30 de nov de 2016

Reprodução de Bovinos de Corte


Reprodução

Manejo Reprodutivo em Sistemas Intensivos de Produção de Carne

Sistemas intensivos de produção de carne bovina requerem a intensificação dos fatores básicos de produção, ou seja, da terra, do capital e do trabalho. Do uso desses fatores espera-se maior eficiência. Dessa forma, surge como condição fundamental a necessidade de elevada eficiência reprodutiva como meta principal dos produtores que objetivam rentabilidade na atividade pecuária.
No passado recente, várias biotécnicas de multiplicação animal têm sido desenvolvidas, estando algumas em rotina, outras em uso experimental. Entre estas podem ser citadas a transferência de embriões, a fertilização "in vitro", a transgênese e a clonagem. Contudo, a utilização de algumas dessas tecnologias, dado o elevado custo e a exigência tecnológica, fica limitada àqueles produtores de animais com genética tida como superior.
Mesmo a inseminação artificial, com todas as vantagens que proporciona e a facilidade de uso, apesar de disponível há mais de cinco décadas com material congelado, apresenta taxa de utilização em relação ao número de fêmeas em reprodução em nosso País, ao redor de 7%. Isso demonstra o grande potencial para expansão do uso dessa técnica, sobretudo para aqueles produtores de animais melhoradores de raças de corte, de cruzamentos industriais e produtores de leite.
Deduz-se, portanto, que mais de 90% dos bezerros nascidos no Brasil provêm de acasalamentos ocorridos em monta natural. Dessa forma, passa-se a descrever alguns tópicos importantes diretamente relacionados aos sistemas de produção de carne preponderantes no País.
Realização de exame andrológico
Estudos realizados no Brasil, envolvendo número expressivo de touros que estavam sendo utilizados em monta natural em diversos Estados da Federação, indicaram haver mais de 53% deles com problemas de fertilidade. As principais causas de baixa fertilidade ou infertilidade estão apresentadas na Tabela 10.1.
Segundo os autores, os fatores de meio ambiente desfavoráveis e o manejo indesejável constituíram as principais causas de baixa fertilidade para touros destinados a reprodutores em condições de Brasil Central. Assim, cuidadosos exames clínicos, sanitários e andrológicos são imprescindíveis para animais a serem usados como reprodutores, além de melhores critérios de seleção genotípica e melhor manejo.
Tabela 10.1. Principais causas de baixa fertilidade ou infertilidade identificados em touros usados em rebanhos, no Brasil.
Causa
Freqüência (%)
Degeneração testicular
21,5
Imaturidade sexual
11,9
Maturidade sexual retardada
3,5
Hipoplasia testicular
3,5
Espermiogênese imperfeita
2,9
Espermatocistite
2,7
Disfunção do epidídimo
2,1
Fonte: Vale Filho et al. (1978).
O exame andrológico completo deve incluir a avaliação clínica do animal, observando-se o histórico da vida reprodutiva e a avaliação do estado geral, do sistema locomotor, dos órgãos genitais internos e externos, e dos aspectos físicos e morfológicos do sêmen, bem como do comportamento sexual. Após os exames, os achados são interpretados, obedecendo critérios internacionais, e os animais podem ser classificados em:
  1. aptos ou satisfatórios para a reprodução,
  2. questionáveis, devendo aguardar novos exames, e
  3. inaptos ou insatisfatórios para a reprodução, devendo ser castrados e descartados.
Utilização de tabelas de circunferência escrotal
Durante a realização do exame andrológico, medida de extrema importância é a tomada da circunferência escrotal. O tamanho dos testículos está diretamente relacionado com a capacidade de produção espermática e existe correlação genética negativa entre a circunferência escrotal de touros ainda jovens e a idade à puberdade de suas meias-irmãs. Touros com testículos mais desenvolvidos apresentam maior volume e maior concentração espermáticos no ejaculado, podendo servir a maior número de fêmeas ou produzir maior número de doses de sêmen, quando em rotina de coleta e congelação. Existem tabelas de circunferência escrotal mínima, para a maioria das raças, em cada idade do touro.
Estabelecimento da proporção touro: vaca adequada
Embora tenha havido alguns esforços para definir experimentalmente o número exato de fêmeas que podem ser colocadas com um touro durante a estação de monta, a proporção touro:vacas adequada ainda não está determinada. Obviamente essa proporção depende de fatores ligados ao reprodutor, ao rebanho de fêmeas, às condições do ambiente e ao manejo definido para o rebanho.
Fatores ligados ao reprodutor estão ligados, além da idade, à sua capacidade de produção e maturação espermáticas, relacionadas com a circunferência escrotal e com o peso dos testículos, e também à libido, determinada pelos testes de comportamento sexual. Em geral, touros aptos em exame andrológico completo devem produzir no mínimo quatro ejaculados/dia, suficientes para cobrir até duas fêmeas, com sucesso, em cada dia da estação de monta.
Relacionado às fêmeas, o fator básico é saber a taxa de ciclicidade do rabanho em estação de monta. Taxa de ciclicidade pode ser definida como a percentagem de fêmeas em estro em relação ao total de fêmeas expostas por dia de estação. Essa taxa é de no máximo 5% e pode ser determinada observando-se o número de fêmeas em cio em dias prévios ao início da estação de monta e, a partir daí, determinar a proporção touro: vaca mais adequada.
O desafio imposto aos touros é resultante da taxa de ciclicidade do rebanho. Assim, numa proporção touro:vaca de 1:40, em que todas estejam ciclando, tem-se, em média, duas vacas em cio/dia, durante o primeiro ciclo (21 dias) da estação de monta, o que é compatível para touros em acasalamentos únicos. Dependendo então da taxa de concepção neste primeiro estro, o desafio proporcionado aos touros nos estros subseqüentes será inferior ao primeiro. Já numa proporção touro:vaca de 1:80 em que a taxa de ciclicidade seja 2,5%, o desafio imposto ao touro no primeiro ciclo da estação de monta, é o mesmo daquele para 1:40. Enfim, para definir a proporção touro:vaca adequada é necessário conhecer a taxa de ciclicidade do rabanho. Todavia, os fatores relacionados ao meio, tais como área das pastagens, topografia, tipo de vegetação, presença de acidentes geográficos, qualidade e quantidade de forragem disponível, bem como duração da estação de monta e uso de touros múltiplos, devem ser considerados. Em geral, os touros no Brasil são subutilizados.
Expectativa da dinâmica reprodutiva durante a estação de monta
A expectativa da dinâmica reprodutiva para estação de monta de 90 dias, taxa de ciclicidade de 100% (diária = 5%), taxa de concepção de 60% e proporção touro:vaca de 1:40 é apresentada no quadro a seguir:
 
Ciclos Estrais
 
1o
2o
3o
4o
Proporção touro: vaca cíclica
1:40
1:16
1:6
1:2
No estros/dia do ciclo
1,90
0,76
0,28
0,1
No de fêmeas gestantes ao final do ciclo
24
10
4
1
No fêmeas vazias no próximo ciclo
16
6
2
1
Para estação de monta de 90 dias, taxa de ciclicidade de 50% (diária = 2,5%), taxa de concepção/estro de 60% e proporção touro:vaca de 1:80, a expectativa é a do próximo quadro:
 
