18 de mai. de 2018

Formação e manejo de capineiras e de pastagens para Caprinos e Ovinos



A produção de pequenos ruminantes na região Nordeste é caracterizada pelos baixos índices de produtividade dos rebanhos, decorrentes de deficiências alimentares, principalmente em função do prolongado período de seca. Essa limitação da produção de forragem na época seca do ano é agravada em virtude de a base alimentar dos rebanhos ser a Caatinga, causando problemas na produção de carne e leite. Justifica-se tal situação devido ao desconhecimento de tecnologias que possibilitem contornar tais limitações.
Durante o período seco, o pasto existente é de baixa qualidade nutritiva, levando os animais a necessitarem de longas caminhadas para suprir suas necessidades nutricionais diárias, implicando em consideráveis perdas de energia.
A adoção de tecnologias básicas, como o cultivo de espécies forrageiras adaptadas às condições climáticas do semiárido é uma das práticas que poderão ser aplicadas nos sistemas de produção no semiárido brasileiro para diminuir as perdas de peso ou de produção de leite na época seca.

Cultivo de forrageiras adaptadas ao semiárido

Várias são as espécies existentes de plantas forrageiras adaptadas ao semiárido para a formação de áreas para corte ou pastejo dos animais.
Em termos de produção animal, existem gramíneas que podem ser utilizadas para corte (capineira) ou pastejo. Por capineira entende-se uma área cultivada com uma gramínea de alta produção, utilizada sob cortes, podendo a gramínea ser fornecida verde picada no cocho imediatamente, ou então ser fenada ou ensilada para utilização posterior, em épocas críticas, destacando-se o capim-elefante, capim-paraíso e a cana-de-açúcar.
As gramíneas indicadas ao pastejo são aquelas plantas capazes de persistir na comunidade vegetal sob condições de pastejo. No Semiárido, algumas espécies forrageiras para o pastejo se destacam por possuírem características morfológicas ou fisiológicas peculiares que permitem sua sobrevivência, mesmo em condições de estresse.
Entre as espécies, destaca-se o capim-búffel, que, devido à profundidade do sistema radicular, possui habilidade de crescimento em locais com curto período de chuvas, além de possuir bom valor nutritivo e boa aceitabilidade pelos animais; o capim-gramão é outra espécie forrageira que apresenta excelente valor nutricional, sendo boa opção para a formação de pastagens cultivadas e enriquecimento de pastagens nativas, bem como para a produção de feno. Já o capim-andropogon é tolerante à seca e a solos de baixa fertilidade natural (BATISTA; GODOY, 1995). Entretanto, a entrada dos animais deve ser muitas vezes antecipada devido ao rápido crescimento do capim, acarretando em perda do valor nutricional; o capim-massai tem sido boa opção para o Semiárido, especialmente para o enriquecimento de pastagens nativas e diferimento na época seca (CAVALCANTE et al., 2014), devido à elevada quantidade de folhas produzidas em relação aos colmos, maior retardo na elevação do meristema apical, rebrotação predominantemente de gemas basais após o pastejo, maior proporção de perfilhos vegetativos em relação aos reprodutivos e boa aceitabilidade e valor nutricional.
No Nordeste, em algumas áreas mais sujeitas a encharcamentos ou alagamentos periódicos, tem sido utilizado com bastante sucesso o capim-canarana (CHAVES, 2012). Embora esta gramínea, sob condições normais, tenha um rendimento (produtividade) menor que o capim-elefante, nesses tipos de solo, ela produzirá mais que este último, já que o capim-elefante não é tolerante a solos sujeitos ao alagamento.
No Semiárido, há ainda a possibilidade de se utilizar áreas exclusivas de plantas leguminosas nativas ou não (plantas exóticas) adaptadas como bancos de proteína. Tais plantas têm a capacidade de permanecer verdes por algum tempo após o “fim das águas”. Com isso, os animais têm acesso à forragem verde e de alto valor nutritivo, diminuindo os prejuízos causados pela seca. Na região Nordeste, as leguminosas exóticas mais utilizadas são leucena, cunhã, gliricídia e feijão guandu por serem adaptadas e apresentarem crescimento rápido, possuindo elevado teor de proteína.

