30 de ago. de 2015

Produtos das Abelhas



9.1 O que é o pólen?

É a célula reprodutiva masculina das plantas floríferas. Ele é produzido pelas anteras e deve alcançar o estigma da flor (a porção terminal do seu órgão reprodutivo feminino, o gineceu) para que ocorra a fecundação e a posterior formação de sementes. Este processo é chamado de polinização, e ele ocorre muitas vezes com a ajuda de agentes externos, como o vento, a chuva e animais que se alimentam do pólen ou do néctar, como as abelhas. Em comparação com o néctar, o número de espécies que produz pólen é muito maior.

Pólen
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9.2 Como as abelhas ajudam na polinização?

Quando a abelha pousa numa flor, para colher néctar ou pólen, grãos de pólen ficam presos nos seus pêlos. Em razão do movimento da abelha, os grãos podem ser levados ao estigma da mesma flor ou de outra. Essa ação da abelha é involuntária, e a polinização, um resultado acidental.

9.3 Como o pólen é armazenado pelas abelhas?

As bolotas de pólen trazidas pelas campeiras são empilhadas nos alvéolos logo acima da área de cria. Ao pólen, são adicionadas algumas secreções glandulares e uma fina cobertura de mel, formando o alimento básico das larvas e abelhas jovens (chamado por alguns de "pão de abelha").

9.4 Como o apicultor coleta o pólen?

O que é coletado, na verdade, são as bolotas trazidas pelas campeiras, não o que é depositado nos alvéolos. Para essa coleta, empregam-se armadilhas, chamadas de caça-pólen.
Basicamente, o caça-pólen é constituído por uma grade e uma gaveta. As abelhas passam apertadas pela grade e acabam perdendo a bolota de pólen, que cai dentro da gaveta. As abelhas não têm acesso à gaveta, que é protegida por uma tela mais fina.
Há dois modelos básicos de caça-pólen, o de alvado e o interno. O de alvado é colocado na frente da entrada da colméia, tem uma capacidade menor e deve, portanto, ser esvaziado mais freqüentemente. O interno é posicionado entre o fundo da colméia e o ninho e tem uma capacidade maior.

9.5 Por quanto tempo o caça-pólen pode ser deixado na colméia?

É preciso considerar que o pólen é um produto de extremo valor para as abelhas. Sem ele, não é possível alimentar as larvas mais velhas e as abelhas jovens que, por sua vez, dependem dele para produzir as secreções hipofaringeanas e mandibulares que alimentam as larvas jovens e a rainha. Some-se a isso o fato de as abelhas não estocarem pólen em grandes quantidades, como fazem com o mel, e se terá uma limitação muito forte para o tempo de permanência do caça-pólen na colméia. E essa limitação é tanto maior quanto mais eficiente for o caça-pólen.
Um estudo realizado em Botucatu (SP) [FUN98], identificou uma redução de cerca de 10% na área de cria de operárias e de 4% na área de cria de zangões, quando um caça-pólen era utilizado num esquema com alternância de sete dias (sete dias com, sete dias sem), em comparação com colméias de controle (sem caça-pólen). O estudo foi realizado nos meses de agosto a dezembro de 1996, e cada colméia produziu, em média, 1,5 kg de pólen em quatro meses.
É claro que diferentes resultados serão obtidos em épocas e locais diferentes. O importante é que o apicultor interessado em produzir pólen observe atentamente a resposta dos enxames e, a partir daí, desenvolva um esquema que garanta ao mesmo tempo uma boa produtividade e uma boa manutenção do enxame.

9.6 Como é o beneficiamento do pólen?

Inicialmente, caso o pólen não possa ser secado imediatamente, ele deve ser congelado. A etapa de secagem é a mais importante. O pólen possui de 18 a 25% de umidade, um nível que deve ser reduzido até cerca de 3%, para impedir o desenvolvimento de fungos e fermentos. A limpeza do pólen, manual ou mecanizada também é muito importante. Por fim, a armazenagem deve ser feita em recipiente hermeticamente fechado, para que não haja nenhuma contaminação.

