20 de ago. de 2016

O CULTIVO DA TILÁPIA



O CULTIVO DA TILÁPIA 

A Água 
 Além dos parâmetros de qualidade físico/química, deve-se considerar outros, como por exemplo: ser livre de contaminantes (agrotóxicos, ovos, larvas ou peixes indesejáveis ao cultivo, argila, etc). A origem da água do abastecimento necessita ser externa ao viveiro, para permitir controle do volume e da qualidade. 
A criação segura de tilápias necessitará para cada hectare de viveiro, o mínimo de 15 l/s (litros por segundo) de vazão. A ocorrência de argila em suspensão pode atingir teores que demandem controle, utilizando-se para isto o gesso agrícola. Para determinar a quantidade de gesso, utiliza-se o teste comparativo em garrafas. A água da garrafa que ficar transparente com a menor dose determinará a quantidade de gesso a ser utilizada.

Parâmetros de qualidade da água para tilápia

 INDICADOR IDEAL FREQUÊNCIA 
Temperatura da água 26-28 o . C. Diária 
Oxigênio da água 3 - 6 mg/l Quinzenal* 
Transparência da água 25 35 cm Semanal/diária 
Alcalinidade da água 30 - 40 mEq/l Mensal 
pH da água 7,0 - 8,5 Semanal* 
Amônia até 0,5 mg/l Semanal 

As decisões relativas ao manejo da água e da criação são tomadas tendo em vista um conjunto de fatores. Desta forma. Considerando o viveiro um organismo vivo “, ele é um resultado da interação de vários fatores. Se alterarmos, ou por qualquer razão, houver um desequilíbrio de um deles, todos os demais também serão influenciados. Entender estas correlações é fundamental para o sucesso da criação”. Com o avanço do cultivo, espera-se maior dificuldades em manter a transparência acima de 20 cm, e isto demandará maior atenção da tilapicultor para tomar as medidas apropriadas oportunamente. 

Temperatura 

O viveiro é um sistema biológico e por esta razão está diretamente ligado as variações da temperatura. É a temperatura que determina a intensidade do metabolismo dos organismos vivos no viveiro. A tilápia desenvolve-se bem na temperatura de água entre 26 a 28ºC. Os demais organismos vivos (fito e zooplancton, etc), que estão presentes nos viveiros, são importantes para a tilápia e precisam ser mantidos em condições adequadas ou desejáveis. O desenvolvimento destes organismos é influenciado pela disponibilidade e equilíbrio dos nutrientes e também pela temperatura. Para se buscar o melhor crescimento dos peixes é necessário administrar o conjunto peixe x água, dando a cada um as condições para o desenvolvimento equilibrado. Nos períodos do ano em que as temperaturas são mais altas, a água do viveiro pode atingir níveis superiores aos limites confortáveis (28ºC). Acima de 30ºC observar as reduções da taxa de alimentação, fornecendo alimentos em horários de temperaturas mais amenas e confortáveis. Iniciar o processo de renovação de água. No caso do inverno as reduções da temperatura são normalmente bruscas, mas o metabolismo da tilápia (e dos demais organismos também) mantém a mesma atividade, decrescendo gradativamente. É fundamental o acompanhamento diário para que o fornecimento de alimento seja reduzido na proporção da redução do apetite. A tabela de alimentação é a melhor referência para orientar este processo. Da mesma maneira, as temperaturas no final do inverno também se elevam rapidamente, mas o metabolismo da tilápia ainda não está bem adaptado. Devese esperar um período de pelo menos 30 dias com as temperaturas acima de 22º C, para qualquer procedimento de manejo, especialmente de juvenis.

Oxigênio 

 As fontes de oxigênio num viveiro de criação de tilápia são: o contato com o ar, o fitoplâncton, a renovação de água e também os equipamento aeradores elétricos. A quantidade de oxigênio disponível é que determina a capacidade do viveiro em manter equilibrado (vivo) os peixes e os demais organismos. O oxigênio produzido e acumulado no viveiro durante o dia é consumido durante a noite. Inspeções no viveiro nas primeiras horas de luz permitem identificar problemas de desequilíbrio e tomar decisões oportunas. A partir de 600g (peso/m3 ) de biomassa e dependendo das demais condições do viveiro, deve-se considerar o uso do aerador. Dias nublados (chuvosos) apresentam menor produção de oxigênio (menor taxa de fotossíntese das algas presentes na água). 

Transparência 

É um indicador de nutrientes e de sólidos (argila) em suspensão. Em águas de coloração esverdeada a transparência ideal é de 25-35 cm. Indica a produção primária do viveiro, que é determinante no fornecimento de oxigênio, indica também a penetração da luz solar na coluna de água. A produção primária em quantidade e qualidade é importante para o equilíbrio do sistema e o fornecimento de alimento para a tilápia, especialmente na fase inicial. É indesejável que haja grandes variações nesta medida. Abaixo de 25 cm, indica excesso de matéria orgânica, possibilidade de desequilíbrio e falta de oxigênio pelo excesso de consumo e até mortalidade de tilápia. Neste caso o procedimento é intensificar a renovação de água, reduzir a alimentação e observar o comportamento da criação. 
Acima de 40 cm indica um sistema empobrecido, mas a adição de nutriente via adubos químicos ou dejetos orgânicos necessita de critérios como: temperatura, renovação de água e profundidade do viveiro. 

Alcalinidade 

 Tanto quanto a dureza e o gás carbônico, a alcalinidade é um parâmetro que indiretamente indica o equilíbrio do pH do sistema, além de indicar a disponibilidade de cálcio e magnésio que são essenciais para o desenvolvimento dos organismos aquáticos. Na região Oeste do Paraná as águas apresentam baixos valores para alcalinidade (< 15 mg/l). A calagem é o procedimento para a elevação da alcalinidade e a análise de solo é que determina a quantidade a ser aplicada no solo do fundo do viveiro. Uma regra prática é adicionar 500-600g/m2 de calcário, que de maneira geral eleva a alcalinidade para 35 a 40 mg/l, com pequenas taxas de renovação de água (5%). 

pH 

Temos que ter em mente que o pH, por si só, não nos dá, com clareza, uma indicação da qualidade e do equilíbrio do sistema. O pH varia de acordo com as horas do dia, influenciado pelas reações químicas que naturalmente ocorrem no viveiro. Por isso pode-se dizer que grandes variações (6,0 de manhã e 9,5 à tarde) são um sinal de problemas e desenvolvimento dos peixes abaixo do potencial. A calagem bem feita é um fator de equilíbrio. O pH deve situar-se entre 6,5 e 9,5. 

 Amônia 

Ocorre pelo excesso de matéria orgânica e é um sinal de que se perdeu o momento de agir ou de que houve erro na adubação. Somente é corrigido pela renovação da água do viveiro. A calagem direta na água durante o cultivo, quando há ocorrência de amônia, piora o problema, pois a amônia é ainda mais tóxica em pH elevado (>7,0). Existem outros parâmetros de qualidade de água que podem ser utilizados, entretanto requerem mais conhecimento, pois como já foi observado, há uma estreita correlação entre os fatores que influenciam no comportamento dos organismos presentes nos viveiros e da tilápia. 

Adubação 

Assim como o solo que é corrigido para atingir condições ideais para as culturas, a água de cultivo necessita receber corretivos (adubação, química/orgânica e calcário) para que atinja os parâmetros ideais para o desenvolvimento da tilápia.
A adubação efetiva que mais contribui com a performance do viveiro, é aquela feita no solo e que visa corrigir principalmente o pH. A análise do solo é o referencial para este procedimento. A adubação química e orgânica tem por objetivo suprir de nutrientes o desenvolvimento dos organismos (plâncton) que representam a produção primária. Dentre eles as algas (fitoplâncton) são os mais importantes, por serem produtoras de oxigênio e alimento do zooplâncton. O uso preferencial da adubação orgânica é justificado pelo baixo custo, fácil disponibilidade e pelos bons resultados a campo. A adubação orgânica tem o objetivo de manter a fertilidade inicial até que a tilápia atinja mais ou menos o peso de 100g. As dosagens de reposição depois do enchimento e povoamento devem levar em consideração a biomassa. Após as 100g, o fornecimento de alimento artificial e a dinâmica do sistema se encarregarão de manter a produção primária até ao final do cultivo, o que deve ser monitorado.

Adubação Orgânica do Solo 
esterco Quantidade 
Aves 300 (g/m2 ) 
Suínos 400 (g/m2 ) 
Chorume suínos 10 l/m2 
Bovinos 600 (g/m2 ) 

A Tilápia (Oreochromis niloticus) 

 A espécie de peixe que apresenta o melhor perfil para cultivo em todo mundo é a nilótica, de origem africana. Os primeiros exemplares que iniciaram o cultivo no Oeste do Paraná em 1982 vieram da Costa do Marfim, de uma linhagem chamada Buaque. Atualmente predomina a linhagem Chitralada de origem tailandesa importada em 1996. É utilizada tanto em cultivos puros como em cruzamentos com as primeiras, chamadas de “nativas". Em qualquer dos casos os resultados no Oeste do Paraná, não evidenciam a campo, rendimentos significativamente diferentes. Trata-se de uma espécie onívora que aceita com facilidade vários tipos de alimento, dócil ao manejo em todas as fases de cultivo, boa rusticidade, prolífica e de fácil domínio da reprodução, precoce, com alta qualidade de carne (filé). Estas são basicamente as razões da opção por esta espécie a exemplo do que acontece nos demais continentes.