Ciclos Estrais
 
1o
2o
3o
4o
Proporção touro: vaca cíclica
1:40
1:28
1:20
1:14
No estros/dia do ciclo
1,90
1,33
0,93
0,67
No de fêmeas gestantes ao final do ciclo
24
17
12
8
No fêmeas vazias no próximo ciclo
56
39
27
19
Adoção de estação de monta
A adoção de um período restrito para o acasalamento dos animais é a maneira mais racional de conduzir o sistema de cria, pois permite a avaliação sistemática do desempenho reprodutivo, oferecendo oportunidades para a tomada de decisões, inclusive a realização dos descartes.
Para sistemas intensivos, em que não está prevista escassez de forragem, esse período de estação de monta na maioria das regiões do Brasil Central pecuário deve ser estabelecido de modo a atender as melhores condições fisiológicas dos animais, coincidindo com a melhor condição produtiva das forrageiras tropicais. Portanto, esse período tem sido estabelecido durante os meses de verão, quando ocorre alta pluviosidade e maior fotoperíodo, não necessitando ter prazo superior a 90 dias.
Independentemente do método de reprodução adotado, se monta natural ou inseminação artificial, uso de sincronização de cios, touros para repasse, etc., ao final do período é possível avaliar os resultados.
Monitoramento da condição corporal
A duração do período de serviço, ou seja, o período de tempo decorrido entre a parição e a concepção, é o aspecto mais importante na determinação do intervalo de partos. No Brasil, os trabalhos revelam longos períodos de serviço, o que contribui para aumentar os intervalos de partos e reduzir o número de crias por vaca no rebanho. Dessa maneira, várias medidas de alimentação e manejo devem contribuir para redução dos períodos de serviço.
Os efeitos nutricionais são os principais fatores controladores do anestro lactacional após o parto, que representa o principal problema reprodutivo do rebanho bovino nacional. O peso e a condição corporal, embora pareçam imprecisos ou subjetivos, são indicadores funcionais do estado energético e do desempenho reprodutivo após o parto. Assim, a monitoração da condição corporal é a melhor maneira de avaliar o estado nutricional dos bovinos e é considerada o melhor indicador do funcionamento fisiológico normal de todos os sistemas orgânicos. Sua avaliação à parição tem sido recomendada porque é um dos fatores mais importantes que influenciam o intervalo pós-parto e a taxa de prenhez em vacas.
As atividades de manejo necessárias para a reversão desse quadro de anestro devem ser orientadas para proporcionar boa condição corporal ao parto e evitar perda de peso após o parto, já que a maior fertilidade está relacionada com o ganho de peso da parição até o final da estação de monta. Bom nível nutricional pré-parto acelera o aparecimento de cios, reduzindo o intervalo parto-concepção e, conseqüentemente, proporcionando maior número de fêmeas gestantes no início da estação de monta. Já o nível nutricional pós-parto influencia o índice de prenhez, principalmente ao primeiro serviço, já que as necessidades nutricionais nesse período são maiores para a retomada da ciclicidade ovariana.
Para sistemas intensivos, em que não haja limitações de ordem nutricional, os animais devem ser manejados de acordo com a condição corporal, evitando excessos de peso e permitindo o ganho de peso durante a estação de monta.
Tabelas de pontuação da condição corporal têm sido usadas como ferramenta auxiliar no manejo reprodutivo.
Controle da amamentação das crias
A amamentação indiscriminada atrasa o aparecimento do cio pós-parto pela influência inibitória que o estímulo da mamada pelo bezerro exerce sobre os elementos regulatórios controladores da liberação das gonadotrofinas hipofisárias. Algumas alternativas de manejo têm sido usadas com o objetivo de melhorar a eficiência reprodutiva. Tanto a desmama precoce dos bezerros como a interrupção da amamentação por curto espaço de tempo (48 ou 72 horas) ou a redução na freqüência de amamentação para uma ou duas mamadas diárias podem ser adotadas, desde que as vacas estejam ganhando peso quando o bezerro é removido.
Para a adoção de amamentação uma vez por dia, alguns requisitos devem ser atendidos:
  1. os bezerros devem ter pelo menos 30 dias de idade,
  2. os bezerros devem ter curral seco e água fresca a disposição, e
  3. deve-se fornecer aos bezerros ração balanceada e feno de boa qualidade ou forragem verde cortada fresca, à vontade.
Uso da sincronização do estro
A otimização e a racionalização dos recursos disponíveis em propriedades que usam a inseminação artificial (instalações, mão-de-obra, alimentação) pode ser alcançada com a adoção da técnica da sincronização de cios, pois esta reduz o tempo e a mão-de-obra envolvida no processo.
A sincronização de cios é, portanto, uma técnica alternativa de manejo reprodutivo, que oferece a possibilidade de manipulação do ciclo estral das fêmeas para indução da ovulação e estro, em parte delas, dentro de um período pré-determinado. Necessita de planejamento prévio, requer insumos, e a chave do sucesso depende dos animais estarem ciclando. Necessita também de um plano nutricional adequado, rebanho saudável, mínimo de condições estressantes, inseminadores devidamente treinados, sêmen de boa qualidade, adequado sistema de apontamentos e controle e acompanhamento de todo o procedimento.
Vários protocolos estão disponíveis no comércio sob a forma de progestágenos, estrógenos e prostaglandinas F2a e seus análogos, bem como suas combinações. A escolha do método e a opção para adoção devem considerar a eficiência fisiológica e a relação benefício: custo.
Considerações Finais
Outras práticas de manejo, tais como, a utilização de creep feedingcreep grazing, uso de misturas múltiplas, uso de macho íntegro para a antecipação da atividade ovariana, etc., têm sido utilizadas, para buscar maior eficiência de produção de carne. Contudo, acredita-se que um rebanho mantido em boas condições sanitárias, com critérios bem definidos para entrada e saída de animais e bom senso de gerência, seja a chave do sucesso, na maioria das propriedades que usam manejo racional de produção.


3 de nov de 2016

Controle e Manejo de Invasoras em Pastagens


A degradação das pastagens e um dos maiores problemas da pecuária bovina do pais. Estima-se que 80% dos pastos cultivados, implantados nos cerrados do Brasil Central, apresentam algum nível de degradação com consequente perda de produtividade. A alta ocorrência de plantas invasoras nessas situações e um empecilho para reverter esse processo e restabelecer a produção das forrageiras. O controle das plantas invasoras e, portanto, uma necessidade na recuperação ou renovação das pastagens degradadas. O objetivo deste trabalho foi sintetizar as informações, como viabilidade e eficiência, relativas aos métodos de controle de invasoras de pastagem utilizados, de forma a oferecer subsídios para uma opção racional, eficaz e econômica para cada situação encontrada. Foram discutidos aspectos inerentes a competição exercida pelas plantas daninhas nas pastagens cultivadas, especialmente aquelas de folhas largas, no ambiente de Cerrados, e algumas considerações sobre a ocorrência e manejo de plantas tóxicas aos bovinos. Apresentam-se resultados de pesquisa dos efeitos do controle químico de invasoras em pastagens sobre o desempenho animal e o custo-benefício do uso de herbicidas, e ainda, uma relação das principais plantas de folhas largas, invasoras de pastagens nos Cerrados e fatores que afetam a persistência das forrageiras e dinâmica da população de invasoras. finalmente, sintetizam-se os principais métodos de controle utilizados no pais, suas eficiências, e alguns resultados de pesquisa sobre controle químico e os herbicidas mais utilizados em pastagens no Brasil.

Invasoras em pastagens

Invasora é a planta que pode interferir no agroecossistema, nesse caso a pastagem, de grande ocorrência geográfica nos trópicos e que não existia no ecossistema original. As principais invasoras de pastagens no Brasil estão relacionadas em diversos trabalhos regionais e nacionais (Aranha et al., 1982; Bacchi et al., 1982; Bacchi et al., 1984; Lorenzi, 1991; Afonso e Pott, 2001).
A causa do aparecimento de plantas invasoras em pastagens se deve principalmente às medidas inadequadas de manejo das plantas forrageiras, como pastejo ou roçadas impróprias, quanto ao número de cortes ou à época de controle das invasoras, empobrecimento do solo tanto quimicamente (deficiência de N, P, K, Ca, Mg, S e outros) como fisicamente (compactação), deficiência ou excesso de água disponível, e cultivo de plantas forrageiras não adaptadas às condições ambientais. De maneira prática, pode-se caracterizar uma pastagem degradada pela presença de plantas invasoras (plantas indicadoras), uma vez que, ao se instalarem em determinado local, encontram ali as condições que lhe permitem crescer e multiplicar-se. É o caso do sapé (Imperata brasiliensis), que indica acidez do solo, e da samambaia (Pteridium aquilinum), que indica altos teores de alumínio tóxico no solo.
Apesar de a maioria das plantas expontâneas serem indesejáveis às pastagens, e nem sempre serem competitivas, podem causar outros problemas a esse ecossistema, como ferimentos nos animais e no homem, e mesmo ações indesejadas na operacionalização da propriedade rural, pela invasão de cercas, currais, estradas e outros. Portanto, é mais correto referir-se às "interferências" das invasoras nas atividades pecuárias, cujas principais formas são:
Interferência – competição com plantas forrageiras por água, luz, nutrientes e espaço, sendo que as invasoras nesse balanço competitivo ainda são favorecidas, pois os animais não comem a planta invasora, mas sim a forrageira; Alelopatia – interferência de uma planta sobre outra por liberação de substâncias químicas, tendo como exemplo a inibição de capim-coastcross (Cynodon dactylon) por erva-de-bicho (Polygonum aviculares);
Parasitismo – as invasoras tornam-se parasitas de forrageiras, sendo exemplo clássico o parasitismo da cuscuta (Cuscuta spp.) em alfafa (Medicago sativa);
Toxicidade aos animais – alta letalidade de algumas espécies aos bovinos na região Sudeste do Brasil, tais como o cafezinho (Palicourea marcgravii), a coerana (Cestrum axilare) e o cipó-prata (Mascagna pubiflora);

Redução da qualidade do produto pecuário – os produtos de origem animal (carne, lã, leite, couro) podem ser influenciados direta ou indiretamente pelas invasoras, por exemplo, a contaminação da lã de carneiros por propágulos de picão preto (Bidens pilosa) e capim-carrapicho (Cenchrus echinatus), ferimento do couro de animais e tetos de vacas leiteiras por pontas de arbustos, e sabor de alho no leite por ingestão de alho bravo (Nothocordon fragans);
Redução na qualidade de forragens armazenadas (fenos e silagens) – redução da aceitabilidade desses alimentos pelos animais por causa da presença de partes vegetais, como capim-carrapicho, em fenos, e redução da qualidade de silagens, em conseqüência da presença de plantas indesejáveis, principalmente por problemas de fermentação; e
Hospedeiros de pragas e doenças dos animais – pontos de refúgio e criatório de animais nocivos (carrapatos, cobras, morcegos hematófagos, e outros) em árvores e arbustos não planejados (Rassini,1993).

