias, depois pólen, depois mel. Assim, se a primeira caixa (a mais de baixo) estiver bem, com favos em boas condições e com espaço sobrando, é muito provável que a rainha use esta área para pôr seus ovos.
Eventualmente, por falta de espaço ou de condições melhores, a rainha pode subir e fazer a postura numa melgueira. Para evitar isso, os apicultores às vezes usam telas excluidoras.

2.12 O que é uma tela excluidora?

É uma tela larga o suficiente para deixar uma operária passar, mas não uma rainha, nem os zangões. Com a tela posta entre o ninho e as melgueiras, pode-se ter segurança de que não haverá quadros de cria nas melgueiras.

2.13 Por que alguns apicultores não usam a tela excluidora?

Uma razão é porque a tela é um equipamento a mais para o apicultor manipular. Os manejos às vezes são demorados, e quanto mais peças o apicultor tiver de manipular, pior. Também, porque às vezes a tela parece funcionar como uma barreira para as operárias. Elas conseguem passar, mas simplesmente se negam a construir favos e depositar mel acima da tela, especialmente quando o fluxo de néctar não é dos mais fortes.
Quando colocada depois que algum mel ter sido armazenado na melgueira, zangões podem ficar presos ali e até entalarem na tela e morrerem.

2.14 Por que as abelhas constroem seus favos exatamente dentro dos quadros?

Somente porque são induzidas a isso. No centro de cada quadro, o apicultor coloca uma lâmina de cera alveolada, que funciona como um início do favo. As abelhas só continuam o que já receberam começado. Quando não são induzidas, ou quando sobra algum espaço relativamente grande numa caixa, as abelhas constroem favos fora dos quadros. Quando o apicultor esquece quadros sem cera alveolada, elas constroem favos atravessados, cada um passando por dentro de vários quadros. Neste caso, arrumar a colméia pode dar um trabalho enorme.

2.15 Por que as abelhas preenchem alguns espaços com cera e outros com própolis?

Essa foi talvez a maior descoberta da apicultura moderna, que possibilitou o desenvolvimento das colméias racionais. Não há uma razão conhecida, mas segundo as observações de Lorenzo Lorraine Langstroth, em 1851, as abelhas não fecham espaços maiores de 6,4 mm com própolis, nem constroem favos em espaços menores que 9,5 mm. Isso permitiu definir o espaço-abelha.

2.16 O que é o espaço-abelha?

É exatamente o intervalo de 6,4 a 9,5 mm que as abelhas sempre deixam livre. Conhecendo essas medidas, foi possível projetar a colméia racional, de quadros móveis, com a certeza de que as abelhas construiriam favos apenas nesses quadros, se corretamente induzidas, e não iriam colá-los entre si e nem às paredes das caixas. Essa é a dimensão mais conhecida na apicultura, mas há outras também importantes.

2.17 Quais são os outros espaços importantes?

Uma lista parcial, em milímetros, para abelhas européias, é a seguinte [CUS01]:
Espaço (mm)
Efeito
0 a 4 Insuficiente para passagem, geralmente é propolisado
4,3 Impede a passagem de zangão e rainha
5 Adequado para grades de coleta de pólen
5,2 a 5,4 Impede a passagem de zangão (não de rainha)
6 Mínimo espaço deixado entre dois favos contíguos de mel
9 Espaço usual entre dois favos contíguos de cria

2.18 O que é cera alveolada?

É cera derretida e estampada com hexágonos com a dimensão média dos alvéolos. As lâminas produzidas assim são cortadas no formato dos quadros e vendidas aos apicultores. Esta cera é fornecida às abelhas em substituição a favos velhos ou inutilizados.

2.19 Como a cera alveolada é fixada nos quadros?

Os quadros possuem fios de arame ou nylon atravessados, geralmente no sentido horizontal. A lâmina é soldada neles com ajuda de um pouco de cera derretida ou, no caso de arames, pelo seu aquecimento por uma corrente elétrica. Arames também podem ser incrustados com ajuda de uma carretilha.
Um cuidado muito importante ao soldar a lâmina é com o alinhamento dos alvéolos. Eles devem ficar com dois vértices opostos dos hexágonos perfeitamente alinhados na vertical. Isso pode não acontecer se a lâmina estiver mal cortada, no sentido atravessado (dois lados opostos alinhados com a horizontal) ou simplesmente cortada torta. Se isso ocorrer, a lâmina poderá ser integralmente rejeitada pelas abelhas.