Manejo da criação 

Reprodução 

 Criadores especializados - os alevinocultores – é que mantém um plantel de reprodutores e fornecem alevinos aos demais criadores: os piscicultores terminadores. Para maior rendimento, somente os machos - porque tem maior crescimento – são cultivados. Para obter esta população, as larvas são 
submetidas ao processo de reversão sexual e após 30 dias estão prontas para iniciar a fase seguinte: o cultivo. Para o sucesso do cultivo não se recomenda o povoamento de viveiros de engorda com peixes de peso inferiores a 25g, chamados de juvenis. 

A produção do juvenil 

O criador pode optar por adquirir os juvenis de outro criador especializado ou produzir o seu próprio juvenil na propriedade. Em ambos os casos, alguns cuidados são fundamentais: procedência/idoneidade da estação produtora de alevinos; garantia do índice mínimo de reversão sexual de 98%; lotes homogêneos (mesma idade e tamanho) e livre de doenças. Os viveiros de produção de juvenis podem ser considerados como uma “quarentena” pois em aproximadamente 40 dias terão tamanho/peso adequado para povoar os viveiros de engorda. Por esta razão a água que sai do berçário não deve ser utilizada por outros viveiros como forma de evitar a disseminação ou contágio. Se ocorrer algum problema sanitário o viveiro e a água devem ser tratados. Estima-se uma perda variável na produção dos juvenis (predadores, oscilações térmicas, doenças, má qualidade da água, etc) em torno de 20%. Para uma área de 1 hectare (10 000 m2 ) seriam necessários aproximadamente 31.000 alevinos, para obter-se 25 000 juvenis para a engorda (2,5 juvenis/m2 ). Considerando-se que, para o bom desenvolvimento dos alevinos no berçário a biomassa de peixe não deve ser superior a 400g, calculamos que uma piscicultura com um hectare de viveiros para engorda necessitará de 1875m2 ou, aproximadamente de 2000m2 de viveiros-berçário distribuídos em número adequado à programação de produção e ao número de viveiros de engorda. 

Recomendações gerais para os viveiros-berçário ƒ 


  • Localização privilegiada para proteção contra predadores e para acesso do tratador; ƒ 
  • Evitar trocas de água, para não perder nutrientes primários importantes no equilíbrio do ambiente. Na maioria dos casos a manutenção do volume já é suficiente. ƒ 
  • A estabilidade dos parâmetros físico/químico e nutricionais é determinante do desenvolvimento do juvenil e repercutirá na fase posterior: a engorda; ƒ 
  • A programação da produção (e da comercialização) somente será possível com o domínio da disponibilidade de juvenis; ƒ 
  • Se a produção de juvenis coincidir com a estação do inverno, a mortalidade poderá ser maior que 20%. Neste caso manter a adubação em níveis adequados, evitar a entrada de água superficial; manter os alevinos em viveiros mais profundos ou manter o berçário com o nível máximo de água e ainda utilizar 1000 mg de vitamina C por quilo de ração. ƒ 
  • Efetuar uma padronização por peso/tamanho ao transferir para o viveiro de engorda. Este momento precisa ser rápido, sem comprimir os peixes visando o mínimo dano (estresse, perda de escamas, amassamento, etc) sem descuidar da temperatura e oxigenação da água; ƒ 
  • Se necessário os juvenis podem passar por um banho profilático de 5 a 10 minutos em solução salina a 2% (2 kg de sal para 100 litros de água); ƒ 
  • A alimentação é dependente da temperatura e é fundamental que, durante o período de berçário os alevinos recebam alimento no mínimo 3 vezes ao dia em quantidade determinada pela tabela de alimentação. Nesta fase o diâmetro das partículas vai de finamente farelada até máximo de 2 mm e o teor de proteína de 40 – 45%.
Manejo da criação Engorda 

 Preparo do viveiro 

Após a despesca fazer a manutenção de barragens, monges e canais. Coletar amostra de solos. Proceder a desinfecção dos viveiros com cal virgem (200g/m2 ). . De 14 a 21 dias antes do enchimento, corrigir com calcário elevando a saturação de bases. Viveiros pobres em matéria orgânica (carbono abaixo de 2%) fertilizar com adubos orgânicos. . Para melhorar a produção primária, encher os viveiros gradativamente, inicialmente até ¾. 

Povoamento 

Efetuar uma análise das condições do viveiro antes da soltura dos juvenis, assegurando-se de que se encontra adequado ao povoamento. - Evitar este procedimento quando a temperatura da água for inferior a 22o C e quando for muito quente (horas mais quentes do dia). Submeter os juvenis (no berçário) a um jejum de 24 horas anteriores ao manejo (padronização e transferência para engorda). Manter o mesmo padrão (tipo, quantidade, freqüência) de alimentação por uma semana. É esperado um “ganho compensatório”, que é um crescimento acelerado (ganho de peso) provocado pela saída de um ambiente de restrição para outro mais favorável, com mais alimento e espaço. Mas não significa que manterá este desenvolvimento ao longo do cultivo, e por esta razão o piscicultor não deve abandonar a tabela de alimentação. Outro momento em que se observa este crescimento compensatório, ocorre na saída do inverno, quando os peixes saem da restrição provocada pelas baixas temperaturas que reduzem o metabolismo. Deve-se estabelecer um procedimento para anotações das informações econômicas: despesas & receitas e indicadores de desenvolvimento da criação: volume diário de ração, uso de outros insumos, além dos demais parâmetros de qualidade de água e das variações climáticas. 

Alimentação 

Como na maioria das atividades pecuária, a alimentação é o que mais pesa no custo de produção. Representa de 68 a 79% do custo total de produção. A conversão alimentar da tilápia nas propriedades acompanhadas da Rede de Referência e no Processo Piscicultura, situou-se em torno de 1,3 (kg de ração/kg de peixe produzido). As tabelas de alimentação (Quadro 4) são confeccionadas, tendo em vista os requerimentos nutricionais totais. No caso de viveiros escavados a produção de alimento natural pode ser considerada, de acordo com o histórico do viveiro e com a recomendação do assistente técnico, levando a uma redução no fornecimento de ração que terá grande impacto nos custos. As trocas de ração podem ocorrer por: mudança no tamanho do pelete, teor de proteína, tipo (extrusada – peletizada) ou fabricante. Nestes casos a recomendação é que a mudança seja gradativa para que o peixe se adapte e não haja perda de ração e de crescimento. No povoamento, os peixes devem receber rações com 32% PB (2,5 -3,0 mm). Após atingir 100 g recomenda-se o fornecimento de rações com 28% PB (4,0 -5,0 mm) até o final do cultivo. A freqüência de alimentação recomendada é de 2 vezes ao dia. 

As condições climáticas interferem sensivelmente na velocidade do crescimento. Mas a obtenção de um lote de tilápia com 450 g num prazo de 150 dias de cultivo em média está condicionada a: Qualquer fator de estresse: mudança na cor da água, manejo nos peixes; predadores; peixes em reprodução etc; podem alterar o comportamento dos peixes, afetando o apetite (ingestão de alimento) e prejudicando o crescimento. Durante o inverno é recomendado o uso de ração extrusada para facilitar o acompanhamento do consumo de ração pelos peixes. 

Biometria 

O recomendável é que as biometrias aconteçam a cada 15 dias e tem como objetivo acompanhar o desenvolvimento e ajustar a quantidade de alimento. O número de peixes amostrados deve ser de 75 a 100 indivíduos para que a amostra seja representativa. Cabe aqui uma ressalva: os cichlideos, como a tilápia, tem comportamento territorialista que pode “mascarar” a amostragem se capturados os mais agressivos (também maiores), pois por maior cuidado que se tome na homogeneização do lote, no final do cultivo observamos pelo menos três classes: os maiores (+ ou - 15%) os médios (+ ou – 70%) e os menores (+ou - 15%). Esta informação dá uma idéia do que ocorreu dentro do viveiro durante o cultivo. Quanto maior a diferença, maior o prejuízo no momento da comercialização, devido à presença de peixes pequenos no lote. A biometria é um “manejo de peixes” e não deve ser feita com temperaturas de água inferiores a 20o C, que é uma situação típica da estação de inverno, onde os períodos de baixa temperatura são longos. O manejo nestas condições é um fator de estresse que vai expor o peixe a doenças, pois já estão numa condição de baixa resistência. No Quadro 6, são apresentados dados observados em propriedades da Região Oeste do Paraná. A média ponderada destes lotes leva a constatação de que “o que se fala, não é o que se tem” pois, no momento da despesca/comercialização, falta critério para se apurar a média real dos peixes retirados do viveiro. Desta forma fica demonstrada a importância da homogeneização (tamanho e idade) na hora do povoamento para manter o crescimento durante a engorda. O manejo inadequado na engorda pode novamente provocar uma desuniformidade do lote, pondo a perder o trabalho inicial de padronização.