9.7 É possível produzir mel e pólen na mesma colméia?

Sim, mas nenhum dos produtos de forma otimizada. Quando um produto falta na colméia, um número maior de abelhas passa a buscá-lo na natureza. Ao usar-se o caça-pólen, muitas abelhas provavelmente deixarão de colher néctar para colher pólen, o que resultará numa produção do mel inferior à capacidade do enxame em condições normais. O mesmo acontece com a produção de própolis.

9.8 O pólen é um alimento completo para os humanos?

Não, ele é deficiente em algumas vitaminas, por exemplo. Também possui uma porção relativamente alta de matéria indigerível por humanos, a celulose.
Apesar disso, o pólen pode ser considerado um excelente alimento. Para manter o mesmo raciocínio apresentado em relação ao mel, se alguém quiser suprir 30% da sua necessidade diária de algumas vitaminas e minerais, precisará consumir de 6 a 100 g de pólen. Quem ingerir 100 g de pólen estará, em média, consumindo 246 kcal e 24 g de proteínas. Em 100 g de carne bovina há 385 kcal e 23 g de proteína. No caso de frango frito, 100 g correspondem a 165 kcal e 25 g de proteína. O pólen, porém supera esses alimentos amplamente no conteúdo de vitaminas e minerais.

9.9 O pólen pode ser consumido por qualquer pessoa?

A princípio sim, mas estudos identificaram que 12 a 33% das pessoas experimentaram algum tipo de problema ao ingerir pólen, especialmente no que se refere às funções gastrintestinais. Na dúvida, inicie comendo quantidades bem pequenas e observe o resultado.

9.10 Para que o pólen pode ser usado como remédio?

O pólen também é freqüentemente apresentado como panacéia universal, o que obviamente não é. No entanto, há alguns efeitos já estudados e bem documentados do pólen. O principal é o seu efeito sobre a prostatite. Diversos estudos identificaram redução da inflamação, do desconforto e da patologia de pacientes que sofriam de inflamação prostática benigna. Em qualquer caso, porém, procure sempre um médico antes de adotar qualquer tratamento.
Um dos problemas do pólen em relação ao seu uso terapêutico é que, como ele raramente tem origem monofloral, cada amostra possui sua composição química particular. Por essa razão, a variabilidade quantitativa de seus componentes é muito grande, chegando à ordem de 500% ou até mais. Isso dificulta a prescrição de uma dosagem terapêutica específica.

Própolis

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9.11 O que é a própolis?

Própolis é uma substância resinosa, coletada pelas abelhas em uma grande variedade de plantas, especialmente em brotos de árvores. Dentro da colméia, essa substância é manipulada pelas abelhas e misturada a um pouco de cera a fim de adquirir propriedades mecânicas adequadas ao seu futuro uso. Tal como o pólen e o mel, a própolis é uma substância de composição variável, por provir das plantas disponíveis na região de cada colméia. No entanto, essa variabilidade não é tão grande quanto se poderia esperar; alguns estudos mostram uma razoável similaridade entre amostras de origens bastante diferentes.

9.12 Para que as abelhas utilizam a própolis?

Para vedar frestas que permitam a entrada de frio ou inimigos naturais, para "envernizar" o interior da colméia e assim repelir outros insetos e inibir o desenvolvimento de alguns microrganismos, para recobrir corpos estranhos que não possam ser retirados da colméia, como animais mortos, para impermeabilizar a colméia e para reforçar partes frágeis da colméia, entre outros.

9.13 Como o apicultor coleta a própolis?

Para produzir própolis, o apicultor cria frestas na colméia ou insere algum elemento que induza as abelhas a cobri-lo de própolis. Uma maneira simples é levantar a tampa por meio de pequenos calços. Outra é introduzir uma tela plástica abaixo da tampa. Há ainda dispositivos especiais, de maior facilidade de uso e rendimento. Entre os dispositivos disponíveis, há vários que usam melgueiras com paredes externas especiais, que permitem a abertura progressiva de frestas, por meio de barras ou janelas deslizantes. Um exemplo desse tipo é modelo Pirassununga [CON98].