Formação e manejo de plantas forrageiras

Para formar uma pastagem e/ou capineira, primeiramente deve-se conhecer as características da planta que vai ser cultivada, com o intuito de garantir o sucesso de formação e de manutenção, promovendo produtividade e perenidade da pastagem, refletindo na obtenção de altos índices de produtividade animal.
Portanto, entre as características que uma planta deve ter para ser considerada de bom recurso forrageiro, destacam-se:
  • Bom valor nutritivo.
  • Elevado potencial de produção de matéria seca.
  • Bom vigor de rebrotação, com rápida recuperação após o corte ou pastejo.
  • Facilidade de propagação.
  • Resistência a pragas e doenças.
  • Rusticidade, ou seja, a capacidade de crescer bem, mesmo sob condições desfavoráveis.
  • Baixa estacionalidade de produção (ou possuir grande potencial para uso de conservação).
  • “Agressividade”, ou seja, alta capacidade de competir com as plantas daninhas que poderão surgir na área.
  • Tolerância ao pisoteio (no caso de plantas sob pastejo).
  • Acessibilidade (no caso de plantas sob pastejo).
  • Alta aceitabilidade.
Para a formação de uma área para cultivo de plantas forrageiras para pastejo, o produtor pode optar pela recuperação ou reforma de uma área já existente, ou implantação de áreas não desbravadas. Para tanto, algumas recomendações são necessárias para a obtenção do sucesso no plantio e uso de pastagens.
1. Visita da área: esta etapa tem como objetivo reconhecer totalmente a área e a sua aptidão agrícola. Deve-se escolher a área preservando matas ciliares que, por se tratar de área de preservação permanente de acordo com o Código Florestal Brasileiro, possui diversas funções ambientais, devendo ser respeitada a extensão específica de acordo com a largura do rio, lago, represa ou nascente.
2. Escolha da área: na segunda etapa, deve-se escolher as porções da área que têm aptidão agrícola à implantação de forrageiras para o pastejo. Deve-se observar quanto à fertilidade natural do solo, inclinação do terreno, dando preferência a áreas de relevo plano, e se está susceptível a alagamento, pois esses são itens que ajudarão na escolha da forrageira. Caso seja possível a confecção de silos, eles devem ser localizados próximo às instalações dos animais. Na escolha da área, deve-se fazer a coleta de solo para posterior análise, levando, se possível, um profissional qualificado para a orientação.
Seguem abaixo algumas recomendações para coleta de solo
  • Utilizar ferramentas limpas (trado).
  • Caminhar em zig-zag na área de coleta.
  • Misturar as 20 amostras simples em recipiente para formar amostra composta.
  • Armazenar parte da amostra composta em caixas ou sacos limpos e identificar o local, cidade, área, data de coleta, cultura a ser implantada, profundidade e fechar.
  • Encaminhar ao laboratório credenciado as amostras coletadas.
  • De posse dos resultados, realizar a interpretação e recomendação de corretivos e adubos, se necessário, com auxílio de profissional qualificado.
3. Escolha da forrageira a ser cultivada: a escolha da espécie forrageira a ser implantada está diretamente relacionada à seleção da área. Devem ser considerados os atributos de cada espécie, além de critérios relacionados à compatibilidade de suas diferentes variedades com a topografia e com as condições edafoclimáticas, bem como no nível tecnológico a ser empregado no manejo do pasto. Sempre que possível, é melhor escolher forrageiras com propagação por sementes, pois as desvantagens do emprego de mudas são a dificuldade de colheita, transporte e armazenamento, além do custo mais elevado do seu plantio (CASTRO et al., 2010).
4. Preparo da área: nesta etapa, objetiva-se melhorar a germinação das sementes e/ou de mudas, facilitando o desenvolvimento das raízes no solo, bem como eliminar as ervas daninhas. Em áreas para pastejo, devem-se manter algumas árvores, especialmente aquelas com potencial forrageiro que poderão eventualmente servir de alimento e serem utilizadas pelos animais para sombra. A retirada de algumas plantas deve ser feita para facilitar a mecanização agrícola, caso seja necessário. O preparo do solo deve ser realizado considerando técnicas conservacionistas, utilizando curvas de nível e plantio perpendicular à declividade do terreno e, se possível, a reposição de nutrientes da área com esterco e outros adubos orgânicos.
5. Plantio: deve ser realizado no início da estação chuvosa para que as sementes ou mudas possam ter um ambiente propício para a germinação, evitando solos excessivamente úmidos ou secos. No caso de ser instalado sistema de irrigação, recomenda-se a instalação após o preparo do solo. O método de irrigação por aspersão convencional ou mesmo pivô central em grandes áreas são os mais indicados em pastagens. Nesse caso, o plantio pode ser realizado em qualquer época do ano.
Atenção: caso haja dúvidas para a implantação da área, consultar um técnico da extensão rural.
Outros cuidados
  • Dependendo da espécie escolhida, o plantio pode ser feito através de sementes ou mudas. Os métodos de plantios por sementes incluem: covas, linha corrida ou a lanço, obedecendo à profundidade do plantio e o espaçamento entre sementes. Entre os métodos de plantio por mudas, destacam-se: sulcos, estaquia e cepas. A escolha do método de plantio por mudas vai depender da espécie a ser cultivada, devendo-se ter o cuidado durante o manejo do cultivo em relação à profundidade das covas ou dos sulcos; espaçamento entre sulcos ou covas; estado de conservação das mudas. Para o plantio do capim-elefante, por exemplo, são utilizadas estacas inteiras ou pedaços de estacas com três ou quatro nós em plantas cortadas com 90 a 100 dias de idade. As covas deverão ser abertas com distanciamento de 0,8 a 1,0 metros e as estacas deverão ser colocadas em duplas e em sentidos contrários.
  • Durante o plantio, deve ser realizada adubação com esterco curtido e com outros fertilizantes disponíveis na propriedade (compostos orgânicos, bagana de carnaúba, etc.), conforme a análise prévia do solo, quando o solo estiver úmido, devendo-se ter o cuidado de não colocar o adubo muito próximo à semente ou muda, pois alguns fertilizantes podem levar a semente ou muda à morte por desidratação.
  • Após o plantio, deve-se fazer o controle de eventuais pragas ou doenças, principalmente de ervas daninhas para evitar competição com a planta cultivada. A cultura deve crescer livremente cerca de 60-70 dias (dependendo do tipo de forrageira e do manejo) e após esse período, deve-se proceder a um corte ou pastejo leve para favorecer a formação de uma touceira mais densa e robusta. Outra forma de manejo pós-pastejo ou pós-corte seria preservar a primeira floração, proporcionando a produção de sementes, favorecendo o ressemeio natural.

Manejo de pastagens

O manejo de pastagens é realizado com os objetivos de maximizar o lucro do produtor, evitar riscos e estresses desnecessários aos animais e manter o equilíbrio do ecossistema. Dessa forma, os componentes práticos observados no manejo das pastagens são relativos às técnicas que levam a rápida rebrotação após o pastejo, manutenção da produção e vigor das plantas forrageiras.
Portanto, o sistema de pastejo, seja ele sob lotação contínua ou rotacionada, a frequência e a intensidade de pastejo, o ajuste do número de animais pela oferta de forragem disponível, a adubação de manutenção parcelada, especialmente com adubos nitrogenados e potássicos e o manejo da irrigação são de fundamental importância para garantir produtividade e perenidade do pasto (RODRIGUES; RODRIGUES, 1987).

Manejo da capineira

Para se tirar o máximo proveito da capineira, ela deve ser manejada visando à obtenção de altos rendimentos de forragem e de valor nutritivo e a uma melhor distribuição da produção forrageira durante o ano (GOMIDE, 1997). Sob esse aspecto, como na região Nordeste, o grande obstáculo para a produção animal reside na escassez de forragem na época da seca, o capim cortado na época chuvosa deve ser conservado sob a forma de feno ou silagem para utilização na seca.
No caso do manejo da capineira de capim-elefante é fundamental observar corretamente o intervalo de cortes. O corte deve ser feito rente ao solo quando a planta atingir 60 a 70 dias de idade ou quando atingir 1,70 a 1,80 m de altura (OBEID et al., 1984), sendo seguido de adubação, seja ela orgânica utilizando esterco, sja utilizando fertilizantes industriais.









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12 de mai. de 2018

O Feno na Alimentação de Caprinos e Ovinos


Introdução

Inúmeras alternativas são encontradas para o fornecimento de volumosos de qualidade para alimentação dos rebanhos no Nordeste brasileiro. Entretanto, pelas facilidades nos processos de produção e armazenamento, bem como pela sua qualidade nutricional, a administração de feno é uma das alternativas mais viáveis para os sistemas de produção nordestinos. O feno é obtido mediante a exposição ao sol e ao ar da planta cortada, que sofre dessecação lenta e parcial, de modo que a sua taxa de umidade, originalmente de 60% a 85%, seja reduzida para teores entre 10 e 20%, com perda mínima de nutrientes, maciez, cor e sabor.
A fenação é um processo simples e econômico, sendo recomendável por oferecer algumas vantagens. Sua execução não apresenta dificuldades que impeçam o pequeno criador de realizá-la com o emprego de recursos manuais, ao passo que o grande criador pode fazer em larga escala com o auxílio da mecanização. O armazenamento do feno pode ser realizado em galpões, ou cobertas próximas aos apriscos. Sua distribuição é simples, o que facilita muito a logística do manejo alimentar do rebanho.