O controle de invasoras em pastagens, basicamente, é realizado por meio de tratos culturais na planta forrageira, desde sua implantação (escolha da espécie mais adaptada e da cultivar mais indicada, preparo do solo, recuperação da fertilidade do solo com base em análise química) até seu manejo (adubações de manutenção e cobertura, freqüência e altura de cortes). Quando ocorrem falhas nessas práticas e em algumas situações especiais, como ocorrência de fogo, manchas de solo (fertilidade) ou compactação, recorre-se a um dos vários métodos utilizados para controlar as plantas invasoras em pastagens.
Na região Sudeste, o método mais utilizado de controle de invasoras em pastagens ainda é o corte com foice (roçada) ou a remoção da planta com raiz (destoca). Porém, a mão-de-obra despendida e seu elevado custo, aliado a resultados não satisfatórios de controle, pela repetição contínua da operação em conseqüência da brotação da maioria das espécies, têm contribuído para incrementar o controle químico de invasoras em pastagens por meio de herbicidas. Deve-se ressaltar quanto a esse aspecto que o controle químico ainda está restrito ao uso de pequeno número de princípios ativos seletivos às gramíneas forrageiras, como 2,4 D, picloran, 2,4 D + picloran, tebuthiuron, e fluroxipir + picloran. Além disso, a aplicação desses produtos deve ser bastante criteriosa, para que problemas como a utilização indiscriminada de herbicidas sejam visualizados e controlados evitados.
Antes de utilizar herbicidas em pastagens, é fundamental que se identifiquem as espécies a serem controladas, o estágio de desenvolvimento dessas plantas e os períodos em que a competição é mais grave ou acentuada, que se utilizem equipamentos de proteção individual (luvas, botas, chapéu de aba larga, óculos ou protetor facial, calça e camisa de mangas compridas, avental impermeável) durante o preparo da calda e a aplicação, que se armazene a embalagem vazia após lavagem tríplice para posterior encaminhamento ao vendedor (agropecuárias), e que se evite contaminação de corpos hídricos (rios, lagos), enfim, que o uso de herbicidas em pastagens seja avaliado e acompanhado por técnicos especializados (engenheiro agrônomo).




27 de out de 2016

Irrigação de Pastagens



Para se alcançar maiores índices de produtividade, alguns produtores rurais buscam alternativas para incrementar a produção de carne e leite na propriedade e, consequentemente, aumentam os seus lucros gerados. Com a irrigação das pastagens, o manejo da bovinocultura de corte e leite torna-se mais simples do que em um sistema tradicional de pastejo rotacionado. Sem as flutuações na produção, devido a veranicos, o sistema torna-se mais estável, em regiões que não tem problemas de temperaturas e fotoperíodo.  A irrigação e a fertirrigação em pastagem são técnicas cujas aplicações vêm crescendo no Brasil, possibilitando obter forrageiras de melhor valor nutricional e maiores índices de produção de matéria seca, além de favorecer o manejo racional do sistema de produção animal.

Segundo Dovrat (1993), em muitos países, técnicos e produtores inicialmente usaram a irrigação na tentativa de solucionar o problema da estacionalidade de produção das pastagens, que é determinada pelo déficit dos fatores temperatura, luminosidade e água. A irrigação da pastagem pode reduzir custos de produção e tempo de trabalho para alimentar o rebanho, comparada a outras alternativas de suplementação no outono-inverno, tais como a silagem e o feno, conforme Figura 1. Isso ocorre pela utilização de menor área, uso de água de baixa qualidade e possibilidade de prolongar o período de pastejo durante a estação seca.

Segundo Drumond, Aguiar (2005), em regiões onde a temperatura não é fator limitante, a irrigação pode ser uma alternativa para a produção intensiva de carne e leite em pequenas áreas, sendo possível reduzir custos de produção e de mão-de-obra.

De acordo com Andrade (2000), a irrigação de espécies forrageiras deve ser a última etapa a ser cumprida num sistema de produção pecuário ou de agricultura-pecuária. Todos os demais cuidados relativos ao planejamento da propriedade, a genética animal, o manejo do rebanho, a recuperação e a adubação das pastagens já devem ter sido tomados.




                    Figura 1 - Comparação de custos de produção de tonelada de matéria seca
                    Fonte: Adaptado de Drumond; Aguiar (2005)
PRODUÇÃO DE PASTAGENS EM CONDIÇÕES IRRIGADAS
Aguiar; Silva (2002) mediram o acúmulo de forragem de uma pastagem de capim Braquiarão adubada e irrigada em condições de campo (Tabela 1), na Fazenda Santa Ofélia, localizada no município de Selvíria, MS. Observaram que a participação da forragem acumulada na estação de inverno foi 61% da acumulada na estação de verão. A média de lotação foi de 6,89 UA ha-1, muito superior à média brasileira.
Tabela 1 - Acúmulo de matéria seca (t ha-1) estacional, anual e taxa de lotação em uma pastagem de capim Braquiarão adubada e irrigada para o ano pastoril 2001/2002, Selvíria, MS.



                  Legenda: MS - Matéria Seca / UA - Unidade Animal
                  Fonte: AGUIAR; SILVA (2002).
Aguiar (2002) apresenta dados importantes dos potenciais de produção de leite em diferentes sistemas de produção na Austrália, de acordo com o nível tecnológico adotado (Tabela 2). O que chama a atenção nesses trabalhos realizados em outros países é que não é comum encontrar dados de irrigação de pastagens para bovinos de corte. Isso contraria a realidade atual no Brasil diante da grande adoção da irrigação de pastagens pelos pecuaristas de gado de corte, sendo a maioria dos dados disponíveis para os sistemas de produção de fazendas.
Tabela 2 - Capacidade de carga e produção por hectare de vários pastos sem suplementação na Austrália.


                    Fonte: AGUIAR; SILVA (2002).
Aguiar (2002) cita que em outro experimento realizado na Fazenda Escola da Fazu em Uberaba, com capim Tifton 85, ocorreu diferença significativa entre os tratamentos irrigado e sequeiro ao longo de um ano, exceto no inverno. A diferença foi devido a maior produção de forragem nas estações de primavera, verão e outono, quando as condições climáticas permitiram uma resposta da planta à irrigação. Entretanto, quando ocorreu redução da temperatura, ou seja, no inverno, não houve diferença entre os tratamentos irrigado e sequeiro (Tabela 3).
Tabela 3 - Massa de forragem (kg de MS ha-1) em pastagem irrigada e pastagem não irrigada de Tifton 85, submetido a manejo intensivo do pastejo, Uberaba, MG.


             Fonte: AGUIAR; SILVA (2002).
SISTEMAS DE IRRIGAÇÃO PARA PASTAGEM
A maioria dos sistemas de irrigação disponíveis poderia ser utilizada para irrigar espécies forrageiras. Porém, na prática, vários fatores limitam esta generalização, como custos de investimento e operação do sistema, disponibilidade de mão de obra para operação, topografia, solo, clima, espécie forrageira, presença do animal e questão cultural. No Brasil, a maioria dos projetos de irrigação de pastagem está sendo realizada por aspersão, com o uso de pivô central, aspersão em malha e, em menor escala, aspersão convencional com canhão e autopropelido.
Aspersão em malha
Tem como características principais a utilização de tubos de PVC de baixo diâmetro, que constituem as linhas laterais que, ao contrário da aspersão convencional, são interligadas em malha; baixo consumo de energia; adaptação a qualquer tipo de terreno; possibilidade de divisão da área em várias subáreas; facilidade de operação e manutenção; possibilidade de fertirrigação e baixo custo de instalação (entre R$ 3.000,00 a R$ 4.000,00) e manutenção, conforme Figuras 2 e 3 (DRUMOND; FERNANDES, 2001).


                       Figura 2 - Aspersão em malha com aspersor pequeno


                       Figura 3 - Aspersão em malha com mini-canhão
Nas Figuras 4 e 5 podem ser vistos exemplos de pastagem com irrigação:



                       Figura 4



                       Figura 5
Pivô central
É o equipamento mais utilizado na irrigação de pastagem, devido às facilidades de instalação, manejo e fertirrigação. Além disso, este sistema permitiu a automação de todo o processo. Tem custo de instalação de R$ 4.000,00 a R$ 5.000,00.

A divisão da área em piquetes tem sido realizada de formas diferentes. Algumas favorecem o manejo da pastagem e dos animais e outras favorecem o manejo da irrigação e da fertirrigação. 
É realmente difícil encontrar uma maneira que favoreça as duas situações. A mais utilizada é a forma de “pizza” (Figura 6), pois dentre outras coisas, favorece em muito o processo de fertirrigação.  A área de lazer pode ser feita no centro ou na periferia do Pivô. Quando instalada no centro, têm-se observado problemas de compactação na região de estreitamento e formação de grande quantidade de lama na ocasião de uma chuva. A vantagem é a facilidade construção, manejo, distribuição de bebedouros e cochos de sal mineral, conforme Figuras 6 e 7 (DRUMOND; AGUIAR, 2005). 



                    Figura 6 - Divisão em pizza, com área de lazer no centro do Pivô (Fonte Valley).


                          Figura 7 - Exemplo de pastagem irrigada com pivô central.
CONCLUSÕES
A técnica de irrigar pastagens possibilita uma melhoria na qualidade da forragem e um aumento significativo na produção de matéria seca por área, com consequente acréscimo na taxa de lotação (UA/ha), proporcionando a obtenção de índices satisfatórios de lucratividade, tornando a atividade altamente competitiva no agronegócio nacional.