9.14 É possível produzir mel e própolis na mesma colméia?

Sim, mas nenhum dos produtos de forma otimizada (veja item 9.7). A despeito disso, o coletor Pirassununga, acima mencionado, foi desenvolvido exatamente para proporcionar a produção dupla nas melgueiras - própolis nas laterais e mel no centro.

9.15 Por quanto tempo pode ser mantido o coletor de própolis?

Por tempo indeterminado, desde que o enxame esteja suficientemente alimentado e forte. Segundo [CON98], um enxame forte leva cerca de 30 dias para produzir 600 gramas de própolis, mas isso, é claro, varia muito com o tipo de flora local, as condições do enxame e a sua tendência mais ou menos propolisadora.

9.16 Como a própolis é beneficiada?

Primeiro, deve ser feita a limpeza manual da própolis, para eliminação de lascas de madeira (oriundas da raspagem), pedaços de abelhas e resíduos vegetais. Em seguida, ela deve ser classificada segundo o padrão de mercado vigente. Uma classificação simplificada, apresentada em [ESP02], é a seguinte: de primeira qualidade, própolis em grandes flocos ou tiras; de segunda, própolis granulada; de terceira, própolis pulverizada.

9.17 Como a própolis é armazenada?

Algumas substâncias presentes na própolis evaporam-se ou degradam-se com facilidade. Por isso, é importante que a própolis seja armazenada em recipientes hermeticamente fechados, como vidros e plásticos atóxicos. Após embalada, a própolis deve sofrer um resfriamento intenso (um dia no freezer, por exemplo), a fim de esterilizar possíveis ovos de traça. Depois disso, os recipientes devem ser guardados em local fresco, seco e escuro, sem necessidade de refrigeração [ESP02].

9.18 Como a própolis é comercializada pelo apicultor?

Bruta ou sob a forma de extrato alcoólico ou aquoso.

9.19 Quais são as propriedades da própolis?

A própolis possui diversas propriedades terapêuticas e biológicas, muitas delas já bem estudadas e compreendidas. Por exemplo, ela apresenta atividades antibiótica, anti-inflamatória, anestésica, antioxidante e cicatrizante, entre outras.

9.20 Qual é a dosagem de própolis a ser usada em cada caso?

Naturalmente, aquela que for indicada por um profissional de saúde habilitado.
Embora ocorra com alguma freqüência, não acho aceitável que apicultores, pelo simples fato de recolherem própolis ou outros produtos, arroguem-se o direito de preparar drogas e prescrevê-las aos seus clientes como se fossem farmacêuticos e médicos. Embora essa atitude possa parecer perfeitamente natural às pessoas inclinadas à automedicação e aos tratamentos caseiros, ela não me parece compatível com a postura ética que se esperaria de um apicultor sério. E mais do que isso, temo que ela prejudique também a apicultura em si, ao associá-la, injusta e erroneamente, a uma forma de curandeirismo.

Cera
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9.21 O que é a cera?

Cera é uma substância produzida pelas glândulas cerígenas das operárias com idade em torno de 14 dias. Para produzir a cera, as abelhas convertem o açúcar consumido sob forma de mel, num processo de baixa eficiência - cerca de 8 kg de mel precisam ser consumidos para a produção de 1 kg de cera.

9.22 Qual é a cor da cera?

Branca, como pode ser visto nos favos recém produzidos. A cor amarela ou marrom de alguns favos resulta da impregnação da cera com própolis, resíduos de pólen e outras impurezas. Os favos de cria antigos têm uma cor ainda mais escura, por conta dos restos de casulo e dejetos deixados pelas larvas.

9.23 Para que as abelhas usam a cera?

Para construir os favos e para misturar à própolis, a fim de obter uma substância com melhores propriedades mecânicas.

9.24 Quanta cera há numa colméia?

Cada favo de ninho completo possui cerca de 100 g de cera. Para cada kg de mel maduro, operculado, são gastos 55 g de cera.