Espécies indicadas à fenação

As características desejáveis numa planta forrageira destinada à fenação são alta relação folha: colmo, o que facilita a perda de água, adaptação e tolerância ao corte, rendimento forrageiro e a qualidade de forragem.
Quanto às plantas a serem fenadas, devem-se considerar as leguminosas e as gramineas. Entre as leguminosas, destacam-se, nas condições de semiárido, a leucena como espécie exótica e a catingueira e o sabiá como opção de espécie nativa. O feno dessas espécies, quando bem feito, apresenta elevado teor de proteína e é bem aceito pelos animais. Entre as gramíneas, destacam-se o capim-buffel e espécies do gênero Cynodon (Tifton, grama bermuda e capim gramão). Além desses exemplos, pode ser citado ainda o capim massai, que apresenta grande potencial para fenação, por possuir elevada relação folha: colmo, boa aceitação pelos animais e produção de massa verde, mesmo em condições de restrição hídrica.

Etapas da fenação

  • Corte: a primeira etapa na produção de feno é o corte que pode ocorrer de forma mecânica ou manual. O período da manhã é o mais indicado para se realizar o corte por possibilitar maior desidratação da planta no fim do dia. Quando se trabalha com forrageiras com colmos mais grossos, recomenda-se a utilização de uma secadora condicionadora para facilitar a perda de água pela planta. Para a fenação de espécies de colmo mais grosso, como é o caso do capim elefante, recomenda-se a picagem da biomassa em particular de 3 a 5 cm e sua secagem em solário ou sobre lona. Na ocasião do corte, as plantas apresentam teor de umidade de 80% – 85% que necessita ser reduzido a níveis de 12%–15% para proporcionar uma preservação estável da forragem fenada.
  • Secagem: a desidratação a campo, nas etapas iniciais, pode ser acelerada de três a quatro vezes, se a planta for submetida a um processo capaz de revirá-la e afofá-la, permitindo a entrada de ar e raios solares. Essa prática produz, em média, um aumento de 30% na taxa de desidratação, o que pode reduzir o tempo de secagem a campo de duas a oito horas. Se permanecer no campo por mais de um dia, o material deve ser enleirado para evitar o efeito do orvalho e das chuvas eventuais. A ação de espalhar e enleirar o material cortado pode aumentar a queda de folhas
  • Enfardamento e armazenamento: a última etapa de processo de fenação consiste no armazenamento do feno quando atingir a umidade de equilíbrio ou “ponto de feno”, isto é, quando a perda de água é igual ao ganho obtido pelo ar. O teor de umidade do feno no momento do armazenamento é o mais crítico fator determinante do êxito ou fracasso da fenação. A umidade final do feno deve-se situar entre 12%–15%. O armazenamento de fenos com teores de umidade acima de 20% resulta na elevação das perdas de matéria seca decorrentes da contínua respiração celular e do desenvolvimento de microrganismos.
Na prática, a determinação do ponto de feno pode ser feita diretamente no campo, torcendo o feixe de capim. Se surgir umidade e, ao soltar, o material voltar à posição inicial rapidamente, ainda não está no ponto; se não surgir umidade e, ao soltar, o material voltar lentamente à posição inicial, sem rompimento de hastes, está no ponto. Outro método para verificação do ponto de fenação é usar a unha para verificar a umidade dentro do colmo e dos nós de gramíneas e nos caules finos de leguminosas. O ponto ideal de fenação é quando não houver nenhuma umidade.
Outro aspecto no processo de fenação diz respeito à escolha da área destinada à produção de feno, que deve ser plana, sobre solo de boa fertilidade e bem drenado e que possibilite a utilização de maquinário (quando for conveniente). Considerando que a colheita da forrageira representa grande retirada de nutrientes do solo, principalmente N e K, faz-se necessária adubação periódica (após cada corte) para que seja mantida a fertilidade do campo de fenação.

Qualidade do feno

A qualidade do feno é afetada por diferentes fatores, tais como: estágio de maturação da planta, espécie forrageira, composição química, forma física, impureza, deterioração durante o corte, condições de armazenamento e presença de componentes antinutricionais. A maturidade é o fator mais importante na determinação da qualidade do feno. Com o avanço da maturidade, ocorre aumento na quantidade de material fibroso que tem qualidade reduzida, resultando em diminuição da digestibilidade e do consumo.
O estágio fenológico no momento do corte tem grande influência no rendimento por unidade de área, valor nutritivo, palatabilidade, digestibilidade, proporção de folhas, coloração e teores de proteína, fibra do feno produzido. Deve-se buscar sempre um ponto ótimo entre a qualidade e a quantidade produzida. Plantas novas são mais nutritivas, entretanto quando cortadas nesse estágio, a produção total é menor. Plantas mais velhas têm menor qualidade nutricional, baixo teor proteico e elevada fibra, mas têm uma produção maior. A presença de mofo e bolores diminui a palatabilidade e o valor nutritivo do feno, além de ser perigosa para a saúde do rebanho.





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7 de mai. de 2018

Volumosos na Alimentação de Caprinos e Ovinos

Introdução

Silagem é o alimento produzido através da fermentação ácida de uma cultura, com alto teor de umidade (acima de 50%). A silagem é uma importante fonte de forragem para os ruminantes em todo o Brasil.
Quando o processo de ensilagem é executado de forma correta, a silagem produzida irá fornecer um alimento com alta concentração de energia, nutrientes e boa aceitabilidade pelos animais.
Silagem de boa qualidade é obtida por meio da colheita do material no estágio adequado, minimizando os microrganismos indesejáveis e maximizando o rápido abaixamento do pH.
Três fatores importantes são necessários para que a silagem fique bem-feita:
  1. o tipo de material que será ensilado;
  2. a umidade do material; e
  3. a retirada do oxigênio dentro do silo (compactação).
Neste contexto, a silagem pode ser uma alternativa interessante para suplementação animal no período de escassez de forragem nas pastagens.

Forrageiras para ensilagem

As melhores plantas forrageiras para ensilagem são aquelas com elevado teor de açúcares solúveis. Esse é o caso do milho e do sorgo. Os capins, geralmente, têm baixo teor de açúcares e, portanto, não são os mais indicados para ensilagem, com exceção do capim-elefante (Napier, Cameroon, Taiwan, Mineiro e outros), que, por ter adequado teor de carboidratos solúveis, pode produzir silagem de boa qualidade. Entretanto, espécies do gênero Brachiaria e Panicum são ensiladas sem grandes problemas, mas suas silagens não têm a mesma qualidade da silagem de milho. As leguminosas, por terem um alto poder tampão, são menos indicadas para serem ensiladas sozinhas, mas podem ser utilizadas como aditivos em silagens de milho, sorgo ou capim-elefante para melhorar seu valor proteico, podendo ser adicionadas em até 20%, sem comprometer o processo de fermentação e a qualidade ou pode-se adicionar 20% de cana picada em silagem de capim-elefante maduro, com menos umidade, para melhorar as condições de fermentação.
Milho
Usam-se as mesmas variedades produtoras de grãos e adaptadas à região.
Corta-se a planta toda quando os grãos estiverem no ponto farináceo, linha do leite a ½ do grão (Figura 1).


