28 de mai de 2017

Mercado, Comercialização e Coeficientes Técnicos na Produção de Leite



Mercado e Comercialização

Mercado de Leite de Derivados

As mudanças do início da década de 90, com a abertura da economia, liberação de preços e o plano de estabilização, trouxeram modificações importantes para toda a cadeia agroindustrial do leite, aumentando os investimentos no setor. O novo cenário foi reforçado com a implementação do Plano Real em 1994, aumentando o mercado consumidor e viabilizando aumentos de produção.
Uma das mais significativas mudanças ocorrida no mercado de lácteos trata da importância assumida pelos supermercados como pontos de distribuição, a partir principalmente da entrada do leite longa vida (ou UHT) no mercado, que veio atender às exigências de comodidade e conveniência do consumidor, cada vez mais consciente de seus direitos.
A demanda por leite e derivados pode ser aumentada por diversos fatores, entre eles o aumento de população, crescimento de renda, redução de preços relativos, mormente, de produtos concorrentes ou substitutos, e mudanças nos hábitos alimentares. Na realidade a demanda é alterada por diversos fatores que podem ocorrer simultaneamente.
A queda da renda da população nos últimos 25 anos pode ser mostrada tomando os valores do salário mínimo como referência. Na média, o salário mínimo reduziu-se cerca de R$ 9,00 ao ano a preços de dezembro de 2001. Isto representa uma perda real de poder aquisitivo do consumidor com impactos relevantes no consumo de produtos lácteos, que se altera significativamente com as mudanças nos níveis de renda da população. Contudo, no início do Plano Real houve crescimento do salário mínimo representando maior potencial de compra e com fortes impactos na demanda por produtos lácteos, durante 1994 a 1997.
O aumento populacional configura um aumento de demanda por alimentos, incluindo o leite e seus derivados. O crescimento da população no período de 1960 a 1999 foi de 2,32% , muito aquém do crescimento da oferta de leite e derivados. Uma melhoria de renda proporcionada pelo aumento do salário mínimo a partir de 1994, ano inicial do Plano Real, proporcionou uma elevação de consumo de leite. Os dados são mostrados na Tabela 11. Após 1998, o consumo de leite se estabiliza ao redor de 130 litros/hab./ano.
Pode-se argumentar ainda que a demanda da indústria de transformação é dependente do consumidor final e do conjunto de produtos lácteos que ele consome. No caso brasileiro, segundo houve mudanças substanciais na demanda e no conjunto de produtos ofertados e consumidos. Destaca-se o crescimento do leite longa vida e o crescimento dos produtos de maior valor agregado como queijos, iogurtes e sobremesas. A Tabela 12 mostra as variações nas vendas e nos preços de produtos lácteos.

Tabela 11. Consumo de leite no Brasil, 1985/2000.
Ano
Consumo
(litros/habitante/ano)
Aumento (%)
1985
94
-
1990
107
12.15
1991
112
4.46
1992
108
-3.70
1993
107
-0.93
1994
113
5.30
1995
124
8.87
1996
135
8.15
1997
129
-4.65
1998
130
0.77
1999
130
0.00
2000
129
-0.78
Fonte: Banco de Dados Econômicos da Embrapa Gado de Leite.

Além da mudança no mix dos produtos ofertados e substancial redução de preços, ocorreu após o Plano Real a abertura econômica, que levou a uma elevação dos requerimentos de qualidade advindos da comparação entre produtos nacionais e importados, e maior conscientização do consumidor a respeito de saúde e segurança alimentar.

Tabela 12. Variações na venda e nos preços de derivados de leite (1996 – 1998).
Produto lácteo
Vendas (%)
Preços (%)
Leite asséptico
106
-11
Leite flavorizado
43
-8
Petit-suisse
35
-15
Creme de leite
27
-12
Sobremesas gelificadas
23
-6
Iogurte
19
-14
Leite condensado
18
-10
Leite em pó
9
-21
Doce de leite
8
-16
Fonte: Acnielsen (1998), citado por Martins (2001).

Destaca-se que a redução dos preços dos produtos lácteos representa a incorporação de parcelas da população no mercado e estímulo ao consumo daqueles que já participavam dele. Em outras palavras, representa, em termos agregados, um aumento de renda real para os consumidores. A Tabela 12 também mostra a mudança do conjunto  dos produtos lácteos consumidos pelos brasileiros, representando uma mudança de hábitos de consumo ao incorporar produtos de maior valor agregado, com graus de sofisticação maior e características de conveniência bastante peculiares.
Em resumo, os agentes que atuam na cadeia de lácteos devem promover modificações rápidas para se adequar aos requerimentos do mercado globalizado, inclusive com vistas a exportação . As mudanças mais importantes são a definição dos requerimentos de qualidade superior, aumento da oferta de produtos de maior valor agregado, racionalização da coleta por meio da granelização, concentração da indústria, requerimentos de escala e profissionalização da produção primária.
Em relação ao mercado externo, sabe-se que o Brasil é um tradicional importador de produtos laticínios, chegando a importar até 30% do leite consumido no País. Em média importou-se cerca de 10% da produção nacional nos últimos anos. A partir de 1995 observa-se uma clara tendência de redução nos gastos com importação de lácteos e simultaneamente uma ligeira evolução na receita com exportações, valor que chegou a representar quase um quarto do volume importado em 2001, conforme a Tabela 13. Considerando a falta de tradição do País neste mercado, estes são dados que apontam um novo caminho que pode, de certa forma, revolucionar o setor produtivo do leite nacional.
O potencial produtivo do setor e suas vantagens comparativas em relação a outros países produtores e tradicionalmente exportadores é muito grande e deverá ser trabalhado intensamente, tanto pelo Governo como pela iniciativa privada, a partir de então. A implementação da Portaria 56/99 do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, que regulamenta o Programa Nacional de Qualidade do Leite, deverá ser uma das primeiras iniciativas do Brasil visando ganhar a credibilidade dos principais e maiores centros importadores de derivados de leite no mundo.

Tabela 13. Exportações e Importações de Leite e Derivados pelo Brasil.
Ano
Exportações
(US$ 1.000 FOB)
Importações
(US$ 1.000 FOB)
1995
9.776
620.109
1996
24.983
523.276
1997
19.394
466.894
1998
25.817
518.969
1999
15.658
445.426
2000
24.974
378.620
2001
42.778
183.020
Fonte: ABIA – SECEX, disponível em www.abia.org.br

Coeficientes técnicos na produção de leite

Coeficientes técnicos são valores numéricos que expressam uma relação física entre a quantidade de insumo gasta para produzir uma certa quantidade de leite. Em geral, no cálculo dos coeficientes técnicos, tanto os insumos como o leite são quantificados considerando o período de um ano. Este é o tempo normalmente considerado para analisar os resultados técnicos e econômicos de uma empresa com a produção de leite estabilizada.