9.25 Qual é a vantagem de se fornecer cera à colônia?

Pelos dados acima, uma melgueira com 11 kg de mel possui uns 600 g de cera. Para produzir 600 g de cera, as abelhas devem consumir cerca de 5 kg de mel. Em outras palavras, se um enxame produz uma melgueira cheia sem receber nenhuma cera, o mesmo enxame produzirá quase uma melgueira e meia (uns 40% a mais, na verdade) se lhe forem fornecidos favos inteiros e vazios. Se lhe forem fornecidas lâminas alveoladas, a perda de mel será menor, mas ainda assim significativa. Por essa razão, alguns apicultores incluem os favos de melgueira entre os bens mais valiosos do apiário, e tratam-nos com extremo cuidado.

9.26 Como preservar os favos de forma natural?

Essa é uma questão ainda não muito bem resolvida na apicultura. Favos são delicados, ocupam muito espaço e são muito atrativos para roedores e insetos, particularmente as traças de cera. Os favos mais sujeitos a ataques são os usados para cria e para pólen; os usados apenas com mel são bem menos suscetíveis. Favos de ninho, porém, raramente são armazenados, apenas substituídos e derretidos.
Em relação aos quadros de melgueira (entendido como aqueles usados apenas para mel), uma recomendação básica é que eles sejam devolvidos às abelhas após a extração, para que elas removam todos os resíduos de mel e deixem-nos suficientemente secos para a posterior armazenagem. Dependendo das condições climáticas (sem excesso de frio e umidade), as melgueiras podem ser deixadas nos enxames mais fortes, que se encarregarão de protegê-los contra as traças.
Se as melgueiras tiverem de ser removidas, a melhor medida para evitar a infestação por traças de cera é o tratamento térmico. O congelamento de favos por 4,5 horas a -7 ºC ou por 2 horas a -15 ºC mata todos os estágios da traça de cera. Note que esse tempo deve ser contado a partir do momento em que os favos atingiram essas temperaturas, e não do momento em que eles foram colocados no freezer. Na prática, o melhor é deixar os favos no freezer por 24 horas. Depois, os favos devem ser guardados em ambiente seco e isolado, para que não ocorram novas infestações. Se as próprias melgueiras forem usadas para armazenagem dos favos, o ideal é que elas também sejam congeladas, pois elas também podem conter ovos de traças, especialmente as muito propolisadas. Cuidado com a manipulação dos favos logo após o congelamento, pois eles se tornam extremamente frágeis e quebradiços.
Uma alternativa para a armazenagem é fazê-la em ambiente arejado e bem iluminado (mas sem exposição ao sol). Lembre-se de que, se os favos estiverem afastados uns dos outros, todas as faces receberão uma iluminação melhor. Essas condições são muito desfavoráveis ao desenvolvimento das larvas, e os favos acabam sendo rejeitados pelas traças. Se, adicionalmente, os favos puderem ser isolados do ambiente por telas mosquiteiras (num armário de tela, por exemplo), tanto melhor.
Quando nada disso for possível, deve-se, pelo menos, empilhar as caixas com algum isolante entre elas, como folhas de jornal. Isso evitará que uma infestação numa caixa se propague às outras.