Reprodução da tilápia durante a engorda 

A priori, utilizamos alevinos de boa procedência e com o mínimo de 98% de machos e 2% de fêmeas. Pode ocorrer reprodução indesejada durante a engorda. Esta reprodução pode ser controlada com o uso de peixes piscívoros e outros procedimentos complementares: 1 – o tamanho do predador não pode por em risco o peixe em cultivo. Uma regra prática para definir o tamanho do peixe predador é não ser maior que o peixe que está sendo cultivado. 2 – utilizar ração extrusada de tamanho 5mm, para evitar sobras para os peixes nascidos no viveiro. 

A Despesca 

Este é o momento que se poderia chamar de “hora da verdade”. O manejo dos peixes na despesca é tão importante quanto durante o cultivo, pois se realizado de forma incorreta, poderá causar estresse e comprometer a sobrevivência no transporte. 

Preparo para a despesca 

O ajuste com o transportador quanto ao dia e a hora do carregamento é a primeira providencia para que se determine os demais procedimentos. 
1 - jejum de 24 horas anteriores ao carregamento - períodos maiores podem levar os peixes a procurar alimento no fundo do viveiro, o que fará com que sejam embarcados com conteúdo estomacal/intestinal indesejável ao transporte, acarretando grande mortalidade mesmo com troca de água dos contêineres, além de comprometer a qualidade da carne no caso de filetagem. 
2 – Baixando o nível da água - o tempo necessário para retirar a água do viveiro, precisa ser conhecido para que sejam retirados os peixes sem comprometer a sobrevivência. A demora na retirada dos peixes pode comprometê-los em função da baixa de oxigênio, argila (lodo) em suspensão, elevação da temperatura e presença de gases tóxicos. Uma equipe treinada e materiais adequados são fundamentais para o sucesso da despesca. 
A descarga ou o procedimento que vise retirar o lodo lançando-o nos mananciais é uma prática nociva ao meio ambiente. 
A velocidade de esvaziamento do viveiro deve ser ajustada para evitar o arraste. A limpeza do fundo será necessária quando a camada for superior a 15 cm. A construção correta do viveiro é que permitirá, se necessário, a remoção do lodo, rico em nutrientes, para utilização em outras áreas. 

Comercialização 

Os principais canais de comercialização são frigoríficos e os pesque&pagues. Considerando o mercado, os fatores de oportunidade precisam ser observados para a tomada de decisão sobre o momento de efetuar a venda. A partir de 350g a tilápia entra na fase de melhor rendimento econômico para o produtor, mas o mercado é restrito. O mercado de forma geral (frigoríficos, pesque&pague, exportação) apresenta tendência a exigir peixes com peso mínimo de 500g. 
Peixes maiores são mais atrativos tanto aos pesque&pagues quanto aos frigoríficos: sãos mais procurados pelos pescadores produzem filés mais adequados a exportação e rendem mais na linha de processamento dos frigoríficos, embora não apresentem maior rendimento de filé que os peixes de 350 a 500g. 
A decisão sobre a que mercado atender ou produzir, deve levar em conta a capacidade de investimento do criador, a estrutura da propriedade e a oportunidade de negociar. 
A origem dos peixes e as boas práticas de manejo também são fatores determinantes do rendimento que a criação apresentará no momento da comercialização.

 











6 de ago. de 2016

Criação de peixes ornamentais em casa

Veja como fazer para montar uma criação de peixes ornamentais e obter lucro com o negócio. Os peixes estão na terceira posição da lista dos animais mais queridos para criação em casa. Os primeiros são os cachorros empatados com os gatos, em segundo lugar os pássaros e em terceiro, os peixes.
Mas para algumas pessoas, os queridos peixes vêm em primeiro na lista, já que são animais adoráveis para se ter em casa pela sua beleza e pela fácil criação. Os vertebrados aquáticos são tão adorados, que diversas pessoas estão fazendo da criação de peixes ornamentais uma forma de empreendimento, e dos mais bem sucedidos.
Antes que se forme o pensamento de que criar peixe para o abate é mais vantajoso, basta informar que os peixes que podem ser criados em casa para este fim são de água doce e estes não são os preferidos do público consumidor. Sem contar que o custo de manutenção, bem como a estrutura exigida é bem maior e por isso, com valor mais elevado que montar uma criação de peixes para ornamentação. Por isso, muitas pessoas têm enveredado para este ramo de empreendimento.
A criação de peixes ornamentais é chamada de piscicultura, nome dado para a criação de peixes em cativeiro. O que diferencia a criação é a finalidade dos peixes: são voltados para a criação doméstica em aquários de ornamentos, ou seja, de enfeite. As raças de peixes escolhidas são apenas para compor o visual do aquário, sendo selecionadas por sua beleza e cores.

Estrutura e investimento inicial para criação de peixes ornamentais

O primeiro passo para começar a criação de peixes ornamentais é montar uma pequena piscina, que se assemelharia a um pequeno lago quadrado, uma reprodução do ambiente natural do animal. Alguns criadores costumam fazer este espaço dentro de casa, de forma que permita o espaço atingir uma temperatura média constante em torno de 28º C. O ideal é que os pequenos lagos, que são piscinas de azulejo ou pedra, sejam cobertos para evitar chuva constante. É preciso ainda, uma bomba de água semelhante a de uma piscina para que a água seja trocada e oxigenada constantemente.
Toda essa estrutura  deve custar em torno de R$ 15 mil para ser montada, variando de acordo com o tamanho do tanque, somando a esse custo a instalando hidráulica necessária e cobertura do ambiente ou climatização em caso de cidades extremamente frias no inverno. O ideal é que ele tenha em média 40 centímetros de profundidade e dois metros de largura, para que os animais se sintam confortáveis.

Tipos de peixes para uma criação de peixes ornamentais

Depois de montada a estrutura, deve-se partir para compra dos casais reprodutores, ou seja, os peixes matriz que vão ser responsáveis por toda a criação e futuro lucro do empreendimento. Pesquise no mercado e em lojas de vendas de peixes quais os mais vendidos, bem como os típicos de sua região.
Um dos peixes mais criados em casa são os betas, que são de fácil manutenção e envolvem pouco custo com alimentação e são bem bonitos e brilhantes. O beta é um dos mais baratos para venda do criador, custando R$ 1 por peixe para o criador e R$ 10 para compra do consumidor final. O custo está na venda em alta quantidade, o que é bem fácil de se conseguir. Vale lembrar que quanto mais belo e maior o peixe, mais alto será seu valor de venda. Outra espécie que é apreciada para criação doméstica é a halfmoon, o que quer dizer meia lua em inglês devido ao seu formato no corpo. Este é um dos mais caros para venda, custando em torno de R$ 100 por peixe.
O ideal é que se escolha os peixes para criação baseados em seu público consumidor, e este é varia de região a região. Faça uma pesquisa de campo antes de fazer a compra das matrizes.

Regularização de uma criação de peixes ornamentais

O investimento inicial total varia de acordo com a raça do peixe escolhida para revenda e da estrutura de uma criação de peixes ornamentais caseira, com espaço próprio.
Para regularizar o seu negócio, é preciso fazer abertura de firma e registro em cartório e órgãos competentes para fazer a venda para lojas de animais ou mesmo clientes empresariais que exijam nota fiscal e CNPJ. É preciso ainda respeitar as normas da Vigilância Sanitária no ambiente e do Corpo de Bombeiros da região.

Começando a criação de peixes ornamentais

Comprados o casal matriz, o próximo passo é investir na acomodação adequada dos animais. Procure plantas aquáticas que se assemelhem ao ambiente natural dos bichos e assim criará uma atmosfera para que não sejam agressivos uns com os outros, estimulando a reprodução. Algumas raças, como por exemplo a Beta, não podem ser criada em viveiros no período adulto, apenas enquanto ainda se desenvolvem, pois os animais são extremamente agressivos em questão territorial.
O ideal é que se leia especificamente sobre cada raça antes de começar a criação, pois cada tipo de peixe ornamental exige cuidados específicos. Quanto à alimentação, todos são iguais, sendo preciso alimentá-los apenas uma vez ao dia com ração para peixe. Jogue na água que os animais vão se alimentando aos poucos, quando sentirem necessidade.
A quantidade considerada básica para se iniciar uma criação de peixes ornamentais é de dez casais, o suficiente para gerar mais de 100 novos peixes que também serão usados para procriação e depois, revenda. Dessa forma, o retorno do valor no investimento inicial pode surgir em menos de seis meses.
Independente do tipo de negócio que você deseja montar é muito importante fazer um planejamento. Contrate uma consultoria, estude em livros, enfim, escolha a opção que mais lhe agrada, apenas não arrisque suas economias em um chute!






29 de jul. de 2016

Peixes Ornamentais. Dicas sobre a criação


Peixes Ornamentais

Dicas para iniciantes montarem um aquário como decoração ou para eliminar o stress
Os amantes da arte de criar peixes ornamentais, os aquariófilos, atribuem ao seu hobby poderes de relaxamento e harmonia com a natureza. A criação de peixes ornamentais é muito mais simples do que se imagina e mais barata do que o custo e manutenção de um cão. Existem ainda aquários e peixes para todos os tipos de gosto e bolso. Se você está pensando em se tornar um aquariófilo, não deixe de ler as dicas abaixo para neófitos (iniciantes) e boa sorte.

Qual o tamanho do aquário?