Exemplo
Suponhamos que os números abaixo foram anotados em uma fazenda para o período de um ano:
  • Produção total de leite: 547.500 litros.
  • Mão-de-obra usada nos serviços de rotina (trato e cuidados com o rebanho, ordenha, limpeza de instalações, máquinas e equipamentos, etc): três adultos diariamente (3 x 365 dias = 1.095 d.h.);
    d.h. significa um dia-homem ou um dia de serviço prestado por um trabalhador adulto.
  • Ração (concentrados) para 75 vacas em lactação: 246.375 Kg
  • Fertilizantes para a produção de 1.600 toneladas de silagem e para as forragens verdes:
sulfato de amônio
14.000 Kg
superfosfato simples
14.000 Kg
cloreto de potássio
3.600 Kg
calcário
40.000 Kg
Considerando apenas estes insumos a título de exemplo, têm-se os seguintes coeficientes técnicos:
  • Mão-de-obra de rotina (manejo do rebanho): 1.095 d.h./547.500 litros = 0,002 d.h./litro.
  • Sulfato de amônio: 14.000 Kg / 547.500 litros = 0,0256 Kg/litro.
  • Superfosfato simples: 14.000 Kg / 547.500 litros = 0,0226 Kg/litro.
  • Cloreto de potássio: 3.600 Kg / 547.500 litros = 0,0066 Kg/litro.
  • Calcário: 40.000 Kg / 547.500 litros = 0,0731 Kg/litro.

Os coeficientes técnicos podem ser expressos em diferentes unidades para melhor atender à comparação ou à análise que for feita. Por exemplo, desejando-se saber quanto de mão-de-obra de manejo é necessário para produzir 1.000 litros de leite, basta multiplicar por 1.000 o coeficiente para produzir um litro, ou seja, 0,002 d.h. x 1.000 = 2 d.h/1.000 litros.
Semelhante ao exemplo acima, pode-se calcular todos os coeficientes técnicos para os mais diversos e numerosos insumos utilizados no sistema de produção de leite objeto de análise. De posse da lista de todos os coeficientes técnicos, pode-se calcular e atualizar o custo de produção de leite por meio de planilhas de custo.
Não se deve confundir o coeficiente técnico, que é uma relação de insumo gasto para produzir certa quantidade de produto, com o índice ou indicador de produtividade. Neste caso a relação, também física, é da quantidade produzida por unidade de insumo. No exemplo acima, o índice de produtividade da mão-de-obra é de 500 litros por 1 d.h. Em outras palavras, o trabalho de 1 d.h. resulta na produção de 500 litros de leite, neste caso (500 litros/1 d.h.).




22 de mai de 2017

Manejo Sanitário das Vacas Leiteiras



O manejo sanitário correto deve iniciar com atenção para as anotações das ocorrências dentro do rebanho. Somente com os dados passados é que podemos analisar e tomar iniciativas para suprimir ou implementar medidas que possam auxiliar o manejo sanitário do rebanho. Sem estas informações, não podemos melhorar os índices zootécnicos dos animais.
Para melhor visualizar o texto, os itens ficarão subdivididos da seguinte forma:


Vacas gestantes

Como ponto de partida, uma vaca gestante nos dois últimos meses de gestação deve encerrar a lactação, isto é, deve-se fazer com que ela interrompa a produção de leite para que a glândula mamária possa descansar, preparar-se para próxima lactação e produzir um colostro de boa qualidade. Se for uma novilha, esta preparação vem naturalmente, já que ela nunca pariu.
Em torno de vinte a trinta dias antes do parto, este animal deve ser levado para a maternidade, a qual deve ser de preferência um pasto próximo ao curral, facilitando a observação diária. No caso de confinamento total, deverão ir para uma baia-maternidade. O fato de ter uma maternidade vai facilitar alguma interferência que for necessária no decorrer do parto. Por observação na maternidade, conclui-se que, em rebanhos nos quais se faz a observação no parto, os problemas são resolvidos de forma mais rápida e com maior sucesso e menor índice de natimortos.
Neste período a fêmea deve receber a mesma dieta que irá receber após o parto, com restrição do sal mineral. É muito importante que neste período isto ocorra pois permite que os microorganismos do rúmen se adaptem à dieta que vai ser ingerida durante a lactação.
É bom lembrar que neste período final de gestação o animal sofre as maiores transformações. Geralmente ficam mais pesados, o que dificulta a locomoção e reduz a capacidade de competição exigindo, portanto, maiores cuidados.

Parto

No parto o animal perde em média 80 kilos de peso entre o feto, líquidos fetais e as membranas que envolvem o próprio feto. Isto acarreta uma mudança muito brusca que ocorre em poucas horas, levando a um certo desconforto para o animal. É um momento de muito estresse quando pode aparecer inúmeros problemas para os quais devemos ficar atentos.
Devemos interferir o mínimo no parto. Os partos-problemas, isto é, aqueles chamados distócicos, ocorrem com pouca freqüência e, neste caso, a interferência humana deve causar o mínimo de danos possível, tanto à vaca quanto ao bezerro. Contudo, uma pequena ajuda para evitar complicações não fará mal algum. Os casos mais graves, porém, devem contar com acompanhamento ou supervisão de um médico-veterinário. É comum pessoas sem treinamento adequado intevir de forma inadequada e acabar causando mais problemas, e, quando chegam a chamar o veterinário, a chance de resolver o problema já diminuiu drasticamente. A decisão de chamar o veterinário deve ser tomada o quanto antes.

Colostro

Após o nascimento, o bezerro deve permanecer junto à mãe por pelo menos 24 horas. Sabemos que o bezerro junto à mãe, mama de 12 a 15 vezes ao dia. Estas mamadas permitem que o colostro passe muitas vezes pelo aparelho digestivo, aumentando a superfície de contato do colostro com a parede intestinal, favorecendo, assim a absorção de imunoglobulinas (anticorpos). Por outro lado, podemos fornecer o colostro de forma artificial, oferecendo dois litros, duas vezes por dia, com intervalo próximo de 12 horas. O importante é que o bezerro beba em torno de 10% do seu peso em colostro, nas primeiras 24 horas. 
O bezerro nasce sem proteção de anticorpos contra os agentes de doenças. A forma de adquirir estes anticorpos (defesa) é ingerindo o colostro. O colostro é o primeiro produto produzido pela glândula mamária no início da lactação. É uma rica fonte dos anticorpos que foram produzidos nos dois últimos meses de gestação. Após o nascimento, é imperativo que o bezerro beba o colostro o quanto antes para que ele adquira estes anticorpos. A capacidade de absorver os anticorpos fornecidos pela mãe no interior do aparelho digestivo do bezerro é, aproximadamente, nas primeiras 36 horas. Essa capacidade de absorção tem como pico máximo entre seis e dez horas, quando começa a diminuir gradativamente até a trigésima sexta hora. A partir deste ponto, o colostro continua sendo um alimento muito rico e deve ser aproveitado pelo bezerro e outros do mesmo plantel que são tratados de forma artificial, porém perde a importância como fonte de anticorpos.
De outra forma, uma das funções do colostro é ajudar na primeira descarga intestinal, isto é, ajuda a expelir as primeiras fezes, que é o chamado mecônio. O mecônio são fezes amarelas pegajosas de difícil eliminação, portanto, sendo o colostro um leve laxante, vai ajudar nesta eliminação. Neste período devemos interferir somente se houver necessidade. Na maioria das vezes, esta intervenção é desnecessária. Uma das vantagens da maternidade é a possibilidade de observação do recém-nascido e qualquer problema que surgir neste local facilita o socorro.
O excesso de colostro pode e deve ser dado para os outros bezerros. Neste caso ele não tem função de fornecedor de anticorpos, pois bezerros mais velhos perdem a capacidade de absorção dos anticorpos, mas, como alimento é até mais rico que o próprio leite. É bom lembrar que como o colostro tem uma função laxativa, para fornecer aos outros bezerros o melhor é diluir em outra quantidade de leite para não causar males de desarranjo aos bezerros mais velhos

