3 de out de 2015

Manejo Sanitário dos Caprinos Leiteiros



Embora sendo caprino um animal normalmente rústico, ele é afetado por várias enfermidades. O aparecimento e a difusão destas enfermidades estão relacionadas com o meio ambiente e o tipo de criação. Estas doenças são produzidas por parasitas (helmintoses, protozooses e ectoparasitoses); bactérias (linfadenite caseosa, pododermatite, mastite, tétano e pneumonia); vírus (ectima contagioso, raiva, febre aftosa, artrite encefalite caprina (CAEV) e, rickettsias (micoplasmose) e de origem metabólica (timpanismo). Neste capítulo serão descritos os aspectos clínicos, profiláticos e terapêuticos dessas doenças.





Doenças Parasitárias

Endoparasitoses (Parasitas internos)

- Helmintoses gastrintestinais
As helmintoses gastrintestinais ou verminoses são causadas por parasitas também conhecidos por helmintos ou vermes que são responsáveis pelas maiores perdas no rebanho caprino, resultando em diminuição da produtividade e morte dos animais. De acordo com seu ciclo evolutivo, os helmintos passam uma parte de sua vida nas pastagens e o restante de sua existência no estômago ou intestino dos caprinos. Os caprinos são infectados, principalmente, pela ingestão de larvas infectantes existentes nas pastagens.
Os animais parasitados eliminam ovos dos helmintos junto com as fezes e estes, no meio externo, desenvolvem-se e dão origem as larvas infectantes (após 5 a 7 dias), que são encontradas nas pastagens. Durante o pastejo os animais ingerem larvas, juntamente com as pastagens. Após a ingestão, os animais são infectados e as larvas se transformam em helmintos adultos em aproximadamente três a quatro semanas.
Em um rebanho caprino a helmintose gastrintestinal se caracteriza por: perda de peso e desenvolvimento lento do animal, anemia, edema na região submandibular, diarréia, desidratação, pelos arrepiados e sem brilho, baixa produtividade do rebanho, com queda na produção de leite. Os animais parasitados não aproveitam os alimentos com a mesma eficiência daqueles animais desverminados, como também ficam menos resistentes e permanecem susceptíveis a penetração de germes causadores de outras doenças.
A verminose é a principal causa de mortalidade dos caprinos, principalmente de animais jovens.
Pesquisas desenvolvidas no Estado do Piauí por Girão et al. (1978; 1984 e 1992) revelam que os caprinos são parasitados por helmintos gastrintestinais pertencentes a três classes:
1. Nematoda – Haemonchus contortusTrichostrongylus colubriformisT. AxeiStrongyloides papillosusCooperia curticeiC. puntactaC. pectinataBunostomum trigonocephalumCapillaria sp., Oesophagostomum columbianum,Trichuris ovisTrichuris globulosaTrichuris skrjabiniTrichuris sp. e Skjabinema ovis.
2. Cestoda – Monieza expansa Cysticercus tenuicollis (forma larvar da tênia do cão).
3. Tretatoda: Paramphistomum spp.
Todos esse helmintos com exceção de T. skarjabini e Paramphistomum spp. são mencionados parasitando caprinos no Nordeste do Brasil sendo: H. contortusT. colubriformisO. columbianum e S. papillosus os mais prevalentes e os principais responsáveis pelos prejuízos aos rebanhos. Em trabalhos com caprinos no município de Teresina, PI, verificou-se que H. contortus é o helminto que ocorre em maior intensidade (média de 1.070), é o mais prevalente (97%), e atingiu o máximo de 5.576 espécimes por animal. Por ser hematófago, este helminto causa anemia, desidratação geral e morte dos animais. Verificou-se também que os animais se infectam durante todo o ano sendo em intensidades mais elevadas no período chuvoso e início do período seco (dezembro a julho).