2.20 É melhor soldar a lâmina encostada na barra superior?

O melhor, na verdade, é usar lâminas que aproveitem ao máximo o espaço disponível no quadro. Isso poupará as abelhas de produzirem cera, permitindo-lhes uma produção maior de mel. Mas quando a lâmina de cera é menor (em altura) do que o espaço disponível no quadro, há duas indicações de soldagem.
Quando o quadro for destinado à postura, é preferível soldar a lâmina encostada na barra superior. O espaço que sobrará entre a lâmina e a barra inferior normalmente não será puxado com alvéolos e, como vantagem, facilitará a movimentação da rainha e das operárias.
Quando o quadro se destina à armazenagem de mel, o ideal é soldar a lâmina encostada à barra inferior. Nessa situação, as abelhas puxam o favo e estendem-no até a barra superior, promovendo um aproveitamento integral do espaço e uma solidez muito maior do favo. Isso se reflete num armazenamento maior de mel por quadro, otimizando a função da melgueira. Além disso, e talvez mais importante, a resistência muito maior do favo, quando soldado em cima e embaixo, permite uma colheita e uma centrifugação muito menos sujeitas a quebras e despedaçamentos. E isso é especialmente importante quando se usam oito ou nove quadros na melgueira, pois eles se tornam ainda mais pesados do que o normal.

2.21 Como se solda cera com corrente elétrica?

Primeiro, os quadros devem ser aramados. O ideal é quatro fios em quadro de ninho e três em quadro de melgueira. O arame deve ser ancorado no início, passado pelos furos e ancorado novamente no fim, sem cruzamentos e amarrações intermediárias. Ele deve ficar bem esticado, mas não em excesso, caso contrário, poderá causar deformações nas laterais do quadro.
Para arames galvanizados, use uma fonte de tensão entre 12 e 18 volts. Para arame inox, use uma fonte entre 24 e 30 volts. Coloque a lâmina sobre os arames (um peso em cima da lâmina, como um pedaço de tábua, ajuda bastante). Ligue cada pólo da fonte a uma extremidade do arame e observe a incrustação ocorrer até a metade, mais ou menos, depois desligue os pólos.

2.22 Que fonte é essa?

Uma fonte de 12V possível é a bateria do automóvel, mas não é recomendável. Usando-a, você pode causar curtos-circuitos que danifiquem a bateria ou outro sistema elétrico do seu automóvel, além de descarregá-la, naturalmente.
Se você tem experiência com ligações elétricas, o melhor é fazer o seu próprio incrustador, adquirindo um transformador de tensão numa loja de artigos eletrônicos. Forneça essa especificação:
Para arames galvanizados:
Tensão de entrada: 127 ou 220 volts (escolha a que corresponde à sua rede)
Tensão de saída: 12 volts
Corrente de saída: 8 a 10 ampères
Para arames inox:
Tensão de entrada: 127 ou 220 volts (escolha a que corresponde à sua rede)
Tensão de saída: 24 a 30 volts
Corrente de saída: 8 a 10 ampères
Para qualquer tipo de arame:
Tensão de entrada: 127 V ou 220 V (escolha a que corresponde à sua rede)
Tensão de saída: 24 a 30 volts
Corrente de saída: 8 a 10 ampères
Em série com a entrada, ligue um dimmer para lâmpadas incandescentes. Ao fazer a primeira incrustação, ajuste o dimmer para que a incrustação seja rápida, mas sem provocar muito centelhamento.

2.23 Que arame é melhor?

Eu prefiro arame inox. Ele é mecanicamente mais resistente, e podem-se usar fios mais finos, que atrapalham menos a postura da rainha. É muito mais resistente à oxidação, e tem vida útil maior. Pela sua rigidez, é mais difícil de ser manipulado, e precisa estar num carretel para não virar uma maçaroca. Precisa de uma tensão elétrica mais alta para incrustação, por apresentar uma resistência elétrica maior. É mais caro, mas rende muito. O fio de 0,3 mm de diâmetro tem cerca de 1.800 metros por quilo, e apresenta uma resistência mecânica maior que a do arame galvanizado nº 22 (diâmetro de 0,7 mm), que ainda é muito usado.
O arame inox deve ser o do tipo rígido, usado para a confecção de molas. Há um fio mole, mais fácil de trabalhar, mas com uma resistência mecânica muito menor.