Corte e cura de umbigo

A cura de umbigo deve ser feita com um desinfetante e um desidratante. Uma solução que se tem usado com sucesso é o álcool iodado, que pode ter uma variação de 6 a 10%. O curativo deve ser feito todos os dias, por três a quatro dias. Se correr tudo bem, o coto umbilical cairá por volta do nono dia.

Forma de ordenha

De acordo com o manejo adotado, o qual pode ser com ou sem o bezerro ao pé, vamos ter condutas diferentes para cada modalidade.
Com o bezerro ao pé, este fica à disposição na hora da ordenha para vir e apojar. Feito isso, ao acabar a ordenha, o bezerro é solto com a mãe para retirar o leite residual. Pode ser separado imediatamente após o esgotamento total do leite, ou permanecer junto até a hora da apartação à tarde. Este manejo não é o mais recomendado pois, neste caso, o bezerro mama o leite que poderia ser aproveitado na ordenha da tarde. Este tipo de manejo apresenta algumas vantagens, porém as desvantagens estão em supremacia.
Por outro lado, se alimentamos os animais de forma artificial, o contato da mãe com o bezerro não existe. Isto facilita a mão-de-obra e tem-se um maior controle do que o animal está ingerindo, contudo traz todos os transtornos da criação de órfãos. Esta prática permite a observação individualizada, dando a oportunidade de se tomar atitudes mais rápidas para sanar os problemas que aparecem.
Num sistema de criação, com ou sem bezerro ao pé, devemos estar sempre atentos aos problemas que podem surgir. É bom chamar a atenção para a escolha do local para o criatório de bezerros. Este local deve ser de fácil acesso, bem drenado e que se evite a canalização de ventos constantes. Tem que ser um local que, após uma chuva, seque com poucos dias de sol. Tem que ter alguma inclinação para o escoamento das águas e dejetos excessivos.

Diarréias

Uma doença comum que acomete os bezerros nesta época é a diarréia. O animal com diarréia se caracteriza por apresentar fezes líquidas que pode ter as mais variadas aparências, desde amarela viva, passando por esverdeada, preta e vermelha, até mesmo com sangue vivo. Não se pode dar um diagnóstico seguro do causador da diarréia, pela cor das fezes, mas podemos checar a alguns componentes destas fezes e daí conduzir o tratamento com melhor eficiência.
Mas a grande importância desta enfermidade é levar o animal à desidratação que normalmente é a causa principal da morte. O animal apresenta a doença, fica triste, não se alimenta de forma adequada, muitas vezes apresenta respiração acelerada e vai aos poucos apresentando sinais de desidratação, como pele seca, olhos fundos, entre outras. Por fim, as extremidades apresentam baixa temperatura e logo a seguir ele morre.
Neste caso, quando forem observados os primeiros sinais de desidratação, devemos socorrer o mais rápido possível, dando mais líquidos para este animal. Podemos lançar mão da hidratação oral em primeira mão. Podem surgir casos de diarréia de causa nutricional, quando os animais não estão habituados com certo tipo de alimentação, por exemplo, nova ração que pode estar contaminada por fungos ou outros microorganismos. Nos casos mais graves, a presença de um veterinário é necessária.

Micoses

Outra enfermidade comum nesta época é o aparecimento de micoses. Existe um tipo de micose denominado "tinha", que causa lesões de placas arredondadas que aparecem comumente na região da cabeça e pescoço. São placas de tamanho variado, em geral de forma arredondada, muito comum em criatório coletivo. Normalmente não causa maiores danos e pode ser tratado com certa facilidade. A utilização de tintura de iodo tem efeito satisfatório, desde que aplicada todos os dias, até o desaparecimento das lesões. Esta enfermidade é mais comum em ambientes de grande concentração de animais. Em bezerreiros coletivos, onde os bezerros permanecem muito tempo juntos, o aparecimento de "tinha" é comum.

Tristeza parasitária

Agora, ainda existe uma certa proteção dada pelo colostro e os animais começam a desenvolver a parasitose de carrapatos. É o momento em que os primeiros sintomas da tristeza parasitária começam.
A tristeza parasitária é transmitida pelos carrapatos e insetos hematófagos como moscas e pernilongos. A tristeza é causada por dois agentes parasitários: o Anaplasma e a Babesia. A anaplasmose é causada pelo Anaplasma marginale e a babesiose é causada pela babesia sp. A babesia é transmitida pelos carrapatos e a anaplasma pelos insetos hematófagos. Ambas são doenças que causam anemia grave, podendo, com freqüência, levar os animais à morte. No campo é muito difícil diagnosticar estas doenças separadamente com certeza absoluta. O tratamento para a tristeza parasitária deve ser realizado assim que os primeiros sintomas forem observados. Temos no mercado vários tipos de medicamentos que são utilizados para o tratamento desta doença. Esta deve ser uma recomendação do veterinário assistente na propriedade. Quanto mais precoce o tratamento, melhor a recuperação.

Verminose

A partir dos três meses de idade, podemos estar atentos às verminoses, as quais acometem os bovinos jovens. Bovinos com idade até dois anos são muito sensíveis às verminoses e por isto devem receber atenção especial nesta fase, que é de grande desenvolvimento.
Como as larvas de vermes estão disseminadas nas pastagens, os animais sob pastejo normal estão continuamente se infectando. Para que esta convivência esteja sob controle, devemos combater os vermes de forma estratégica. Se sabemos que estas larvas de vermes estão espalhadas nas pastagens, temos que atacar de forma que estejamos com mais vantagens.
Em geral, no Brasil, na época de temperatura fria, que coincide com a seca, as pastagens estão em seu pior momento, com o capim sem desenvolvimento, de porte baixo, e as larvas não têm como sobreviver de forma normal. Neste caso, então, a maior população de vermes está dentro dos animais. Assim sendo, esta é a melhor época para se combater estes vermes.
Se "vermifugarmos" os animais no inicio, meio e fim da época seca, estaremos fazendo um excelente controle destes parasitas, de forma econômica e eficiente. O uso de vermífugos com poder residual maior, como as avermectinas, pode facilitar este controle estratégico, exigindo apenas duas "vermifugações", sendo uma no início e a outra no fim de seca. Outra forma é, a partir de três meses de idade, "vermifugar" todos os animais, mensalmente, até a idade de um ano. Esta estratégia tem bom retorno financeiro.