Controle das helmintoses – Embora sendo a verminose uma das doenças mais importantes, o seu controle de forma eficiente é uma prática pouco utilizada pela maioria dos criadores. De um modo geral, os tratamentos efetuados são ineficientes. Os criadores, além de desconhecerem as melhores épocas para vermifugar os animais, utilizam, às vezes, produtos de baixa eficiência. Aliado a estes problemas existe ainda os altos custos dos anti-helmínticos disponíveis no mercado.
Pesquisas desenvolvidas em regiões áridas têm evidenciado que três tratamentos anti-helmínticos no período seco são muito mais eficientes que o mesmo número de medicações na época chuvosa (Pinheiro, 1979). Na época seca, as condições de temperatura, umidade e precipitação são desfavoráveis ao desenvolvimento e sobrevivência do ovos e larvas de helmintos gastrintestinais nas pastagens. A vermifugação dos animais neste período favorece a redução da infecção no animal e, consequentemente, diminui a contaminação das pastagens, por formas jovens de vermes, na época chuvosa seguinte, reduzindo a contaminação dos animais na época de maior precipitação pluviométrica.
Em Pernambuco, Padilha (1982) preconizou quatro vermifugações estratégicas anuais para o controle dos nematódeos gastrintestinais de caprinos: início, meio e fim da época seca e no meio da época chuvosa. No Ceará, Costa & Vieira (1984) recomendam quatro vermifugações para caprinos e ovinos, sendo a primeira no início do período seco (junho-julho), a segunda aproximadamente 60 dias após (agosto-setembro), a terceira no penúltimo mês da época seca (novembro) e a quarta nos meados da estação chuvosa (março). No Piauí, Girão et al. (1987 e 1992), após a avaliação de diferentes esquemas de tratamentos anti-helmínticos, recomendam o seguinte esquema de vermifugação: vermifugar todo o rebanho cinco vezes por ano, sendo três na época seca (julho-setembro-novembro) e duas na época chuvosa (março-maio). A indicação destas épocas baseia-se no fato de que caprinos vermifugados, de acordo com esta recomendação, apresentam menor infecção verminótica e maior índice produtivo. Verificou-se também que caprinos vermifugados esporadicamente apresentam verminose durante o ano inteiro e um baixo índice produtivo.
Outro método que pode ser utilizado no controle da verminose ´através da contagem de ovos por grama de fezes (OPG). Este pode ser feito através da realização periódica de exames de fezes para que, em função dos resultados, se possa proceder a vermifugação. Com base nos resultados obtidos em trabalhos realizados no Piauí, recomenda-se vermifugar os caprinos quando a média do OPG for igual ou superior a 700.
Outras recomendações:
- em propriedades em que se adota a estação de monta, vermifugar as cabras duas a três semanas antes da estação de monta;
- vermifugar as cabras um mês antes de 10 a 15 dias após a parição, visto que as cabras lactantes promovem uma maior disseminação de ovos de helmintos nas pastagens;
- vermifugar os cabritos em mês após sua saída para o pasto;
- vermifugar os cabritos ao desmame (3-4 meses de idade);
- recomenda-se para caprinos, anti-helmínticos de aplicação oral cujo princípio ativo seja a base de Fenbendazole, Parbendazole, Tetramisole, Thiabendazole, Oxfendazole, Levamisole, Ivermectin, Albendazole e Netobimin. Deve-se observar rigorosamente as instruções especialmente quanto à dosificação.

Além da vermifugação recomenda-se as seguintes medidas profiláticas:
- limpeza e desinfecção das instalações (formol comercial a 5%, soda cáustica a 2% e fenol a 5%);
- manter as fezes acumuladas em locais distantes dos animais e, se possível, usar esterqueiras;
- evitar superlotação nas pastagens;
- fazer rotação da pastagem;
- separar os animais por faixa etária;
- vermifugar o rebanho ao trocar de área;
- animais adquiridos em outros locais só devem ser incorporados ao rebanho da fazenda após serem vermifugados;
- após a vermifugação, os animais devem permanecer nas instalações até no mínimo oito horas para que a primeira carga de ovos, que não será alcançada pelo anti-helmíntico, seja eliminada nas instalações.