A distribuição de água de maneira artificial em pastagens por meio de irrigação é a garantia para se produzir como planejado, sem que a falta de chuvas altere os índices de produtividade e de rentabilidade previamente estabelecidos. Entretanto, a utilização dessa tecnologia para exploração de pastagens no Brasil ainda é bastante empírica, sendo às vezes até casual, como o surgimento de projetos na região Centro-Oeste, em decorrência do fracasso de outras explorações agrícolas, como soja, milho, feijão ou tomate. Nesses casos, a opção pela pecuária ocorreu pela busca de alternativas de uso do equipamento de irrigação, normalmente pivô central (Rentero, 1998). Esse fato se deve, basicamente, aos trabalhos sobre irrigação de pastagens desenvolvidos entre 1966 e 1978, que expressavam aumentos de produção entre 20 e 70% ao se utilizar irrigação por 150 dias nas estações de outono e inverno.
Quando comparadas com a produção total do ano, as produções da safra (primavera e verão) e da entressafra (outono e inverno) não se equilibravam, não solucionando um dos maiores problemas da bovinocultura no Brasil, que é a estacionalidade de produção dos pastos. Porém, a partir da década de 80, os trabalhos passaram a comparar as produções de entressafra com as da safra, mudando os valores e os números quanto à técnica de irrigação em pastagens. Em Minas Gerais (Coronel Pacheco), a irrigação de 11 espécies forrageiras promoveu produção na entressafra de 30% da produção anual (5,6 e 18,3 t MS/ha), mas de 44% quando relacionada com a da safra (5,6 e 12,7 t MS/ha) (Alvim et al., 1986). No triângulo mineiro (Uberlândia), a irrigação do capim-tanzânia evidenciou acúmulo de forragem na entressafra de 57% do acúmulo da safra (Benedetti et al., 2000). Na região central do Estado de São Paulo (São Carlos), a produção de forragem na entressafra correspondeu a 53 e 68% da produção da safra, para o capim-tanzânia e o capim-elefante, respectivamente, com aplicação de água de maneira complementar por irrigação, podendo-se diminuir a produção de alimentos de entressafra para os animais, como silagem de milho e de capim, fenos, cana-de-açúcar, aveia e outros (Rassini, 2002a).
Deve-se salientar contudo, que a irrigação é uma tecnologia agrícola final, ou seja, o pecuarista que pretende utilizá-la deve também, ser um bom agricultor. Antes de irrigar o pasto, deve aplicar tecnologias que promovam altas produções de forragem, como preparo do solo, correção da fertilidade do solo com base em análise química, escolha da melhor espécie e cultivar, semeadura em nível a fim de evitar erosões, adubações de manutenção e cobertura para as plantas, e combate a pragas e doenças, especialmente formigas no caso de pastagens.
O manejo da irrigação é um recurso para racionalizar a aplicação de água às culturas de maneira complementar. Requer certos procedimentos para determinar o turno de rega (freqüência), bem como medir a quantidade de água da próxima irrigação (lâmina de água). No Brasil, as dificuldades para utilizar as inúmeras fórmulas para determinar a perda de água das plantas por evapotranspiração, por meio de vários métodos (balanço de água, empíricos de Thorntwaite e Blaney-Criddle e outros), têm levado os irrigantes a fazer o manejo de água com o maior erro do ponto de vista técnico, econômico e ecológico, que é o predeterminado, ou seja, a aplicação de 5, 8, 11, 12, 15 ou "n" mm de água (lâmina de água), a cada 3, 5, 6, 7, 8 ou "n" dias sem chuvas (freqüência).
Para evitar essa prática, foi desenvolvido o método EPS (Evaporação, Precipitação, Solo) para se manejar a água de irrigação, em vista de sua praticabilidade e, principalmente, facilidade de uso. Apesar de empírico, como os demais, envolve apenas dois parâmetros climáticos, mas que respondem por mais de 90% da demanda hídrica das plantas: evaporação e precipitação pluvial. Nesse manejo da água de irrigação, quando a diferença entre a evaporação do tanque do tipo classe A (ECA) e a precipitação pluvial (PRP), durante o desenvolvimento da pastagem, atingir valor de 25 a 30 mm (ECA – PRP = 25 a 30 mm), deve-se aplicar água de maneira complementar às plantas forrageiras, determinando-se a freqüência de irrigação. Para Latossolos de textura média, a quantidade de água a ser aplicada deve ser de 16 a 21 mm nos primeiros 20 cm de profundidade, que é a capacidade de armazenamento de água desses solos, determinando-se a lâmina de água. Deve-se ressaltar que os Latossolos de textura média compõem grande parte dos solos brasileiros (Rassini, 2002 b).
No Brasil, o uso da água foi institucionalizado pela lei Federal 9984/00, criando-se a Agência Nacional das Águas (ANA), cuja missão é implementar políticas, bem como criar resoluções sobre o gerenciamento dos recursos hídricos. Dentre essas, o aproveitamento da água para irrigação, quando essa atividade gerar concorrência entre os usuários, ou mesmo cause impactos ambientais, torna-se necessário a emissão de "outorga". A outorga, nada mais é do que o instrumento necessário para assegurar ao usuário o efetivo direito de acesso à água, bem como realizar os controles quantitativo e qualitativo dos recursos hídricos. A ANA é a responsável pela análise dos pleitos e da emissão de outorgas de direito de uso de recursos hídricos de domínio da União (rios ou lagos que banham mais de uma unidade federada, ou que sirvam de fronteira entre essas unidades, ou de fronteira entre o território do Brasil e o de um país vizinho). Em corpos hídricos de domínio dos Estados e do Distrito Federal, a solicitação de outorga deve ser feita às respectivas autoridades outorgantes estaduais. Atualmente, 20 unidades da Federação possuem legislações sobre recursos hídricos.
De acordo com a cobertura vegetal da superfície do solo pelas pastagens, recomenda-se utilizar a irrigação por aspersão. É um sistema, basicamente composto por tubulações, aspersores e conjunto motobomba, para captar água de determinada fonte (rios, lagos, represas e outras) e conduzi-la até as plantas. É mais indicado para solos de boa infiltração (franco-arenosos), que requerem irrigações mais constantes e em menor quantidade, a fim de não exceder a capacidade de armazenamento de água (Figura 8.1).
Figura 8.1. Modelo esquemático de diversos sistemas de irrigação por aspersão utilizados no Brasil.
Os sistemas por aspersão mais utilizados no Brasil são os convencionais (primeiro a ser utilizado e ainda o mais empregado) e os não-convencionais (utilizados em situações especiais de solo, topografia, tamanho da área e outros).
Na aspersão convencional, aplica-se a água à cultura por meio de aspersores instalados ao longo de uma tubulação. É portátil, quando as tubulações de distribuição e as linhas laterais são transportadas para várias posições na área irrigada. É fixa, quando as tubulações de distribuição e as linhas laterais cobrem toda área irrigada.
Atualmente, especificamente para pastagens, foi desenvolvido um sistema de aspersão em malha, em que os pontos de subida da água são distribuídos geometricamente em toda área, interligados pela tubulação (Drumond, 2002). É um sistema fixo, em que se mudam de lugar apenas os aspersores. As tubulações são fixas a 30 – 50 cm abaixo da superfície do solo e os pontos de subida são também de tubos de PVC tipo "caps". A linha lateral é constituída de tubos com 25 mm de diâmetro, enquanto que a linha principal é de tubos de 50 mm de diâmetro Por se tratar de material de baixo custo (baixa pressão), estima-se que, para 10 hectares, o custo desse sistema atinja aproximadamente R$ 1.500,00.
Os sistemas não-convencionais são empregados em condições especiais e dependem da capacidade de investimento do produtor. Nesse grupo, destacam-se o canhão hidráulico e o pivô central. O canhão hidráulico é um equipamento de irrigação normalmente utilizado de forma portátil, instalado sobre linhas laterais, funcionando com pressões que variam entre 40 metros de coluna de água (mca) a 100 mca, cujo raio de ação está entre 30 e 100 metros. Já o pivô central, fundamentalmente, é constituído de uma tubulação metálica que se apoia em várias torres triangulares (o número de torres depende do tamanho da área), em que são instalados os aspersores, promovendo irrigação uniforme em uma área de superfície circular. Essa tubulação recebe água de uma adutora subterrânea, que vai até o "ponto pivô" (dispositivo central), de onde o sistema se move continuamente por dispositivos elétricos ou hidráulicos instalados nas torres. Como salientado anteriormente, esses sistemas não-convencionais são de alto custo, variando de R$ 2.500,00 a R$ 4.000,00 por hectare.
No Estado de Goiás, foi desenvolvido um projeto de irrigação em pastagens para gado de corte, com área de 100 hectares, formada por Panicum maximum cvs. Tânzania e Mombaça, irrigada por um sistema pivô central com 11 torres, num raio irrigado de 564,19 metros. Nessas condições e durante 6 meses, foram terminados 1100 animais, ou seja, 11 animais por hectare. Na Tabela 8.1, encontram-se as variáveis de investimento, custo operacional e receita do referido projeto (Jacinto, 2001). Com base nesses resultados, observa-se que a irrigação em pastagens para gado de corte é uma técnica viável economicamente.