9.27 Há produtos químicos seguros para a preservação de favos? 

O Bacillus thuringiensis, uma bactéria fatal para lepidópteros, como a traça de cera, pode ser utilizado para preservação dos quadros. Ele é explicitamente permitido na apicultura orgânica. No Brasil, uma variedade do B. thuringiensis é vendida sob o nome comercial de Dipel, e empregada para a pulverização da soja. Num estudo realizado na Universidade Federal de Lavras [BRI04], o Dipel exerceu um controle eficiente da lagarta, tanto por pulverização quanto por imersão dos quadros, usando soluções do produto em água em várias proporções (9,43 g de Dipel para100 ml de água, por exemplo).
Já em relação a produtos químicos para preservação de favos, mantenho aqui a minha posição de evitá-los sempre que possível. A título de informação, porém, vão aqui algumas informações sobre o paradiclorobenzeno (PDB). Trata-se de uma substância muito empregada, no Brasil, como desodorizante de vasos sanitários e repelentes de traças domésticas. O PDB é aprovado para uso em muitos países desenvolvidos, mas aqui no Brasil é muito pouco usado e visto com desconfiança pela maioria dos apicultores. É um contaminante importante da cera em outros países, e é terminantemente proibido na apicultura orgânica.
O PDB só pode ser usado em favos limpos, sem resíduos de mel ou pólen. Ele é usado numa proporção de 100 g para cada pilha de 5 ninhos ou 8 melgueiras. O PDB sublima (passa do estado sólido para o gasoso), e o seu gás mata a traça em todos os estágios, exceto os ovos. Por essa razão, ele deve ser reaplicado periodicamente. Como o gás é mais pesado que o ar, o PDB deve ser colocado sobre a caixa de cima, logo abaixo da tampa, e todas as frestas devem ser fechadas. O gás pode contaminar a cera, e por isso os favos precisam ser arejados por alguns dias antes de retornarem às colméias.
Atenção: nunca use naftalina para preservar equipamento apícola. Ela deixa mais resíduos na cera, e há diversas referências na literatura sobre a sua toxidade para as abelhas.

9.28 Como se produz cera?

Quantidades relativamente pequenas são produzidas a partir do derretimento dos favos velhos que foram substituídos e também dos opérculos que resultaram da extração do mel.
Se o objetivo principal for a produção de cera, as colônias deverão ser alimentadas abundantemente com xarope, a fim de estimular a produção dos favos. Por exemplo, considere a produção de uma melgueira cheia de mel operculado, a partir de dez quadros que tenham apenas uma pequena tira de cera alveolada para orientação inicial das abelhas. Neste caso, é preciso fornecer à colônia cerca de 15 litros (= 19 kg) de xarope, na proporção de 12,6 kg de açúcar para 6,4 litros de água. Posteriormente, esses favos serão centrifugados e derretidos, resultando, aproximadamente, em 11 kg de "mel" mais 600 g de cera. Esse "mel" extraído será então diluído e devolvido às abelhas como xarope, para a produção de mais cera.
Já a cera produzida pode ser derretida, a fim de ser vendida bruta ou processada. Um processamento possível, extremamente importante para a apicultura, é a laminação e estampagem da cera, para produção de lâminas alveoladas.
Outra utilidade possível para esse método é a produção de favos completos, para uso na safra de mel.

9.29 A produção de cera é rentável?

Parece não haver muita gente produzindo cera, talvez pela quantidade de trabalho necessário, mas ela pode ser rentável, sim. Um quilo de cera laminada pode valer mais de 20 kg de açúcar, mas precisa de apenas 6,5 kg (o equivalente aproximado de 8 kg de mel) para ser produzida. E o melhor é que ela depende apenas de alimentação artificial, não de floradas. Chuvas não atrapalham, porque toda a atividade é interna, mas o frio pode inibir a produção de cera.