Figura 1 . Linha do leite do grão de milho.
Produção: cerca de 20-30 tonelada de massa verde por hectare.
Sorgo
Existem variedades mais indicadas (variedades de duplo propósito para produção de forragem e grão).
Corta-se a planta toda quando os grãos estiverem no ponto farináceo. Essa espécie pertence à ensilagem da rebrota, que pode chegar a 50% da produção do plantio inicial.

Produção: cerca de 20-40 t/ha, mais a rebrota que tem sua produção variável
Capim-elefante
Corte aos 60-70 dias de idade, quando o capim estiver com 1,8 m de altura. É preciso pré-murchar o capim, antes de colocá-lo no silo, pois contém água em excesso A pré-murcha é realizada cortando o capim e deixando-o na capineira por um período de tempo que pode variar de horas (6h) até dias (1,5 dias), dependendo das condições climáticas no momento do corte e da umidade original do material a ser ensilado. Pode-se utilizar algum tipo de aditivo absorvente de umidade em opção ao pré-emurchecimento.
Produção: 20 a 30 t/ha/corte, e 3 a 4 cortes/ano.

Tipo de silos

Existem vários tipos de silos, e todos têm vantagens e desvantagens, não existindo, assim, um tipo de silo perfeito ou ideal. A escolha do tipo de silo a ser utilizada deve-se levar em conta uma série de questões, tais como: custo, praticidade, perdas do material ensilado, entre outros.
O quadro abaixo tenta fazer um comparativo superficial dos tipos de silo mais utilizados para auxiliar na tomada de decisão.


Tabela 1. Tipos de silos mais utilizados para auxiliar na tomada de decisão
Tipo de Silo
Vantagem
Desvantagem
Trincheira
Praticidade de enchimento; melhor compactação
Custo elevado, alta perda
Superfície
Menor custo, facilidade de enchimento
Perda elevada, difícil compactação
Cincho
Praticidade e custo
Compactação mais difícil, tamanho bastante reduzido
Aéreo
Baixa perda, boa compactação
Difícil enchimento e esvaziamento
Processo de Ensilagem

O sucesso para a produção de uma boa silagem está diretamente relacionado às etapas que se seguem. O processo de ensilagem consiste das etapas de colheita, picagem, enchimento do silo, compactação da massa verde e vedação do silo.
  • Colheita: O ponto ideal de corte para a silagem de milho e/ou sorgo é quando a planta acumula a maior quantidade de matéria seca e qualidade nutricional. Em geral, esse ponto se dá quando os grãos atingem o estágio de farináceo-duro, ou 50% da linha do leite (Figura 1). A altura de corte da planta deve ser feita entre 5 e 10 cm de altura do chão. A matéria seca da planta deve estar em torno de 30% a 35%.
  • Picagem: O tamanho ideal de partícula é de 2 a 3 cm. Partículas acima desse tamanho atrapalham o processo de compactação e permitem ao animal uma maior seleção, aumentando as perdas no cocho. Partículas abaixo desse tamanho provocam uma perda acentuada de nutrientes via efluente e favorecem uma compactação acentuada da massa.
  • Enchimento: o período de enchimento do silo requer um planejamento logístico para a utilização de máquinas e de mão de obra bem elaborados para que o processo ocorra de forma eficiente. O enchimento do silo deve ocorrer o mais rápido possível para que o processo fermentativo ocorra de forma homogênea em todo o material. Recomenda-se, no máximo, 3 (três) dias para o completo enchimento e vedação do silo.
  • Compactação: esta é a etapa mais importante do processo de confecção de silagem. É na etapa de compactação que ocorre a máxima expulsão de oxigênio de dentro do silo. Essa expulsão pode ser realizada de várias formas: pisoteio animal ou humano; tratos; com rolos ou tambores compactadores; entre outros. A máxima eliminação do oxigênio de dentro da massa ensilada irá propiciar condição para que o processo de fermentação ocorra de forma adequada e a qualidade do material seja mantida. Deve-se atentar para a super compactação que aumenta as perdas por efluente. A densidade de compactação ideal varia de 400 kg/m3 a 600 kg/m3, dependendo o tipo de silo utilizado.
  • Vedação: Consiste na selagem do silo com lona plástica de dupla face (com a face branca para cima), material vegetal morto e terra. A vedação deve ser muito bem feita, a fim de minimizar ou não permitir a troca de oxigênio entre o ambiente e a massa ensilada. A cobertura de lona plástica com material vegetal seco e terra é muito importante para aumentar a durabilidade da lona e diminuir o aquecimento da superfície do silo, que pode acarretar perdas no valor nutricional.
  • Abertura e utilização: a abertura do silo deve ocorrer, no mínimo, 30 dias após a vedação. Para que a silagem chegue com boa qualidade ao cocho dos animais, é fundamental estar atento a alguns cuidados importantes após a abertura do silo. Depois de aberto, a massa ensilada volta a ter contato com o oxigênio, o que que permite que microrganismos aeróbicos voltem a se desenvolver dentro do silo, levando a perdas. Assim, um bom manejo do silo, após aberto, é fundamental para se garantir o fornecimento de uma silagem de qualidade para o rebanho. É aceitável uma perda entre 10% e 15% da massa ensilada. Essa perda é em decorrência dos processos de fermentação e pelo reaparecimento de microrganismos indesejáveis com a exposição da massa ensilada ao ar.
Após a abertura do silo, diariamente se deve eliminar as partes que apresentem coloração escura ou mofo. Silagem com essas características pode intoxicar os animais, podendo, em último caso, causar a morte. A camada de silagem a ser retirada diariamente do silo não deve ser inferior a 20 cm. A retirada deve ser feita de modo que o perfil do silo seja mantido liso, sem degraus. A retirada deve ser feita sempre de cima para baixo e nunca de baixo para cima do perfil, e deve ser feito em toda a superfície do perfil, não apenas em uma parte.
O manejo correto do silo após aberto passa pelo planejamento da sua adequada dimensão. Na grande maioria das vezes, deve-se preferir a construção de um número maior de silos de menor capacidade a um menor número de silos com grande capacidade; uma exceção é quando se constroem silos em confinamentos em que a quantidade de forragem retirada do silo é grande. Nesses casos, é preferível a construção de silos maiores. Outro cuidado simples, mas bastante importante é proteger o painel com lona, pois a chuva, o vento e a radiação solar aceleram o processo de perda de qualidade da silagem.