19 de out de 2016

Pastagens Adubadas para Produção de Carne


Pastagens Adubadas para Produção de Carne

As pastagens constituem-se na forma mais prática e econômica de alimentação de bovinos, sendo que o Brasil, pela extensão da sua área territorial e pelas condições climáticas favoráveis, apresenta enorme potencial de produção de carne em pastagens. Porém, estima-se que cerca de 80% dos 45 a 50 milhões de hectares da área de pastagens nos Cerrados do Brasil Central, que responde por 60% da produção de carne nacional, apresentam algum grau de degradação (Barcellos, 1996).
A degradação das pastagens pode ser decorrente de vários fatores (p. ex., espécie forrageira não adaptada às condições locais, mau estabelecimento e manejo inadequado), sendo que a redução da fertilidade do solo, em razão dos nutrientes perdidos no processo produtivo (por exportação no corpo dos animais, erosão, lixiviação, fixação e acúmulo nos malhadouros) está entre os mais importantes (Kichel et al., 1997). De acordo com Werner (1994), a redução da disponibilidade do nitrogênio é uma das principais causas da degradação das pastagens tropicais, o que resulta em queda acentuada da capacidade de suporte da pastagem e do ganho de peso vivo dos animais a cada ano de utilização. Uma alternativa no caso do nitrogênio, em sistemas pouco intensivos, seria o uso de pastagens tropicais consorciadas. Todavia, essa tecnologia ainda constitui-se em desafio para a pesquisa.
Essa situação tem contribuído para que a pecuária de corte apresente, há décadas, índices zootécnicos muito baixos, com lotação das pastagens em torno de 0,5 UA/ha/ano e produtividade na faixa de 100 kg de peso vivo/ha/ano (uma unidade animal, UA, equivale a um animal de 450 kg de peso vivo). Há, portanto, necessidade de se evitar a degradação das pastagens e também intensificar a sua produtividade, a fim de tornar a pecuária de corte, principalmente nas terras mais valorizadas, mais rentável e mais competitiva frente a outras alternativas de uso do solo.
A produtividade animal em pastagens é determinada por dois componentes básicos: desempenho por animal (ganho de peso vivo) e capacidade de suporte (número de animais por unidade de área). O desempenho animal é função da ingestão de matéria seca, da qualidade da forragem e do potencial genético do animal utilizado, e a capacidade de suporte é função do potencial de produção de matéria seca da forrageira e da eficiência de colheita (Boin, 1986).
Quanto ao desempenho animal, a média do ganho de peso vivo, nas águas, está na faixa de 0,6 a 0,8 kg/animal/dia, podendo chegar a até 1,0 kg/animal por dia (Corsi, 1993).
Embora a média de ganho diário de peso vivo obtida normalmente nas pastagens tropicais não alcance a proporcionada pelas forrageiras temperadas, a produtividade animal pode ser alta, em razão do grande potencial de produção de matéria seca das espécies tropicais durante o período das águas.
Para a expressão desse potencial, é necessário considerar que as gramíneas forrageiras são tão ou mais exigentes do que as culturas agrícolas tradicionais (Silva, 1995). Dessa forma, para a exploração intensiva das pastagens nos solos de cerrado, a correção do solo e a adubação estão entre os fatores mais importantes a determinar o nível de produção das forrageiras.

Como iniciar o sistema

No intuito de elevar a produtividade da pecuária de corte, a Embrapa Pecuária Sudestevem manejando forrageiras tropicais das espécies Panicum maximum (cultivares Tanzânia e Mombaça), Brachiaria brizantha (braquiarão) e Cynodon dactilon(cultivar Coastcross), sob sistema intensivo rotacionado. Essa técnica permite aproveitar o potencial máximo de crescimento das forrageiras tropicais durante o verão, quando a lotação é ajustada em função do crescimento do capim, evitando ao máximo as perdas decorrentes do subpastejo ou do superpastejo.
O pecuarista deve ter em mente que as pastagens no sistema intensivo rotacionado deverão ser tratadas como uma cultura agrícola, à qual se aplicam os nutrientes para que a forrageira atinja todo o seu potencial produtivo. Esse sistema pode ser implantado em pastagens já formadas, apenas corrigindo a fertilidade do solo, ou em áreas formadas especificamente para esse fim.
A decisão da escolha da área deve estar baseada em vários fatores, tais como:
  • Tipo de gramínea;
  • Estande;
  • Topografia;
  • Infra-estrutura;
  • Custo de implantação de uma nova área; e
  • Fertilidade original do solo.

Tipo de gramínea

As forrageiras mais comuns e que podem ser utilizadas sob manejo intensivo são: capim-braquiária, capim-braquiarão, capim-colonião, capim-tanzânia, capim-tobiatã, capim-mombaça, capim-coastcross, capim-estrela e capim-tifton.
O produtor deve dar preferência às pastagens adaptadas à sua região, que apresentem condição de responder mais rapidamente às adubações e não estejam em processo de degradação.
Gênero Brachiaria
Teve papel extremamente importante no Brasil, pois viabilizou a pecuária de corte nos solos ácidos e de baixa fertilidade, predominantes na região dos Cerrados, e constitui ainda hoje a base das pastagens cultivadas brasileiras. Além disso, propiciou o desenvolvimento de expressiva indústria de semente, colocando o Brasil como o maior exportador desse insumo para o mundo tropical (Valle et al., 2000).
As principais características das cultivares em uso no Brasil são apresentadas na Tabela 7.1.

Gênero Panicum
Panicum maximum Jacq. é uma das espécies de plantas forrageiras mais importantes para a produção de bovinos nas regiões de clima tropical e subtropical, sendo a cultivar Colonião a mais difundida e de introdução mais antiga no Brasil. A demanda por sementes dessa cultivar vem diminuindo, em virtude de lançamentos de novas cultivares mais produtivas. O uso e o interesse por plantas pertencentes ao gênero Panicumtêm crescido nos últimos anos, provavelmente em virtude de seu grande potencial de produção de matéria seca por unidade de área, ampla adaptabilidade, boa qualidade de forragem e facilidade de estabelecimento.
Dessa forma, já foram lançados no Brasil, por diversas instituições de pesquisa, várias outras cultivares de Panicum maximum, tais como: Tobiatã, Vencedor, Centenário, Centauro, Aruana, Tanzânia, Mombaça e Massai.
As cultivares de Panicum maximum Jacq. disponíveis comercialmente são basicamente adaptadas a solos profundos, bem drenados e de boa fertilidade. O cultivo dessas espécies em solos que não satisfazem essas condições e que não recebem adequado suprimento de nitrogênio, tem levado freqüentemente à má formação, ou, mais comumente, à baixa persistência sob pastejo, com conseqüente perda da capacidade produtiva e necessidade de medidas corretivas de recuperação em curto prazo (Herling et al., 2000).
As principais características das cultivares em uso no Brasil são apresentados na Tabela 7.2.
Tabela 7.2. - Principais características das cultivares de Panicum em uso no Brasil.
Atributo
Colonião
Tanzânia
Mombaça
Aruana
Massai
Tobiatã
Centenário
Vencedor
Cobertura do solo
-
-
-
-
Alta
-
-
-
Tolerância a solos ácidos
Baixa
Baixa
Baixa
Baixa
Média
Baixa
Alta
Alta
Tolerância a baixa fertilidade de solo
Baixa
Baixa
Baixa
Baixa
Média
Baixa
Alta
Alta
Resposta à adubação
Alta
Alta
Alta
-
-
Alta
Média
Média
Qualidade da forragem
Alta
Alta
Alta
Alta
Média
Alta
Alta
Alta
Tolerância a cigarrinha
Baixa
Média
Média
-
Alta
Baixa
-
Baixa
Facilidade de manejo
Baixa
Média
Baixa
-
-
Baixa
-
-
Tolerância a frio e seca
Alta
-
-
Alta
Alta
-
-
-
Produção de silagem
-
-
Adequado
-
-
-
-
-
Tolerância a pastejo intensivo
-
-
-
Alta
Alta
-
-
-
GêneroCynodon
O gênero Cynodon se apresenta como mais um recurso forrageiro para as regiões tropicais e subtropicais. Existem duas espécies principais:C. dactylon(L.) Pers. (capim-bermuda), e Cynodon nlemfuensis Vanderyst var. nlemfuensis (capim-estrela). No grupo das bermudas, vários híbridos estão disponíveis: Coastcross, Florakirk, Tifton 44, Tifton 68 e Tifton 85. No grupo das estrelas estão disponíveis as cultivares: Florico, Florona e Ona. No Brasil, as áreas de pastagens com o gênero Cynodonsão pouco representativas em relação às áreas com os gêneros Panicum e Brachiaria. Além disso, as informações sobre Cynodon no Brasil são escassas e estão mais relacionadas com a cultivar Coastcross (Vilela & Alvim, 1998). Esta espécie, nas condições brasileiras, tem apresentado, sob adubação, elevada produção de forragem de boa qualidade, sendo usada tanto na forma de pastejo como na forma de feno.