Vacinação

Basicamente, temos, dentro de um programa sanitário, algumas vacinas de uso obrigatório.
A vacinação contra a brucelose é obrigatória somente para as fêmeas na idade entre três e oito meses de idade.
Não se pode vacinar estas fêmeas a partir desta idade pois a titulação do exame pode ser positivo para o resto da vida e este animal é considerado positivo e o destino certamente é o abate.
Outra vacina obrigatória é a da febre aftosa, que deve ser aplicada de acordo com a região do pais, como indicado pelos órgãos de defesa sanitária do estado.
A vacinação contra o carbúnculo sintomático deve ser realizada em todos os animais acima de três meses de idade, sendo repetida de seis em seis meses até os dois anos de idade. É nesta idade que os animais estão mais sujeitos a desenvolver esta enfermidade. Como característica, é uma doença que afeta os animais com melhores escores corporais.
Outra vacinação importante é a contra a raiva, que deve ser aplicada anualmente, principalmente em regiões de surto, quando grande parte do rebanho pode ser afetada pela doença.
Existe no mercado um número grande de vacinas contra várias doenças, como leptospirose, rinotraqueíte infecciosa dos bovinos - IBR, diarréia bovina a vírus - BVD, mamite, campilobacteriose, colibacilose e outras tantas que devem ser indicadas para cada caso e pelo veterinário responsável pelo rebanho. Cada caso vai exigir uma conduta específica de acordo com a recomendação do veterinário.

Controle de carrapatos

Uma das doenças mais importantes que afeta nossos rebanhos é a carrapatose. É uma doença que causa enormes prejuízos e grande desconforto para os animais, prejudicando o seu desenvolvimento e produção. Os carrapatos, além dos problemas que normalmente causam, transmitem doenças que afetam de forma drástica o animal. Estas doenças são a babesiose e a anaplasmose que fazem parte do complexo “tristeza parasitária”.
Um grande complicador no combate aos carrapatos é que não podemos eliminá-los do rebanho, pois apesar de transmitir a tristeza parasitária, são eles que mantêm os níveis de anticorpos contra esta doença. Os carrapatos inoculam constantemente os agentes da tristeza parasitária nos bovinos. Assim, eles estão sempre sendo estimulados a produzir anticorpos contra a tristeza parasitária.
Por outro lado, é imperativo que nossa vigilância esteja sendo levada com seriedade, pois qualquer descuido, a população de carrapatos pode aumentar de tal forma que pode levar alguns animais à morte. É comum, em propriedades descontroladas, que os animais estejam tão afetados que comecem a emagrecer, não tenham o rendimento esperado e cheguem ao extremo de morrer.
Uma proposta de controle é o estratégico, que consiste em banhar os animais de forma a não deixar o desenvolvimento de teleóginas por um período de 120 dias. No Sudeste este controle deve ser realizado na época de maior calor, que coincide com a época das chuvas, quando aumenta também a umidade relativa do ar. A partir de dezembro, começa um pico de crescimento do carrapato que deve ser combatido por banho carrapaticida. Estes banhos devem ser realizados a cada 21 dias, com um total de cinco a seis banhos. Este combate deve cobrir um período de 120 dias sem que haja desenvolvimento de teleóginas. Este banho pode ser dado por aspersão ou pour on. Se o carrapaticida utilizado tiver maior tempo residual, estes banhos podem ser mais espaçados com intervalos de 35 dias. O importante é combater os carrapatos de maneira que não permita o desenvolvimento de teleóginas.
A forma de dar banho pode variar com o produto. Em geral o banho por aspersão requer em torno de quatro a cinco litros de solução por animal adulto. O animal tem que ser molhado totalmente desde a cauda até a ponta do focinho. Um dos grandes problemas que encontramos nos banhos carrapaticidas é que as partes baixas e as reentrâncias da pele, muitas vezes, não ficam bem molhados e os carrapatos que ali estiverem não sofrerão os efeitos do veneno. Estes carrapatos vão se desenvolver e contaminarão as pastagens, prejudicando de forma drástica o controle destes parasitas.
Quando formos banhar o rebanho, devemos atingir todo o contingente no menor espaço de tempo. Por exemplo, não é recomendado que se banhe os animais solteiros numa semana e os de leite na semana seguinte. Além de termos um controle muito trabalhoso dos animais que foram banhados, pode acontecer de um deles trocar de lote e ser o contaminador daquele pasto. O ideal é que se banhe todo o rebanho no máximo em três dias.
Um agravante do combate aos carrapatos é durante a época em que se tem a maior precipitação pluviométrica. Quando os animais tomam banho carrapaticida e logo após são atingidos por uma chuva, dependendo do produto utilizado, este é lavado e perde o efeito. Neste caso o controle é interrompido e não se alcançam os resultados esperados. Este é um dos grandes causadores de insucesso do combate estratégico dos carrapatos.
Outro que se deve chamar a atenção é que os banhos não foram dados de forma adequada, tanto em quantidade quanto em qualidade, não atingindo todos os pontos do corpo do animal. Há uma variação enorme da quantidade gasta pelos proprietários para banhar seus rebanhos. Esta quantidade varia de meio litro até oito litros por animal. Como se há de convir, com meio litro de calda não é possível banhar todo um animal adulto. Por outro lado, oito litros para banhar um animal está se desperdiçando o produto.
Um dos grandes problemas que encontramos nas propriedades é a forma de se dar banho. Quando se faz uso de aspersores, os costais são o vilão da história. Com uma capacidade para 20 litros de calda, que daria para banhar entre quatro e cinco animais, temos visto que nas propriedades, com mesma quantidade de calda, o funcionário banha até 40 animais. Conclui-se que este banho foi mal dado. Este problema vem da bomba que é pesada, o trabalho realizado pelo operador é pesado e, por esse motivo, os três primeiros animais têm banhos melhores, nos outros vem o cansaço e o operador não agüenta mais, então, não consegue trabalhar adequadamente, fugindo do objetivo.
É muito comum, nestes casos, as pessoas reclamarem do produto. Muita vezes há troca do produto sem que se preocupe com o princípio ativo que pode, com freqüência, ser o mesmo que o anterior. Às vezes, no segundo banho com o mesmo produto, o operador consegue um melhor sucesso. O motivo é, simplesmente, porque houve maior capricho no banho.
Outra ação comum é a troca constante de base medicamentosa, sem critério. Isso ocorre sempre que não se tem sucesso com os tratamentos. Mesmo assim, apesar da troca por outra base, o vilão continua sendo o banho mal realizado.
Todos estes cuidados devem ser observados na hora de planejar o controle estratégico. Qualquer erro, em qualquer fase, pode comprometer seriamente o sucesso.

