12 de jul de 2017

Instalações para Equinos (Haras)



Escolha da propriedade

O primeiro passo para se iniciar uma criação de cavalos é comprar uma propriedade adequada, em relação ao clima, topografia, qualidade de solo, pastagens. Em seguida, escolhe-se a raça, de acordo com a qual será construída a infra-estrutura básica, moderna e funcional. As duas ultimas etapas da implantação de uma criação de cavalos  serão a seleção dos animais  e a contratação de mão-de-obra especializada, sendo necessários um tratador e um treinador para um plantel de 10 a 15 animais. 
Como o Brasil é um país de clima tropical, cavalos podem ser criados em todas as regiões brasileiras, à exceção de algumas micro-regiões de clima excessivamente úmido. Quanto à topografia, as propriedades planas ou levemente onduladas são as mais indicadas. As áreas de brejo devem ser evitadas, pois danificam os cascos e favorecem diversos tipos de enfermidades. Um solo de qualidade é essencial para a formação de boas pastagens, o que reduz custos operacionais.  

Dimensionamento da criação 

A área da propriedade depende do dimensionamento da criação. Muitos criadores começam a criar cavalos em áreas de tamanho incompatível com o do plantel, passando por dificuldades de falta de pasto e capineira, o que onera bastante a criação. Em torno de 70% dos gastos de criação são relativos à alimentação e mão-de-obra. De acordo com o porte a criação de cavalos pode ser dividida da seguinte forma: 

Pequeno porte – até 10 matrizes, com um reprodutor ou utilização de sêmen

Médio porte – de 10 a 20 matrizes, ainda podendo usar apenas um reprodutor
Grande porte – acima de 20 matrizes, com dois reprodutores 
Obs.: Um segundo reprodutor será necessário para uso nas filhas das éguas base. Nos planteis de pequeno porte, serão poucas as potras selecionadas em cada safra, sendo mais interessante para o criador comprar sêmen de reprodutor testado, ao invés de investir na compra de um segundo reprodutor, ou de um potro, que é como dar um “tiro no escuro”. 
O numero de animais por hectare dependendo do tipo de graminea. No caso do Tifton, de alto valor nutritivo, a lotação anual pode chegar até 3 animais adultos por hectare. Para outras gramineas a media é de 1 animal adulto por hectare. Mesmo obedecendo estas recomendações de lotação de pastagem, durante o período seco do ano os animais deverão ser suplementados com feno de boa qualidade. É erro grosseiro de avaliação pensar que um pasto seco (fenação natural), mesmo que abundante, estará atendendo as exigências nutricionais, especialmente no caso de éguas gestantes e potros (as) em crescimento.  
O criador iniciante deve considerar que em sistema  natural de reprodução as matrizes podem parir uma cria por ano. Os produtos recriados extensiva ou semi-intensivamente também necessitarão de áreas de pastagem. Em torno de 20 a 30% dos produtos podem ser reservados, para futuros reprodutores (as) e/ou animais de exposição. O restante da safra terá destino na comercialização direta no haras, na internet, em leilões. No caso de machos a serem castrados, recomenda-se a recria para futuro adestramento de sela, visando a obtenção de melhor preço. Assim, haverá um crescimento gradual do plantel. Para um plantel estabilizado em 10 matrizes, considerando a taxa de natalidade, e de desmame, em 90% e a idade ao primeiro parto sendo por volta dos 4 anos, vamos desenvolver a evolução do plantel: 
1o ano – 9 produtos, reservando um macho e duas fêmeas
2o ano – idem. Teríamos mais 6 animais no plantel
3o ano – idem. Teríamos mais 9 animais no plantel, sendo que as duas fêmeas selecionadas no primeiro ano entrarão em reprodução. O criador deverá decidir se aumenta o plantel para 12 matrizes ou se descarta duas éguas, priorizando aquelas que não produziram bem.
4o ano – idem. Teríamos mais 12 animais no plantel, Dos quatro machos selecionados, um em cada safra, os dois melhores deverão ser reservados para teste em reprodução. Os outros dois poderão ser comercializados como reprodutores. 
No caso da adoção de sistema reprodutivo artificial, o criador poderá investir em duas ou três éguas ventres de ouro, a serem utilizadas como doadoras de embriões. Para cada égua doadora serão necessárias três éguas receptoras. De cada égua doadora é possível coletar, em média, três embriões viáveis em cada estação de monta. Geralmente, esta modalidade mais sofisticada de criação não mantem reprodutor próprio,. O criador investe em sêmen de garanhões testados e aprovados. Outro custo elevado é na assistência veterinária, seja para a coleta do sêmen, transporte e inseminação, coleta e transferência de embriões; tratamentos hormonais. A vantagem é que o aumento significativo da pressão de seleção, o que resulta em valor zootécnico superior dos produtos gerados, que podem ser comercializados a preços mais elevados. 

Localização e acesso 

Preferencialmente, o haras deve ser localizado em região de tradição na criação de cavalos, que disponibiliza as facilidades necessárias ao desenvolvimento da criação, além de reduzir custos de transporte para participar de eventos e viabilizar o escoamento mais fácil dos produtos. Outro aspecto interessante é a proximidade de alguma cidade com boa infraestrutura – supermercados, farmácia, hospital, escola de ensino publico, lazer 
Para facilitar e estimular a frequencia rotineira de visitas do criador e familiares, a localização não deve ser muito distante da cidade onde residem. Distâncias superiores a 150 km já tornam as viagens cansativas, levando em conta o mal trânsito das grandes cidades e as condições precárias em grande parte das rodovias. 
O acesso ao haras deve ser fácil, preferencialmente em via asfaltada. As estradas de terra, quando mal cuidadas, causam desconforto e transtornos em épocas chuvosas. 

Clima e topografia 

No Brasil, como país de clima tropical, há muitas variações de uma região para outra. No Sul e Sudeste, o frio é mais intenso, com o inverno seco e o verão chuvoso. Em grande parte do Centro – Oeste, a distribuição de chuvas é semelhante ao Sul e Sudeste, porem com medias pluviométricas inferiores. Nas regiões Norte e Nordeste, o inverno é chuvoso e o verão seco.  
O cavalo adapta-se bem aos climas quentes e secos. Os climas mais úmidos não menos saudáveis, especialmente quanto às afecções respiratórias e infestações de ecto e endoparasitas. Entretanto, foram forjadas raças mais resistentes para cada tipo de clima e topografia, como foi abordado na introdução desta obra. 
A topografia ideal de criação é a levemente ondulada, que possibilita melhor condicionamento aos animais criados extensivamente. A topografia montanhosa favorece os acidentes, impede a mecanização do manejo de pastos e dificulta a mão-de-obra na lida com os animais. A topografia plana facilita a distribuição dos piquetes, a movimentação dos animais no haras, o manejo geral da criação. 

Qualidade da terra 

Mais importante do que a localização é a qualidade da terra. Solos de baixa fertilidade devem ser corrigidos para a formação de pastagens, o que implica em elevados custos. As principais deficiências de minerais são de Calcio, Fósforo e Potássio. As correções de solo para formação de pastagens deverá ser feita através da aplicação grandes quantidades de adubos químicos, orgânicos e de calcareo, sendo este ultimo para a correção de acidez. Mesmo após formadas as pastagens, as aplicações periódicas de fertilizantes ainda serão necessárias, pois o solo não disponibiliza nutrientes para a planta. Este é um custo que pode inviabilizar a criação. 
As terras de cultura, de coloração roxa ou avermelhada, são as preferenciais. Terras arenosas, de cerrado, de baixadas de brejo e solos pedregosos devem ser evitados. Entretanto, estes tipos de solos são incidentes em muitas regiões. Por exemplo, na região do planalto central, predomina o solo de cerrado, geralmente pedregosos, rasos, de pouca capacidade de armazenamento de agua, de vegetação mais baixa e rala. Nas faixas litorâneas geralmente predominam  os solos mais ácidos, de baixadas, vegetação mais alta e densa. As terras de cultura são encontradas em grande parte do Estado de São Paulo, Paraná, Santa Catarina, parte do Sul de Minas, mais próximo à divisa com São Paulo, grande parte do triângulo mineiro, como exemplos. 