Resistência aos Anti-helmínticos
O desenvolvimento de resistência aos anti-helmínticos pelos nematódeos gastrintestinais é um dos fatores que tem limitado o sucesso dos programas de controle de verminose dos caprinos.
Para retardar o aparecimento de resistência anti-helmíntica, recomendam-se as seguintes medidas:
- evitar sub dose (calibrar corretamente a pistola dosificadora);
- proceder a rotação anual de anti-helmínticos, tendo cuidado para mudar o princípio ativo e não somente o nome comercial;
- evitar vermifugações desnecessárias;
- usar manejo integrado pasto x animal;
- verificar a eficácia dos produtos utilizados, através do exame de fezes (OPG) no dia da vermifugação e sete dias após.

Coleta de fezes para exames parasitológicos
As fazes devem ser coletadas do reto dos animais e colocadas em sacos de plástico ou em vidro de boca larga. Devem ser enviadas ao laboratório acondicionadas em caixa de isopor com gelo e acompanhadas por uma ficha com dados sobre os animais.

- Eimeriose
A eimeriose ou coccidiose é uma doença causada por protozoários pertencentes a diversas espécies do gênero Elimeria. Os caprinos geralmente apresentam infecções mistas determinadas por E. arloingiE. ninaekohlyakimovaeE. parvaE. faurei, e E. pallida. É comum em animais criados em regime de confinamento, sendo frequente em, rebanhos leiteiros. Acomete animais de qualquer idade, porém é mais comum em cabritos, podendo ser adquirida logo após o nascimento. Os animais infectados eliminam oocistos juntamente com as fezes. Estes no meio ambiente, em condições adequadas de temperatura e umidade se desenvolvem. Os caprinos se infectam através da ingestão de água e alimentos contaminados com oocistos esporulados.
Os cabritos acometidos pela coccidiose apresentam diarréia, perda de peso, falta de apetite, crescimento retardado, enfraquecimento e, às vezes morte. Nos animais adultos a enfermidade não produz sintomas, porém estes atuam como disseminadores da doença.
A coccidiose é um problema para o qual deve ser dado muita atenção, pela sintomatologia inespecífica a dificuldade de diagnosticá-la, principalmente quando o produtor não realiza o controle da verminose.

Medidas profiláticas
As medidas sanitárias e de manejo são as mais importantes no controle da doença:
- fazer higiene nos alojamentos, nos comedouros e bebedouros;
- evitar pastos úmidos e alta densidade de animais em pequenas áreas por longos períodos;
- os animais jovens devem ser mantidos isolados dos mais velhos pois estes são portadores da enfermidade e se constituem em fonte de infecção para os jovens;
O uso de desinfetante do grupo dos fenois a 5% inibe o desenvolvimento de oocistos de Eimeria.

Tratamento
Sempre que possível, os animais doentes devem ser tratados individualmente. São recomendados medicamentos à base de sulfas, por via oral, durante dois a três dias.

Ectoparasitoses (Parasitas externos)

- Sarnas
São enfermidades causadas por várias espécies de ácaros. Os ácaros são menores que os carrapatos. Medem menos de 1 mm.
Alimentam-se de sangue, linfa e células epiteliais vivas e mortas. Os caprinos geralmente são acometidos pelas sarnas psoróptica (sarna auricular) e demodécica (sarna nodular pruriginosa).
A sarna psoróptica causada pelo Psoroptes equi v. caprae se inicia na face interna do pavilhão e progride para a borda da orelha. Observa-se formação de crostas, sob as quais se encontra o parasita em todos os estádios evolutivos, desde ovo até adulto. Frequentemente, apresentam miíases na área comprometida. Nos animais acometidos por esta parasitose observa-se queda no desempenho produtivo, devido ao intenso prurido que os deixa abatidos e inapetentes, podendo levá-los à morte.
A sarna demodécica é também conhecida no Nordeste por “bexiga”. É causada pelo ácaro Demodex caprae. A doença manifesta-se pela presença de nódulos e pústulas na pele, que posteriormente podem se transformar em crostas situadas de preferência na região do pescoço, paletas e costelas. Nestes locais são formados numerosos e pequenos orifícios e placas esbranquiçadas que danificam a pele, diminuindo sua cotação no mercado consumidor. Em muitos casos, as peles com danos maiores chegam a ser recusadas pelos cortumes. A doenças se transmite pelo contato de um animal a outro.