2.24 O arame não encrava na madeira dos quadros?

Sim, e isso acarreta uma diminuição da tensão de esticamento do arame ao longo do tempo. Para evitar esse problema, ponha ilhoses em todos os buracos dos quadros. No caso do fio de inox, mais fino, esse procedimento é absolutamente indispensável.

2.25 Quadros plásticos não são preferíveis?

Os quadros plásticos, em poliestireno, compõem-se de uma moldura, idêntica aos de madeira, e mais uma superfície alveolada, como se fosse uma lâmina de cera. Assim, estes quadros não precisam de aramação nem da incrustação de cera. Quando a parte alveolada é banhada com cera, a aceitação das abelhas é normal, mas o quadro dificilmente é aproveitado por elas quando o banho de cera não é feito.
Isso sugere dificuldades na reutilização dos quadros, e esta é de fato a principal reclamação dos usuários. É possível que para quadros de melgueira, que devem ser preservados tanto quanto possível, essa idéia dê bom resultado. Mas, como no caso das caixas de poliuretano, os quadros de poliestireno estão no mercado há tempo demais para ainda não terem se tornado uma alternativa bem conhecida.
Na apicultura orgânica, esses quadros são proibidos.

2.26 Do que são feitos os favos?

Exclusivamente da cera secretada pelas operárias.

2.27 Como os favos são produzidos?

As abelhas que secretam cera fazem uma espécie de "cortina", umas presas às outras pelas patas. Cada uma delas produz flocos de cera, que depois são mascados e amolecidos com um pouco de saliva. Em seguida, são colados e moldados na estrutura de cera que está sendo construída. No caso do favo, a estrutura é um agrupamento de alvéolos, ou células, cuja seção transversal é um hexágono. Esses alvéolos são dispostos lado a lado, de forma que cada parede é compartilhada por duas células (exceto as paredes mais externas, é claro). Eles também são dispostos fundo-contra-fundo, desencontrados, de maneira que cada favo possui duas camadas de alvéolos, cada camada voltada para um lado.

2.28 Por que o alvéolo é hexagonal?

Essa forma otimiza a construção, pois atende da melhor forma possível o compromisso entre economia de cera e trabalho versus a resistência mecânica final do conjunto. Naturalmente, esta não é uma decisão racional das abelhas; uma hipótese é que a seção hexagonal seja apenas o resultado final da tentativa de formar vários alvéolos contíguos de seção circular – uma forma muito mais comum na natureza.

2.29 Qual é o tamanho do alvéolo?

As européias constroem 857 alvéolos de operária em 100 cm² (considerando-se as duas faces). A A.m.scutellata, menor, constrói 1000 alvéolos no mesmo espaço. Quando é fornecida cera alveolada às africanizadas no padrão europeu, elas mantêm as dimensões originais da lâmina. Alvéolos de zangão são maiores e perfazem cerca de 520 por 100 cm². Alvéolos usados para cria de operárias e armazenagem de pólen geralmente têm as mesmas dimensões. O armazenamento de mel pode ser feito em alvéolos de operária ou de zangão.

2.30 Quantos alvéolos há num favo?

Depende da área útil do quadro (as medidas mais rigorosas são as externas), mas pode-se estimar, arredondando, para 7.000 alvéolos de operária por quadro de ninho (3.500 por face), e 4.000 alvéolos por quadro de melgueira (2.000 por face).
No caso de favo de zangão, um quadro de ninho possui cerca de 4.200 alvéolos (2.100 por face), e, um quadro de melgueira, 2.400 (1.200 por face).

2.31 Existe cera alveolada para zangões?

É pouco comum aqui no Brasil, mas existe sim. Ela é usada principalmente por criadores de rainhas, que precisam produzir bons zangões também. Além disso, o uso favo de zangão na melgueira é muito usado por alguns apicultores de outros países.
As razões é que, primeiro, a extração de mel é muito acelerada pelo diâmetro maior dos alvéolos, o que facilita bastante o escoamento durante a centrifugação. Segundo, um favo de zangão utiliza apenas 78% da cera empregada num favo de operária do mesmo tamanho. Numa melgueira, a diferença de cera pode chegar a 130 g a menos com favos de zangão, o que, teoricamente, corresponde a cerca de 1 kg de mel economizado na produção de cera. Em outras palavras, o uso de favos de zangão na melgueira poderia aumentar a produção de mel em cerca de 9%.