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3 de mai. de 2018

Manejo Nutricional de Caprinos e Ovinos


Introdução

A exploração de caprinos e ovinos é uma atividade que tem despertado interesse de produtores, tendo em vista o aumento da demanda, principalmente pela carne ovina e o leite caprino. Ressalte-se que o uso desses produtos pecuários por toda a população expande-se desde o acesso em grandes restaurantes e redes de supermercados, geralmente associados a criadores mais tecnificados, até consumidores de menor poder aquisitivo e condições de criação com menor grau de tecnificação. O estudo de mercado ainda é deficitário para a maioria dos criatórios de ovinos e caprinos leiteiros. Além disso, a falta de um manejo nutricional adequado, a reduzida disponibilidade de alimentos em determinados períodos do ano, geralmente resultando em dietas com inadequado valor nutritivo, têm sido convertidos em prejuízos à quantidade e à qualidade dos produtos fornecidos ao consumidor.

Diante desse cenário, é preciso desenvolver técnicas que propiciem a melhoria dos índices produtivos e otimizem o uso de recursos alimentares disponíveis, especialmente associando-o ao conhecimento sobre o valor nutritivo de alimentos alternativos e tradicionais e os dados mais recentes sobre as exigências nutricionais de pequenos ruminantes distribuídos em categorias produtivas. Por fim, a difusão técnica dessas informações propiciará melhores ajustes dietéticos e melhores estratégias de suplementação alimentar, visando o aumento da eficiência produtiva e econômica.
Na presente revisão, pretende-se dar ênfase às medidas de manejo nutricional específicas à criação de ovinos e caprinos, conforme as categorias produtivas em recomendações para ambas as espécies, no tocante ao que é comum entre elas, independentemente da aptidão produtiva.

Pré-Monta

Dietas com maior teor nutritivo, notadamente em energia, são oferecidas às fêmeas ao longo de duas a três semanas que antecedem a estação de monta e nas duas semanas posteriores. Esse manejo é conhecido por flushing. Como vantagens, podem ser destacadas: alta apresentação de cios no momento da cobertura, aumento da taxa ovulatória, maior concepção e sobrevivência embrionária e maiores taxas de fertilidade e prolificidade.

Muitos produtores utilizam essa técnica para corrigir a condição nutricional dos animais antes de entrar na estação de monta. Fêmeas com escore de condição corporal (ECC) adequado (3,0 e 4,0) dispensam tal manejo, uma vez que trabalhos relatam que a superalimentação durante a fase inicial da gestação pode causar efeitos negativos sobre a viabilidade embrionária (Robinson, 1982).

Estação de monta

Fazendo-se o fornecimento alimentar adequado no período pré-monta, geralmente se atinge o desejável durante a estação de monta, que são as maiores taxas de fertilidade e fecundidade. De acordo com Fraser e Stump (1989) apud Rogério et al. (2011), é desejável que na fase reprodutiva os animais estejam com ECC entre 3 e 4. Caso as fêmeas não tenham atingido a condição corporal entre 3 e 4 após a dieta de flushingpré-monta, é recomendável observar aspectos de sanidade, divisão adequada de lotes quanto ao tamanho, peso e idade e se realmente os alimentos ofertados apresentavam a qualidade nutritiva no momento da oferta, conforme foi estabelecida na formulação. Nesse caso, é recomendável que continuem recebendo o flushing, após corrigida alguma possível falha no manejo, a fim de que entrem na estação de monta apenas quando o escore estiver entre 3 e 4.

Assim, os escores derverão ser acompanhados em cada fase produtiva: durante o início e meio da gestação, o ECC deve estar entre 2,5 e 4; no terço final da gestação, deve estar entre 3,0 a 3,5; e 3,5 a 4,0 para gestantes com 1 e 2 fetos, respectivamente. Após o parto e no início da lactação, o ECC deve ser de no mínimo 2,0. É importante ressaltar que fêmeas em início de gestação não devem perder mais do que 7% do seu peso, pois conforme esses autores, essa redução acarreta mudanças de 0,5 na condição corporal dos animais. Na Figura 1, é possível observar o escore de condição corporal em função da fase do ciclo produtivo.


Figura 1. Escore de condição corporal (ECC) em função da fase do ciclo reprodutivo-produtivo. 
Fonte: Cesar e Souza (2006).

Gestação

Na fase inicial da gestação, as exigências nutricionais das ovelhas devem ser calculadas para exceder ligeiramente a mantença (ALBUQUERQUE et al., 2005; SUSIN, 1996). Geralmente, a utilização de uma dieta à base de forrageiras de boa qualidade é suficiente para atender as exigências nesse período (ALBUQUERQUE et al., 2005). Nesta fase, o crescimento fetal equivale a 10-15% do peso do cordeiro (BELL et al., 1995). Devido a esse fato, maior atenção deve ser dada às fêmeas no terço final de gestação (Figura 2).

Figura 2. Desenvolvimento fetal em pequenos ruminantes ao longo da gestação.
Fonte: Sahlu e Goetsch (1998)
Nas últimas semanas de gestação, as ovelhas exigem maior aporte de nutrientes em menor volume de alimentos por conta da redução do espaço abdominal para o rúmen. Ajustes na dieta devem ser realizados, especialmente com a inclusão de alimentos de maior densidade energética (ROGÉRIO et al., 2011). 
Como há diferenças nas exigências de ovelhas de primeira gestação com aquelas mais velhas (3-6 anos), assim como a prolificidade (número de crias/parto), torna-se necessário adotar um programa alimentar diferenciado para cada lote (ALBUQUERQUE et al., 2005). Segundo esses  autores, essa estratégia deve persistir após o parto, visando melhores condições de recuperação devido à gestação e objetivando o início da lactação.
O incremento dos teores energético-proteicos das dietas, pelo uso de alimentos concentrados, funciona como estimulante de consumo, além de promover o desenvolvimento das papilas ruminais, necessárias à melhor absorção de nutrientes para o feto, uma vez que o seu desenvolvimento é afetado pelo plano nutricional da fêmea durante a gestação (MELLOR, 1987). Na Tabela 1, podemos observar as exigências nutricionais das fêmeas durante a gestação. O metabolismo fetal tem prioridades nutricionais, e o peso da cria ao nascer é proporcional ao plano de nutrição da matriz.
Animais mal nutridos durante a gestação apresentam maior tempo de recuperação pós-parto, maiores intervalos entre partos, menor número de partos duplos, entre outros problemas (MACEDO JUNIOR et al., 2006). Situações em que fêmeas ao final da gestação sofreram restrição severa e abrupta apresentaram decréscimo da taxa de crescimento fetal em até 40% (MELLOR, 1987). Se a restrição prosseguir por mais de duas semanas nesta fase, as perdas podem ser ainda maiores.
O manejo de ovelhas e cabras em terço final de gestação implica na compreensão de que esses animais apresentam exigências elevadas, já que 70% do crescimento fetal ocorre nesse período. Recomenda-se melhorar o plano nutricional, com utilização de forrageiras de boa qualidade e concentrado. Pimenta Filho et al. (2007) avaliaram o desenvolvimento de cordeiros Morada Nova a partir do fornecimento às mães de diferentes níveis de energia metabolizável dietéticos (2,2; 2,8 e 3,4 Mcal/dia) no terço final de gestação. De acordo com o estudo, o efeito “nível energético dietético” não influenciou o peso dos cordeiros ao nascimento e até às quatro primeiras semanas de vida, nem a composição do colostro das matrizes (P>0,05), mas os autores ressaltaram um possível direcionamento dos nutrientes dietéticos para os tecidos fetais e mamários, visto que a mobilização de reservas não foi observada nesse estudo. Apenas as fêmeas que receberam 3,4 Mcal/dia no trabalho de Pimenta Filho et al. (2007) aproximaram-se da recomendação de ECC feita por Fraser e Stump (1989), citado por Rogério et al. (2011), sendo observados valores médios de ECC de 2,25; 2,5 e 2,8 para os animais consumindo dietas com 2,2; 2,8 e 3,4 Mcal/dia, respectivamente.
Tabela 1. Exigências nutricionais de ovelhas adultas e cabras leiteiras adultas, em gestação.
Início da gestação
Espécie
No de crias
Peso (kg)
Ingestão de Nutrientes