Tipo de pastagem – nativa X artificial 

Os pastos nativas são pouco nutritivos e exigem gastos elevados de manejo da capina e limpa. Geralmente muito sujos, misturam vários tipos de gramíneas rasteiras e arbustivas, algumas podendo ser tóxicas para o equino. Outras desvantagens de pastos nativos é a maior incidência de cobras e carrapatos. Somente durante os períodos chuvosos atendem as necessidades de manutenção do equino. Também apresentam reduzida capacidade de lotação. Dois tipos de pastagens nativas incidentes no Estado de Minas Gerais são os capins gordura e Colonião. Este ultimo também incide no Sul da Bahia. 
As pastagens artificiais podem ser mais apropriadas quando se escolhe uma boa graminea, que deve ser bem adaptada ao clima e tipo de solo. Na atualidade, o Tifton é a graminea mais recomendada, devido ao elevado valor nutritivo e a possibilidade de produção de feno de boa qualidade. Os gastos com a formação, através de mudas e solo bem adubado, compensam. Havendo disponibilidade de agua para irrigação, melhor ainda, pois viabiliza a fenação. Em seguida ao Tifton, podem ser indicados o Coast Cross ( dá feno de boa qualidade ), capim Paraíso ( que também serve para capineira ), Tanzânia, Mombassa. Para regiões de clima mais seco, baixo indice pluviométrico, outras gramineas são recomendadas, tais como o Buffel Grass, Brachiaria Humidícola, Pangola. Outros capins consumidos pelo cavalo são o Pangolão, Andropogon, Colonião, Grama Estrela, Gordura, Jaraguá, Sempre Verde.

Após a escolha da raça, o interessado em iniciar uma criação de cavalos deve formar pastagens adequadas para a região de localização da propriedade e para a espécie equina. As melhores pastagens são formadas, em ordem de valor nutritivo pelas seguintes gramíneas: Tifton, Coast Cross, Pangola, Tangola, Pangolão, Tanzânia, Colonião, Sempre Verde, Jaraguá, Gordura.

É prática no Brasil a utilização de capineiras - áreas de plantio de capim para corte -, visando uma suplementação de volumoso para animais estabulados e para animais de campo durante longos períodos de estiagem. Todavia, o manejo de capineiras é oneroso e o valor nutritivo das gramíneas utilizadas para corte sofre sensíveis variações ao longo do ano, dependendo do estágio de maturação da planta. Assim, uma prática mais vantajosa é a formação de áreas para fenação, sendo que os melhores fenos são produzidos com Tifton e Coast Cross. Uma opção seria produzir alfafa para fenação, porém essa leguminosa é exigente em relação aos tratos culturais.
Para dimensionar o tamanho das pastagens deve-se destinar pelo menos um hectare para cada animal jovem. Para adultos, em especial éguas gestantes e lactantes, a ocupação aumenta para 1 unidade animal / hectare. As cercas não devem ser de arame liso, para evitar acidentes. Os piquetes para animais de exposição e garanhões devem ser, preferencialmente, de cerca com réguas.
As baias devem ser amplas, de 4 x 4 para garanhões e 3 x 4 para outras categorias. Os cochos devem ser separados, para o volumoso e a ração concentrada. O saleiro deve ser dividido para sal mineral puro e a mistura balanceada. Para utilização de feno, recomenda-se o uso de grades apropriadas ou de redes. Além das baias, uma cocheira completa inclui área para depósito de material para renovar a cama; depósito de ração, com tablados; selaria; farmácia; escritório e sala de troféus; lavador; brete para manejo reprodutivo; área cimentada; plana; para casqueamento e ferrageamento.
O material para as camas é um assunto à parte. Aparentemente simples, este é um dos principais problemas encontrados nos haras. A cama deve estar sempre limpa e seca, a fim de preservar a saúde dos cascos. Areia não deve ser utilizada como material de cama, pois tem pouco poder de absorção de umidade. Torna-se oportuno ressaltar que o material de limpeza das camas não deve ser armazenado nas proximidades das baias, para não atrair moscas.
Para a doma, exercícios de condicionamento e treinamento de cabresto, um amplo redondel deve ser construído, com diâmetro de, pelo menos 15 metros, cercado de régua ou murado. Para equinos de marcha, o piso de areia não é recomendado, a não ser na forma de uma fina (no máximo 4 cm de altura) camada de areia sobre terra batida. Como a marcha é um andamento bastante assimétrico na mecânica de locomoção, exercícios sobre piso pesado de areia sobrecarregam em demasia as articulações, tendões e ligamentos. Já para equinos de trote, o piso de areia é o mais recomendado nos redondéis.
Outras áreas apropriadas para exercícios de condicionamento e treinamento são: piscina, pista plana - mais ou menos 60 x 40m - para treinamento de andamentos e obstáculos de provas funcionais.







Modelos
















































6 de jul de 2017

Escolha dos Garanhões (Equinos)



SELEÇÃO DE GARANHÕES

O garanhão é o animal mais importante do haras, pois é responsável pelo nascimento anual de um grande numero de potros e potras. A compra de um garanhão de mérito zootécnico inferior é sinônimo de insucesso na criação.

Alguns criadores de haras de pequeno porte preferem não investir em um garanhão, mas sim na compra de sêmen de um ou mais reprodutores testados e aprovados. Além da redução no investimento inicial da implantação da criação, outro objetivo é produzir o garanhão no próprio haras, selecionando em cada safra o melhor potro, para futuro teste na reprodução.

- APARÊNCIA GERAL:

O garanhão deve denotar estado fisico-clinico normal - procedimentos para um check up detalhado são orientados em outro capítulo -, conformação harmoniosa, ser possuidor de porte e peso adequados para a respectiva raça, pêlos finos, forte constituição óssea-muscular, atitudes ativas.

- IDADE:

Em média, a maturidade reprodutiva é atingida por volta dos 60 meses de idade, quando poderá ser explorado ao máximo. Garanhões abaixo desta faixa etária são utilizados em um numero menor de éguas, exceto no caso da inseminação artificial. Em monta natural um garanhão adulto é capaz de servir em torno de 50 éguas ao longo da estação de monta, obedecendo-se a orientação de no máximo dois saltos / dia ( manhã e tarde ), e servindo a égua no cio em dias alternados, até o término do cio. Esta é a prática tradicional, quando não se dispõe de aparelho de ultrasonografia para acompanhamento das ovulações e diagnóstico da prenhez.

Garanhões entre 3 e 4 anos de idade, ainda sem produção conhecida, não são comprovados como reprodutores de mérito zootécnico superior, sendo o que se diz popularmente um“tiro no escuro”. É uma compra de risco.

- AVALIAÇÃO REPRODUTIVA:

O primeiro exame é através da avaliação visual e apalpação dos testículos. Ambos devem estar presentes na bolsa escrotal e de tamanho normal. Caso contrário, será indicativo de baixa fertilidade. Tecnicamente, a ausência de testiculos na bolsa escrotal é denominada de Criptorquidismo. Um só testiculo na bolsa escrotal denomina-se de Monorquidismo ou, popularmente, “cavalo roncolho”. Testiculos pequenos indicam uma hipoplasia. Testiculos grandes, uma hiperplasia.
Um segundo exame é o andrológico. O sêmen deve ser coletado por Médico Veterinário especialista. Aspectos como a morfologia, motilidade, concentração espermática e o volume do ejaculado, estão diretamente relacionados com a fertilidade. Um grande numero de garanhões são comprados sem a exigência do exame andrológico pelo comprador. É um risco também para o vendedor, pois há casos de garanhões que sofrem de “estresse ambiental” , devido à mudança de haras, passando por problemas reprodutivos temporários, incluindo alterações na qualidade do sêmen. É um tipo de estresse psicológico, de mudança de ambiente. Quando mudam de haras, temporariamente tornam-se sub-férteis. Portanto, o ideal é que o comprador aguarde um periodo de, aproximadamente, 30 dias no novo ambiente, para que o garanhão alcance uma boa adaptação.

Um terceiro exame é o da libido. Na presença de uma égua, observar as atitudes do garanhão, o interesse pela égua, a facilidade de ereção, o que também indica garanhão de boa potência sexual.

- PEDIGREE:

O pedigree é um dos principais parâmetros na escolha de um garanhão. A genética superior é um bom indicativo de garanhão também superior como reproduor. Um pedigree de valor zootécnico deve apresentar ancestrais notórios até a terceira geração, a dos bisavós. Cada pai contribui com 50% da bagagem genética, cada um dos avós com 25% e cada um dos bisavós com 12,5%.

Uma avaliação complementar da força genética do garanhão, se possível, é a avaliação de conformação e funcionalidade de alguns parentes colaterais, em especial os irmãos próprios, seguindo-se os meio-irmãos e os primos em 1º grau.