- Miíases (bicheiras)
São causadas por larvas de moscas conhecidas como varejeiras. São comuns em região de clima quente. As moscas depositam ovos nas feridas ou ao redor dos orifícios naturais. Depois de algumas horas, as larvas saem dos ovos e penetram nos tecidos vivos dos animais onde se alimentam e crescem durante mais ou menos uma semana. Depois caem ao solo para completar o ciclo de vida da mosca. As larvas podem determinar complicações sérias tais como: destruição do úbere, do testículo, otites, etc.
A mais importante produtora de miíase é a mosca Cochiliomyia hominivorax, de coloração verde-metálica.
Os animais com miíases apresentam inapetência, inquietação e emagrecimento. Se não forem tratados, podem morrer.
As miíases devem ser tratadas com substância larvicida, limpeza das feridas, retirada das larvas e aplicação de repelentes e cicatrizantes no local afetado, diariamente, até a cicatrização.
Deve-se tratar o umbigo dos recém-nascidos com tintura de iodo a 10% como também tratar todas as feridas que forem vistas nos animais principalmente na época chuvosa.

- Pediculose (piolhos)
As criações de caprinos que não possuem condições higiênicas satisfatórias, geralmente apresentam infestações maciças por piolhos. Existem dois tipos de piolhos: os mastigadores (Malófagos) e os sugadores (Anopluras). Os sugadores são de maior tamanho que os mastigadores. Os piolhos se alimentam de sangue, células de descamação e secreções da pele. No rebanho caprino do Piauí as espécies mais frequentes são Bovícola caprae (piolho mastigador) eLinognathus stenopsis (piolho sugador). Estes parasitas determinam intensa coceira e irritação na pele, chegando mesmo a produzir escoriações. A pele fica seca, escamosa e com crostas semelhantes às das sarnas. A presença desses parasitas em um rebanho pode ser facilmente detectada pelo exame dos pêlos do animal. Eles são pequenos (1 a 5 mm) de cor amarela claro ou marrom-escuro e se localizam de preferência na linha dorso-lombra e na garupa, podendo atingir outras regiões. Uma infestação maciça deixa os animais inquietos, sem comer, magros e esgotados, podendo levá-los à morte.

Como tratar os Ectoparasitas
No controle dos ectoparasitas deve-se fazer frequentemente uma inspeção para detectar o tipo de parasita externo.
Em caso de sarna, separa os animais doentes e tratá-los com samicida de uso tópico ou geral (banhos com carrapaticidas).
Na sarna auricular primeiramente deve-se retirar as crostas com algodão embebido por uma solução , limpar a área e usar carrapaticida no local. Usar também repelente e cicatrizante durante 3 dias.
Quando forem detectados casos de animais infectados por piolhos, deve-se tratar todo o rebanho com inseticida ou carrapaticida. Este deve ser misturado com água na quantidade recomendada pelo fabricante. Segundo Padilha (1982), o banho pode ser dado dentro de uma caixa de cimento amianto ou em uma caixa de qualquer material que não fure a pele do animal. Também pode-se utilizar a pulverização usando-se um pulverizador costal, devendo-se evitar o banho ou pulverização por mais de um minuto para não ocorrer intoxicação. Deve-se também evitar que os animais estejam em jejum, para evitar complicações de ordem digestiva. O produto deve ser aplicado nas horas mais frias do dia. Não banhar as cabras que estejam próximas de parir e os cabritos com menos de um mês de idade. Repetir o tratamento 10 dias após.