Os fatores que determinam o tamanho do aquário são o espaço disponível no ambiente, a quantidade e tamanho dos peixes e plantas que se pretender por nele. É aconselhável um aquário com dimensões mínimas de 60 cm de largura, 35 cm de altura e 35 cm de profundidade. Ao contrário do que parece o mais óbvio, quanto maior for o aquário, melhor será a sua estabilidade biológica e mais simples se torna a sua manutenção.

Qual o espaço necessário para o peixe?

O volume do aquário deve ser de um litro de água por cada cm de peixe adulto. Se houver mais de um, os peixes têm que ser pacíficos e harmônicos entre si.

Qual a forma do aquário?

Os aquários podem ter formas variadas. A sua base pode ser circular, octogonal e triangular.
A base retangular é mais recomendada para neófitos. Compare vários tamanhos e, uma vez escolhido e para maior segurança, encha-o com água e deixe-o 2 ou 3 dias, antes de começar a sua decoração.

Quais os tipos de materiais do aquário?

Aquários com armação em alumínio - tipo de aquário com as arestas limitadas por uma moldura estável em alumínio e os vidros posicionados e fixos com silicone. Esta construção é segura contra golpes e os seus vidros podem ser um pouco mais finos, sem qualquer prejuízo.
Aquários de vidro, sem moldura - não tem armação. A espessura dos vidros, o acabamento do trabalho e a qualidade do material de fixação são importantes para sua segurança.
Aquários de vidro, de uma só peça - são mais delicados. A sua capacidade não deverá exceder os 20 litros.

Que trabalho dá cuidar de um aquário?

A aquariofilia é um passatempo, excitante ou relaxante (depende de quem a pratica), diferente e para pessoas inteligentes. Permite recuperar do stress do dia a dia e diverte-nos de uma forma instrutiva. Possibilita, ainda, a observação de um mundo que, normalmente, nos está vedado.
Simultaneamente, dá menos trabalho do que se pensa. É um pequeno mundo, de fácil manutenção e que pode ser recriado, praticamente, da forma que se quiser. Manter peixes, cria menos dependência do que a manutenção da maioria dos animais. E o aquário, não é um problema quando querermos sair de férias. Se for bem concebido, desde o início, o seu equilíbrio natural irá contribuir para que tudo esteja bem quando voltarmos. No entanto, as condições dentro de um aquário são muito diversas. Aqui, os peixes e as plantas têm que viver em conjunto, num espaço muito mais exíguo do que teriam na natureza. Cabe-nos assegurar, o melhor possível, a manutenção das condições naturais e de saúde, para os residentes deste pequeno habitat. Há algumas décadas, era grande e difícil a tarefa para manter essas condições. Mas, atualmente, com a ajuda de vários acessórios, os peixes podem ser mantidos com sucesso e sem se gastar muito tempo. Pode até dizer-se, que se o peixe tivesse hipótese de escolher, entre viver no seu ambiente natural ou no aquário (de um aquariófilo dedicado e responsável), ele escolheria a última opção. De fato, eles têm uma vida melhor e mais longa num aquário, do que na natureza.

Localização, instalações e cuidados

Localização - escolha o local para o seu aquário, antes de enchê-lo, para que não fique
muito pesado. A superfície do local deve ser plana para se evitar desníveis ou acidentes. Evite a
proximidade de janelas porque a luminosidade inadequada atrapalha os peixes e a beleza do
aquário.

Instalações - se o aquário tiver algum acessório elétrico, localize-o próximo de um ponto de
força.

Cuidados - limpe o aquário com esponja e evite o uso de detergentes; em seguida, enxugueo
cuidadosamente, antes de reutilizá-lo. Deve-se manter a temperatura do aquário entre 24 e 26ºC e
o pH, entre 6,5 e 7,5.
Pronto, você já adquiriu e instalou seu aquário e agora só faltam os peixes!
A maioria dos peixes de aquário é de cardume e, por esta razão, é incorreto comprá-los individualmente ou aos pares. Recomenda-se a compra de 6 ou 8 exemplares de cada espécie e, para começar, 2 ou 3 espécies. Esta combinação é vantajosa não só do ponto de vista estético, mas, também, do ponto de vista ecológico das espécies, o que torna a manutenção mais simples.

Peixes mais apropriados para iniciantes

Lebistes - são peixes muito resistentes, bem adaptados, tranqüilos e multicores. Gostam de
nadar no terço superior do aquário.
Tetras - são peixes fáceis de manter e atraentes. Fazem as suas brincadeiras na zona média
do aquário, sendo muito interessante o seu acasalamento e comportamento defensivo.
Coridoras - são peixes muito tranqüilos e pacíficos. Costumam revolver a areia no fundo do
aquário.
Barbos - são peixes multicores, robustos e de fácil adaptação. O seu comportamento pode
ser temperamental.
Cíclidos anões - são peixes dóceis que aceitam facilmente a convivência com outras
espécies.
Anabántidos - são peixes belos e multicoloridos que podem respirar o oxigênio dissolvido na
água e no ar. Preferem aquários com vegetação exuberante.
Betas combatentes - seu nome advém do comportamento de defesa territorial, que não
permite a coabitação de dois machos no mesmo aquário. Pode-se criar um macho com várias
fêmeas, mas outros peixes não têm lugar no mesmo aquário.
Conheça agora, um pouco das diferentes variedades de peixes ornamentais existentes:










22 de jun. de 2016

A Abelha


1. A Abelha

1.1 Que abelhas são criadas no Brasil?

A espécie de abelha mais comum, criada no Brasil e no mundo inteiro é a Apis mellifera (o seu nome científico). Também são criadas aqui algumas espécies de abelhas nativas (ou indígenas ou sem ferrão), que são menores e muito menos produtivas, mas que fornecem um tipo de mel diferente, muito apreciado por alguns.
Este documento contém informações apenas sobre Apis mellifera. Para obter informações sobre abelhas nativas, consulte os grupos de discussão mencionados no item 12.9).

1.2 O que significa esse nome científico?

A classificação dos seres vivos é feita em diversos níveis (reino, classe, ordem...). Ao se mencionar um determinado indivíduo, o mais comum é usar-se apenas o gênero e a espécie. No caso, a nossa abelha comum pertence ao gênero Apis e à espécie mellifera.
Um outro nível é usado às vezes para identificar subespécies, variedades ou raças, como em Apis mellifera carnica. Ao final do nome científico, freqüentemente aparece o nome do responsável pela identificação da espécie, geralmente abreviado. Por exemplo, Apis mellifera mellifera L. (de Linnaeus).
Quando se está fazendo referência a mais de uma espécie do mesmo gênero, ele é escrito seguido da abreviatura spp. Por exemplo, Apis spp.
Os elementos do nome científico são palavras em Latim, ou latinizadas, quando a palavra correspondente não existe neste idioma. O gênero é grafado com a primeira letra em maiúscula, a espécie e subespécie, em minúscula. Nenhum deles leva acento.

1.3 Que raças de abelhas existem?

A Apis mellifera possui diversas subespécies (raças). Algumas são originárias da Europa e outras da África. Entre as européias mais conhecidas, estão a mellifera, a ligustica (popularmente conhecida como "italiana"), a carnica e a caucasica. Entre as africanas, destacam-se a scutellata, a capensis, a monticola e a adansonii.

1.4 Que raças existem no Brasil?

No Brasil, e em quase toda a América Latina, a predominância é de uma raça híbrida entre a A.m.scutellata e as raças européias citadas acima. Como essa hibridização não está padronizada, ou seja, ainda há uma enorme variedade morfológica e comportamental, não foi registrada uma raça específica, mas essas abelhas são genericamente referidas como abelhas africanizadas.

1.5 Como essas abelhas chegaram aqui?

Rainhas de A.m.scutellata (originalmente chamada de A.m.adansonii) foram introduzidas no Brasil em 1956, para uma experiência de melhoramento genético. Fora de controle, enxames abandonaram as colméias e passaram a viver na natureza. A partir de então, enxameações sucessivas e cruzamentos de zangões africanos com princesas européias deram início a uma longa e impressionante ocupação do continente. Em 1990, os genes africanos chegaram à fronteira sul dos EUA, tendo percorrido cerca de 8.000 km em 34 anos.
Ao longo do tempo, os cruzamentos deram origem a enxames híbridos, com diferentes graus de predominância dos caracteres genéticos africanos.

1.6 As abelhas africanizadas são mais agressivas?

Sim, em intensidade variada. Há enxames excepcionalmente agressivos e outros relativamente mansos.
A propósito, a tendência de "correção política", amplamente difundida nos EUA e importada livremente pelo resto do mundo, caracteriza o comportamento da abelha como defensivo, e não agressivo, porque o ataque seria sempre uma resposta a um estímulo externo. Na minha opinião, isso é apenas uma confusão semântica. O intuito pode ser de defesa, mas a ação é de agressão. Se um cachorro resolver estraçalhar uma pessoa na rua por se sentir ameaçado, alguém diria que ele é muito defensivo? É claro que não.
Neste texto, apenas a expressão agressividade é usada para qualificar uma resposta de ataque.