- PORTE:

O porte é um parâmetro de herdabilidade alta. De acordo com a raça, o aconselhavel é comprar garanhão de altura próxima ou superior àquela preconizada como sendo ideal no Padrão Racial. Todos os Padrões Raciais definem altura mínima para o Registro Genealógico. A maioria dos Padrões Raciais definem a altura ideal e alguns Padrões Raciais estabelecem limites máximos de altura.



Existem algumas situações que podem inibir o crescimento, tais como a subnutrição e períodos de doença. Se o pequeno porte de um garanhão é atribuído à uma destas situações, o defeito não será herdado. Mas o comprador terá que confiar na informação do vendedor. Uma dica é verificar o porte dos pais. Se pelo menos um apresentar porte pequeno, é indício de que o garanhão de porte reduzido possivelmente herdou este defeito.

- CONFORMAÇÃO:

A avaliação da conformação exige profissional da area, geralmente um Zootecnista. Cada raça tem seu Padrão Racial, que estabele as virtudes e os defeitos, considerados desclassificatórios.

Como regra, um garanhão deve somar qualidades, sem defeitos considerados graves. Se um defeito é compensado, sua gravidade é amenizada. Garanhão de conformação superior é aquele que não mostra defeito evidente. Este será descoberto na avaliação detalhada, pois, afinal, não existe garanhão morfologicamente perfeito.

Um bom método de avaliação da conformação consiste em dividir o animal em tres partes: conjunto de frente, conjunto de tronco e conjunto de membros, atribuindo-se percentuais para cada parte, sendo, respectivamente: 30%, 30% e 40%, como proporção ideal. A justificativa para o maior percentual atribuído à região dos membros é que o cavalo é um atleta e como tal deve ser selecionado. Não há espaço no mercado para cavalos de “vitrine”, aqueles que são tirados da baia ao cabresto somente para serem admirados. A expressão racial insere-se no conjunto de frente, e também uma boa porção da beleza zootécnica. Mas é nas regiões de membros e tronco que o comprador poderá correlacionar a conformação com a funcionalidade, dependendo das aptidões natas da respectiva raça.

- ANDAMENTO / DESEMPENHO:

Os andamentos naturais devem ser criteriosamente analisados– passo, marcha ou trote, galope. A maior importância de cada andamento dependerá da função do animal: lazer, Concursos de Marcha, esportes, serviço.

Se o cavalo é marchador, deverá ser montado para avaliação da marcha. Se é de esportes, deverá trotar, galopar e executar sua função, seja em provas de agilidade e velocidade, salto, enduro, pólo, Adestramento, dentre outras.

A avaliação do andamento e desempenho não tem por objetivo principal o uso do garanhão em competições, mas sim como parâmetro do potencial de sua herança funcional, a ser legada para a prole. Uma ressalva importante é que nem todo garanhão encontra-se preparado para competir, pois quando são introduzidos na reprodução, geralmente o treinamento é paralizado.

- TEMPERAMENTO:

O temperamento refere-se à índole. Atitudes de inquietação permanente podem indicar má índole. Coices e mordidas são as duas reações típicas de cavalos de má índole. Além de dificultar o manejo, este tipo de comportamento é geneticamente transmissível. É comum vendedores justificarem alegando que foi falha de manejo, especialmente a lida violenta recebida no passado pelo garanhão. Todavia, “na dúvida, é melhor respeitar o sinal amarelo” e desconfiar.

Quando o garanhão é conduzido com o argolão é sinal de que a contenção é difícil, sinalizando para um temperanto mais inquieto. A boa socialização do garanhão, mantendo bom comportamento na presença de outros cavalos, é um bom indicativo de bom temperamento e em muito facilita o manejo.

O extremo da boa índole é o cavalo linfático, lerdo, aquele que precisa ser insistente e firmemente comandado. Deve ser considerado como um tipo de defeito. Geralmente, o cavalo linfático não apresenta boa treinabilidade, e tem pouca resistência.

- PRODUÇÃO:

Preferencialmente, o garanhão deve ter pelo menos uma safra produzida, em torno de dez filhos. Todos, ou uma boa parte, deverão ser avaliados pelo comprador, quanto aos atributos morfológicos e de andamentos. Para uma avaliação mais criteriosa, também é interessante avaliar cada mãe, a fim de constatar a capacidade do garanhão em melhorar aspectos da conformação e andamentos.

A compra de um garanhão ja testado e aprovado como reprodutor é a maior garantia de qualidade do animal como reprodutor, e da valorização do investimento, com retorno certo através da venda de produtos e de sêmen.

Muitos compradores iludem-se com apenas um, dois produtos bons de um garanhão. O que vale em avaliação zootécnica é a média da produção, com padronização de qualidades. Outra dica prática é avaliar a égua, que pode ter mérito zootécnico superior, inibindo de certa forma a capacidade produtiva do garanhão. Ao contrário, quando este faz qualidade em égua pobre de morfologia e / ou andamento, é mérito de raçador.

- HISTÓRICO EM COMPETIÇÕES:

Caso o garanhão tenha participado de competições, o comprador deve pedir o histórico do desempenho, avaliando também o grau de competitividade. Exposições ou provas contando com poucos participantes não são representativas.

Uma forma de valorizar o investimento na compra de um garanhão é dar continuidade às participações em competições importantes. Cada campeonato conquistado valoriza o animal, bem como seus produtos, as coberturas a serem comercializadas.

- FICHA DE CONTROLE ZOOTÉCNICO:

A ficha de controle zootécnico refere-se aos cuidados com os cascos, controle nutricional, controle sanitário, controle reprodutivo, controle produtivo, programas de condicionamento físico e de treinamento. Recomenda-se que o comprador solicite uma cópia, a fim de dar continuidade no manejo geral e especializado.

O cavalo é animal sensível às mudanças, especialmente nutricionais, podendo gerar os distúrbios gastro-intestinais acompanhado pelas cólicas, não raras as vezes fatais. Também é de interesse do comprador ter conhecimento das ultimas vacinações, vermifugações e banhos carrapaticidas, bem como do tipo de medicamentos utilizados.

GARANHÃO COMPLETO – O IDEAL DA SELEÇÃO

O garanhão tem importância bem maior do que a égua, porque produz um grande numero de produtos por ano, especialmente através da técnica da Inseminação Artificial. Cada ejaculado de um garanhão de boa fertilidade é capaz de fecundar de 6 a 8 éguas. Ao contrário, as éguas, mesmo sendo doadoras de embriões, produzem uma média de 3 a 4 produtos por ano. Os ovários da égua não respondem positivamente aos hormônios estimulantes da ovulação, como ocorre em várias outras espécies de animais domésticos.

Existem vários métodos de seleção. Um dos melhores, senão o melhor, é a Seleção Integral, ou seja, como o próprio nome diz, um método pelo qual o criador seleciona ao mesmo tempo todas as caracteristicas desejáveis. Ao contrário, poderia selecionar por etapas como, por exemplo, em primeiro lugar fixar o andamento, em seguida a conformação, ou o inverso.

Muitos programas de seleção são mal sucedidos porque utilizam garanhões de mérito zootécnico baixo ou mediano. Qualquer programa seletivo que almeja o alcance de resultados positivos, seja no avanço do melhoramento zootécnico, ou dos resultados econômicos, deve usar garanhões completos. Mas afinal, quais são os pré-requisitos para alcançar esta classificação de mérito zootécnico superior?

1 – Pedigree de mérito zootécnico superior: A genética é o alicerce para a produção de elevada qualidade e, o mais importante, consistente, com média. O mérito produtivo de um garanhão que produz poucos produtos excelentes, muitos medianos e muitos fracos, não é satisfatório. Em toda raça existem vários exemplos destes garanhões, que se tornam notórios, seja através de poucos filhos (as) bons, dos valores elevados das vendas destes filhos (as), a força da mídia, ou dos Campeonatos Nacionais, muitos dos quais injustos. O que se reveste de ineresse zootécnico e econômico para o selecionador é a consistência da média qualitativa de produção, indicada pelo numero expressivo de produtos a serem anualmente selecionados para a reprodução. A referência é a própria média de qualidade do valor zootécnico dos genitores. O filho (a) deve apresentar média igual ou superior à média de qualidade dos pais. A capacidade do garanhão em melhorar os defeitos das mães também é marca dos autênticos raçadores.

2 – Conformação padrão Exposição Nacional: Atualmente, a valorização é do biótipo funcional. Portanto, a conformação de um garanhão completo deve aliar estas duas virtudes – expressão racial e biótipo funcional. Um garanhão completo não pode ser medianamente conformado.Deve ser possuidor de conformação competitiva em Exposição Nacional.