Controle de mamite

A mamite é a inflamação da glândula mamária. É causada pelos mais diversos agentes. Os mais comuns são as bactérias dos gêneros estreptococos e estafilococos. Outros agentes causadores de mamites são os coliformes.
É preciso trabalhar preventivamente no controle de mamite, pois esta é uma doença que surge repentinamente. Sendo uma doença de manejo, para se fazer uma prevenção adequada, é preciso considerar todo o manejo da propriedade. Quando os índices dessa doença se elevam, significa que uma ou mais ações dentro do manejo está sendo executada de forma inadequada. Vale ressaltar que as mamites ambientais são esporádicas e podem acometer qualquer dos animais em lactação.
Dentro deste manejo da propriedade, devemos levar em consideração todo o processo realizado diariamente dentro da propriedade, desde quando os animais estão no pasto, vão para a ordenha e voltam para o pasto.
Não importando a forma de ordenha, seja ela mecânica ou manual, deve ser observado a condução de todo o processo, pois um dos grandes causadores de mamite é quando a ordenha não é bem conduzida. No processo com ordenha mecânica, os equipamentos devem ser conduzidos como recomendado pelos fabricantes. As trocas de peças e borrachas têm que ser executadas dentro do prazo recomendado, assim como o nível de vácuo, pois tanto o excesso como a falta deste vácuo são grandes fatores predisponentes para o aparecimento de mamite. Esses são alguns exemplos do que pode causar a presença da mamite.
Existem vários testes que podem auxiliar no diagnóstico da mamite. O “CMT” (California Mastitis test) é um teste que pode ser realizado no campo, muito prático. Porém, deve ser executado por profissional treinado. A contagem de células somáticas “CCS” é outro exame que é usado para o diagnóstico da mamite, o qual é feito em laboratório. Estes dois meios de diagnóstico são utilizados para diagnosticar a mamite subclínica. Esta mamite ocorre com certa freqüência nos rebanhos. É a mamite que não podemos enxergar a olho nu, porém ela é a precursora da mamite clínica. A mamite clínica é aquela que se pode ver a olho nu.
Outro teste que pode auxiliar no diagnóstico da mamite é a cultura. Toma-se uma porção do leite afetado e faz-se uma cultura em laboratório. Este exame é utilizado para identificar o causador da mamite.
O teste prático mais eficiente é o teste da caneca telada ou de fundo escuro. Esse é o teste que se deve fazer a cada ordenha. Ele detecta a mamite clínica nos primeiros jatos de leite. Quando a mamite clínica aparece, há um depósito de leucócitos (células de defesa) no canal da teta e estes leucócitos formam grumos que são visualizados logo nos primeiros jatos de leite. Estes primeiros jatos devem ser depositados na caneca de fundo escuro ou telada onde os grumos serão visualizados com mais facilidade. Devido o contraste do fundo da caneca com os próprios grumos, estes ficam mais aparente. Neste caso, estamos diante da mamite clínica.
No caso de mamite clínica, o animal deve ser retirado do recinto e ser ordenhado mais tarde, após os animais sadios. Dependendo da gravidade da mamite, o animal deve ser ordenhado fora do local de ordenha para não contaminar o ambiente. Se a mamite for crônica, o animal deve ser descartado.
No caso de controle adequado da mamite, pode-se utilizar a linha de ordenha onde primeiramente são ordenhadas as vacas sadias, depois as que já tiveram mamite e foram curadas e, no final, aquelas que estão com mamite e em tratamento.
O tratamento das vacas com mamite varia de acordo com o caso apresentado. Em geral, os tratamentos devem ser precedidos de ordenhas sucessivas: em torno de quatro no período do dia. Se for o caso de necessidade de medicamento, tratar somente após a última ordenha do dia.
As vacas secas devem ser tratadas com medicamentos próprios para esta fase. Existe no mercado vários medicamentos para tratamento preventivo de vacas neste período de descanso. É bom lembrar que estes medicamentos nunca devem ser utilizados para tratar mamites comuns, pois eles são próprios para a prevenção da mamite no período seco.

Cascos

Uma das grandes preocupações em todos os criatórios de bovinos são os cascos. A importância dos cascos na locomoção do animal é vital. Qualquer problema que possa vir a acontecer com os cascos pode comprometer de forma drástica a produção.
São muitas causas que prejudicam os cascos. Dentre as várias que podemos citar, temos como muito importante a alimentação e o desgaste que ocorre, principalmente, em animais confinados. Em animais não confinados, quando chega a estação chuvosa, época em que o barro é abundante, há um amolecimento dos cascos que favorece o desgaste deles. Estes fatores somados levam ao aparecimento de vários problemas que afetam diretamente os animais.
Animais que têm os cascos comprometidos podem apresentar inúmeros problemas, mas um dos que mais chamam a atenção é a reprodução. Os animais afetados não só têm perda de peso como não demonstram cios. Esta perda afeta diretamente o intervalo entre partos, além de ser comum a perda total do animal.









20 de mai de 2017

Manejo reprodutivo do Gado Leiteiro



Para se ter rentabilidade na atividade leiteira, uma alta eficiência reprodutiva deve ser a principal meta dos produtores para atingir  produtividade e retorno econômico.
Para que se alcancem estes parâmetros, é necessário que se faça uma criação adequada das bezerras, porque essas bezerras é que vão ser as futuras reprodutoras do rebanho. Animais que têm pouco desenvolvimento, seja por alimentação inadequada ou problemas sanitários, não têm condições de expressar todo o seu potencial ao longo da vida produtiva.
Este objetivo primário visa à idade ao primeiro parto, que deve ser o mais jovem possível dentro do manejo daquele rebanho. Neste processo está incluída a meta econômica da criação. Uma análise do custo econômico desta criação tem que ser considerada, pois não adianta querer um desenvolvimento muito rápido do animal se este custo ficar tão elevado que não seja compensador para o futuro produtivo do animal. Normalmente, em fêmeas da raça Holandesa, a idade ao primeiro parto deve ser entre os 22 e 26 meses.
   Os animais gestantes também requerem cuidados especiais. Quando as vacas estão no terço final de gestação, o feto tem seu maior desenvolvimento e isto exige mais da mãe. Este animal deve permanecer num ambiente tranqüilo com alimentos e água de boa qualidade.