Doenças Infecto-contagiosas

Linfadenite Caseosa ou Mal-do-caroço
É causada pela bactéria Corynebacterium pseudotuberculosis. Manifesta-se, clinicamente, pelo aparecimento de abscessos junto aos gânglios superficiais.
A penetração da bactéria se dá através de ferimentos, arranhaduras, ou mesmo da pele intacta. Também pode ocorrer penetração da bactéria através da via respiratória, digestiva, genital e cordão umbilical.
Os abcessos localizam-se, com maior frequência nos gânglios pré-escapulares (espádua) e parotídeos (pré-auricular), seguidos pelos gânglios pré-crurais (flanco). A doença pode, ocasionalmente, encontra-se nos órgãos e ou linfonodos internos.
Não existe medicação específica. O melhor tratamento da linfadenite é o cirúrgico. Quando o caroço estiver mole:
- fazer corte dos pelo e desinfectar a pele no local do caroço com solução a base de iodo.
- abrir o abscesso em toda a sua extensão para facilitar a saída de todo o pus (usar uma faca, canivete ou qualquer objeto que corte).
- após retirar todo o pus, limpar e desinfetar a “bolsa” colocando tintura de iodo a 10%.
A ferida deve ser protegida das moscas, com aplicação de repelentes, diariamente, até a cicatrização.
O pus retirado deve ser queimado e os instrumentos usados devem ser desinfectados.
Animais com reincidência de abscessos devem ser eliminados do rebanho.

Medidas Profiláticas
- isolar os animais doentes e evitar que os abscessos existentes se rompam, evitando-se a contam,inação do meio ambiente.
- examinar os animais no momento da compra, evitando-se introdução do germe na propriedade, caso ainda não exista.
- embora objeto de muitos estudos, a vacina para linfadenite ainda não existe.

Pododermatite (Frieira)
É uma enfermidade localizada, principalmente, na junção da pele com o casco, tendo como causa traumatismos ou umidade excessiva. É muito frequente nos caprinos, principalmente nos meses chuvosos, quando os animais são mantidos em áreas úmidas.
O principal agente causador da doença é a bactéria, Bacteroides nodosus, podendo haver associação de outras bactérias: Fusobacterium necrophorum e Corynebacterium pyogenes.
O sintoma mais evidente é a manqueira, que logo chama a atenção dos criadores. Observa-se uma inflamação na parte inferior do casco que se estende entre as unhas com grande sensibilidade, exsudação fétida, ulceração e necrose. Em muitos casos pode haver a queda do casco. Com a evolução da doença, os animais têm dificuldade de locomoção, permanecendo quase sempre deitados, se alimentam mal, emagrecem e podem morrer.

Como prevenir a frieira:
- observar o crescimento dos cascos e apará-los quando julgar necessário;
- manter os animais em abrigos secos e higiênicos;
- passagem dos animais em pedilúvio com solução de sulfato de cobre a 10% ou formol comercial a 10%, semanalmente.

Tratamento
Retirar os animais da área úmida para um local seco, fazer a limpeza dos cascos, cortar todas as partes necrosadas e tratar as lesões com solução de tintura de iodo a 10% ou sulfato de cobre a 15%. Conforme a gravidade do caso, deve-se usar antibiótico, por via intramuscular.

Mastite
É a inflamação total ou parcial do úbere. Pode apresentar-se sob as formas aguda, subaguda, ou crônica. São causas predisponentes: a alta atividade do úbere, a retenção do leite, ferimentos externos e falta de higiene. A mamite pode ser causada por uma grande variedade de microorganismos. Os germes mais frequentes são: Staphylococcus aureusStreptococcus agalactiaeStreptococcus uberisCorynebacterium pyogenesPseudomonas e coliformes. Trabalhos desenvolvidos no Piauí (MRH Teresina) indicam que os microorganismos mais frequentes observados em caprinos são: Staphylococcus aureusStaphylococcus epidermidis e Streptococcus sp.
Os micróbios penetram no úbere através das feridas ou do orifício das tetas. As camas e utensílios, assim como o cabrito ao mamar ou na mão do ordenhador atuam como veículos que levam os germes causadores da enfermidade dos animais doentes aos sadios.

Sintomas
A mamite aguda (menos frequente) aparece em geral logo após a parição. A cabra apresenta febre, em seguida, parte do úbere mostra-se com edema, dolorido e endurecido. O leite apresenta-se seroso, com coloração avermelhada e com grumos de pus, às vezes, com mal cheiro.
Nas formas subclínicas e crônicas, as mais comumente encontradas, os sintomas são: ligeira apatia e diminuição na produção de leite uni ou bilateral, úbere endurecido e com nodulações.