1.7 Quando um ataque de abelhas pode ser fatal?

A literatura registra que um indivíduo hipersensível pode morrer em virtude de uma única ferroada, mas isso é muito raro. Mais comum é morrer a pessoa ou o animal que, impossibilitado de fugir por qualquer razão, fica exposto a um número muito grande de ferroadas. Crianças e deficientes físicos que estejam nas proximidades de um enxame agressor correm maior risco. Animais amarrados ou cercados também. Apicultores bem protegidos raramente sofrem mais do que umas poucas e inofensivas ferroadas.
Há casos registrados de morte com 100-300 ferroadas, e há um caso de sobrevivência registrada com 2.243 ferroadas. Em geral, a dose letal mediana (para a qual 50% das vítimas morrem) fica em torno de 19 ferroadas por quilo, para adultos [SCH92].

1.8 A apicultura pode ser considerada uma atividade perigosa?

Mexer com abelhas, sem conhecimento, pode ser considerado perigoso. A apicultura racional, praticada com os critérios de segurança bem conhecidos, é provavelmente uma atividade muito menos perigosa que algumas outras profissões e passatempos. Ao longo deste texto, há várias considerações sobre segurança. Independentemente disso, fazer um bom curso teórico-prático é uma condição essencial à formação de um bom apicultor.

1.9 Quantas vezes uma abelha pode ferroar?

Normalmente, uma única vez. O ferrão é uma estrutura que se parece com um arpão e que fica cravado na vítima. Ao se desprender, a abelha deixa para trás não apenas o ferrão, mas também o saco de veneno e parte do seu aparelho digestivo. Enquanto o ferrão permanece cravado, o veneno continua a ser instilado por ação involuntária (veja os itens 4.13 e 4.14). A abelha morre em horas ou dias.

1.10 A rainha ferroa? E os zangões?

Normalmente, a rainha só ferroa outra rainha, quando em disputa pela colméia. Ferroada de rainha em humanos é bastante rara, e, quando acontece, geralmente é após a manipulação de outra rainha pelo apicultor. O ferrão da rainha é mais firme que o das operárias e tem menos rebarbas, o que quase sempre evita o seu arrancamento após a ferroada.
Zangões não ferroam porque não possuem ferrão.

1.11 Afinal, por que as abelhas ferroam?

As abelhas ferroam quando sentem que a sua própria integridade ou a de sua família está ameaçada. Por isso, uma abelha longe de sua colméia nunca ataca ninguém, a menos que seja molestada diretamente, ou que tenha saído há pouco de uma colméia atacada. Pessoas que desconhecem esse fato assustam-se desmesuradamente quando uma abelha voa próximo a elas, imaginando que se trata de um ataque, e não uma simples investigação sobre a possível utilidade daquelas vestes coloridas ou daquele perfume exótico.

1.12 As abelhas são criaturas boas?

Nem boas, nem más. São apenas insetos, que apresentam um comportamento baseado num conjunto limitado de respostas aos diferentes estímulos que sofrem. Abelhas não raciocinam, não planejam, não ficam de mau ou de bom humor. Também não se afeiçoam ao apicultor nem se acostumam a ser manipuladas. Todos esse sentimentos são próprios de alguns vertebrados, especialmente os mamíferos, mas não de insetos.

1.13 Como as abelhas não planejam, se elas guardam mel para o inverno?

Elas não guardam mel para o inverno, simplesmente porque a grande maioria das abelhas que estocam o mel nunca viram e nem verão o inverno, já que elas raramente chegam a viver dois meses na época de forrageamento. Elas simplesmente respondem ao estímulo "secreção de néctar nas proximidades" coletando e armazenando tudo o que podem. Do ponto de vista da seleção natural, os enxames que assim procedem conseguem sobreviver aos tempos difíceis e têm oportunidade de passar seus genes adiante. Os demais simplesmente morrem, sem conseguir perpetuar esse comportamento na espécie.

1.14 O que as abelhas reconhecem como ameaça?

Barulhos normais, como o ruído de passos e conversa raramente perturbam as abelhas. Elas são estimuladas por vibrações fortes (de motores, por exemplo), odores (suor, perfumes), movimento (quanto mais rápido, pior) e cores (as escuras mais do que as claras). Pêlos em geral, cabelos e roupas felpudas estimulam fortemente o ataque, mais ainda se forem escuros.
Dentre os maiores estímulos, pode-se destacar o dióxido de carbono, exalado em quantidade pelos humanos. Por essa razão, evite, sempre que possível, respirar ou soprar próximo às abelhas.
Um detalhe interessante é que as condições ambientais parecem influir decisivamente no comportamento mais ou menos agressivo das abelhas. Dias nublados, úmidos e ventosos são, quase com certeza, dias de manejo difícil (embora também haja uma boa surpresa de vez em quando).

1.15 O que são as castas de abelhas?

Casta é cada um dos tipos de abelha existentes nos enxames: rainhas, operárias e zangões.

1.16 O que diferencia a rainha das operárias?

Visualmente, a rainha é muito maior que as operárias. Uma rainha é produzida pelas operárias sempre que necessário, a partir de uma larva jovem, de operária, de até 3 dias de vida.
Três fatores determinam que uma larva comum se transformará numa rainha, e não numa operária [WIN03]. Primeiro, a qualidade da alimentação. Larvas de rainhas são alimentadas com geléia real, uma mistura de secreções das glândulas mandibulares e hipofaringeanas das operárias. Larvas de operárias são alimentadas com uma mistura semelhante, mas com uma proporção muito menor da substância mandibular e ainda com a adição de pólen.
Segundo, a quantidade de alimentação. As larvas de rainha não apenas "bóiam" numa quantidade enorme de geléia real, como a ingerem com muito mais apetite do que as larvas de operária. Isso acontece porque elas são estimuladas pelo conteúdo maior de açúcar na geléia real do que na comida das larvas nos primeiros dias.
Terceiro, o tamanho da célula de rainha, chamada de realeira. Ela é muito mais ampla do que os alvéolos de operárias, e permitem um crescimento muito maior da rainha.
Outra diferença é que a rainha é a única fêmea a acasalar e, portanto, somente ela é capaz de pôr os ovos que gerarão novas operárias e zangões (veja o item 1.28 abaixo).

1.17 E o que é uma princesa?

É como é chamada uma rainha muito jovem, que ainda não foi fecundada.

1.18 Como é a fecundação da rainha?

Alguns dias após o seu nascimento, a princesa faz um ou mais vôos nupciais, nos quais copula com diversos zangões (entre 7 e 17, provavelmente). Depois disso, retorna à colméia e nunca mais acasala. O sêmen introduzido fica armazenado num órgão da rainha chamado espermateca, pelo resto da sua vida reprodutiva. No momento da postura, o óvulo que desce pela vagina será fertilizado por um espermatozóide da espermateca, caso a rainha esteja pondo um ovo numa célula de operária, ou não será fertilizado, caso a célula seja de zangão (que é maior que a de operária).

1.19 Como podem os zangões nascer de ovos não fertilizados?

Trata-se de um fenômeno conhecido como partenogênese, comum também em vespas e formigas. O indivíduo resultante não tem pai e é haplóide, isto é, possui metade dos cromossomos de sua mãe - apenas 16. Essa situação curiosa determina que a rainha que gerou um zangão seja o "pai genético" das filhas desse zangão.

1.20 Qual é a função dos zangões?

Aparentemente, eles existem apenas para a procriação. Eles não defendem a colônia (não possuem ferrão), nem coletam nada de útil para a colméia na natureza.

1.21 Como identificar um zangão?

O zangão é maior que as operárias e, por isso, é freqüentemente confundido com a rainha por apicultores iniciantes. Na verdade, ele é completamente diferente, tanto das operárias quanto da rainha. O seu corpo é mais largo, e o abdômen termina numa forma rombuda, e não pontiaguda. Além disso, os seus olhos compostos são muito grandes, juntando-se no topo da cabeça.

1.22 Zangões são sempre “puros”? 

Talvez em razão de os zangões serem haplóides, espalhou-se a crença de que eles são sempre de raça pura. O filho de uma rainha pura também será puro (embora possa ter características diferentes da sua mãe), e o filho de uma rainha mestiça poderá ser mestiço e, havendo coincidência, também poderá até ser puro (veja item 1.23).

1.23 Os zangões irmãos são idênticos? 

Não necessariamente. Pode haver zangões irmãos idênticos, mas isso é apenas uma coincidência. Ocorre que uma célula comum da rainha possui 32 cromossomos ligados dois a dois (16 pares) e os óvulos produzidos possuem apenas 16 cromossomos, nenhum ligado a outro. Estes 16 cromossomos resultam da combinação aleatória de um dos cromossomos do par 1, mais um dos cromossomos do par 2, e assim por diante. Como em cada par de cromossomos a carga genética varia de um cromossomo para outro, cada óvulo produzido – e cada zangão, por conseqüência - carregará uma carga genética particular. Posto em números, uma rainha pode gerar 216 = 65.536 óvulos (zangões) diferentes, considerando-se apenas o agrupamento randômico dos cromossomos durante a meiose. Na verdade, este número pode ser muito maior, pois há um segundo fenômeno de variabilidade genética importante, conhecido por crossing over [ARM01].
Pela mesma razão, zangões não são idênticos à sua mãe. Uma característica qualquer (determinada por gene recessivo) que não se manifeste na rainha pode estar presente no zangão, se ele ficar com o cromossomo que carrega este gene.

1.24 Qual é a função da rainha?

A rainha dá origem a todos os indivíduos da colméia, pela postura de ovos fertilizados (para operárias) e não fertilizados (para zangões). Além disso, a sua presença (mais precisamente os feromônios que ela produz) determina o comportamento "normal" das demais abelhas.