Para se ter boa eficiência reprodutiva do rebanho, é necessário que se faça periodicamente um exame ginecológico das fêmeas em reprodução. Para isso, há necessidade de se contratar os serviços de médicos-veterinários e, mais importante, seguir as suas recomendações técnicas. As cooperativas de laticínios da região mantêm departamentos de assistência técnica com o objetivo de prestar serviços especializados aos cooperados, especialmente na área de reprodução.

Manejo reprodutivo

O manejo reprodutivo de um rebanho é uma das atividades de maior importância dentro de um sistema de produção de leite, pois determinará sua eficiência e efetividade, tornando-o produtivo e rentável, uma vez que para a vaca iniciar uma lactação é necessária uma parição.
Os processos de acasalamentos podem ser por monta natural, monta controlada ou inseminação artificial. No processo de monta natural, utiliza-se em média um touro para cada 50 matrizes. No entanto, é recomendado um exame andrológico nos reprodutores para que se faça uma relação touro-vaca mais adequada. No acasalamento por monta natural, recomenda-se o uso de reprodutores da raça Gir Leiteiro ou Girolando, conforme a composição genética do rebanho. O uso de reprodutores da raça Holandesa é recomendado somente nos sistemas em que a inseminação artificial será utilizada, pois touros dessa raça não se adaptam bem às condições climáticas do Acre, passando por um intenso estresse térmico, o que afeta diretamente sua condição reprodutiva. É importante salientar ainda que touros da raça Holandesa só devem ser utilizados em matrizes com elevado grau de sangue zebuíno.
No sistema de monta controlada, os reprodutores são criados separados das matrizes. Nesse sistema, as matrizes, quando manifestam estro (cio), são separadas e conduzidas ao curral de acasalamento para o reprodutor realizar a cobertura.
Para utilização da inseminação artificial, as vacas devem ser inseminadas a partir de 45 dias após o parto e são observadas quanto à manifestação de estro pelo menos duas vezes ao dia, preferencialmente pela manhã e à tarde. As matrizes que apresentam estro pela manhã serão inseminadas no mesmo dia ao final da tarde e aquelas que apresentam cios à tarde serão inseminadas na manhã do dia seguinte. Matrizes que foram inseminadas duas vezes e não ficaram gestantes deverão passar por exame ginecológico para diagnosticar um possível problema reprodutivo e, então, serem submetidas a tratamento ou descartadas.
Tanto para a observação dos estros quanto para a execução da inseminação propriamente dita, é necessário um funcionário bem-treinado. Para melhorar a eficiência na observação de estros, recomenda-se o uso de rufiões (machos de baixo valor zootécnico, de preferência mestiços de sangue europeu, que passaram por cirurgia para impossibilitar a realização do coito). Esses animais permitem aumentar o número de vacas inseminadas no rebanho, pois permanecem o tempo todo com elas, possibilitando assim a identificação daquelas que manifestaram estros noturnos ou silenciosos, por exemplo. Adicionalmente, o uso de buçal marcador facilita ainda mais a identificação. Esse dispositivo é acoplado a um cabresto contendo um reservatório de tinta para marcar o dorso das vacas em estro que aceitaram a monta.
Independentemente do processo de acasalamento utilizado (monta natural, monta controlada ou inseminação artificial), é importante que um médico-veterinário capacitado realize periodicamente o diagnóstico de gestação nos animais, possibilitando avaliar a eficiência reprodutiva e detectar o mais rápido possível algumas vacas com problemas reprodutivos. Essa ação permite o levantamento de índices de prenhez ou de retorno de cio e, consequentemente, a avaliação da eficiência reprodutiva do rebanho.
Uma alternativa mais recente de biotecnologia reprodutiva é a inseminação artificial em tempo fixo (IATF). Essa técnica consiste na utilização de hormônios em dias específicos com o intuito de sincronizar a ovulação (fazer com que as vacas ovulem no mesmo dia). Dessa maneira é possível realizar a inseminação sem observar o estro, facilitando muito o manejo da propriedade. No entanto, sua adoção deve ser feita de forma criteriosa, sempre sob a supervisão de um médico-veterinário e de acordo com as condições de manejo de cada propriedade. Caso essas condições não sejam levadas em consideração, os resultados podem ser insatisfatórios, gerando por consequência um prejuízo econômico para o produtor. Essa técnica, se bem- aplicada, pode servir ainda para o planejamento do número de vacas inseminadas durante o ano e, consequentemente, o número de vacas lactantes no ano seguinte, evitando uma grande flutuação na produção leiteira anual, além de manter um número adequado de parições todo mês.
Para que um rebanho leiteiro tenha boa eficiência reprodutiva é indispensável que fatores como nutrição, sanidade, mão de obra e controle zootécnico estejam sendo acompanhados, contribuindo diretamente para que as matrizes tenham períodos de serviço (da parição até a concepção) de cerca de 90 dias, possibilitando um parto por ano.
O escore de condição corporal (ECC) desejável de uma vaca varia conforme a fase produtiva em que se encontra. Recomenda-se que, à parição, o ECC esteja entre 3,5 e 4,0. Isso evita que o animal tenha problemas durante o parto e puerpério. Durante os primeiros meses pós-parto esse escore cairá para 2,5 e com a evolução da lactação o animal deve recuperar seu escore para 3,0 ou 3,5, permanecendo nesse patamar durante o período seco até o próximo parto.
Uma atenção especial deve ser dada à nutrição da matriz no pós-parto para que não haja uma acentuada perda de peso e, consequentemente, de escore corporal, uma vez que quanto maior for a queda do ECC, menor será a taxa de concepção. De acordo com Wattiaux (1994), foi observado um efeito da perda do ECC no início da lactação na taxa de concepção. Quando a perda foi de menos de uma unidade, de uma a duas unidades e mais do que duas unidades, as taxas de concepção foram, respectivamente, 50%, 34% e 21%.
Com mão de obra e controle zootécnico bem-aplicados é possível identificar problemas que porventura venham a ocorrer no rebanho. Além disso, esse controle servirá como ferramenta de seleção, permitindo identificar os animais mais produtivos, mantendo-os no rebanho, e usá-los intensamente na reprodução. Aqueles com baixa produção poderão ser descartados. Com a mão de obra eficiente identificam-se os possíveis problemas a tempo, permitindo que as soluções sejam aplicadas rapidamente para que o sistema de produção não perca rentabilidade econômica.