CMS
NDT
PB (40% CPNDR)
Ca
P
Ovelhas

1

40
0,99
0,52
79
3,4
2,4
50
1,16
0,61
91
3,8
2,8
60
1,31
0,70
103
4,2
3,2
2
40
1,15
0,61
95
4,8
3,2
50
1,31
0,70
107
5,4
3,7
60
1,51
0,80
124
5,9
4,2

3 ou mais

40
1,00
0,67
98
5,4
3,3
50
1,46
0,77
123
6,5
4,4
60
1,65
0,87
137
7,1
4,9
Cabras
1
30
0,98
0,52
79
3,8
2,2
40
1,21
0,64
96
4,2
2,5
50
1,42
0,75
111
4,4
2,8
2
30
1,08
0,57
93
5,5
2,9
40
1,32
0,70
111
5,8
3,2
50
1,55
0,82
129
6,2
3,6
3 ou mais
30
1,14
0,61
101
7,0
3,5
40
1,40
0,74
122
7,3
3,9
50
1,64
0,87
140
7,6
4,2
Final da gestação
Espécie
No de crias
Peso (kg)
Ingestão de Nutrientes
Ovelhas

1

40
1,00
0,66
96
4,3
2,6
50
1,45
0,77
120
5,1
3,5
60
1,63
0,86
134
5,7
4,0
2
40
1,06
0,85
123
6,3
3,4
50
1,47
0,97
148
7,3
4,3
60
1,65
1,09
165
8,1
4,8

3 ou mais

40
1,22
0,97
144
7,7
4,1
50
1,41
1,12
165
8,7
4,7
60
1,57
1,25
183
9,5
5,2
Cabras
1
30
1,09
0,72
112
4,0
2,4
40
1,33
0,88
134
4,3
2,7
50
1,94
1,03
169
5,2
3,5
2
30
1,09
0,87
134
5,5
2,9
40
1,59
1,05
169
6,2
3,6
50
1,85
1,23
194
6,6
4,0
3 ou mais
30
1,20
0,95
151
7,0
3,6
40
1,47
1,17
181
7,4
4,0
50
1,70
1,36
205
7,7
4,3
Adaptada do NRC (2007). CMS – Consumo de matéria seca (kg/dia), NDT – Nutrientes digestíveis totais (kg/dia), PB – Proteína Bruta (g/dia) proporcional ao consumo de 40% de proteína não degradável no rúmen (CPNDR), Ca – Cálcio (g/dia), P – Fósforo (g/dia).

Parto

A viabilidade e o desenvolvimento pós-natal das crias são influenciados diretamente pelo aporte energético dado às matrizes no periparto (PIMENTA FILHO et al., 2007). Segundo esses autores, uma ovelha subnutrida no último terço da prenhez terá cordeiros com menor peso ao nascimento, mesmo que o plano nutricional durante os primeiros 100 dias de gestação tenham sido adequados. Inversamente, um alto nível nutricional no último terço da gestação produzirá cordeiros normais, ainda que a nutrição no início da gestação tenha sido deficitária. Isso, entretanto, não quer dizer que podem ser negligenciadas as fases anteriores ao periparto, pensando-se em manejo nutricional adequado.
Para que a ovelha atinja todo o seu potencial para produção leiteira, atenção especial deve ser dada a ela desde a fase gestacional, pois matrizes desnutridas durante a gestação podem ter redução do crescimento da glândula mamária e consequente comprometimento da lactação (ALBUQUERQUE et al., 2005).
De modo geral, todas as fases produtivas requerem cuidados especiais em termos de fornecimento de nutrientes em níveis adequados. No momento do periparto (terço final de gestação e início de lactação) o adensamento de nutrientes nas dietas, pela maior exigência nutricional das matrizes nessa fase produtiva, faz-se necessário (ROGÉRIO et al., 2011).
As exigências nutricionais das fêmeas no início da lactação são geralmente elevadas e, ao mesmo tempo, a capacidade ruminal ainda se encontra diminuída em virtude da incompleta involução uterina. Esses dois fatores associados implicam geralmente na mobilização de tecidos (gordura principalmente) no começo dessa fase (ALBUQUERQUE et al., 2005).
As exigências nutricionais das ovelhas em lactação variam ao longo das fases do ciclo produtivo. Os sistemas de produção podem adotar intervalos de Partos (IP) de 8 ou 12 meses. Para que o sistema funcione bem com intervalos mais curtos, as fêmeas devem ter alimentação de alta qualidade durante todo o ano, uma vez que serão bem mais exigidas. Além de oferecer volumosos de boa qualidade, cerca de 500 g/dia de concentrado, mais 200 a 300 g/dia por kg de leite produzido, de acordo com a fase de lactação deverão ser oferecidos (OLIVEIRA et al, 2011). Se os intervalos entre partos são mais longos (acima de 12 meses, por exemplo) a suplementação pode ser diminuída para 200 g/dia com volumosos de boa qualidade. Cada caso é um caso, e o acompanhamento de um profissional graduado em veterinária, zootecnia ou agronomia, com conhecimentos específicos em nutrição de ruminantes, poderá ser necessária para o adequado ajuste dietético.
Para facilitar a compreensão da necessidade dos ajustes necessários durante a lactação da fêmea ovina, as fases de lactação foram divididas. Na primeira fase, ou início da lactação, as exigências nutricionais aumentam rapidamente, concomitantemente ao aumento da produção de leite, que tem o pico de produção atingido entre a 6ª e a 9ª semana. Porém, o pico da ingestão de alimentos não coincide com o pico de produção de leite, de maneira que a ingestão de nutrientes é insuficiente, provocando o emagrecimento. No primeiro mês de lactação, as fêmeas podem perder até 900 g de tecido adiposo por semana para manter a produção de leiteira, no 2º mês a perda média é de 450 g (OLIVEIRA et al, 2011). É possível visualizar esse comportamento na Figura 3 (abaixo).