Tratamento
Deve ser feito o mais rápido possível, utilizando-se antibiótico de largo espectro através da aplicação intramamária e em alguns casos, intramuscular. Os germes identificados em caprinos no Piauí são sensíveis ao cloranfenicol, gentamicina, cefalosporina e neomicina e resistentes à sullfonamicida, novobiocina e lincomicina.

Medidas de prevenção
- manter as instalações em boas condições de higiene;
- tratar os ferimentos existentes no úbere;
- lavar com água e desinfetante, à base de iodo, o úbere das cabras e as mãos do ordenhador antes de cada ordenha e enxugar em papel toalha ou em pano limpo;
- fazer exame periódico do úbere. Em caso de suspeita, isolar e tratar os animais;
- eliminar animais com defeitos congênitos das tetas.

Ectima contagioso
É uma enfermidade causada por vírus, também conhecida por boqueira. Acomete com mais intensidade os cabritos, podendo atingir também os adultos. Caracteriza-se inicialmente pelo aparecimento de pequenos pontos avermelhados nos lábios e posteriormente formação de pústulas vesiculosas que se rompem, secam e se transformam em crostas. Além dos lábios, pode haver formação de vesículas na gengiva, narinas, úbere, às vezes, na língua, vulva, orelhas e espaços interdigitais. Os lábios ficam edemaciados, sensíveis, dificultando a alimentação dos cabritos.
Indica-se como tratamento isolar os animais doentes, retirar as crostas com cuidado e pincelar as lesões, diariamente, até a cura completa, com uma solução de iodo a 1% mais glicerina na proporção de 1:1 ou violeta de genciana a 3%.

Micoplasmose
É causada por várias espécies do gênero Mycoplasma. Caracteriza-se por lesões inflamatórias, nas articulações, glândula mamária, pulmões e olhos.
A transmissão da doença ocorre através do contato entre os animais doentes, que eliminam o Mycoplasma através das secreções nasais, oculares, mamárias e dos líquidos articulares. Os animais mais susceptíveis são os jovens que se infectam mamando o leite de cabras doentes.

Sintomas
Na forma articular, o sintoma mais evidente é o aumento de volume da articulação e a presença de um exsudato.
Na forma respiratória os animais doentes apresentam febre e dispnéia, tosse e às vezes corrimento nasal.
Na glândula mamária observa-se um aumento dos linfonodos e da glândula, a qual se apresenta de consistência dura à palpação.
Na forma ocular observa-se ceratoconjuntivite (inflamação da córnea e membranas mucosas do olho) seguido de lacrimejamento.

Controle e prevenção da doença
- evitar a entrada de animais doentes ou portadores no rebanho;
- proceder exames sorológicos periódicos e sacrificar os animais positivos do rebanho;
- evitar que as crias mamem nas fêmeas doentes;
- adquirir animais com boas condições sanitárias;
- evitar a aquisição de animais oriundos de rebanhos infectados;
- quarentena (período de isolamento e observação do animal antes da introdução no rebanho).

Tratamento
Geralmente não é eficaz. A retirada asséptica do líquido do joelho e o uso de antibióticos tais como: tetraciclina, tilosina, lincomicina e eritromicina melhoram o estado clínico geral.

Artrite encefalite caprina viral (CAEV)
A artrite encefalite caprina viral (CAEV) é uma doença prevalente em rebanhos caprinos de população leiteira. Caracteriza-se por inflamação, principalmente, no sistema nervoso, nas articulações e nas glândulas mamárias.
A transmissão da doença ocorre por secreções das vias respiratórias, urogenital, glândula mamária e também das fezes e saliva. A principal via de infecção é através do leite e do colostro.
Clinicamente a doença ocorre sob várias formas, sendo a articular, a nervosa, e a mamária as mais importantes.
A forma articular se caracteriza por uma artrite não purulenta, uni ou bilateral, afetando principalmente a articulação carpometacarpiana (joelho), ocorrendo em animais com mais de dois anos de idade. Nos animais doentes observam-se claudicação, perda de flexibilidade articular e edema.
A forma nervosa, geralmente, caracteriza-se por uma paralisia em um dos membros que pode evoluir para os demias. Acomete animais com idade entre dois a quatro meses. A maioria dos casos é fatal e a morte ocorre dentro de 15 a 21 dias.
Na forma mamária, verifica-se diminuição na produção de leite decorrente de uma mamite não purulenta, onde verifica-se um aumento de volume e da consistência do úbere.