11.1. Manejo das bezerras

No sistema de produção de leite, uma atenção especial deve ser dada às bezerras nascidas na propriedade, uma vez que serão a principal fonte de animais para reposição do rebanho. Sendo assim, devem ser bem-criadas, tendo um bom ganho de peso para que possam chegar à puberdade em idade adequada e sem problemas sanitários, conforme detalhamento apresentado a seguir:
Logo após a parição: as bezerras devem ingerir o colostro até 12 horas após o nascimento, pois é rico em nutrientes e contém imunoglobulinas, que são anticorpos prontos para combater diversos patógenos, evitando o surgimento de doenças.  Após esse período, as bezerras são conduzidas e mantidas em bezerreiros calçados e cobertos, até completarem 15 dias, quando passam a ocupar piquetes coletivos ligados aos bezerreiros. Diariamente, são levadas à sala de ordenha para mamarem em um teto e realizarem o repasse nos demais tetos. Durante a ordenha, ficam em boxe ao lado da mãe. Essa ação será processada até os 60 dias de idade.
Desmama: conforme preconizado neste sistema de produção, recomenda-se utilizar a desmama precoce, em que o bezerro deverá ser desmamado quando estiver consumindo de 500 g a 600 g de concentrado diariamente, aos 60 dias de idade. Porém, em propriedades que utilizam o aleitamento natural convencional, as crias deverão ser desmamadas aos 8 meses de idade. As fêmeas devem apresentar um bom desenvolvimento ponderal quando desmamadas, evitando perda de peso e garantindo um bom desempenho reprodutivo. Nessa fase, o índice de mortalidade em torno de 2% a 3% é o máximo esperado para um rebanho bem-manejado.
Puberdade: após o desmame, o bom manejo alimentar deve continuar, pois aos 12 meses ocorre o início da puberdade. Assim, a boa alimentação beneficiará o desenvolvimento adequado do aparelho reprodutor e a produção de hormônio para iniciar a vida reprodutiva. O amadurecimento do aparelho reprodutor e a produção de hormônios provocam a manifestação dos primeiros estros, com a demonstração de fêmeas subindo uma nas outras. No entanto, esses estros normalmente são inférteis, sem ovulação. Por isso, é importante avaliar o tamanho e principalmente o peso dos animais para evitar que uma novilha pré-púbere seja inseminada, o que acarretará prejuízos econômicos.
Manejo das novilhas: o desenvolvimento das novilhas tem uma importância significativa para que o sistema de produção tenha lucratividade, pois substituirão as descartadas. É desejável um índice de descarte em torno de 20%, sendo as novilhas substituídas por aquelas do próprio rebanho ou ainda por animais adquiridos de outros criatórios. No entanto, os animais de outros criatórios devem ser selecionados de forma criteriosa, tendo sempre capacidade produtiva maior do que a média do rebanho, permitindo assim um aprimoramento genético do plantel.
Idade à cobertura: pode ser um demonstrativo de que os manejos reprodutivo, nutricional e sanitário foram aplicados corretamente no rebanho. O ideal é que as novilhas sejam cobertas entre 18 e 24 meses, quando alcançam cerca de 300 kg de peso vivo. Com isso, a fêmea chegará com a idade ao primeiro parto em torno de 27 e 33 meses e com um ECC em torno de 3,5 a 4 (de regular a bom). 





15 de mai de 2017

Alimentação de vacas em lactação e Touros



Alimentação de vacas em lactação

Um sistema de alimentação para vacas em lactação, para ser implementado, é necessário considerar o nível de produção, o estágio da lactação, a idade da vaca, o consumo esperado de matéria seca, a condição corporal, tipos e valor nutritivo dos alimentos a serem utilizados.
O estágio da lactação afeta a produção e composição do leite, o consumo de alimentos e mudanças no peso vivo do animal.
Nas duas primeiras lactações da vida de uma vaca leiteira, deve-se fornecer alimentos em quantidades superiores àquelas que deveriam estar recebendo em função da produção de leite, pois estes animais ainda continuam em crescimento, com necessidades nutricionais bastante elevadas. Assim, recomenda-se que aos requerimentos de mantença sejam adicionados 20% a mais para novilhas de primeira cria e 10% para vacas de segunda cria.
Recomenda-se alimentar as vacas primíparas separadas das vacas mais velhas. Este procedimento evita a dominância, aumentando o consumo de matéria seca.
As vacas não devem parir nem excessivamente magras nem gordas. Vacas que ganham muito peso antes do parto apresentam apetite reduzido, menores produções de leite, distúrbios metabólicos como cetose, fígado gorduroso e, deslocamento do abomaso, além de baixa resistência aos agentes de doenças.
Um plano de alimentação para vacas em lactação deve considerar os três estádios da curva de lactação, pois as exigências nutricionais dos animais são distintas para cada um deles.

Alimentação no terço inicial da lactação
As vacas, nas primeiras semanas após o parto, não conseguem consumir alimentos em quantidades suficientes para sustentar a produção crescente de leite neste período, até atingir o pico, o que ocorre em torno de cinco a sete semanas após o parto. O pico de consumo de alimentos só será atingido posteriormente, em torno de nove a dez semanas pós-parto. Por isso, é importante que recebam uma dieta que possa permitir a maior ingestão de nutrientes possível, evitando que percam muito peso e tenham sua vida reprodutiva comprometida.
Devem ser manejadas em pastagens de excelente qualidade e em quantidade suficiente para permitir alta ingestão de matéria seca. Para isto, o manejo dos pastos em rotação é prática recomendada e para o estabelecimento de um sistema pastejo rotativo.
Deve-se fornecer volumoso de boa qualidade com suplementação, com concentrados e mistura mineral adequada. Vacas de alto potencial de produção devem apresentar um consumo de matéria seca equivalente a pelo menos 4% do seu peso vivo, no pico de consumo.
Vacas que são ordenhadas três vezes ao dia, consomem 5 a 6% mais matéria seca do que se ordenhadas duas vezes ao dia.
Para vacas mantidas a pasto, durante o período de menor crescimento do pasto, há necessidade de suplementação com volumosos: capim-elefante verde picado, cana-de-açúcar adicionada de 1% de uréia, silagem, feno ou forrageiras de inverno. Para vacas de alta produção leiteira ou animais confinados, forneça silagem de milho ou sorgo à vontade.
Uma regra prática para determinar a quantidade de volumoso a ser fornecida é monitorar a sobra ou o excesso que fica no cocho. Caso não haja sobras ou se sobrar menos do que 10% da quantidade total fornecida no dia anterior, aumente a quantidade de volumoso a ser fornecida. Caso haja muita sobra, reduza a quantidade.
Para cada dois quilogramas de leite produzidos, a vaca deve consumir pelo menos um quilograma de matéria seca. De outra forma, ela pode perder peso em excesso e ficar mais sujeita a problemas metabólicos.