1.25 Quantos ovos a rainha põe por dia?

No pico da postura, ela chega a pôr 2.000 ovos por dia.

1.26 O que acontece quando a rainha morre?

A rainha pode morrer acidentalmente, por exemplo, durante um manejo de rotina do apicultor, ou ser morta pelas próprias abelhas, caso o seu desempenho seja insatisfatório. Em qualquer dos casos, as abelhas, assim que percebem a falta da rainha, tratam de produzir outra, a partir de uma larva jovem de operária (de até 3 dias).

1.27 E se não houver uma larva jovem?

Se não houver uma larva disponível, ou se as rainhas produzidas não sobreviverem por qualquer motivo, o enxame não será mais capaz de produzir uma nova rainha. Se o apicultor estiver atento, ele poderá fornecer ao enxame uma nova rainha ou um quadro de cria, para que elas tentem de novo, caso contrário, a colméia tornar-se-á zanganeira.

1.28 O que é uma colméia zanganeira?

É a colméia em que as abelhas, na falta da rainha, começam a pôr ovos. Como não são fecundados, esses ovos geram apenas zangões, e a colméia acaba extinguindo-se com a morte das operárias.

1.29 Por que as abelhas começam a pôr ovos?

Uma visão popular e antropomórfica explica que a postura das operárias é um "esforço desesperado" de preservação da colônia, mas isso não é verdade. Elas simplesmente passam a pôr ovos porque, sem rainha e sem crias, interrompe-se a produção de feromônios que inibem o desenvolvimento dos seus ovários.
Uma questão interessante é por que esse mecanismo foi preservado ao longo da seleção natural, se ele, aparentemente, é inútil. A resposta pode estar na subespécie africana A.m.capensis, que apresenta uma característica interessante: os ovos não fertilizados podem produzir fêmeas também, além de machos. Assim, uma colméia pode produzir uma nova rainha a partir de um ovo posto por uma operária e realmente conseguir voltar ao normal. Em freqüência muito menor, a geração de fêmeas a partir de ovos não fertilizados ocorre também nas demais subespécies, o que pode indicar que esse mecanismo já foi mais útil e mais eficiente no passado.

1.30 Como saber se uma colméia está sem rainha?

A ausência de ovos em época de postura normal é um forte indicativo. Mas isso também pode significar preparação para a enxameação, se houver realeiras no ninho. Também pode indicar a presença de uma rainha virgem, o que pode ser presumido se forem encontradas realeiras já abertas.
Se a colméia fica sem rainha durante vários dias na época da safra, pode-se perceber a situação visualmente, pelo acúmulo anormal de mel e pólen no centro dos favos de cria.
Apicultores mais experientes, porém, podem suspeitar da orfandade no instante em que abrem a colméia. O que acontece é que, à medida que aumenta o tempo de ausência da rainha, as operárias começam a apresentar um padrão anormal de agitação. Muitas saem voando imediatamente, não necessariamente para atacar, num comportamento visivelmente diferente dos enxames normais.

1.31 Como saber se uma colméia está zanganeira?

Nada mais fácil: no momento da postura, as operárias não percebem (ou não fazem caso) se um alvéolo já tem outro ovo nele depositado. Por isso, os ovos vão se empilhando, e cada alvéolo acaba contendo vários deles, o que é facilmente percebido pelo apicultor.
1
Os ovos são depositados nas paredes dos alvéolos, porque o abdômen das operárias não alcança o fundo. A operculação das células é protuberante, típica das de zangão. Depois de algum tempo, os zangões começam a nascer, mas são todos pequenos, porque foram gerados em alvéolos de operárias, que são muito menores.

1.32 Em quanto tempo uma colméia fica zanganeira?

Depende. Enquanto houver cria, aberta ou fechada, é pouco provável que as operárias ponham ovos. Quando não houver mais rainha e crias, as operárias começarão a pôr dentro de 14 dias, em média [WIN03].

1.33 Como identificar a rainha?

A rainha se parece com uma operária, mas é maior e tem o abdômen proporcionalmente mais alongado. Encontrar uma rainha pode ser uma das tarefas mais complicadas da apicultura. No capítulo 7, são mencionadas algumas técnicas úteis.

1.34 Qual é a função das operárias?

Como o nome sugere, trabalho duro. Enquanto são jovens, dedicam-se ao trabalho interno: limpam as células, alimentam as larvas jovens e a rainha com substâncias nutritivas que elas mesmas secretam, alimentam as larvas mais velhas com pólen e mel, empilham o pólen recolhido nas células, secretam cera, constroem favos, recebem, processam e armazenam o néctar, vedam frestas com própolis, defendem e ventilam a colméia, operculam células. Quando mais velhas, dedicam-se, principalmente à coleta de néctar, pólen, água e própolis. A coleta de néctar ou mel pode ser feita também em outras colméias, especialmente as mais fracas, num comportamento de pilhagem (saque).

1.35 Qual é a relação entre a idade das abelhas e as tarefas executadas?

Há uma grande variação na relação entre idade e atividades executadas. Há períodos de vida preferenciais para as abelhas executarem determinadas tarefas, mas eles podem mudar completamente em caso de necessidade. Além disso, a abelha pode executar diversas tarefas diferentes durante um dia. Uma relação comum, em situação normal da colméia é a seguinte [WIN03]:
Tarefa
Idade (dias)
Limpeza de alvéolos
0 a 8
Operculação de cria
2 a 9
Atendimento de cria
5 a 15
Atendimento da rainha
3 a 14
Recebimento de néctar
8 a 16
Remoção de detritos
7 a 21
Compactação de pólen
8 a 19
Construção de favos
11 a 22
Ventilação da colméia
13 a 22
Guarda da colméia
14 a 27
Primeiro forrageamento
18 a 28

1.36 Quanto tempo vive uma abelha?

Durante a safra, uma operária africanizada vive, em média, 38 dias, sendo 23 executando tarefas domésticas e fazendo as primeiras coletas, e 15 somente forrageando. Na entressafra, a expectativa de vida aumenta, e elas chegam a viver 5 meses ou mais em climas muito frios. Uma operária européia chegou a viver 320 dias [WIN03].
Aparentemente, a distância total voada é um determinante muito mais importante para a longevidade da abelha do que a sua idade. Um estudo de Neukirch, citado em [WIN03], estabeleceu um limite teórico médio de 800 km voados, não importando se eles se acumulam ao longo de 5 ou de 30 dias.

1.37 Quantas abelhas vivem numa colméia?

O número real é extremamente variável, a cada época do ano, de colméia para colméia. No pico da safra, por exemplo, considere as seguintes hipóteses:
· Postura diária de 2 mil ovos
· Tempo de desenvolvimento ovo-adulto de 20 dias
· Viabilidade de 100% da cria
· Ciclo de vida de 38 dias para as operárias
Nesse caso, teoricamente, a colônia poderia crescer até chegar à população abaixo, permanecendo em equilíbrio enquanto a postura se mantivesse.
· 1 rainha
· algumas centenas de zangões
· 38 mil crias (ovos, larvas, pupas)
· 44 mil operárias domésticas/campeiras (até 23 dias)
· 32 mil campeiras

1.38 Quando as abelhas pilham as colméias vizinhas?

Geralmente quando a produção de néctar é baixa, e uma colméia vizinha tem mel em estoque e está desprotegida por falta de operárias. Esse comportamento freqüentemente é ativado pelo próprio apicultor que, durante o manejo, expõe o estoque de mel das colméias à investigação das vizinhas ou fornece alimentação artificial com xarope de forma descuidada ou em alimentadores deficientes (veja capítulo 6).

1.39 Como as abelhas se comunicam?

Principalmente, por meio de interações químicas. Essas interações se processam pela produção de feromônios, substâncias secretadas por diversas glândulas que são percebidas pelo olfato. Os feromônios são o principal meio de estimulação e coordenação de quase todas as atividades das abelhas. Os feromônios produzidos pela rainha, por exemplo, inibem a construção de realeiras pelas operárias, inibem o crescimento dos ovários das operárias, atraem zangões nos vôos nupciais, atraem as operárias em geral e particularmente as nutrizes, que alimentam a rainha com geléia real.
Feromônios de operárias estão muito ligados à defesa da colméia. A ferroada libera um feromônio que induz outras abelhas a atacarem. Por esta razão, é comum a ocorrência de várias ferroadas no mesmo local. Também por isso, é conveniente a limpeza freqüente das roupas de proteção.
Um outro feromônio de operária é o de localização, usado para atrair ou orientar outras abelhas em direção ao alvado, água ou fonte de alimento. A liberação desse feromônio se dá numa posição bastante familiar aos apicultores: a abelha ergue o seu abdômen, expõe a glândula de Nasanov, localizada próximo à extremidade, e bate as asas para dispersar a substância.
As crias também produzem feromônios que estimulam as operárias a atendê-las e ajudam a inibir o desenvolvimento dos ovários das operárias.