3 – Andamento Padrão Concurso de Marcha: Se o garanhãoo é possuidor de marcha competitiva, certamente herdou de um ou mais ancestrais. De acordo com estudos deste autor, a herdabilidade da dissociação e do estilo, que estão entre os principais parâmetros de avaliação da marcha, é de média a alta. Se o garanhão é possuidor de Morfologia Padrão Expo. Nacional, mas a marcha é medíocre, seerá necessária a escolha de éguas de marcha Padrão Concurso de Marcha. Mesmo assim, um numero significativo de seus filhos (as) ainda serão portadores de marcha medíocrre, ou pelo menos mediana. O pré-requisito para uma  evolução real é o rigor funcional dos programas seletivos dos criadores da elite. Poucos são aqueles que se preocuparam em priorizar a genética da marcha. Como resultado, um numero significativo de potros e potras que foram Campeões Nacionais ao cabresto vêm apresentando desempenho medíocre quando montados, porque a marcha é medíocre. 

4 – Premiações: Um garanhão completo é Campeão de Raça e de Marcha nas principais exposições. Todavia, se o garanhão foi Campeão somente em exposições regionais, de menor competitividade, geralmente não será capaz de transmitir aos filhos (as) a conformação padrão Exposição Nacional, porque não é possuidor deste diferencial.  Mas há exceções à esta regra. Casos ja ocorreram, em várias raças, de reprodutores que jamais sagraram-se Campeões Nacionais, mas produziram numero significativo de produtos Campeões Nacionais. As causas podem ser outras, não relacionadas diretamente com a qualidade do biótipo, tais como: temperamento impróprio para apresentações em pista, lesões, andamento deficiente.

5 – Temperamento: Esta é uma qualidade que deveria ser mais valorizada nos programas de seleção. O mau temperamento, seja no seu grau máximo de índole ruím, ou em graus medianos de comportamento inquieto, é depreciativo do cavalo de sela. Há vários casos de garanhões de índole ruím que produziram inúmeros filhos (as) portadores deste mesmo defeito. Em se tratando de uma raça com aptidão para passeios e cavalgadas, este é um defeito ainda mais grave. São animais rejeitados pelos usuários. O mau temperamento também afeta a treinabilidade, dificultando várias etapas especializadas do manejo, tais como o casqueamento, ferrageamento, doma de sela, condução ods exercícios de condicionamento físico, treinamento e apresentação e julgamentos. 

6 – Fertilidade: Esta é uma caracteristica que precisa ser melhorada nas raças brasileiras de cavalos de marcha, pois não recebeu a devida pressão de seleção. Como resultado, o numero de produtos por égua é inferior quando se compara com eguas de raças internacionais. Para complicar, ha um bom numero de reprodutores sub-férteis, a maioria devido às anormalidades testiculares. O sêmen de város outros não suporta congelamento e nem tão pouco o resfriamento, dificultando a inseminação artificial. Da boa fertilidade depende, principalmente, o sucesso econômico da criação.

7 – Produção Comprovada: Esta á a prova final de que um garanhão é completo, a capacidade de gerar filhos (as) Campeões de Raça e Andamento. No caso dos Campeões de Raça, não basta apenas que as notas de Morfologia sejam boas, as de Andamento também. Caso contrário, futuramente, não serão Campeões em Concursos de Marcha. O objetivo maior de qualquer selecionador é produzir um garanhão raçador, ou seja, aquele que demonstra prepotência em marcar uma prole de campeões com suas características.






1 de jul de 2017

A Escolha das Éguas



O primeiro aspecto inserido na escolha de uma égua reprodutora é o genético. Primeiro, o criador precisa definir as bases genéticas de sua seleção. Em seguida, escolher as éguas matrizes que se encaixam neste pilar genético, dando preferencia aos pedigrees superiores. O pedigree superior é mensurado com base no mérito zootécnico dos ancestrais mais próximos, até a terceira geração ascendente, no máximo. De cada um dos pais, a égua recebe 50% da bagagem genética. De cada um dos avós, 25%. De cada um dos bisavós, 12,5%. Daí em diante, a contribuição genética perde em relevância. Qualquer ancestral de baixo valor zootécnico ( ex. animal com Registro em Livro Aberto, de origem desconhecida ), poderá comprometer o mérito de produção. Havendo necessidade, os parentes colaterais mais próximos, como irmãos inteiros e meio irmãos também podem ser avaliados.
O segundo aspecto é o da conformação. O criador deve saber interpretar corretamente todas as definições inseridas no respectivo Padrão Racial. Caso tenha dificuldade, recomenda-se procurar um consultor especialista da área. O moderno conceito de avaliar a conformação estabelece uma correlação com a função.
O terceiro parâmetro é a funcionalidade, quase sempre sub-estimado em éguas matrizes, porque estas são introduzidas ainda em idade jovem na reprodução. Em raças de andamento marchado a marcha deve merecer a mesma importância dada à conformação. A marcha é uma característica genética, tendo no diagrama e no estilo os parâmetros de herdabilidade mais alta. Portanto, o criador deve evitar escolher éguas de diagrama excessivamente diagonalizado ou lateralizado. Entre um e outro, a preferencia ainda será para o segundo, pois tem mecanismo genético recessivo, podendo ser erradicado do plantel com mais facilidade. Todavia, o melhor diagrama é o da marcha de centro, a marcha verdadeira, que apresenta a nítida dissociação visual nos deslocamentos. Sempre que possível, montar para aferir a qualidade da comodidade, o equilíbrio dinâmico, vigor e disposição.
O temperamento é qualidade das mais relevantes. Mesmo que a égua tenha genética superior, boa conformação e bom andamento, se a índole for ruim, já é uma forte contra-indicação à seleção.
O comprador deve pesquisar por completo o histórico reprodutivo e produtivo. Verificar se a égua já apresentou algum tipo de problema reprodutivo, quantos produtos já foram gerados. Como o primeiro parto geralmente acontece por volta dos 4 anos de idade, não será normal um numero inferior a 2 produtos em éguas de idade superior a 8 anos. São raras as éguas que parem anualmente. Considera-se normal que a égua tenha dois partos seguidos e um ano de descanso.
A idade da égua matriz é mais variável, mas há um limite. Após a faixa entre 15 a 18 anos de idade, dependendo do numero de crias já produzidas, a eficiência reprodutiva e produtivo da égua declina, principalmente devido ao desgaste sofrido pela parede uterina. Entretanto, ao contrário de um antigo tabu, a qualidade da cria independe da idade da mãe.
O histórico em competições deve ser detalhadamente pesquisado. As premiações relevantes são as de campeonatos e reservado campeonatos, dependendo do grau de competitividade.
Uma ficha de controle de valor zootécnico produtivo pode ser organizada, visando avaliar a qualidade da conformação e desempenho dos produtos gerados pela égua. Esta avaliação pode ser ao vivo, conhecendo alguns dos produtos, através de fotos e dados oficiais de premiações. Os campeonatos Progênie de Mãe representam aqueles de maior valor zootécnico.
Finalmente, o comprador precisa solicitar uma avaliação atual de fertilidade, mesmo que a égua tenha um bom histórico produtivo. Os problemas reprodutivos mais comuns são abordados em outra parte desta obra. Os mais comuns são os problemas de má conformação da vulva, que deve ter posição vertical, a fim de reduzir a introdução de ar e fezes na vagina; infecção uterina; casos de ruptura reto/vaginal; cervicite; vaginite; ovários inativos; tumores ovarianos; útero infantil; mal posicionamento do útero, devido ao relaxamento de ligamentos durante gestações anteriores.
De acordo com o resultado da avaliação, a égua será classificada como doadora de embriões ( mérito zootécnico superior ), égua matriz mediana, égua receptora, égua para reprodução e competições.