O concentrado para vacas em lactação deve apresentar 18 a 22% de proteína bruta (PB) e acima de 70% de nutrientes digestíveis totais (NDT), na base de 1 kg para cada 2,5 kg de leite produzidos. Pode-se utilizar uma mistura simples à base de milho moído e farelo de soja ou de algodão, calcário e sal mineral ou, dependendo da disponibilidade, soja em grão moída ou caroço de algodão. Algumas opções para formulação de concentrado são apresentadas na 
Vacas de alta produção de leite manejadas a pasto ou em confinamento precisam ter ajustes em seu manejo e plano alimentar. Para vacas com produções diárias acima de 28-30 kg de leite, deve-se fornecer concentrados contendo fontes de proteína de baixa degradabilidade no rúmen, como farinha de peixe, farelo de algodão, soja em grão moída, tostada, etc.
Vacas com produções acima de 40 kg de leite por dia, além de uma fonte de gordura, como caroço de algodão, soja em grão moída ou sebo, devem receber gordura protegida (fonte comercial) para elevar o teor de gordura da dieta total para 7-8%. Essas vacas devem receber uma quantidade diária de gordura na dieta equivalente à quantidade de gordura produzida no leite. 

Dieta completa é uma mistura de volumosos (silagem, feno, capim verde picado) com concentrados (energéticos e protéicos), minerais e vitaminas. A mistura dos ingredientes é feita em vagão misturador próprio, contendo balança eletrônica para pesar os ingredientes. Muito usada em confinamento total, tem a vantagem de evitar que as vacas possam consumir uma quantidade muito grande de concentrado de uma única vez, o que pode causar problemas de acidose nos animais. Além disso, recomenda-se a inclusão de 0,8 a 1% de bicarbonato de sódio e 0,5% de óxido de magnésio na dieta total, para evitar problemas com acidose.
O melhor teor de matéria seca da ração total está entre 50 e 75%. Rações mais secas ou mais úmidas podem limitar o consumo. Por isso, o teor de umidade da silagem deve ser monitorado semanalmente, se possível.
Normalmente, as vacas se alimentam após as ordenhas. Mantendo a dieta completa à disposição dos animais nesses períodos, pode-se conseguir aumento do consumo voluntário.
Para reduzir mão-de-obra na mistura de diferentes formulações para os grupos de vacas com diferentes produções médias, a tendência atual é de se formular uma dieta completa com alto teor energético e com nível de proteína não-degradável que atenda o grupo de maior produção de leite. Os demais grupos, vacas no terço médio e vacas em final de lactação, naturalmente já controlariam o consumo, ingerindo menos matéria seca.
Para assegurar consumo máximo de forragem, principalmente na época mais quente do ano, deve-se garantir disponibilidade de alimentos ao longo do dia. Deve-se encher o cocho no final da tarde, para que os animais possam ter alimento fresco disponível durante a noite. Dessa forma as vacas podem consumir o alimento num horário de temperatura mais amena.
A relação concentrado/volumoso é maior para vacas de maior produção de leite. De uma forma mais generalizada, sugere-se, na tabela abaixo, as relações concentrado/volumoso.

Tabela 9.
Produção de leite
(kg/dia)
Concentrado
%
Volumoso
%
Até 14
30-35
65-70
14 a 23
40
60
24 a 35
45
55
36 a 45
50-55
45-50
Acima de 45
55-60
40-45

Deve-se tomar o cuidado de retirar restos de alimentos mofados do cocho antes de fornecer nova alimentação.

Para animais mantidos a pasto, o método mais prático de suplementar minerais é deixando a mistura (comprada ou preparada na própria fazenda) disponível em cocho coberto, à vontade.
Para vacas em lactação e animais que são mantidos em confinamento, é mais seguro e garantido incluir a mistura mineral no concentrado ou na dieta completa.

Vacas em lactação requerem uma quantidade muito grande de água, uma vez que o leite é composto de 87 a 88% de água. Ela deve estar à disposição dos animais, à vontade e próxima dos cochos. Normalmente as vacas consomem 8,5 litros de água para cada litro de leite produzido. Quando a temperatura ambiente se eleva, nos meses de verão, o consumo de água aumenta substancialmente.

Neste período, as vacas já recuperaram parte das reservas corporais gastas no início da lactação e já deveriam estar enxertadas. A produção de leite começa a cair e as vacas devem continuar a ganhar peso, preparando sua condição corporal para o próximo parto.
O fornecimento de concentrado deve ser feito com 18 a 20% de proteína bruta, na proporção de 1 kg para cada 3 kg de leite produzidos acima de 5 kg, na época das chuvas, e a mesma relação acima de 3 kg iniciais de leite produzido, durante o período seco do ano, conforme tabela abaixo.

Tabela 10.
Produção de leite
(kg/vaca/dia)
Quantidade Concentrado
(kg/vaca/dia)
Época das "águas"
Época seca
3 a 5
-
1
5 a 8
1
2
8 a 11
2
3
11 a 14
3
4
14 a 17
4
5
17 a 20
5
6

Alimentação no terço final da lactação
Neste período as vacas devem recuperar suas reservas corporais e a produção de leite já é bem menor que nos períodos anteriores. Deve-se alimentar as vacas para evitar que ganhem peso em excesso, mas que tenham alimento suficiente, principalmente na época seca do ano, para repor as reservas corporais perdidas no início da lactação. É o período em que ocorre a secagem do leite, encerrando-se a lactação atual e o início da preparação para o próximo parto e lactação subseqüente. 

Alimentação no período seco
É o período compreendido entre a secagem e o próximo parto. Em rebanhos bem manejados, sua duração é de 60 dias. É fundamental para que haja transferência de nutrientes para desenvolvimento do feto, que é acentuado nos últimos 60 - 90 dias que precedem o parto, a glândula mamária regenere os tecidos secretores de leite e acumule grandes quantidades de anticorpos, proporcionando maior qualidade e produção de colostro, essencial para a sobrevivência da cria recém-nascida.
O suprimento de proteína, energia, minerais e vitaminas é muito importante, mas deve-se evitar que a vaca ganhe muito peso nesta fase, para reduzir a incidência de problemas no parto e durante a fase inicial da lactação. Isso se deve, principalmente, à redução na ingestão de alimentos pós-parto, o que normalmente se observa com vacas que parem gordas.
Nas duas semanas que antecedem ao parto deve-se iniciar o fornecimento de pequenas quantidades do concentrado formulado para as vacas em lactação, para que se adaptem à dieta que receberão após o parto. As quantidades a serem fornecidas variam de 0,5 a 1% do peso vivo do animal, dependendo da sua condição corporal.
O teor de cálcio da dieta de vacas no final da gestação deve ser reduzido para evitar problemas com febre do leite após o parto. A mistura mineral (com nível baixo de cálcio) deve estar disponível, à vontade, em cocho coberto.

Alimentação de touros
Os touros devem receber volumosos de boa qualidade, além de 2 kg de concentrado com 65% de NDT (nutrientes digestíveis totais) e cerca de 18% de proteína. O concentrado fornecido às vacas secas ou novilhas pode ser usado.
Acesso a piquete para exercício; se houver disponibilidade de pasto de boa qualidade para isso será melhor ainda.
Limitar o fornecimento de feno a 7 - 10 kg/dia e, se usar a silagem de milho ou sorgo, fornecer no máximo 7 kg/dia.