9.30 Como se derretem favos de mel? 

Um equipamento relativamente eficiente para derreter favos de mel limpos e opérculos é o derretedor solar, que pode ser comprado ou feito em casa. Para isso, basta fazer uma caixa de madeira rasa, com tampa de vidro duplo (procure esquemas de construção na Internet). No fundo, pode ser improvisada uma bandeja para recolher a cera derretida (um funileiro poderá fazê-la com chapa galvanizada). Os quadros ficam apoiados sobre a bandeja, um pouco acima do fundo. A caixa deve ser posicionada inclinada, sempre com a tampa de vidro diretamente voltada para o sol. O calor do sol eleva a temperatura dentro da caixa a mais de 80 ºC, bem acima do ponto de fusão da cera.
Quando o volume de cera é maior, um derretedor a vapor pode ser uma boa solução. Um modelo compacto bastante usado é o que emprega um tonel de 200 litros. Esse tonel é dividido ao meio, ficando a "caldeira" na parte de baixo e os favos a serem derretidos na parte de cima. A sua descrição textual não é simples, mas a montagem pode ser feita por qualquer serralheiro, e podem-se encontrar esquemas na Internet.
Os pedaços de cera obtidos por estas formas de derretimento podem ser novamente derretidos para formarem um bloco - o mesmo vale para pedaços de favos e opérculos, se o apicultor não tiver os equipamentos referidos acima. Para tanto, basta colocá-los num recipiente com água quente, mexer um pouco até o derretimento completo e depois deixar a mistura esfriar. Como a densidade da cera (0,95) é menor do que a da água, ela ficará na superfície e, ao se solidificar, formará um bloco flutuante. Porém, é preciso tomar cuidado com o recipiente usado - se houver algum estreitamento na sua boca, o bloco de cera não poderá sair inteiro. Depois de retirado o bloco, deve-se raspar o seu fundo para remover as eventuais impurezas que restaram.
Favos com mel fermentado devem ser lavados antes, ou a cera poderá absorver o odor durante o derretimento.

9.31 Que tipo de recipiente deve ser usado para derreter a cera? 

Conforme [BOG04], recipientes de aço comum, alumínio, zinco e cobre não devem ser usados, para não escurecerem a cera. Materiais que contenham chumbo também não devem ser empregados para não contaminar a cera. O aço inox, também aqui, é o material mais indicado.

9.32 Como se derretem favos de cria?

Os favos de cria têm restos de casulos nos alvéolos, que são tecidos pelas larvas antes do seu fechamento. Além disso, têm uma cera impregnada por impurezas e, por isso, mais escura.
Qualquer uma das formas acima mencionadas pode ser usada para derreter favos de cria, mas a cera precisa ser filtrada enquanto estiver derretida a fim de que as impurezas mais grosseiras sejam separadas. Quando a cera for derretida em água quente, a mistura pode ser passada por uma peneira para outro recipiente. Para tanto, um pedaço de tela metálica fina ou um saco de aniagem funcionam muito bem. No caso do derretedor solar, os quadros devem ficar sobre uma tela que retenha os casulos das crias (o que diminui a eficiência desse equipamento e aumenta o tempo do processo). No derretedor a vapor, normalmente já há uma tela para filtragem das impurezas.

9.33 Como purificar a cera?

Qualquer filtragem da cera em equipamento caseiro dificilmente conseguirá limpar a cera convenientemente. Quando for derretida em água quente, o processo pode melhorar bastante se a cera filtrada for mantida líquida pelo maior tempo possível. A razão disso é que, líquida e em repouso, a cera sofre um processo de decantação em que os detritos mais pesados afundam e os mais leves flutuam. Assim que o bloco de cera esfria, a maior parte das impurezas pode então ser facilmente raspada da sua superfície.
Quem prefere números mais exatos, pode tomar como ideal a permanência da cera derretida em água a 75-80 ºC por 8 horas, no mínimo [BOG04]. Quando isso não for possível, é recomendável que, pelo menos, o resfriamento da cera seja atrasado o máximo possível, envolvendo o recipiente com material isolante (panos, jornal) e deixando-o no ambiente mais aquecido que houver.

9.34 Há meios químicos para processar a cera? 

Certamente, e a literatura registra alguns, como o uso de água oxigenada para o branqueamento da cera. Eles podem ser utilizados industrialmente e até em ambiente doméstico. No entanto, devido ao perigo de contaminação da cera, parece-me que o melhor é evitá-los sempre que possível.
Uma questão importante é o derretimento da cera em água dura (com excesso de minerais). Neste caso, pode ser produzida uma emulsão de água e cera. Para evitar o problema, em primeiro lugar, a temperatura da água deve ser mantida abaixo de 90 ºC. Uma alternativa é acrescentar 2-3 gramas de ácido oxálico para 1 kg de cera e 1 litro de água [BOG04] (o ácido se ligará ao cálcio e evitará a formação da emulsão, além de ajudar a clarear a cera).