Figura 3. Evolução da produção de leite, ingestão da matéria seca e peso vivo de cabras leiteiras de alta produção, considerando-se um intervalo entre partos de 12 meses.
Fonte: Sahlu e Goetsch (1998).
Para amenizar a perda de peso, é aconselhável utilizar rações palatáveis e com elevada densidade energética, sem se esquecer do fornecimento da quantidade mínima de fibra. De acordo com Macedo Júnior (2004), pelo menos 28,08% de FDN devem ser incorporados nas dietas de fêmeas ovinas no final da gestação.
Durante a fase 2, a capacidade de ingestão das fêmeas é restabelecida, enquanto a produção de leite começa a diminuir. O peso corporal passa a aumentar de 0,6 a 1,9 kg por mês. Essa fase pode variar conforme o intervalo de partos, caso seja de 12 meses, dura cerca de 5 meses, e apenas 1 mês quando o IP for de 8 meses (OLIVEIRA et al., 2011).
Para a fase 3, a fêmea já pode, inclusive, estar gestante novamente (três meses de gestação). Nesse caso, o animal começa a acumular reservas corporais para a próxima lactação. E por fim, na fase 4, correspondente ao terço final de gestação, implica no aumento na demanda por nutrientes. O ganho de peso durante a fase varia de 6 a 9 kg e corresponde principalmente ao crescimento do(s) fetos(s). É recomendado utilizar volumoso de boa qualidade, preferencialmente feno, e 500 a 800 g de concentrado/cabeça/dia (OLIVEIRA et al., 2011). Caso utilize silagem, essa não deverá ser o único volumoso, pelo baixo teor de matéria seca.
Tabela 2. Exigências nutricionais de ovelhas adultas e cabras leiteiras adultas, no início e no final da lactação.

Espécie
No de crias
Produção de leite (kg/dia)
Peso (kg)
Ingestão de Nutrientes
Início da lactação

CMS
NDT
PB (40% CPNDR)
Ca
P
Ovelhas
1
0,71 a 1,32
40
1,09
0,72
149
4,1
3,4
50
1,26
0,83
169
4,6
3,9
60
1,77
0,94
200
5,4
5,0
2
1,18 a 2,21
40
1,40
0,93
213
6,0
5,0
50
1,61
1,07
242
6,7
5,7
60
1,80
1,20
268
7,3
6,3
3 ou mais
1,53 a 2,87
40
1,36
1,08
253
7,1
5,7
50
1,88
1,24
297
8,3
7,0
60
2,09
1,38
327
9,1
7,8
Cabras
1
0,88 a 1,61
30
1,38
0,73
73
5,5
3,5
40
1,67
0,89
89
5,9
3,9
50
1,94
1,03
104
6,3
4,3
2
2,06 a 3,22
40
2,34
1,24
115
10,0
6,4
50
2,70
1,43
133
10,5
6,9
60
3,03
1,61
150
10,9
7,3
3 ou mais
3,49 a 4,82
50
2,77
1,83
136
13,7
8,5
60
3,10
2,05
153
14,1
8,9
70
3,41
2,26
169
14,6
9,4
Espécie
No de crias
Produção de leite (kg/dia)
Peso (kg)
Ingestão de Nutrientes
Final da lactação

Ovelhas
1
0,23 a 0,45
40
1,09
0,58
100
2,7
2,3
50
1,26
0,67
114
3,0
2,7
60
1,43
0,76
129
3,3
3,1
2
0,38 a 0,75
40
1,38
0,73
136
3,7
3,2
50
1,60
0,85
156
4,2
3,7
60
1,80
0,95
174
4,6
4,2
3 ou mais
0,55 a 0,97
50
1,83
0,97
185
5,0
4,4
60
2,06
1,09
207
5,6
5,0
70
2,29
1,21
229
6,1
5,5
Cabras
1
0,38 a 0,69
30
1,05
0,56
61
5,1
3,1
40
1,28
0,68
75
5,4
3,4
50
1,51
0,80
88
5,7
3,7
2
0,88 a 1,38
40
1,57
0,83
86
8,9
5,3
50
1,83
0,97
100
9,3
5,7
60
2,07
1,10
113
9,6
6,0
3 ou mais
1,50 a 2,07
50
2,16
1,14
112
12,8
7,7
60
2,43
1,29
127
13,2
8,0
70
2,69
1,43
141
13,6
8,4
Adaptada do NRC (2007). CMS – Consumo de matéria seca (kg/dia), NDT – Nutrientes digestíveis totais (kg/dia), PB – Proteína Bruta (g/dia) proporcional ao consumo de 40% de proteína não degradável no rúmen (CPNDR), Ca – Cálcio (g/dia), P – Fósforo (g/dia).

Nascimento

Nas primeiras semanas de vida, é importante a administração adequada do leite materno, ou em alguns casos, o fornecimento de sucedâneos. A partir da terceira semana de vida, a atividade enzimática do sistema digestivo das crias aumenta gradativamente, possibilitando a inclusão de outros ingredientes à dieta (DAVIS; DRACLEY, 1998). Administrar o colostro é importante por este ser rico em células de defesa (imunoglobulinas) que contribuirão com a prevenção de doenças. Em casos em que a fêmea não apresente ou tenha produção insuficiente de colostro ou em situações em que a cria não é aceita pela mãe, o neonato poderá ser colocado junto a outra fêmea recém-parida, ou então se deve proceder ao aleitamento artificial em mamadeira, preferencialmente nas primeiras 3 horas de vida (OLIVEIRA et al., 2011). Se o colostro estiver congelado, deverá ser descongelado em banho-maria. Na Tabela 3 está apresentado um exemplo de esquema de aleitamento artificial. Os cuidados com a higiene dos materiais utilizados são fundamentais para evitar o risco de diarreias nos animais durante essa fase.
A partir dos 10 dias de idade, os cordeiros já começam a ingerir alimentos sólidos. Para antecipar o desenvolvimento das papilas ruminais, o fornecimento em creep feeding é uma alternativa interessante nesta fase. Além da contribuição com o desenvolvimento papilar, o creep feeding contribui com o incremento nutricional na dieta das crias (leite), aumentando a taxa de crescimento, melhorando a eficiência alimentar e evitando o desgaste excessivo das fêmeas através da amamentação (CEZAR; SOUZA, 2006). Segundo Neiva et al. (2004), com o menor desgaste das fêmeas, é proporcionada melhoria da eficiência reprodutiva, uma vez que a cria está substituindo parcialmente o leite pelo alimento fornecido.
Tabela 3. Esquema de aleitamento artificial para caprinos e ovinos
Idade (dias)
Tipo de leite
Frequênciaa
Quantidade (Litros /dia)
1 a 7
Colostro
4-5
0,5-0,8
8 a 11
Leite Ovino/caprino + bovino (2:1)
3
1,0-1,5
12 a 15
Leite Ovino/caprino  + bovino (1:1)
3
1,0-1,5
16 a 19
Leite Ovino/caprino + bovino (1:2)
3
1,5-2,0
20 a 83
Bovino
3
2,0
84 a 90
Bovino
1
1,0
aNúmero de aleitamentos por dia. Adaptado de Oliveira et al. (2011).