Medidas profiláticas
- teste sorológico a cada 6 meses;
- separar os animais doentes do rebanho e eliminá-los na medida do possível;
- separar o cabrito imediatamente após o nascimento evitando que o mesmo se alimente com leite de fêmeas doentes;
- evitar a aquisição de animais com sintomas clínicos;
-quarentena (antes da introdução do animal no rebanho);

Tratamento
Até o presente não existe tratamento curativo. O uso de antiinflamatórios não esteróides e drogas analgésicas são medidas paliativas.

Tétano
Doença infecciosa causada pela toxina do Clostridium tetani. O C. tetani forma esporos capazes de sobreviver no solo por muitos anos. Os microorganismos estão comumente presentes nas fezes dos animais, especialmente equinos, e no solo contaminado por fezes. A bactéria penetra no organismo, geralmente, através de ferimentos. É comum a doença ocorrer em cabritos três a dez dias após a descorna com ferro quente e após a castração. Também o animal pode contrair a doença pelo cordão umbilical.

Sintomas
O quadro clínico é semelhante em todas as espécies animais. Primeiro observa-se uma rigidez muscular, acompanhada por tremor. Há trismos com restrição dos movimentos mandibulares, rigidez dos membros posteriores, cauda estendida, expressão apreensiva e alerta, orelhas eretas, dilatação das narinas e reações exageradas pára os estímulos normais.

Diagnóstico
É baseado nos sinais clínicos, no histórico recentre de ferimento acidental ou cirúrgico e no isolamento da bactéria.

Tratamentos
Geralmente não é eficaz. Consiste na aplicação de soro anti-tetânico, tranquilizantes e altas doses de antibióticos de largo espectro.

Medidas adotadas para evitar o tétano
- aplicação de soro anti-tetânico antes da realização de qualquer prática cirúrgica;
- desinfecção apropriada da pele e dos instrumentos utilizados nas castrações, descornas e assinalação.

Pneumonia
É uma doença que pode acometer os caprinos em qualquer idade e se caracteriza por uma inflamação dos pulmões. Pode ser causada por vírus, bactérias, rickettsias, fungos, helmintos e agentes químicos e físicos.
As pneumonias mais comumente encontradas são causadas por bactérias.

Sintomas
Febre (41-41,5°C), anorexia, depressão, tosse, corrimento nasal, dificuldade respiratória e ruídos pulmonares.

Diagnóstico
Pode ser feito através dos sintomas clínicos e pelo isolamento da bactéria.

Como prevenir a doença
- fazer higiene das instalações;
- evitar lotação excessiva;
- evitar a exposição dos animais a condições climáticas adversas (vento, frio, chuva);
- evitar mudanças bruscas de temperatura e longas viagens;
- evitar a entrada de animais doentes no rebanho;
- isolar e tratar os animais doentes.

Tratamento
Administração de antibióticos de largo espectro (Tetraciclinas, Cloranfenicol, Sulfonamidas e outros).

Raiva
É uma doença virótica do sistema nervoso central. A transmissão efetua-se, principalmente, pela mordedura por animais infectados: cães, gatos, raposas e morcegos.
Os morcegos hematófagos são os principais transmissores. Eles representam um fator importante na disseminação do vírus, devido aos seus hábitos migratórios. A importância fundamental desta virose é sua transmissibilidade para o homem quando em contato com os animais infectados.

Sintomas
Os sintomas clínicos aparecem dois a sessenta dias após o animal ter sido infectado. Observam-se mudança de hábitos, ansiedade, pupila dilatada e às vezes, pêlos eriçados. A forma paralítica é a mais frequente, embora às vezes, sejam observadas exaltação, agressividade, salivação profusa e dificuldade de deglutição. A morte ocorre em poucos dias.

Diagnóstico
É feito pelos sinais clínicos e, após a morte, pelas lesões anátomo-histopatológicas, pelo isolamento do vírus do sistema nervoso central ou através do teste de imunofluorescência.