GENÉTICA: SAIBA PORQUE A ÉGUA É MAIS IMPORTANTE DO QUE O GARANHÃO
Em comparação ao numero de reprodutores, uma população maior de éguas é necessária para atender as exigências de produção destinada ao mercado de usuários do cavalo de lazer e do cavalo de esportes. Anualmente, um numero bem maior de éguas entra em reprodução. De fato, não mais do que 10 % dos machos nascidos anualmente já seria suficiente para atender o mercado representado pelos criadores, até porque o número de bons reprodutores é reduzido e a técnica de Inseminação Artificial favorece o acesso a um variado leque de reprodutores. Nota-se ainda no mercado que a procura por éguas parideiras vem diminuindo, ao contrario da procura de cavalos de sela. Mas por que não de éguas para sela? É simplesmente uma questão de quebrar tabus, pois montar em uma boa égua de marcha verdadeira é tão prazeroso como montar em um bom cavalo de marcha verdadeira.
Geralmente, os criadores valorizam mais o garanhão. O principal argumento é ser responsável por um maior numero de produtos anuais. Em sistema de monta natural, um garanhão pode chegar a produzir até 50 filhos (as) por ano. Em regime de monta artificial este numero pode ser até dez vezes maior.
No caso da égua, mesmo através da técnica de transferência de embriões, os incrementos no numero de produtos em cada estação de monta não são significativos. A média ainda é de três produtos. A explicação é que, ao contrario de outras fêmeas domésticas, os ovários da égua geralmente não respondem positivamente aos tratamentos hormonais objetivando a super-ovulação.
A contribuição genética transmitida ao filho (a) é igualmente dividida, sendo 50% do pai e 50% da mãe. O diferencial a favor da mãe é que esta tem a importante tarefa de nutrir o feto durante um período de, aproximadamente, onze meses. Em seguida, amamenta, protege e orienta a criação natural do filho (a) durante um período de, aproximadamente, cinco meses. Assim, o efeito da contribuição maternal eleva a contribuição total da égua para 55 a 60%, aproximadamente.
Inicialmente, a égua oferece proteção e nutrição ao feto durante a gestação. Posteriormente, ela oferece proteção e boas atitudes ao seu filho (a). Caso a égua gestante não seja adequadamente nutrida, em termos de valor protéico da dieta, o desenvolvimento fetal será prejudicado. Se a carência for de minerais, a formação óssea não será normal,  com reflexos negativos à estrutura e aprumos. Para tentar recuperar um potro (a) fragilizado durante sua vida intra-uterina, através de eficientes programas de nutrição, manejo de cascos e condicionamento físico, será necessário contratar consultoria profissional, especializada, a qual nem sempre estará disponível, e acessível ao criador. O estado clínico da égua gestante, o tamanho e a condição de seu útero também são fatores que influenciam o desenvolvimento fetal.
Se a égua lactante não recebe uma dieta balanceada, a produção de leite declina, afetando negativamente o desenvolvimento da cria. A égua é uma grande produtora de leite, sendo normais produções entre 15 a 18 litros de leite.
Contudo, a contribuição marcante ao futuro atlético da cria deriva do temperamento da égua. O potrinho (a) apresenta elevada capacidade para imitar atitudes maternais. Por exemplo, se a égua é de má índole, morde, escoiceia, como exemplos, estas atitudes podem ser assimiladas pelo filho (a). Se a égua tem temperamento inquieto, idem. Se a égua apresenta algum tipo de vicio, como refugar, empacar, empinar, dentre outros, o vicio também poderá ser assimilado pela cria. Se a égua é linfática, apresentando deslocamentos de pouca progressão, o potencial atlético futuro da cria será negativamente afetado. Um bom exemplo prático é a qualidade do bardôto em relação ao burro. O bardôto passa em torno de 6 meses ao lado da jumenta. Tende a assimilar de sua mãe os deslocamentos de baixa velocidade e pouca progressão, o temperamento linfático.
Muitos programas de transferencia de embriões não são bem sucedidos devido à má seleção de éguas receptoras. Estas podem influenciar negativamente a criação, quando são má produtoras de leite, ou no condicionamento mental, quando apresentam algum tipo de temperamento indesejável. O potencial genético que a égua doadora transmitiu à cria será mascarado.

Por tudo isto, podemos afirmar que o impacto da contribuição de uma égua, ao melhoramento genético do plantel, vai muito além de uma bagagem de genes a ser transmitida a cada filho (a).



25 de jun de 2017

Raças de Cavalos


As raças brasileiras começaram a ser formadas a partir da segunda metade do século IX. A primeira delas foi a raça Mangalarga ( conhecida popularmente como “Mangalarga Paulista” seguindo-se as raças Mangalarga Marchador ( conhecida popularmente como “Mangalarga Mineiro”), Campolina, Crioula, Piquira, Pantaneira, Marajoara, Campeira, Nordestina, Brasileiro de Hipismo. Um décimo agrupamento de equinos vem sendo constituído desde 1993, através do Serviço de Registro Genealógico da ABCCPAMPA – Associação Brasileira dos Criadores do Cavalo Pampa. Mas não se pode considerar como raça, tendo em vista que pampa define pelagem, sendo comum em várias raças, como nas próprias raças Mangalarga, Mangalarga Marchador, Campolina, Piquira, como exemplos. A morfologia e o andamento, apesar de serem orientados por um Padrão Racial, são de padronização quase que impossível, pois são registrados animais oriundos de quase uma dezena de raças, além dos animais sem origem conhecida. 

De acordo com a função, as raças são dividas em: Esporte, Lazer, Serviço. As raças brasileiras especializadas para serviço são a Crioula, Pantaneira, Marajoara e nordestina. São criadas em regiões específicas, onde adaptaram-se para o desempenho de determinadas funções. Assim, o cavalo Crioulo, uma das raças mais antigas do país, foi desenvolvido na região dos pampas gauchos, lidando com manadas de gado, cavalo, muares, ovinos. É um cavalo resistente, de criação rústica, ágil, veloz, inteligente, de boa treinabilidade. Para demonstrar suas aptidões funcionais, executa uma prova de maneabilidade e velocidade, conhecida como “Freio de Ouro”. O cavalo Pantaneiro é um especialista na lida de gado nas regiões alagadas do Pantanal do Mato Grosso, tangendo enormes boiadas de áreas inundadas para outras pastagens aproveitáveis na época das enchentes. O cavalo Marajoara é um especialista no trabalho de gado na região úmida da Ilha de Marajó, onde predominam grandes criações de búfalos, que também foram treinados para serem montados. O cavalo Nordestino é um especialista no trabalho de gado e rebanhos de caprinos e ovinos na caatinga do sertão do Nordeste, de vegetação espinhosa. Infelizmente, esta raça deixou de ser reconhecida pelo Ministério da Agricultura, desenvolvendo-se em condições desordenadas de seleção e melhoramento genético.  

As raças nacionais especialistas na prática de esportes são a Mangalarga e Brasileiro de Hipismo. O esporte original da raça Mangalarga era a caça de veados, inicialmente praticada na região montanhosa do Sul de Minas, com os cães nacionais, de faro apurado para localizar os veados nas montanhas. Posteriormente, levado para a região dos prados planos do oeste paulista, as caçadas passaram a ser realizadas pelos cães americanos, de menos faro, mas visão mais apurada, e os cavalos foram selecionados para galopar com mais velocidade e agilidade, e desenvolver um andamento característico, denominado de marcha trotada, de deslocamentos amplos, de maior progressão em relação à marcha de tríplices apoios dos “Mangalargas Mineiros”, e bem alçados e flexionados. Atualmente, o cavalo Mangalarga é muito utilizado em provas funcionais de velocidade e maneabilidade, na lida de gado e cavalgadas. Seu andamento característico, a marcha trotada, confere ao cavaleiro comodidade superior àquela derivada do trote convencional, porque o momento de suspensão é menor, e muitos animais apresentam sustentação dinâmica com base em apoios monopedais e quadrupedais, o que reduz os atritos verticais associados aos apoios duplos diagonais sincronizados. O cavalo Brasileiro de Hipismo, chamado de BH, é de formação mais recente, sendo derivado de raças estrangeiras especialistas em salto. 

As raças nacionais especialistas em lazer são a Mangalarga Marchador, Campolina, Piquira, Campeira. O que define a especialização de lazer é docilidade e a MTAD – Marcha de Tríplices Apoios Definidos, um andamento de média velocidade que, ao contrário do trote, confere ao cavaleiro, ou amazonas, a comodidade necessária para a satisfação nos passeios e cavalgadas de média a longa distância. A MTAD tem base genética, mas sofreu influencia do meio ambiente. Nas trilhas estreitas e sinuosas das regiões montanhosas do Sul de Minas e Campos das Vertentes, os animais eram forçados a uma locomoção de deslocamentos assimétricos. Apesar de tendências atuais de premiações de animais portadores de marcha batida excessivamente diagonalizada, ao extremo da marcha trotada e do trote desunido, todas as quatro raças ainda estão bem representadas por animais portadores do principal atributo que é referência mundial de “Pleasure Horses” ( cavalos de passeio ), a MTAD. Estas raças brasileiras de cavalos de marcha representam  autênticos patrimônios nacionais, que merecem mais atenção dos órgãos federais. Da mesma forma, também está sendo ignorado pelo Governo Federal o Jumento brasileiro da raça Pêga, o único marchador no mundo, capaz de produzir os mais belos e melhores muares marchadores do mundo. 