Desmama

O consumo de alimento pelos cordeiros com duas a seis semanas de idade está ligado à palatabilidade, forma física da ração e das condições do ambiente em que o manejo será adotado (NEIVA et al., 2004). Os mesmos autores ressaltaram que o concentrado deve ter proteína com alta digestibilidade, energia prontamente disponível, minerais com alta disponibilidade biológica, bem como vitaminas. Com esse adensamento nutritivo, o creep feeding torna-se indispensável para encurtar o tempo de acabamento dos animais para abate (SAMPAIO et al., 2001). O fornecimento de volumosos de alta qualidade também é recomendado, pois contribui para o desenvolvimento da capacidade de ingestão de alimentos.
Além da curva de crescimento dos cordeiros nesta fase estar em franca ascendência, a intenção de se reduzir o tempo até o abate denota a necessidade de incorporação de dietas concentradas para potencializar o desenvolvimento. Ao avaliar um nível de energia que fosse ideal para esta fase, Garcia et al. (2003) incorporaram às dietas de cordeiros Suffolk níveis de 2,6; 2,8 e 3,0 Mcal de energia metabolizável/ kg MS em sistema de creep feeding. Esses autores verificaram que a dieta com 3,0 Mcal proporcionou o melhor desempenho aos animais.
Dependendo da necessidade por sistemas mais intensivos de produção e dos preços relativos de alimentos concentrados, a suplementação em creep feeding ao contribuir com o desenvolvimento papilar ruminal pode representar importante estratégia inclusive para antecipar o desmame (FRESCURA et al., 2005). Nesse tocante, Borges et al. (2005) destacaram a oportunidade para ovinocultores nordestinos utilizarem subprodutos oriundos do processamento de frutas como substitutos ao tradicional binômio milho: farelo de soja.
Oliveira et al. (2009), por sua vez, avaliaram o efeito de dois sistemas de alimentação (pastagem nativa ou pastagem cultivada e irrigada na época seca), três grupos genéticos (½Dorper x ½Sem Raça Definida - SRD, ½Santa Inês x ½SRD e ½Somalis Brasileira x ½SRD), sexo, tipo de nascimento e ordem de parto sobre o peso ao nascimento (PN), peso a desmama (PD) e ganho de peso diário (GPD) do nascimento à desmama (Tabela 4).
Considerando-se a coleta de dados relativa a três anos consecutivos na Embrapa Caprinos e Ovinos (Sobral-Ceará), verificou-se que os cordeiros do sistema de pastagem nativa foram superiores.

Uma das formas para incrementar o desempenho das crias a pasto é o creep grazing. Essa estratégia consiste em permitir aos cordeiros o acesso restrito a um pasto de melhor qualidade, sem que eles percam o contato visual da mãe. De acordo com Poli et al. (2008), o tempo para se atingir o peso ao abate utilizando-se o creep grazing seguido de terminação em confinamento é bem aproximado daquele que é obtido utilizando-se o creep feeding seguido de terminação em confinamento.

O período de desmama ideal é aquele que considera o modelo de sistema produtivo utilizado. Se a intenção é realizar a terminação em confinamento, por exemplo, a desmama pode ser precoce (em torno de 60 a 70 dias). Para isso, o acompanhamento do ECC dos cordeiros/cabritos (deve ser de no mínimo 3), a formulação de uma dieta para ganho de peso após um período pré-desmama com uso de creep feeding ou creep grazingsão preponderantes para a terminação de cordeiros/cabritos com adequado acabamento. Além disso, o uso de grupos genéticos que tenham potencial produtivo para responder mais rapidamente a esse tipo de dieta. Planejamento alimentar e qualidade nutritiva dos alimentos ofertados também são essenciais.
Tabela 4. Valores médios estimados (média ± desvio padrão) pelo método dos quadrados mínimos para peso ao nascimento (PN), peso ao desmame (PD) e ganho de peso diário (GPD)
Efeitos
PN (Kg)
PD (Kg)
GPD (g)
Sistemas de alimentação



Pastagem nativa
3,19 ± 0,06a
17,07 ± 0,31a
147 ± 3a
Pastagem cultivada
3,25 ± 0,06a
14,04 ± 0,29b
116 ± 3b
Grupo genético



½ Dorper X ½ SRD
3,41 ± 0,06a
16,02 ± 0,33a
135 ± 3a
½ Santa Inês X ½ SRD
3,16 ± 0,07b
15,07 ± 0,34b
127 ± 3b
½ Somalis X ½ SRD
3,08 ± 0,06b
15,58 ± 0,31ab
132 ± 3ab
Sexo



Fêmea
3,12 ± 0,06b
15,21 ± 0,29b
128 ± 3b
Macho
3,31 ± 0,06a
15,90 ± 0,30a
134 ± 3a
Tipo de nascimento



Simples
3,40 ± 0,07a
17,24 ± 0,28a
147 ± 3a
Duplo
3,03 ± 0,07b
13,87 ± 0,33b
115 ± 3b
Ordem de parto



1
2,96 ± 0,11c
15,13 ± 0,54a
129 ± 5b
2
3,04 ± 0,08bc
14,81 ± 0,40a
126 ± 4b
3
3,25 ± 0,06a
15,96 ± 0,29a
135 ± 3ab
4
3,22 ± 0,15abc
16,86 ± 0,70a
146 ± 7a
5
3,24 ± 0,08ab
15,66 ± 0,37a
132 ± 3ab
6
3,31 ± 0,06a
15,75 ± 0,30a
132 ± 3ab
7
3,25 ± 0,06a
15,85 ± 0,30a
134 ± 3ab
8
3,47 ± 0,39a
14,45 ± 1,85a
117 ± 18c
aMédias seguidas pela mesma letra na coluna, dentro de cada efeito avaliado, não diferem pelo teste t (P>0,05).









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