Tratamento
Não existe tratamento curativo.

Medidas de prevenção
- evitar o contacto com animais infectados;
- vacinar, periodicamente, os rebanhos existentes nas regiões habitadas por morcegos hematófagos e nas áreas que já se constataram casos de raiva;
- reduzir a população de morcegos, pelo combate sistemático com produtos específicos;
- vacinar os cães e gatos existentes na propriedade.

Febre aftosa
É uma doenças contagiosa causada por um vírus filtrável que tem a particularidade de multiplicar-se e difundir-se rapidamente. O vírus penetra por inalação e ingestão de água e alimentos contaminados.
O vírus ao penetrar na corrente sanguínea alcança o epitélio da boca, das narinas, dos pés e do úbere e o músculo do coração.
A febre aftosa é mais importante nos bovinos, porém os caprinos são também acometidos.

Sintomas
Febre, erupções vesiculares na boa, na língua, na junção da pele com o casco, no espaço interdigital e no úbere – anorexia e salivação intensa.
As bolhas ou vesículas rompem-se dentro de 24 horas, levando à formação de aftas. Nos pés, as aftas podem provocar o deslocamento do casco e ulcerações, causando manqueira.

Diagnóstico
É baseado no histórico clínico, nas lesões apresentadas e confirmadas pelo exame sorológico ou isolamento do vírus.

Medidas preventivas
A maneira mais eficiente de prevenir a doença é através da vacinação periódica do rebanho após 4 meses de idade. Atualmente existe a vacina oleosa e a aquosa com imunidade de seis meses.

Tratamento
- as lesões dos animais doentes devem ser tratadas com cicatrizantes e bacteriostáticos para evitar miíases e contaminações secundárias;
- os cascos devem ser tratados com solução de sulfato de cobre a 10%;
- fazer higiene rigorosa nas instalações e desinfectar as instalações com formol a 2%.

Doenças de origem alimentar

Timpanismo (meteorismo)
É uma distensão do rúmen e do retículo por gases de fermentação, em forma de espuma misturada ao conteúdo do rúmen ou em forma de gás livre separado do ingesta. O timpanismo pode classificar-se como primário e secundário. O timpanismo primário (meteorismo espumoso) é de origem alimentar e ocorre nos animais em pastagens suculentas e em animais confinados que recebem grandes quantidades de alimentos concentrados e pequenas partes de volumosos. O timpanismo secundário (meteorismo gasoso) é geralmente devido à uma dificuldade na eructação do gás livre causado, principalmente, pela obstrução esofágica por corpo estranho.

Sintomas
Distensão do rúmen, intranquilidade, o animal se deita e levanta com frequência, dispnéia acentuada, salivação, ausência dos movimentos do rúmen, som timpânico à percussão. A morte pode ocorrer algumas horas após o início dos sintomas.

Diagnóstico
Através dos sintomas clínicos.

Medidas de prevenção
- dar feno ou palha antes de forragens aquosas;
- incorporar no mínimo 10% de forragens à ração concentrada;
- evitar a pulverização dos grãos;
- evitar a super alimentação após um período temporário de fome;
- fornecer água à vontade para os animais.

Tratamento
- passagem de sonda esofágica;
- administração de agentes anti-espumantes e purgante salino;
- quando os gases não forem eliminados e houver perigo de asfixia, fazer uma punção no rúmen com trocarter e cânula para eliminar os gases e conteúdo ruminal.
- nos casos de timpanismo moderado (empanzinamento) – se os animais são forçados a caminhar geralmente começam a eructar e voltam ao normal.


Higiene das Instalações
As instalações, especialmente, o aprisco, chiqueiro, bebedouros e comedouros devem ser limpos e ter os excrementos removidos diariamente. Esta prática poderá evitar a disseminação de doenças no rebanho. Nas instalações para caprinos leiteiros deve-se fazer a desinfecção de todo o piso, quinzenalmente, com uma solução de sulfato de cobre a 3% ou formol comercial a 5% ou lodophor a 1%. O local de ordenha deve ser lavado diariamente e desinfectado uma vez por semana.



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