Quanto às raças estrangeiras, chamadas de exóticas, ou importadas, a maioria delas incluem-se na categoria de esportes. As mais difundidas são a Quarto de Milha, Puro Sangue Inglês, Árabe, Andaluz, Appaloosa, Luzitana, Paint Horse. A raça Árabe é a mais antiga, tendo participado da formação de um grande numero de raças. É modelo universal de beleza, sendo especialista em enduros de velocidade, pois tem resistência inigualável. A raça Puro Sangue Ingles, conhecida como P.S.I. tem como especialidade as corridas de média e longa distância. A raça Quarto de Milha tem duas especialidades: corridas rasas, de 400 metros ( um quarto de milha ) e o “cow sense”, que se traduz na aptidão nata para lidar com gado. Estas duas especialidades geraram um leque de esportes amplamente praticados no Brasil: corridas, vaquejadas, Prova dos 3 Tambores, Prova das 6 Balizas, Prova de Apartação, Prova de Laço. Os representantes das raças Appaloosa e Paint Horse derivam diretamente da raça Quarto de Milha, tendo conformação semelhante, bem como as aptidões funcionais. As diferenças estão nas pelagens que lhe deram os nomes: Appaloosa ( pintas escuras sobre pelo branco ) e Paint ( malhado ). São pelagens que não foram aceitas pelo Serviço de Registro Genealógico da raça original, Quarto de Milha. A raça Andaluz é especialista em touradas e adestramento clássico para exercícios de alto escola. Ë representada por cavalos fortes, inteligentes, de fácil treinabilidade. A raça Luzitana é tronco da raça Andaluz, tendo sido formada em Portugal.

Raças de Trote


Arabe - É a raça atual mais antiga e pura, tendo sido base para a formação de quase todas as raças existentes. Foi originária dos desertos da Arábia. A conformação é nobre, de beleza e refinamento ímpares. A cabeça é pequena, perfil de chanfro concavilineo, fronte larga, olhos salientes, boca pequena, pescoço delicado, arqueado, tronco brevelineo a mediolineo. O porte não é dos maiores, com altura média em torno de 1,50m. As pelagens são variadas, predominando a tordilha, alazã e castanha. A resistência destes cavalos é um atributo que os tornam preferenciais para a prática de enduros. Nas exposições são apresentados em diversos tipos de categorias, demonstrando a impressionante versatilidade desta raça.


Quarto de Milha - É a raça americana mais popular, famosa por ter sido a preferida pelos lendários cowbows dos filmes de faroeste. Originalmente, foi formada nos Estados da Virgínia e Carolina, por colonizadores ingleses. É o resultado do cruzamento de reprodutores Puro Sangue Inglês com éguas mustangs, nativas de sangue espanhol. As finalidades são várias, mas principalmente nas corridas de curta distância, um quarto de milha, o que lhe conferiu o nome, na lida com o gado, demonstrando um cow sense nato, e em provas de laço e de rédeas como apartação, três tambores,6 balizas. O cavalo Quarto de Milha é um animal de tronco compacto, dorso-lombo curto, musculatura geral bem desenvolvida, volumosa, membros anteriores curtos, membros posteriores longos, o que favorece a potência nas arrancadas. O temperamento é muito dócil, a inteligência uma das mais notáveis dentre as raças equinas. Qualquer pelagem sólida é comum, sendo a mais frequente a alazã. A altura média é em torno de 1,56m.


Puro Sangue Ingles - É uma raça formada na Inglaterra, no início do século XVII, com base no sangue Árabe. A finalidade principal é a corrida, em distâncias médias e longas. O corpo é esguio, de mediolineo a longelineo, com pernas longas e fortes. O pescoço é delicado, longo, cabeça harmoniosa. As alturas ideais variam de 1,60 a 1,70m. Qualquer pelagem sólida é de incidência frequente. O Puro Sangue Ingles, popularmente chamado de P.S.I. exerceu uma contribuição marcante na formação de inúmeras raças em todo o mundo.


Appaloosa - É uma raça norte-americana, formada no Vale "Palouse", região noroeste dos Estados Unidos. A origem é semelhante à do Quarto de Milha, inclusive a conformação. A finalidades também são parecidas, mas devido à pelagem os exemplares desta raça são muito procurados para circos e
desfiles. A pelagem é denominada de Appaloosa, podendo ser mantada, com manchas circulares de cor sólida sobre fundo branco incidindo na garupa e dorso-lombo, ou a variedade Leopardo, com as manchas circulares distribuídas sobre fundo branco em todo o corpo, pescoço e cabeça.


Paint - É um Quarto de Milha pampa. Criadores insatisfeitos com a discriminação da pelagem pampa pelo Padrão oficial da raça Quarto de Milha, fundaram uma associação para congregar pessoas admiradoras da pelagem pampa, que nesta raça é denominada de Tobiano ou de Overo. As pelagens foram originárias dos cavalos selvagens conhecidos como Mustangs, as montarias preferidas dos índios. A pelagem pampa denominada de tobiano é a padrão, de mecanismo genético dominante, caracterizando-se por malhas irregulares, que ultrapassam de um lado a outro, entre o pescoço e a garupa. No caso da variedade Overo, recessiva, as malhas são mais circulares, e raramente ultrapassam de um lado a outro, sendo comuns os animais de olhos azulados e cabeça branca. Como herança do Quarto de Milha, o Paint Horse é um animal muito dócil, inteligente, ágil, excelente na lida com gado, com a vantagem de possuir a pelagem pampa como diferencial de mercado.


Andaluz - Raça formada a partir do cruzamento de cavalos Bérberes, do norte da África, com éguas nativas da Espanha. A finalidade é o adestramento clássico, mas na Espanha são largamente utilizados nas touradas. O cavalo Andaluz possui um tronco compacto, robusto. Ao mesmo tempo que é um animal extremamente dócil, também é ativo, ágil, vigoroso nos deslocamentos de inigualável elegância, sendo considerado o mestre dos cavalos na nobre arte da alto escola equestre. A pelagem mais comum é a tordilha. A altura média é de 1,57m. Dezenas de raças no mundo foram formadas com base no sangue Andaluz, inclusive a maioria das raças brasileiras. Em Portugal, foi formada a raça Lusitana, de conformação e finalidades similares às da raça Andaluz, porém com um tipo mais refinado.


Poney brasileiro - É uma raça de origem britânica, descendente do Pôney Shetland, a menor dentre as nove raças de Pôneis existentes no continente inglês. No Brasil, os reprodutores Shetland foram acasalados com éguas nativas, popularmente conhecidas como Piquiras, dando origem ao Poney brasileiro, de altura inferior a 1,10m, muito requisitado para a diversão de crianças, como montarias ou em atrelagem. Apesar do tamanho reduzido, são animais muito fortes. As pelagens são vairadas e a conformação geral é bastante harmoniosa.


Bretão - Raça de origem francesa, formada a partir de cruzamentos entre as raças Percherão, Boulonnais e Ardenais. As pelagens mais comuns são a alazã, rosilha e castanha. É um animal mais leve em relação ao Percherão, raça mais conhecida no Brasil. O temperamento é muito dócil, facilitando o manejo. A finalidade principal também é a tração, em serviços agrícolas e de atrelagem, mas também podem ser usados para montarias. Como são muito fortes, são indicados para a tração de grandes carroças e charretes.


Brasileiro de Hipismo - Conhecido como BH, é uma mistura de várias raças, com grande concentração de sangue Inglês. A própria conformação, é bastante semelhante à do P.S.I. São animais de grande porte, alturas médias acima de 1,65m, tendo como finalidade principal o salto, que é uma das atividades do Hipismo Clássico. O manejo é especializado, exigindo treinamento profissional.

RAÇAS BRASILEIRAS DE MARCHA


1 - MANGALARGA MARCHADOR

A formação do cavalo Mangalarga Marchador teve a sua origem no Sul de Minas Gerais, na Fazenda Campo Alegre, sediada no município de Baependi. Gabriel Francisco Junqueira, conhecido como o Barão de Alfenas, foi o proprietário da Fazenda Campo Alegre, onde nasceu em 1782 e faleceu em 1869. No ano de 1812, o Barão de Alfenas recebeu como presente do príncipe Regente D. João VI, um cavalo da raça Alter (procedente da Coudelaria Alter do Chão, em Portugal), de nome "Sublime", usando-o para fins de cruzamento com suas éguas crioulas. Os produtos resultantes deste cruzamento constituíram a base dos primeiros cavalos Mangalarga Marchadores.