Estande
O estande representa a população de plantas por área, portanto, o produtor, ao escolher a área, deve levar em consideração o percentual de cobertura da planta forrageira existente na pastagem.
De maneira geral, pastagens com estande de 70 a 80% da forrageira selecionada podem ser recuperadas para utilização no sistema de pastejo intensivo rotacionado. A recuperação, nesse caso, se dará por meio de correção da fertilidade e adubações em cobertura, não necessitando do preparo convencional de solo. O produtor deve estar atento para que a área escolhida esteja livre de plantas invasoras e pragas, como cupins e formigas.

Topografia

As áreas planas ou com pequeno declive apresentam vantagens em relação às áreas de maior declive, pois facilitam a distribuição de corretivos e adubos, favorecem o rendimento da mecanização, reduzem a perda de insumos e são, em regra, áreas onde o solo é menos susceptível à erosão.
A localização e a distância dessas áreas em relação à estrutura de apoio são aspectos importantes que irão influenciar na facilidade do acompanhamento do sistema.

Infra-estrutura

Como forma de diminuir o custo de implantação, sempre que possível, devem ser aproveitadas as áreas que já estejam cercadas e que disponham de água com facilidade de acesso e distribuição.

Custo de implantação de uma nova área

Outro ponto a ser considerado é o custo de implantação ou de renovação da área destinada ao manejo intensivo. Em geral, o custo de formação de novas áreas alcança, em média, o dobro do custo da recuperação de áreas já existentes. Portanto, a decisão entre reformar ou recuperar as áreas de pastagem deve ser criteriosa e orientada por técnico especializado.

Fertilidade original do solo

A fertilidade do solo da área a ser escolhida é fator que deve ser considerado. Quanto maior for a fertilidade, tanto menor será a quantidade de insumos (calcário e adubo) necessária para a intensificação, com retorno mais rápido do capital investido.

Implantação da pastagem

Boa formação do pasto é essencial para o sucesso de sistemas de produção animal em pastagens. Dentre as causas de insucesso na implantação de pastagens, podem-se citar: métodos incorretos de semeadura; espécies forrageiras inadequadas; tipo de solo inadequado; baixo vigor e baixo valor cultural das sementes; equipamentos para semeadura mal regulados ou inadequados; época do ano em que é feito o plantio; pragas e doenças; falta de umidade no solo; cobertura insuficiente da semente; cobertura demasiada da semente; formação de crostas no solo; falta de corretivos e fertilizantes; drenagem insuficiente; e presença de plantas invasoras.
Dessa forma, para boa formação do pasto, os seguintes itens devem ser observados: escolha da espécie ou cultivar; escolha da área; preparo do solo; época de plantio; calagem e adubação de formação; qualidade e quantidade de mudas ou sementes; e método de plantio.
A escolha da espécie ou cultivar e da área deve ser feita levando-se em consideração as características descritas no item 7.1. Em áreas de maior declividade, é importante a adoção de técnicas de conservação do solo, como a construção de terraços.
O preparo do solo deve ser feito de forma a criar condições ideais para a germinação das sementes e para o crescimento da planta. Como as sementes de gramíneas forrageiras são, de modo geral, muito pequenas, o preparo adequado do solo (evitando o preparo excessivo e a degradação física) é muito importante a fim de permitir maior contato da semente com as partículas de solo. Esse processo irá facilitar, também, a colocação das sementes em profundidade adequada. Para a maioria das espécies forrageiras, a profundidade de plantio recomendada é de 2 a 4 cm.
As forrageiras tropicais devem ser plantadas durante o período chuvoso e quente do ano, quando as condições climáticas são mais favoráveis ao desenvolvimento das plantas. Na região Sudeste do Brasil, recomenda-se que este seja realizado entre novembro e janeiro.
A necessidade de calagem e adubação em áreas de pastagens intensivas será discutida no item 7.3. É importante ressaltar que as gramíneas forrageiras, de modo geral, respondem bem à adubação fosfatada no momento da implantação.
A aquisição de boa semente ou muda é essencial para o sucesso da implantação. A semente deve ser de procedência idônea, para evitar a contaminação do solo com plantas daninhas indesejáveis e garantir a integridade genética da espécie ou cultivar adquirido. A escolha da semente deve ser feita com base em sua qualidade. Esta pode ser determinada por meio de procedimentos específicos de análise, em que serão determinados a pureza física, a presença de plantas daninhas, e o vigor e o valor cultural das sementes. É importante ressaltar que o valor cultural da semente, de modo isolado, não é um bom critério de escolha. Sementes com alto valor cultural, porém contaminadas com determinadas espécies invasoras ou com vigor muito baixo devem ser evitadas.
A densidade de semeadura varia de acordo com a espécie forrageira. Na Tabela 7.3 é mostrada a densidade de semeadura recomendada para algumas gramíneas tropicais.
A semeadura pode ser feita nos sulcos, utilizando-se semeadoras de sementes miúdas, ou em superfície, utilizando-se calcareadoras. O plantio com semeadoras é mais indicado. Neste caso, o espaçamento entre linhas deve ser de 20 cm. Após o plantio, é interessante que seja feita a compactação da semente para aumentar o contato dela com o solo. Essa operação pode ser feita com o auxílio de rolos compactadores ou com o próprio rodado do trator.
Para as gramíneas que não produzem sementes, como os cultivares dos gêneros Cynodon, a formação é feita por via vegetativa. Nesse caso, devem-se utilizar mudas maduras e sadias, colhidas de locais livres de pragas, doenças e plantas daninhas. Mudas jovens, pequenas e tenras não devem ser utilizadas, pois desidratam rapidamente no sulco. Para o plantio de espécies do gênero Cynodon,as mudas devem ser colhidas com cerca de 110 dias e serão necessários 2,5 t/ha de mudas para plantio no sulco, 3,0 t/ha de mudas para plantio em covas e 4,0 a 5,0 t/ha para plantio a lanço (Rodrigues et al., 1998). O mais indicado é o plantio em sulcos, que devem ser feitos com 50 a 100 cm de espaçamento, a 5 a 15 cm de profundidade. Nesse caso, dois terços da muda devem ser enterrados, deixando-se o terço apical sobre o solo.

Adubação de pastagens intensivas

Para a obtenção de elevada quantidade de forragem, é necessário considerar que as gramíneas forrageiras são tão ou mais exigentes do que as culturas tradicionais (Silva, 1995). Dessa forma, para a exploração intensiva das pastagens nos solos de cerrado, a correção e a adubação estão entre os fatores mais importantes a determinar o nível de produção das forrageiras. Tendo em vista a baixa fertilidade dos solos de cerrado, é necessário que se estabeleçam, inicialmente, níveis de fertilidade a serem alcançados, como possibilidade de viabilização técnica e econômica, dada a gradual capacidade de resposta dos solos no processo de recuperação.
Um aspecto importante é realizar a correção e a adubação de forma equilibrada, mantendo a proporcionalidade entre os nutrientes Ca+2, Mg+2e K+, no complexo coloidal do solo, em 65 - 85% de Ca+2, 6 - 12% de Mg+2, 2 - 5% de K+ e 20% de H+(Silva, 1995).

Calagem

Segundo Lopes (1983), Corsi & Nussio (1993) e Vitti & Luz (1997), a calagem deve ser a primeira prática de correção para inserir os solos de cerrado no processo produtivo, reduzindo a acidez, fornecendo Ca e Mg, aumentando a eficiência das adubações e a capacidade de troca catiônica (CTC). Trabalho de Lopes (1983) mostra a necessidade de calagem para elevar o pH dos solos de cerrado a valores acima de 5,5, para, efetivamente, ativar a formação de cargas negativas da fração orgânica do solo, aumentar a CTC e reduzir o potencial de perdas de cátions por lixiviação. Quanto ao critério da calagem, no Estado de São Paulo é utilizado o método da saturação por bases, em que a recomendação de calcário é obtida pela equação: NC = [(V2 - V1) x T / [PRTN x10], sendo: NC = necessidade de calcário (t/ha) para a profundidade de 0 - 20 cm; V1 = saturação por bases atual (baseada no resultado da análise do solo); V2 = saturação por bases desejada; T = CTC a pH 7,0 e PRNT = poder relativo de neutralização total do calcário (%).
No caso de pastagens exploradas intensivamente, é indicado atingir valores de saturação por bases em torno de 70% (Vitti & Luz, 1997) e/ou superiores (Corsi & Nussio, 1993), mantendo assim o pH acima de 5,5.
A calagem na formação das pastagens é feita de forma semelhante à das culturas tradicionais, realizada 30 a 90 dias antes do plantio, de acordo com o PRNT do calcário e, parceladamente ou não, antes e após a aração, de acordo com a quantidade a ser utilizada. A fonte indicada é o calcário dolomítico e/ou magnesiano, que fornece Ca e Mg.
Após a formação da pastagem, em sistemas intensivos, as adubações, principalmente com sulfato de amônio, uréia e nitrato de amônio, aceleram o processo de acidificação, havendo necessidade de calagens de manutenção, que deverão ser realizadas em cobertura, após o período das águas.