1.40 E a dança das abelhas?

Feromônios são o principal, mas não único meio de comunicação. Interações táteis e sonoras, como o roçar de antenas ou as danças também são muito usadas. As danças são padrões de movimento, vibração, ruído e direção utilizados com diferentes propósitos, dos quais o mais conhecido é a passagem de informações sobre uma fonte de alimento. Nessa dança, por exemplo, a abelha percorre um trecho reto do favo "requebrando-se" e depois volta ao início desse trecho num trajeto de semicírculo. Em seguida, percorre de novo o mesmo trecho reto e volta em outro semicírculo, mas desta vez pelo lado oposto.
Para saber a qualidade e a distância dessa fonte, as abelhas levam em conta o entusiasmo da dançarina, o tempo gasto no trecho reto e o número de vezes em que os passos foram executados. Já a direção da fonte é passada como um ângulo, formado entre o trecho reto da dança e uma linha vertical. Este ângulo corresponde ao formado pelos pontos sol-colméia-fonte (a colméia no vértice).
Assim como o achado de alimento, o de novas casas no momento da enxameação também é comunicado por danças. Além disso, elas também estimulam determinadas atividades, como o forrageamento e a enxameação [WIN03].

1.41 Como elas fazem quando o sol não está visível?

O sol pode não estar visível para nós, mas estar para as abelhas. Ocorre que elas enxergam um espectro de luz diferente dos humanos, que não inclui as freqüências mais baixas (próximas do vermelho), mas inclui as mais altas, já na faixa ultravioleta. E as freqüências ultravioletas atravessam camadas finas de nuvens, de forma que o sol permanece visível para as abelhas mesmo em muitos dias nublados.
Mas é possível que a visualização do sol não seja tão importante. Acontece que as abelhas são capazes de se orientar após o pôr-do-sol e, eventualmente, até de forragear à noite. Para isso, elas consideram a posição exata do sol no momento, como se pudessem enxergá-lo através da Terra ou estimar a sua posição.

1.42 Como elas informam uma posição atrás de um obstáculo?

A direção é informada como se ele não existisse. Por exemplo, uma florada atrás de um morro é indicada na dança como se as abelhas tivessem de atravessá-lo para chegar lá. A distância informada, porém, corresponde ao gasto de energia necessário para alcançar o objetivo e ela, nesse caso, é maior do que seria se não houvesse morro. Na busca, as campeiras que assistiram a dança fazem as voltas que forem necessárias para alcançar o destino.

1.43 A que velocidade voa uma abelha?

Em média, a 24 km/h.

1.44 Quanto tempo uma abelha leva para nascer?

Este tempo, ao contrário do que muitos imaginam, é variável. Temperaturas altas na área de cria podem acelerar o processo, enquanto que as temperaturas baixas retardam-no. O ciclo médio de desenvolvimento das abelhas européias, em dias, é o seguinte:
Casta
Ovo
Larva
Pupa
Total
Rainha
3
5,5
7,5
16
Operária
3
6
12
21
Zangão
3
6,5
14,5
24
Já as africanizadas são um pouco mais precoces, a rainha nasce em 15 dias, e a operária, em 19-20 dias.

1.45 O que as abelhas comem?

Resumidamente, néctar e mel, como fonte de carboidratos, e pólen, como fonte de proteínas, gorduras, vitaminas e minerais, além de água. As larvas de operárias e zangões, até 4 dias de vida, são alimentadas pelas abelhas com secreções nutritivas, produzidas pelas glândulas hipofaringeanas e mandibulares das operárias. Após o 4º dia, a alimentação das larvas muda para outros tipos de geléia e uma mistura de néctar, mel diluído e pólen. Após o nascimento, durante cerca de duas semanas, a operária consome muito pólen, pois depende dele para, nessa fase da vida, produzir as substâncias que alimentarão as larvas e a rainha. Gradualmente, a dieta da operária começa a mudar para néctar e mel, à medida que ela abandona o serviço de alimentação e assume outros serviços, como a coleta de água, néctar, pólen e própolis.
A rainha alimenta-se quase que somente de geléia real, tanto na fase larval quanto em toda a sua vida adulta. A geléia real é um produto semelhante à comida da larva, mas com uma proporção muito maior da secreção mandibular e, por essa razão, mais rica em algumas substâncias nutritivas.
Zangões adultos são alimentados pelas operárias nos primeiros dias, e depois se alimentam sozinhos, basicamente de néctar e mel.

1.46 Como os enxames se reproduzem?

Em algumas situações, uma colônia resolve se dividir, e a isso se dá o nome de enxameação. Ela ocorre com freqüência durante floradas abundantes, quando o espaço na colméia torna-se insuficiente para armazenar o néctar que entra e a nova prole que está sendo gerada pela rainha. Quando a rainha não produz feromônios em quantidade suficiente para todo o enxame, a enxameação também pode ocorrer (é o que acontece com rainhas mais velhas).
O primeiro passo do processo de enxameação é a produção de princesas.
Antes de nascerem as princesas, as operárias submetem a rainha a um regime forçado, negando-lhe alimento e tratando-a rudemente, para que não fique parada. Supostamente, isso serve para interromper a postura e deixá-la mais leve para a viagem da enxameação. No dia da saída, muitas operárias engolem o máximo de mel, para garantir a sua sobrevivência até que uma nova morada seja encontrada, e para poderem produzir cera para a construção dos primeiros favos. Muitas operárias, especialmente as mais jovens, abandonam a colméia, levando junto a rainha (ou arrastando-a, em alguns casos).
Ao abandonar a colméia, o enxame agrupa-se nas imediações, num galho de árvore, num poste, num automóvel, onde ele achar mais conveniente. Em seguida, abelhas batedoras saem em busca de um lugar seguro para formar a nova colméia (em alguns casos, essa pesquisa pode iniciar antes mesmo da saída do enxame). Elas avaliam ocos de árvores, cupins abandonados e cavidades em rochas, além de espaços em telhados, caixas vazias, tonéis abandonados e muitos outros. Quando uma batedora acha um bom lugar, volta ao enxame e comunica a boa notícia dançando. Mais abelhas aparecem para avaliar a escolha e, se ela for melhor que as alternativas encontradas por outras batedoras, o enxame decide fazer a nova colméia ali.

1.47 O que acontece com a colméia que perdeu um enxame? 

Fica com a casa, toda a cria, as reservas de pólen, parte das reservas de néctar e mel, parte das operárias, especialmente as mais velhas, e uma ou mais princesas ou rainhas novas, que lutarão até a morte até que só sobre uma para comandar a colméia.
Dependendo do tamanho original do enxame e das condições da colméia, outros enxames podem ser produzidos - os enxames secundários. Eles são menores e podem conter uma ou mais princesas.
Numa colméia de um apiário, a enxameação representa um prejuízo certo, uma vez que, não apenas parte do mel foi levada embora, como foi drasticamente diminuída a força de trabalho para coletar mais. Em geral, de colméias que enxameiam, não se consegue nenhuma produção significativa de mel na temporada. Algumas vezes, porém, especialmente se houver bastante espaço para crias e mel na colméia, a enxameação ocorre suficientemente tarde, para que bastante mel já tenha sido estocado.

1.48 Por que as abelhas abandonam a colméia?

Quando as abelhas são submetidas a um nível de estresse ou privação muito grande, elas podem abandonar a colméia e tentar a sorte em outro lugar. Uma causa comum é o calor excessivo. Caixas com pouco espaço e sem ventilação, quando deixadas ao sol, provocam abandono (é o caso de caixas-isca de papelão, por exemplo). Períodos de carência alimentar muito prolongados e ataque de formigas também. O mesmo com manejos descuidados ou muito freqüentes.

1.49 Por que as abelhas às vezes matam a sua rainha?

Diversos fatores podem provocar a substituição da rainha. Quando ela já não produz feromônios em quantidade suficiente, as abelhas podem resolver trocá-la. Também quando o seu desempenho é baixo (postura deficiente) ou o seu estoque de esperma acaba (ela só consegue produzir zangões). Em alguns casos, as abelhas parecem culpar a rainha por algum distúrbio maior na colméia, e liquidam-na por "peloteamento" (formam uma bola em torno dela até sufocá-la). Em qualquer caso, o propósito parece ser sempre obter uma rainha nova, melhor que a atual.

1.50 Como as abelhas lidam com as variações de temperatura?

A capacidade de as abelhas lidarem com variações de temperatura está ligada ao tamanho do enxame. Uma abelha sozinha tem mínima proteção, uma colméia numerosa pode manter o seu centro a 35 ºC, em situações externas de extremo calor (até 70 ºC) e de extremo frio (até -80 ºC) [SOU92].
Para resfriar uma colméia, as abelhas utilizam a evaporação da água, um processo eficiente, porque absorve grande quantidade de calor ao ocorrer. Elas expõem a água, na forma de películas nas suas mandíbulas ou gotículas espalhadas pela colméia, a uma corrente de ar provocada por elas mesmas, com o bater de suas asas. Dessa forma, conseguem sobreviver em ambientes muito quentes, desde que haja água suficiente disponível.
Para esquentar uma colméia, as abelhas agrupam-se em torno do centro, onde estão as crias. Quanto mais baixa a temperatura, mais apertado será o agrupamento. As abelhas, nessa situação, assumem uma posição relativa que força o entrelaçamento dos seus pêlos torácicos, aumentando a capacidade de isolamento térmico das sucessivas camadas. Essas camadas são formadas por abelhas voltadas para o centro do grupo, e há um revezamento entre as que estão em posição mais externa e as que estão mais ao centro.
Elas também são ajudadas pela presença de alvéolos vazios, que formam câmaras de ar parado, que é um bom isolante. Se ainda assim a temperatura continuar caindo, as abelhas passam a produzir calor pela vibração da sua musculatura torácica. Nesse caso, porém, elas necessitam ingerir quantidades maiores de mel para repor a energia perdida. Em outras palavras, transformam-se em estufas movidas a mel.