O cavalo Alter Real é de origem Andaluziana, sendo bastante semelhante em aparência ao cavalo Andaluz, com a diferença de ser um pouco mais refinado em suas linhas gerais. Em 1812 Portugal foi invadido pelos franceses, liderados por Napoleão Bonaparte. Inúmeras fazendas de criação de cavalos da raça Alter, inclusive a própria Coudelaria Alter do Chão, foram saqueadas. Nos anos subseqüentes, os cavalos Alter remanescentes no país foram cruzados com diversas raças cavalares, principalmente com a raça Árabe. No início do século XX, o sangue Andaluziano foi reintroduzido na raça, restabelecendo o tipo original.

O cavalo "Sublime", marco inicial da raça Mangalarga Marchador, veio para o Brasil antes da invasão francesa em Portugal e, portanto, era um puro exemplar da raça Alter. Quanto às éguas brasileiras nativas, estas foram originadas dos primeiros animais introduzidos no Brasil pelos colonizadores, sendo a maioria de sangue Bérbere e Andaluz. Outro fato histórico a ser lembrado é que os cavalos Bérbere e Libianos foram levados para a Espanha, onde passaram por cruzamentos sucessivos com indivíduos da raça Andaluz, dando formação aos famosos cavalos conhecidos como "Ginetes Espanhóis", os primeiros cavalos introduzidos na América do Sul pelos conquistadores. E alguns destes exemplares já apresentavam naquela época um andamento mais cômodo, derivado da Andadura. Desde o início dos trabalhos de sua seleção, Gabriel Francisco Junqueira levou em consideração o andamento cômodo, a resistência, rusticidade e o brio dos animais de sua criação. Naquela época, como o cavalo era o único meio de transporte, a notícia da existência de cavalos de andamento cômodo na Fazenda Campo Alegre despertou um grande interesse em todo o Sul do Estado de Minas e vários criadores adquiriram animais do Barão de Alfenas.

De acordo com o estudo realizado por ANDRADE (16), a versão mais sensata quanto à origem do nome Mangalarga é que o mesmo procede da "Fazenda Mangalarga", localizada em Pati do Alferes, no Estado do Rio de Janeiro. Os donos daquela fazenda somente compravam os seus cavalos no Sul de Minas, e quando iam à Corte Real, no Rio de Janeiro, pelo caminho chamavam a atenção pela elegância e beleza de seus cavalos e de imediato surgiam as perguntas: Quem eram os cavaleiros e cavalos? E a resposta vinha logo: Eram os donos da Fazenda Mangalarga. Assim, quando os compradores iam ao Sul de Minas pediam cavalos Mangalarga, isto é, iguais aos da Fazenda Mangalarga.

Com a mudança de várias famílias Junqueira para o Estado de São Paulo, o Mangalarga Marchador foi introduzido naquele Estado vizinho, onde, posteriormente, sofreu a infusão de sangue exótico, dando formação à raça Mangalarga Paulista, cuja Associação foi fundada em 1934. Paralelamente, os criadores mineiros, principalmente os Junqueiras descendentes do Barão de Alfenas, continuaram a selecionar o Mangalarga Marchador com base em sua pureza original, e diversas outras fazendas, além da Campo Alegre, constituíram a base inicial da formação da raça Mangalarga Marchador: 

Entre os reprodutores famosos que mais influenciaram na formação da raça Mangalarga Marchador temos: Soberbo, Brinquedo, Rio Branco, Rio Verde, Dourado, Ouro Preto, Caxias, Beline, Panchito, Cuera, Predileto, Abismo, Clemanceau, Sargento e outros. Aos interessados, o livro de autoria do Dr. Ricardo Figueiredo Santos (25), apresenta fotos de reprodutores famosos dentro da raça Mangalarga Marchador, Campolina e Piquira. E o livro do Dr. Ricardo Casiush (29) apresenta fotos históricas de renomados exemplares Mangalarga Marchadores.

Em 16 de julho de 1949, em reunião realizada em Caxambu-MG foi fundada a Associação dos Criadores do Cavalo Marchador da raça Mangalarga. hoje uma entidade de âmbito nacional. A raça M. Marchador é um grande exemplo de aprimoramento genético, sendo representada por animais extremamente versáteis, resistentes, rústicos, cômodos e belos. Logo, é uma raça de excelentes aptidões para o trabalho, passeio, provas funcionais e o hipismo rural.


2 – CAMPOLINA 

De acordo com as conclusões do excelente trabalho elaborado por FONTES (1957), a raça Campolina foi formada na região de Entre Rios de Minas, na Fazenda Tanque, cujo proprietário, Cassiano Campolina (1836 - 1904), iniciou em 1857 a sua criação de cavalos, constituída por um rebanho sem características definidas. Mas a verdadeira data de formação da raça é considerada como sendo o ano de 1870, quando Cassiano Campolina recebeu de um amigo (Antônio Cruz) uma égua preta, de nome Medéia, durante uma visita à cidade de Juiz de Fora-MG. Medéia era uma égua nacional e estava prenhe de um puro reprodutor da raça Andaluz, pertencente a Mariano Procópio, que o recebeu de presente do Imperador D. Pedro 11. Na Fazenda Tanque, Medéia gerou um lindo potro tordilho negro, autêntico 1/2 sangue Andaluz, cujo nome era Monarca, considerado o cavalo fundador da raça Campolina, tendo servido durante 25 anos no rebanho de fêmeas nacionais da Fazenda Tanque. Desde o início, Cassiano Campolina concentrou os seus trabalhos de seleção e melhoramento genético na obtenção de animais de elevado porte, de grande sobriedade e de andamento cômodo.

Com a morte de Monarca, em 1898, aos 28 anos de idade, Cassiano Campolina, devido a seu pouco conhecimento das raças exóticas, adquiriu um garanhão da raça Percherão (tração pesada), usando-o durante pouco tempo nas filhas de Monarca, visto que a experiência resultou no nascimento de produtos pesados, com estrutura grosseira e bastante ruins de sela. E como não poderia deixar de ser, Cassiano Campolina saiu em busca dos filhos de Monarca, a fim de dar continuidade ao seu trabalho seletivo.

Após o falecimento de Cassiano Campolina, o seu trabalho teve prosseguimento com o coronel Joaquim Pacheco de Rezende, a quem mais tarde sucedeu seu filho Joaquim Rezende, e a este o Gastão Rezende e seu fIlho, o atual proprietário da maior parte da criação marca C.C., iniciada por Cassiano Campolina. E paralelamente ao trabalho de Cassiano Campolina e dos Rezendes, um trabalho seletivo foi sendo criteriosamente conduzido na Fazenda Campo Grande, município de Passa Tempo (aproximadamente 70 Km da Fazenda Tanque), pelo coronel Gabriel de Andrade, cujo trabalho foi brilhantemente continuado por seu filho Bolivar de Andrade e, atualmente, por Márcio de Andrade. Ainda no município de Passa Tempo, José Ferreira Leite e Américo de Oliveira organizaram na Fazenda Primavera um núcleo de grande importância. Segundo FONTES (21) também devem ser lembrados os trabalhos de Pedro e Joaquim Carlos em Santo Antônio do Amparo; de Ascânio Diniz em Carmo da Mata; dos Almeidas em Pedra Azul, todos no Estado de Minas Gerais.

Além de Monarca, diversos outros garanhões de outras raças também exerceram uma influência significativa na formação da raça Campolina: 

Raça Anglo-Normando - Ainda na época de Cassiano Campolina, foi utilizado o garanhão Menelike, proveniente da cocheira "Murax", no Rio de Janeiro. Entre os bons descendentes de Menelike foram relacionados Bonaparte, Oder I e Oder II (21). O Anglo-Normando é uma raça de grande porte e de linhas gerais leves e harmônicas. Mas a principal razão que teria levado Cassiano Campolina a introduzir sangue desta raça parece ter sido a obtenção de boas éguas "mulateiras", visto que já naquela época as parelhas de muares grandes e robustos alcançavam bons preços, principalmente no Rio de Janeiro (21).

Raça Clydesdale - Após a morte de Cassiano Campolina, o seu sucessor, cel. Joaquim Pacheco de Rezende, procurou melhorar o andamento da tropa C.C., já que a tendência do mercado era para andamentos macios (marcha picada). E foi com tal objetivo que adquiriu do cel. Gabriel de Andrade, da Fazenda Campo Grande, um garanhão de nome Golias, possuidor de 1/4 de sangue da raça Clydesdale. Esta raça foi formada na Escócia, sendo de tração, tendo como características principais o grande porte, ossatura forte, grande quantidade de pelos nos membros, bom temperamento, boa disposição para o trabalho, inteligência e com uma predominância de pelagem baia e castanha, com calçamentos e frente aberta. O próprio Golias era baio, de porte pronunciado, excelente marchador, tendo exercido uma influência marcante na formação da raça Campolina. Entre os seus filhos, destacaram-se: Otelo I, Tupy, Caruso, Otelo 11. E entre as fIlhas: Walkiria, Colônia, Wanda, todas elas mães de excelentes reprodutores.