2.32 Que cor tem o favo?

Favos recém construídos são brancos, mas vão ficando amarelados rapidamente. Os favos de ninho escurecem muito mais que os de melgueira, pois cada cria deixa resíduos do seu casulo e dejetos orgânicos que as outras operárias não conseguem eliminar inteiramente. Um favo de ninho antigo chega a ser quase negro.

2.33 Por que o mel não escorre do favo?

A construção do favo é orientada pela gravidade, e ele é perfeitamente vertical. Os alvéolos, porém, não são puxados a 90º. Eles são feitos com uma inclinação ascendente de 9 a 14º em relação à horizontal. Isso evita que o néctar/mel escorra logo que começa a ser armazenado no alvéolo, e também impede que as larvas caiam da célula acidentalmente. Quando o volume de néctar/mel armazenado atinge a borda do alvéolo, as abelhas iniciam a sua operculação (fechamento), de forma a impedir o escorrimento.

2.34 Como é o fundo da colméia?

É uma superfície, geralmente de madeira, com pequenas paredes nas laterais e atrás, que servem de apoio ao ninho. A frente estende-se alguns centímetros além do comprimento do ninho, para servir de plataforma de pouso e decolagem das abelhas. O espaço formado entre a superfície do fundo e o início da parede frontal do ninho é a entrada da colméia, chamada de alvado.

2.35 Que tamanho tem o alvado?

O alvado normal tem cerca de 37 cm de largura por 1 ou 2 cm de altura. Na prática, geralmente é usado um redutor, um pedaço de madeira que diminui esse espaço um pouco nas estações quentes e bastante nas frias (nas estações quentes, às vezes não é usado nenhum redutor). Alguns fundos são reversíveis, o que significa que as paredes laterais têm alturas diferentes de um lado e de outro. Com isso, o apicultor pode variar a altura do alvado pela reversão do fundo.

2.36 Como é a tampa da colméia?

É uma superfície, geralmente de madeira, com paredes em duas laterais, que ajudam no seu encaixe sobre a última caixa da colméia ou sobre a entretampa.

2.37 O que é uma entretampa?

É um dispositivo comum em outros países, mas muito pouco usado no Brasil. Trata-se de uma peça que serve para o fechamento superior da colméia, mas não fica exposta, e sim protegida pela tampa, que nesse caso, funciona também como um telhado.
Mesmo que as nossas colméias não sejam vendidas com entretampa, eu não apenas a uso como recomendo. Uma entretampa é um dispositivo perfeito para promover a ventilação da colméia, evitando que a grande quantidade de vapor produzida pelo enxame condense nas partes superiores da colméia e torne o seu ambiente insalubre, especialmente em regiões muito úmidas ou frias.
Para fazer uma entretampa de ventilação, basta cortar uma placa de compensado naval de 10-12 mm da mesma dimensão das caixas, e montar sobre as suas bordas (de um lado só) ela uma espécie de moldura, com sarrafos de 1 x 2 cm. Essa moldura deve ser interrompida por cerca de 5 cm no centro de uma das laterais, de forma a criar uma janelinha. Posta sobre a colméia, esta entretampa ficará com a janelinha acima do alvado. Essa janela, passará a ser guardada pelas abelhas, que, no entanto, dificilmente a usarão como alvado, talvez pela sua posição superior, que não é a preferencial para elas. Uma vantagem adicional deste modelo é que o espaço maior entre o topo dos quadros e o compensado permite a colocação de alimento protéico pastoso diretamente sobre os quadros de cria, que é o ideal.
Se alguém não quiser usar os sarrafos, pode fazer uma ventilação mais simples, e, na minha observação, ainda mais eficiente: fure a placa no centro com uma serra copo de 40 mm. Depois coloque um parafuso em cada canto da placa, de forma que as cabeças se sobressaiam uns 4 mm. Sobre esses parafusos será apoiada a tampa, garantindo espaço para a ventilação, mas sem possibilidade de correntes de ar diretas.
Outros modelos, derivados destes, podem ser feitos para permitir a alimentação protéica logo acima do ninho, quando houver melgueiras, ou com um dispositivo de fechamento opcional do orifício de ventilação, o que também é muito útil às vezes. Um modelo misto, com janela lateral e furo superior pode ser usado simultaneamente para ventilação e suporte a alimentadores do tipo balde (veja capítulo 6).