1.51 Por que o apicultor põe fumaça nas abelhas?

A principal razão é bloquear ou diminuir a resposta agressiva. Um dos efeitos da fumaça é impedir que os feromônios de alarme sejam bem percebidos pelas operárias, o que evita que muitas abelhas saiam da colméia para defendê-la.
Muitos acreditam também que a fumaça dispare na colméia um comportamento de preparação para a fuga: as operárias passariam a engolir mel e armazená-lo na vesícula melífera, para um eventual abandono da colméia. Isso, ocuparia as abelhas por algum tempo e alteraria o seu comportamento de defesa, mudando de agressão para fuga. As abelhas que engolem mel também teriam maior dificuldade para ferroar. Este efeito, porém, não está bem documentado na literatura, e, pessoalmente, admito sérias dúvidas sobre a sua realidade.
Outra utilidade muito importante da fumaça é a condução das abelhas. Como elas geralmente são repelidas pela fumaça, o apicultor a utiliza para afastar as abelhas de terminados locais, como a superfície da caixa antes da recolocação da tampa.

1.52 A fumaça não estressa as abelhas?

Sim, bastante. Manejos muito freqüentes podem até provocar o abandono de toda a colméia. A fumaça é quase sempre necessária, mas, por qualquer ângulo que se examine (estresse das abelhas, contaminação de favos e mel), sempre será preferível usar a menor quantidade possível de fumaça numa manipulação.

1.53 Quanto pesa uma abelha?

Em média, uma abelha recém nascida (com o aparelho digestivo vazio) pesa cerca de 65 mg (africanizada) e 83 mg (européia). Isso dá 15.000 africanizadas/kg e 12.000 européias/kg, mas não use esses dados para calcular o peso de um enxame, pois nele, as abelhas possuem um conteúdo intestinal variável, que pode chegar a 80% do seu peso líquido. Em média, estima-se de 7.000 a 10.000 abelhas por quilograma.

1.54 Como a abelha coleta néctar?

A abelha suga a substância adocicada (néctar, pseudonéctar, calda, suco, refrigerante, etc.) com a ajuda da sua prosbócide (língua). A substância é então conduzida até uma porção do aparelho digestivo chamado de vesícula melífera, uma espécie de antecâmara do estômago, que pode ser amplamente distendida.

1.55 Quanto néctar a abelha pode transportar?

Em média, a carga de néctar de uma européia situa-se entre 20 e 40 mg, podendo chegar, ocasionalmente a 80 mg. A carga média da africanizada é um pouco menor, e a máxima pode chegar a 60 mg ou um pouco mais.

1.56 A que distância uma abelha voa para colher néctar?

O mais próximo possível. Três quilômetros é uma distância máxima freqüentemente mencionada, mas as abelhas voarão mais do que isso se necessário. Economicamente, quanto mais próxima do apiário estiverem as flores, melhor, pois as abelhas consumirão menos mel durante a atividade da coleta.
Na prática, freqüentemente considera-se que a flora apícola útil ao apiário está circunscrita num raio de 1 a 1,5 km, o que corresponde a uma área circular de 300 a 700 hectares.
A certificação de apicultura orgânica exige que não haja cultura convencional (não orgânica) num raio de 3 km do apiário.

1.57 Como a abelha coleta pólen?

Ela usa a língua e as mandíbulas para tirar algum pólen das anteras e umedecê-lo. Muitos grãos também ficam presos ao seu pêlo na operação. Depois, ela "escova" esses grãos, geralmente durante o vôo, mistura-os ao pólen umedecido e compacta tudo na corbícula, uma reentrância existente no seu par de pernas posterior. A medida que mais pólen vai sendo coletado, a carga nas corbículas aumenta, e alguns pêlos são envolvidos pelas bolotas, para que elas permaneçam firmes no lugar.

1.58 Como a abelha coleta própolis?

Com ajuda das mandíbulas e do primeiro par de patas, ela remove o material resinoso da planta. Depois, armazena-o na corbícula, de forma semelhante ao que faz com o pólen. Antes de usar a própolis, a abelha ainda mistura-a com cera, numa proporção que pode chegar a 30%, para tornar a sua consistência mais trabalhável.

1.59 Como a abelha coleta água?

Ela suga a água e armazena-a tal como faz com o néctar, na vesícula melífera.

1.60 O que estimula as abelhas para a colheita?

Basicamente, a necessidade das abelhas, a disponibilidade de espaço na colméia e a abundância local dos recursos. Num clima quente, por exemplo, a necessidade de refrigerar a colméia comanda a busca de água. Em floradas grandes, a necessidade por pólen e néctar e o espaço de armazenamento disponível orientam a sua colheita.
Em vários estudos, observou-se que a alocação de campeiras para colheita de um recurso específico estava relacionada à pronta aceitação deste recurso pelas abelhas domésticas na hora da chegada da campeira. Por exemplo, se uma campeira que coletou água é imediatamente aliviada da sua carga na chegada à colméia, ela provavelmente voltará para buscar mais água. Se, por outro lado, ela demora muito a conseguir livrar-se da sua carga, ela provavelmente dirigirá seus esforços a outro produto na próxima viagem.

1.61 Onde as abelhas guardam esses produtos?

O pólen é armazenado nos alvéolos próximos à área de cria, que é o seu principal consumidor. O néctar é armazenado nos alvéolos que estão acima e ao lado da área de cria e pólen. A própolis é usada diretamente no objetivo: tapar frestas e envolver corpos estranhos que não puderam ser removidos. A água não é armazenada nos favos, mas distribuída entre diversas abelhas jovens, que a manterão nas suas vesículas melíferas até que ela seja necessária.

1.62 Como as abelhas produzem cera?

Operárias, normalmente entre 8 e 17 dias de idade, secretam cera na forma de flocos, através de glândulas cerígenas, localizadas na parte frontal do abdômen. Para produzir cera, as abelhas precisam ingerir muito mel.

1.63 Quanto mel deve ser ingerido para a produção de 1 kg de cera?

Em média, as abelhas ingerem 8 kg de mel para produzir 1 kg de cera.

1.64 Que abelha devo criar, européia ou africanizada?

Essa pergunta é nitroglicerina na apicultura brasileira. Desconheço algum estudo formal que tenha comparado o desempenho das duas raças no Brasil, mas os relatos informais de apicultores que tentaram trabalhar com européias (inclusive eu) sistematicamente indicam produtividade e agressividade significativamente menores do que as das africanizadas.
No entanto, ainda pairam dúvidas sobre a qualidade das européias testadas por aqui, grande parte delas proveniente de um mesmo fornecedor brasileiro. O sucesso das européias em outros países, inclusive de clima mais quente, como a Austrália, entusiasma muitos criadores, embora muito mais no plano teórico do que no prático.
Por enquanto, a criação de africanizadas parece ser quase um consenso nacional, apesar de algumas vozes contrárias. O argumento decisivo é a rusticidade muito maior das africanizadas, que podem ser criadas sem nenhum medicamento, o que não ocorre com as européias, em quase todo o resto do mundo.
Uma lista parcial das vantagens e argumentos favoráveis a umas e outras encontra-se a seguir:
Pró Africanizadas:

· Estudos já confirmaram que a africanizada é uma abelha mais rústica, menos sujeitas a doenças. Por exemplo, a podridão de cria americana, que atinge colméias européias argentinas, nunca chegou aqui.
· Talvez pelo mesmo motivo, o comportamento higiênico mais apurado, parasitas como a varroa, que infernizam as européias, não costumam causar maiores prejuízos às africanizadas. É verdade que o clima quente da maior parte do Brasil é desfavorável à varroa, mas alguns estudos já determinaram a superioridade das africanizadas em condições idênticas.
· Por essa razão, é possível manter-se um apiário de africanizadas mais natural, sem o uso de medicações, o que é uma grande vantagem. Pelo que se sabe de outros países, essa é uma situação bastante incomum em colméias européias, que normalmente dependem de antibióticos e acaricidas para se manter produtivas.
· A maior agressividade das africanas é às vezes uma aliada do apicultor, pois dificulta o roubo das colméias.
· Diversos relatos informais de apicultores brasileiros dão conta que a produtividade das africanizadas é, quase sempre, muito maior do que a das européias.
Pró Européias:
· São muito menos agressivas. Demoram mais a iniciar um ataque, atacam com menos abelhas, perseguem a vítima por uma distância muito menor e recompõem-se em um tempo muito menor do que as africanizadas.
· Têm menor propensão a enxamear.
· Têm menor propensão a abandonar o ninho.
· Pilham menos.
· Quando um quadro é manipulado, comportam-se mais calmamente, sem correrias frenéticas de um lado para outro. Isso facilita muito o manejo em geral e a localização da rainha, especificamente.
· São maiores e carregam cargas maiores - precisam de menos viagens para colher a mesma quantidade de néctar, por exemplo.
· Vivem mais.
· Muitos países que usam apenas européias têm produtividades médias que chegam a três ou quatro vezes a do Brasil.