Adubação com Fósforo (P)

A deficiência de P nos solos de cerrado é generalizada, o que compromete principalmente o estabelecimento das pastagens em virtude do seu papel no desenvolvimento do sistema radicular e no perfilhamento das plantas. Nessa situação, a adubação fosfatada é considerada de vital importância, ocorrendo, de modo geral, maiores respostas em produção até a faixa de 200 kg de P2O5/ha (Corrêa et al., 1997a; Corrêa et al., 1997b). As fontes mais eficientes são as solúveis, tais como o superfosfato simples (20% de P2O5), o superfosfato triplo (46% de P2O5), o fosfato monoamônio - MAP (50% de P2O5), e o fosfato diamônio - DAP (46% de P2O5), vindo a seguir os termofosfatos (18% de P2O5) e os fosfatos parcialmente acidulados (25 a 30% de P2O5). Os fosfatos naturais brasileiros praticamente não contém P solúvel em ácido cítrico a 2% ou em água, não sendo indicados, principalmente em sistemas intensivos de exploração das pastagens.
De modo geral, são indicados teores de P no solo (método da resina) de 10 ppm (Werner, 1971) e 20 ppm (Monteiro, 1994), cujas variações são, provavelmente, função do nível de exploração, potencial produtivo do solo e espécie forrageira.
Embora após o estabelecimento, com o maior desenvolvimento do sistema radicular das plantas, a resposta ao P seja inicialmente menos acentuada, em virtude da maior contribuição do P nativo (Corrêa & Freitas, 1997), há necessidade da adubação fosfatada de manutenção, a fim de garantir a produtividade e o teor mais adequado de P na forragem. Essa adubação é feita em cobertura, junto com as outras adubações, e sua dosagem dependerá do nível de exploração e da dose de P aplicada no estabelecimento. Embora o P tenha baixa mobilidade no solo, pastagens, principalmente sob alta adubação, apresentam intenso desenvolvimento de raízes ativas na superfície do solo, o que permite a absorção eficiente do P aplicado em cobertura (Corsi & Nussio, 1993).

Adubação com Potássio (K)

As gramíneas forrageiras são relativamente exigentes em K, sendo necessária a adubação com esse nutriente, principalmente em sistemas intensivos de exploração das pastagens, de modo a não limitar a resposta ao nitrogênio. De modo geral, o K deve ser elevado para níveis de 2 a 5% da CTC (Silva, 1995), dependendo principalmente do nível de exploração da pastagem. Teores de K menores do que 1,5%, na parte aérea das plantas, têm sido associados à deficiência desse nutriente no solo.
A principal fonte de K é o cloreto de potássio (60% de K2O), que deve ser aplicado parceladamente junto com a adubação nitrogenada. A relação N:K2O de 1:1 tem sido indicada inicialmente nas adubações, quando os teores de K no solo são muito baixos. Em sistemas intensivos de exploração de pastagem, com a maior reciclagem do K por meio de partes mortas das plantas, perdas de pastejo, fezes e urina, esta relação poderá ser alterada com o tempo.

Adubação com Enxofre (S)

Os teores de S são freqüentemente baixos, principalmente em solos arenosos e pobres em matéria orgânica. Desta maneira, a adubação com S será necessária principalmente em pastagens exploradas com elevados níveis de nitrogênio e com adubos que não contenham esse nutriente (uréia, MAP, DAP, nitrato de amônio, nitrato de cálcio).
De modo geral, é recomendada a relação N:S na adubação de pastagens de 5:1 (Malavolta, 1982). Também, as necessidades de S para gramíneas forrageiras tropicais podem ser avaliadas pela análise do tecido foliar (Vitti & Novaes, 1986). Relações N:S na parte aérea > 20 têm sido associadas com deficiência desse nutriente e relação N:S = 11 a 13 e teor de S > 1,5% g/kg (0,15% ou1,5 g/kg) são considerados adequados.
O enxofre poderá ser fornecido juntamente com outros adubos, como o sulfato de amônio (24% de S), superfosfato simples (12% de S) e fosfatos parcialmente acidulados (6% de S). Outra fonte disponível é o gesso, que contém de 15% a 16% de S, sendo recomendada a aplicação mínima de S de 30 a 40 kg/ha/ano, em pastagens bem supridas com nitrogênio e fósforo (Monteiro, 1995).

Adubação com Nitrogênio (N)

O nitrogênio é o nutriente geralmente mais deficiente no solo e o mais importante em termos de quantidade necessária para maximizar a produção de matéria seca das gramíneas forrageiras e, como conseqüência, propiciar maior lotação e maior produção de carne por hectare.
Cerca de 98% do N presente no solo é proveniente da matéria orgânica, todavia, em razão da baixa taxa de mineralização nos solos, 10 a 40 kg de N/ha/ano (Guilherme et al., 1995) não são suficientes para sustentar elevadas produções, pois as gramíneas forrageiras tropicais têm potencial para responder a até 1800 kg de N/ha/ano (Chandler, 1973), com respostas lineares a até 400 kg de N/ha/ano, dependendo do solo, da espécie e do manejo. Todavia, a maior eficiência do seu uso somente ocorrerá quando os demais nutrientes estiverem em níveis adequados no solo e a pastagem for manejada adequadamente para que os animais aproveitem a forragem produzida.
As principais fontes de nitrogênio são: uréia (45% de N), que apresenta menor custo/kg de N, mas maior perda de N por volatilização; sulfato de amônio (20% de N), maior custo/kg de N, maior poder de acidificação, menores perdas de N, além de ser fonte de S; nitrato de amônio (33% de N), maior custo/kg de N, higroscópico, menores perdas de N; e nitrocálcio (20 a 25% de N), maior custo/kg de N, muito higroscópico, menores perdas de N, e menor poder de acidificação.
A aplicação do adubo nitrogenado, no caso do pastejo rotacionado, deve ser feita em cobertura, após a saída dos animais de cada piquete e em seqüência, de acordo com o período de ocupação. Assim, as aplicações são repetidas quatro a seis vezes em cada piquete, nas águas, de acordo com o período de descanso da pastagem.
Indicações gerais de correção e adubação, para iniciar a exploração intensiva em solos de cerrado de baixa fertilidade, são: calagem, para elevar a saturação por bases acima de 60%; adubação fosfatada, para elevar o teor de P no solo (método da resina) para 10 - 15 ppm; e adubação de produção, em torno de 1000 kg/ha da fórmula 20-5-20 ou similar, aplicada parceladamente quatro a seis vezes durante as águas; aplicação preventiva de micronutrientes (40 a 50 kg/ha de FTE BR-12 ou similar, a cada três anos); e calagem posterior (1 a 1,5 t de calcário/ha na seca).

Adubação com Micronutrientes

Com relação ao uso de micronutrientes em pastagens exclusivas de gramíneas, é relativamente pequeno o número de trabalhos experimentais e estes praticamente não mostram resposta à sua aplicação. Todavia, em sistemas intensivos de exploração das pastagens, a resposta provavelmente ocorrerá, em virtude dos baixos teores nos solos de cerrado, da maior extração pelas plantas, do uso de adubos mais concentrados e da condição de pH mais elevado, o que diminui a disponibilidade de alguns micronutrientes para as plantas.
Os micronutrientes mais deficientes nos solos de cerrados são o zinco, o boro e o cobre. Monteiro (1995) sugere (por ha): 3 a 5 kg de bórax, 4 a 6 kg de sulfato de cobre, 6 a 15 kg de sulfato de zinco e 0,2 a 0,3 kg de molibdato de sódio. Na Embrapa Pecuária Sudeste, em sistema intensivo de pastagens de gramíneas, tem sido utilizado de forma preventiva o FTE BR12 (9% de Zn, 1,8% de B, 0,80% de Cu, 3% de Fe, 2% de Mn e 0,10% de Mo), na dose de 50 kg/ha, a cada três anos. É um produto insolúvel em água, com liberação lenta dos micronutrientes, podendo ser aplicado junto com a adubação fosfatada no plantio e/ou com as adubações de produção.

Manejo de plantas forrageiras dos êneros Panicum, Brachiaria e Cynodon

Os principais objetivos do manejo das pastagens são assegurar a longevidade e a produtividade da planta, além de fornecer alimento em quantidade e qualidade para atender às exigências nutricionais de ruminantes (Silva et al., 1998).
O manejo das espécies forrageiras está relacionado às suas características morfológicas e fisiológicas, estando também interrelacionado com a rebrota, com a composição botânica e com a produção animal pretendida (Maraschin, 1988).
Em pastagens, as plantas forrageiras estão sujeitas a desfolhas consecutivas, cuja freqüência e intensidade dependem principalmente da estratégia de manejo utilizada.
Existem dois métodos clássicos de pastejo, com suas variações: o contínuo e o rotacionado.