2.38 Que outros equipamentos podem compor a colméia?

Outros equipamentos importantes, mas de uso temporário, estão listados abaixo. Em outros capítulos, eles são mais bem explicados.
· Alimentadores, para fornecer alimentos às abelhas
· Tela excluidora de alvado, para impedir a saída da rainha da caixa (útil em colméias com enxames recém capturados)
· Tela de alvado com escape invertido, que permite a entrada das abelhas, mas não a sua saída (útil para transportes curtos ou trabalhos de manutenção do apiário)
· Tábua de escape, para remover abelhas das melgueiras antes da sua retirada

2.39 Como se protege a colméia contra a intempérie?

De três formas: cobrindo-a com um telhado (ou impermeabilizando a tampa), protegendo-a com algum tipo de pintura ou revestimento e colocando-a sobre um suporte para afastá-la do chão.

2.40 Como pode ser feito o telhado da colméia?

Qualquer superfície impermeável, de 60x80 cm ou um pouco maior, pode dar um ótimo telhado. Um pedaço de telha de fibrocimento dá uma boa proteção. Alguns apicultores usam tonéis pequenos, cortados ao meio. Uma alternativa mais cara mas muito bonita e durável é usar placas de compensado naval cobertas com chapa galvanizada pintada. Em qualquer caso, quando a colméia estiver exposta a ventos fortes, é recomendável colocar um peso sobre o telhado.

2.41 Como se pinta uma colméia?

Somente as paredes externas da colméia devem ser pintadas. Cores claras ajudam a refletir melhor as radiações do sol e manter uma temperatura mais amena em dias quentes. Duas demãos de tinta esmalte brilhante sobre selador, aplicados em madeira bem seca, é uma fórmula de excelente durabilidade (o esmalte brilhante é mais resistente que o opaco). Alguns apicultores suspeitam que a tinta esmalte e a tinta a óleo podem contaminar os produtos da colméia com metais pesados, e recomendam apenas tinta látex, a mesma usada para alvenaria.
Diversos fabricantes de colméias não as pintam, mergulham-nas num preparado fervente de 70% querosene, 25% parafina, 2,5% cera de abelhas e 2,5% breu. As caixas devem ficar em local ventilado até que o cheiro desapareça. A durabilidade é boa, mas o processo é perigoso. Além disso, as caixas ficam altamente inflamáveis, podendo ser completamente destruídas por um incêndio de campo que ocorra no apiário.
Quem é certificado como apicultor orgânico não pode usar esses processos de impermeabilização. Uma receita "ecológica", divulgada no grupo de discussão da Apacame, é 8 litros de álcool, 1 litro de óleo vegetal e 1 kg de própolis (pode ser a borra ou raspagem de quadros). Tudo deve ficar bem fechado num tambor e ser mexido diversas vezes, durante um mês. Depois, deve ser coado numa meia de nylon e usado para pintura das caixas, em duas demãos. A pintura deve ser refeita a cada dois ou três anos. Desconheço a eficácia desta fórmula. Já ouvi elogios e contestações às proporções usadas.

2.42 Onde fica apoiada a colméia?

Diversos tipos de suporte podem ser usados. Com africanizadas, suportes individuais, ou no máximo duplos, são mais recomendáveis que os coletivos, pela sua tendência à pilhagem. Cavaletes de quatro pés, fixos ou móveis, são muito usados. Tijolos, pedras ou o chão facilitam o ataque de predadores e sujeitam a colméia a quedas por desequilíbrio.
Para suportes fixos, eu prefiro os de pé central, único. Eles podem ser feitos com restos de cano galvanizado de 100 mm, encontrado em ferros-velhos ou em secretárias de obras públicas. Com quatro pedaços de cantoneira, faz-se um H com braço central duplo, e solda-se este braço numa extremidade do cano, de cerca de 1 m. O fundo da colméia fica apoiado nos braços laterais do H, bem encaixado entre as laterais das cantoneiras. A caixa pode ficar a 40-50 cm do solo. Pintado, esse suporte tem duração ilimitada, evita deslocamentos da colméia por pequenos esbarrões ou vento, é muito mais fácil de aprumar a caixa e facilita o controle de predadores, como formigas e tatus.
Uma boa alternativa ao cano galvanizado é o uso de cano de PVC de 100 mm, cheio de concreto. A parte superior pode ser fixada em um parafuso grande, que é mergulhado numa extremidade do cano enquanto o concreto ainda está mole.