Raça Holstein - Por volta do ano de 1908 os criadores José Ferreira Leite e Américo de Oliveira, da Fazenda Primavera, município de Passa Tempo, adquiriram do cel. Horácio Lemos um garanhão Holstein, de nome Treffer, importado por Herm-Stoltz & Cia. Esta é uma raça formada na Alemanha, com influência de sangue espanhol e inglês. Os animais apresentam trem posterior possante, ossatura forte, membros relativamente curtos, boa profundidade torácica, com predominância de pelagens preta, castanha e baia. A altura média é em torno de 1,54 m e as funções principais são o trabalho e o salto. Segundo o Sr. José Ferreira Leite, a introdução de Treffer em sua criação visava em linhas gerais a mesma meta de Cassiano Campolina ao introduzir o Anglo-Normandio. Tendo deixado vários descendentes, mais tarde Treffer teve influência nos rebanhos de Santo Antônio do Amparo e Oliveira. Seus descendentes mais conhecidos foram: Urano, Soberano, Aliado, Liberal, Roseira, Primavera, Rainha, Nuvem e Sonâmbula.

Raça American Saddle Horse - Contrário à orientação de seus vizinhos ao introduzirem animais pesados, o Dr. Donato de Andrade, irmão de Bolivar de Andrade, aconselhou o seu pai, cel. Gabriel de Andrade, a procurar animais mais leves e "bons de sela", preferindo a raça American Saddle Horse. Assim, no ano de 1909 foram adquiridos do Kentuchy, Estados Unidos, dois garanhões desta raça, de nome Yankee Prince e Golden Viscount. Principalmente o primeiro, teve uma grande influência no planteI da Fazenda Campo Grande onde deixou, entre outros, Florete, Herval e Florão. As principais contribuições do American Saddle Horse para a raça Campolina foram: elegância de andar, porte, refinamento de linhas corporais e andamento mais cômodo.

Raça Mangalarga Marchador - Enquanto novos núcleos de criadores de Campolina se formavam, os continuadores da obra de Cassiano Campolina se preocupavam com o tamanho um tanto avantajado que vinham adquirindo seus animais e o perfil excessivamente convexo de alguns reprodutores, resultado da influência de animais ocidentais usados, principalmente Menelike e Golias - e também do próprio Monarca, que tinha sangue Andaluz. Por tais razões, preferiram voltar um pouco ao sangue oriental através de Rio Verde, nessa época (1934), já famoso reprodutor Mangalarga Marchador, descendente de animais do Sul de Minas e de propriedade do cel. Gabriel de Andrade, da Fazenda Campo Grande (21). Entre outros, Rio Verde deixou o famoso garanhão Gás Rex, campeão nacional e pai de reprodutores bem conhecidos, como: Emblema, Radar, Primor e Cromo. A decisão de introduzir sangue Mangalarga Marchador foi tomada por Joaquim Rezende, fIlho do cel. Joaquim Pacheco Rezende, sucessor de Cassiano Campolina, principalmente após o fracasso da introdução de sangue P.S.I. e possivelmente de Oldemburguês. Todos os animais descendentes destas duas raças foram vendidos, não tendo exercido influência sobre a formação da raça Campolina.

É importante ressaltar que pelo menos nos últimos 50 anos, não se tem registros de introdução de sangue exótico em plantéis da raça. Os registros históricos mostram que os últimos cruzamentos foram com a raça Mangalarga Marchador, através de Rio Verde no ano de 1934. Posteriormente, os filhos de Rio Verde foram utilizados, e com grandes benefícios para a raça Campolina, principalmente nas características andamento e refinamento morfológico, particularmente no pescoço e cabeça. E atualmente, todas as infusões de sangue exótico mencionadas, mesmo a contribuição genética oriunda do Mangalarga Marchador, já estão bastante diluídas. E como prova deste fato incontestável, basta lembrarmos do alto nível qualitativo e da padronização da representação de animais presentes nas exposições nacionais especializadas da raça, realizadas anualmente pela Associação.

Em 1951 os criadores de Campolina fundaram em Belo Horizonte a Associação Brasileira dos Criadores de Cavalo Campolina, quando foi elaborado o novo padrão da raça para efeito de Registro Genealógico. Este padrão foi amplamente atualizado em 1975, tendo em vista a evolução marcante que tem sofrido a raça Campolina.

No mercado atual, o cavalo Campolina tem uma grande aceitação. Enquanto que na criação do cavalo Mangalarga Marchador nos deparamos com um grande número de linhagens tradicionais, algumas das quais, oferecendo pouca contribuição para o melhoramento genético daquela raça, na atual criação de Campolina do país, praticamente pode-se  afirmar que apenas duas linhagens constituem a base dos rebanhos. Tal fato, sem dúvidas, facilita muito os trabalhos de seleção e melhoramento genético da raça, em decorrência da menor heterogeneidade dos representantes da raça. Outro fator importante para o rápido desenvolvimento desta raça no Brasil é que a criação, até pouco tempo atrás, encontrava-se concentrada em mãos de uns poucos criadores, de maiores recursos econômicos e de maior orientação técnica, que conseguiram conduzir um trabalho sério em seus criatórios. Hoje, com o grande movimento verificado na criação de cavalos Campolina, podemos notar com imensa satisfação que a representação da raça evoluiu aceleradamente, com rara consciência, tanto do ponto-de-vista morfológico como funcional.

Garboso, sóbrio, de andar rápido e excelente comodidade, o cavalo Campolina é hoje um animal bastante requisitado e indicado para as longas caminhadas e os trabalhos de campo nas fazendas. Tendo como características peculiares o andamento (marcha) e o magnífico porte, é uma raça muito apreciada para cruzamentos com jumentos para a obtenção de animais de serviço ou para cruzamentos orientados com raças exóticas (Exs.: Puro Sangue inglês e Anglo-Árabe) com a finalidade da obtenção de produtos aptos para provas eqüestres diversas.


3 - PIQUIRA

A raça Piquira foi formada através de cruzamentos dirigidos de éguas nacionais de porte pequeno com reprodutores pôneis da raça Shetland. Desde o início a seleção baseou-se em duas características fundamentais: o porte pequeno e o andamento marchado. Ainda é uma raça com uma larga variação genética, em decorrência da mestiçagem recente e do fato de várias éguas sem origem conhecida terem sido registradas, levando-se em consideração apenas a marcha e o porte dentro dos limites de altura estabelecidos pelo padrão racial. Entretanto, é importante ressaltar que já existem inúmeros animais de excelente e bem definida caracterização racial, completamente enquadrados no padrão racial.

Os criadores de Piquira estão filiados à Associação Brasileira dos Criadores de Cavalo pônei, fundada no ano de 1970 e com sede em Belo Horizonte, estado de Minas Gerais.

A principal utilidade do cavalo Piquira é para montaria de crianças, seja para o passeio e divertimento ou para os trabalhos de campo nas fazendas, os concursos de marcha ou as provas funcionais. O Piquira é um animal extremamente dócil, de temperamento calmo e bastante cômodo. O seu padrão racial estabelece o seguinteAs raças brasileiras começaram a ser formadas a partir da segunda metade do século IX. A primeira delas foi a raça Mangalarga ( conhecida popularmente como “Mangalarga Paulista” seguindo-se as raças Mangalarga Marchador ( conhecida popularmente como “Mangalarga Mineiro”), Campolina, Crioula, Piquira, Pantaneira, Marajoara, Campeira, Nordestina, Brasileiro de Hipismo. Um décimo agrupamento de equinos vem sendo constituído desde 1993, através do Serviço de Registro Genealógico da ABCCPAMPA – Associação Brasileira dos Criadores do Cavalo Pampa. Mas não se pode considerar como raça, tendo em vista que pampa define pelagem, sendo comum em várias raças, como nas próprias raças Mangalarga, Mangalarga Marchador, Campolina, Piquira, como exemplos. A morfologia e o andamento, apesar de serem orientados por um Padrão Racial, são de padronização quase que impossível, pois são registrados animais oriundos de quase uma dezena de raças, além dos animais sem origem conhecida.