Pastejo com lotação contínua

No pastejo com lotação contínua, os animais permanecem na mesma área durante toda a estação de pastejo ou durante o ano. As plantas forrageiras do gêneroBrachiaria, principalmente aB. decumbense aB. humidicola, e as do gêneroCynodonpodem apresentar bom desempenho sob pastejo contínuo, pois esse sistema é mais adequado para plantas de crescimento prostrado, estoloníferas e/ou rizomatosas, que apresentam intenso perfilhamento e ritmo acelerado de produção de folhas.
Gomide et al. (1997), com base em estudos preliminares com lotação contínua em Brachiaria decumbens, recomendaram manter a altura da pastagem entre 20 e 40 cm. Outra forma de se ajustar o manejo é por meio da disponibilidade de forragem. Euclides et al. (1993), em pastejo continuo, verificaram que em pastagens de Brachiaria decumbens Brachiaria brizanthao ponto de máximo ganho por animal foi de 500 g/dia com disponibilidade de MVS (matéria verde seca) de 1000 kg/ha. Esse valor foi estimado por esses autores como sendo o limite mínimo, abaixo do qual o desempenho animal é limitado pela disponibilidade de forragem.
No caso de plantas forrageiras do gênero Cynodon, os trabalhos de pesquisa feitos na Universidade da Flórida têm recomendado, de forma geral, manter a altura de pastejo entre 15 e 25 cm. Por outro lado, Hill et al. (1993) sugerem que pastagens de Tifton 78 e Tifton 85 devem ser manejadas com disponibilidade de forragem ao redor de 2500 kg de matéria seca por hectare. Já para os capins do grupo estrela (Florico e Florona), que são de porte mais elevado do que os capins do grupo bermuda, é indicado manter altura de pastejo acima de 30 cm (Mislevy et al., 1989a, b).
A vantagem do método de pastejo com lotação contínua é a possibilidade de se obter desempenho animal mais elevado, em vista da oportunidade que o animal tem de exercer pastejo seletivo. Todavia, quando se trabalha com oferta elevada de forragem com gramíneas tropicais, com o avançar da estação de pastejo ocorre o acúmulo de material morto, o qual passa a contribuir negativamente para a produção futura do pasto (Penati et al., 1999).
Assim, à medida que se intensificar a produção das pastagens com essas forrageiras, o pastejo rotacionado também passa a ser indicado, por permitir controle do resíduo pós-pastejo de forma mais adequada.

Pastejo rotacionado

Com a elevada produção de forragem obtida sob adubação intensiva, o sistema de pastejo rotacionado, que se caracteriza pela mudança periódica e freqüente dos animais de um piquete para outro dentro da mesma pastagem, é o mais indicado, por garantir maior uniformidade e melhor eficiência de pastejo e maior controle do estoque de forragem. Esse sistema facilita, assim, a determinação da oferta de forragem ótima, que é definida em termos de quilogramas de matéria seca de forragem ofertada por dia por 100 kg de peso vivo (% PV). Essa avaliação é importante, pois não são desejáveis nem o excesso de animais em relação à forragem disponível (superpastejo), porque interfere na produção animal e prejudica a rebrota das plantas, nem a falta de animais (subpastejo), porque propicia perdas de forragem.
O pastejo rotacionado é também indicado, independentemente da intensificação, para espécies forrageiras de hábito de crescimento ereto, tais como as cultivares de Panicum maximum e a Brachiaria brizanthacv. Marandu (Penati et al., 1999).
O número de piquetes de cada pastagem será função do período de descanso (PD) e do período de ocupação (PO), que pode ser obtido pela equação: Número de piquetes = (PD/PO) + 1. O período de ocupação deve ser de curta duração, de um a três dias, para garantir melhor rebrota das plantas e facilitar o controle da lotação da pastagem. O período de descanso varia conforme a espécie forrageira, para obter melhor equilíbrio entre produção e qualidade da forragem (Tabela 7.4).

A altura do resíduo, embora não seja tão preciso, é um indicador prático para evitar o subpastejo e o superpastejo. Na Tabela 7.5, é sugerida a altura de resíduo para algumas forrageiras dos gênerosPanicum, BrachiariaeCynodon. A altura varia com as espécies forrageiras, de acordo com suas características morfofisiológicas. O subpastejo significa perda de forragem e excesso de sombreamento na base das plantas, o que pode comprometer o perfilhamento. Além disso, resíduo excessivo compromete as características estruturais da pastagem, a qualidade da forragem e a produtividade por hectare (Gomide & Gomide, 2001). O superpastejo, por outro lado, influencia negativamente a produção animal e pode comprometer a rebrota das plantas e a sua persistência.
Exemplo de Sistema Intensivo de Produção de Bovinos de Corte em Pastagens na Embrapa Pecuária Sudeste, em São Carlos, SP
As pastagens foram estabelecidas em Latossolo Vermelho-Amarelo e Vermelho-Escuro distróficos, que apresentavam, inicialmente (1994), 2 ppm de P (método da resina) e 12% de saturação por bases (V%), nas áreas com pastagens de Brachiaria brizantha cv. Marandu (12 ha) e Panicum maximum cv. Mombaça (10 ha). Atualmente, com as correções e as adubações posteriores, os valores de P e V% na camada de 0 - 10 cm estão em torno de 15 ppm e 60%, respectivamente. Nas áreas com pastagens de Cynodon dactylon cv. Coastcross (14 ha) e Panicum maximum cv. Tanzânia (8 ha), os valores iniciais eram de 5 ppm e 36%, sendo atualmente de 20 ppm e 70%, respectivamente, para P e V%.
O sistema de pastejo é o rotacionado, com período de descanso de 36 dias e ocupação de três dias, com exceção da pastagem de capim-coastcross, em que o período de descanso é de 24 dias e a ocupação é de quatro dias. A adubação de 1000 a 1500 kg/ha da fórmula 20-05-20 ou similar é aplicada parceladamente em seis vezes, durante as águas, no caso do capim-coastcross, e quatro vezes para as demais pastagens, totalizando 200 ou 300 kg de nitrogênio (N) por hectare por ano, conforme Tabela 7.6. A lotação é ajustada com animais extras, de acordo com a maior disponibilidade de forragem, que ocorre normalmente em janeiro, fevereiro e março, em conseqüência das condições climáticas mais favoráveis para o crescimento das gramíneas forrageiras tropicais. Tem sido obtido, em média, no período das águas, acúmulo de forragem de 2500 a 4000 kg de matéria seca/ha, a cada ciclo de pastejo, variando com a época, o nível de adubação, a fertilidade do solo e a espécie forrageira.
Os teores de proteína bruta obtidos são de 9 a 10% para o capim-marandu, 10 a 12% para o capim-tanzânia e o capim-mombaça, e de 12 a 14% para o capim-coastcross. Na Tabela 7.6, estão apresentadas informações sobre a produção por animal e por área, obtidas com essas pastagens sob adubação intensiva na Embrapa Pecuária Sudeste, em São Carlos, SP.
As gramíneas não devem ser comparadas, pois existem variações quanto a solo, idade da pastagem, nível de adubação, categoria animal, etc., mas os resultados demonstram que diferentes gramíneas, desde que manejadas adequadamente, podem apresentar bom desempenho, tanto em produção por animal quanto por área.

Estacionalidade da produção de forragem

Embora em sistema intensivo de uso das pastagens se consiga maior produção de forragem no período da seca do que nos sistemas extensivos, em decorrência principalmente do efeito residual das adubações, a estacionalidade da produção de forragem, em razão de fatores climáticos, vai continuar ocorrendo, com valores de 10% a 20% da produção total anual, a menos que seja corrigida, em parte, com o uso de irrigação. Dessa forma, na exploração da pastagem, seja extensiva ou intensiva, haverá sempre um período de produção abundante de forragem, nas águas, e outro de escassez, na seca.
Na região Centro-Sul do Brasil, a estacionalidade da produção é causada principalmente pela redução da precipitação pluvial, da temperatura e da radiação solar, durante o período de abril a setembro. Na Figura 7.1, são ilustradas as médias das taxas mensais de acúmulo de matéria seca em pastagem de capim-tanzânia (Panicum maximum cv. Tanzânia), adubado, sem irrigação, nos anos de 1995 e 1996, na Embrapa Pecuária Sudeste. Verifica-se que a precipitação pluvial e a temperatura mínima são críticas para o crescimento das gramíneas forrageiras tropicais, principalmente no período de maio a setembro.

Figura 7.1. Médias das taxas mensais de acúmulo de matéria seca (MS) em pastagem de capim-tanzânia adubado, sem irrigação, em 1995 e 1996, na Embrapa Pecuária Sudeste, em São Carlos, SP.
Fonte: Corrêa, 1995.
Assim, quando grande porcentagem da área da propriedade é intensificada, há necessidade de se aliviar a lotação na seca ou dispor de um sistema de alimentação para esse período de escassez de forragem. O número de animais a ser mantido na seca, fora das áreas de pastagens intensificadas, aumenta à medida que aumenta a produtividade das pastagens nas águas. O custo de alimentação desses animais durante a seca é um dos principais fatores a serem considerados na viabilização da intensificação da produção por unidade de área (Boin & Tedeschi, 1997).
A lotação poderá ser reduzida com a venda de animais de descarte no final das águas ou, principalmente, daqueles que apresentem peso adequado de abate. O preço de venda desses animais no período de safra (quando o preço por arroba é mais baixo) é compensado pelo seu menor custo. Também pode ser feito ajuste, no caso da fase de cria, programando-se a parição para outubro (Corsi & Santos, 1995), combinando o período de maior exigência nutricional dos animais com a época de maior produção de forragem.
O confinamento pode ser uma alternativa interessante, que permite reduzir a lotação das pastagens e manter a intensificação da produção com a possibilidade de venda de animais na entressafra, combinando maior preço, maior giro de capital e maior produtividade.
Se a decisão for de manter lotação mais elevada na pastagem, uma opção é a suplementação no pasto com volumosos, tais como cana-de-açúcar, silagem e feno.