9.35 Como se retira a cera dos quadros sem arrebentar os arames?

O melhor jeito é deixar os quadros ao sol por algum tempo. Em seguida, usar uma espátula com delicadeza para remover os favos. É um bom momento para raspar a própolis acumulada, que também estará amolecida pelo calor.

9.36 O que fazer com a cera derretida?

Ela pode ser usada em troca por lâminas alveoladas. Dependendo da qualidade da cera derretida, os produtores de lâminas atribuem-lhe um valor bastante variável, entregando entre 60 e 85% do peso da cera bruta em lâminas.

9.37 Qual é a temperatura de fusão da cera?

Entre 62 e 64 ºC. A partir de 50 ºC, no entanto, a cera já amolece significativamente, e a resistência mecânica de um favo diminui muito.

Geléia Real
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9.38 O que é geléia real?

É uma substância produzida pelas operárias jovens para alimentação da rainha, desde o estágio de larva. Essa substância inclui secreções mandibulares e hipofaringeanas das abelhas.
Embora o alimento das crias jovens também seja freqüentemente chamado de geléia real, ele é diferente, possuindo uma proporção muito menor de secreção mandibular. Por essa razão, a geléia real contém algumas substâncias, como o ácido pantotênico e a biopterina, em quantidades muito maiores que a comida de cria.

9.39 Quantos anos a mais vou viver se comer geléia real?

Se comer apenas geléia real, provavelmente você vai viver quase 3 mil anos. A conta é simples: uma rainha, que só se alimenta de geléia real, pode chegar a viver 5 anos, ou 40 vezes a média de uma operária. Portanto, se você tomar a nossa média de vida como 70 anos, e multiplicá-la por 40...
Calma, é só uma brincadeira. A rainha de fato vive mais, mas há um problema básico nessa conta. A comparação feita é entre a expectativa de vida máxima da rainha com a média das operárias. Operárias podem viver muito mais do que isso se forem mantidas presas e alimentadas. No hemisfério norte, por exemplo, algumas colméias passam seis meses semi-enterradas na neve, e não sofrem baixas significativas se estiverem saudáveis e tiverem alimento suficiente (ou seja, nas mesmas condições da rainha).
Além disso nada garante que os mesmos efeitos causados nas rainhas pela geléia real também ocorram em mamíferos. Aliás, muitos deles é melhor mesmo que não ocorram - imagino que ninguém esteja atrás de ovários hipertrofiados, por exemplo. Na apicultura, como de resto em outras áreas de conhecimento, não é raro encontrarem-se argumentações baseadas em analogias estapafúrdias como esta.

9.40 Mas a geléia real é um bom alimento?

A geléia real possui uma composição variada, com carboidratos, proteínas, gorduras, algumas dessas com uma composição molecular bastante peculiar. Também possui algumas vitaminas e minerais (quase todos em quantidades menores do que no pólen), além de outras substâncias (esteróides, fenóis, etc.).
Diversas pesquisas atribuem benefícios variados à ingestão de geléia real, mas estudos mais elaborados, com protocolos de duplo-cego, ainda podem ser necessários para se chegar a um grau aceitável de certeza [SCH92a].
Segundo [MUR02], no entanto, já há evidências de que a geléia real pode ser eficiente como estimulante ou para tratamento distúrbios neurológicos, endócrinos, digestivos e hematopoiéticos (formadores de células sangüíneas).

9.41 Em que mais a geléia real pode ser usada?

A geléia real possui propriedades cosméticas e antimicrobianas que são aproveitadas largamente na indústria de cosméticos, especialmente sob a forma de cremes tópicos.

9.42 Quanto vale a geléia real?

Varia muito, mas uma relação possível é a de um quilo de geléia real para 40-45 kg de mel.

9.43 Como se produz geléia real?

Da mesma forma que se produz rainhas, mas com a interrupção do processo. Basicamente, é feita a orfanação de um enxame forte, seguida do enxerto de larvas de 12 a 36 horas num quadro com cúpulas artificiais, que é introduzido na colméia. Três dias depois, o quadro é recolhido, as larvas descartadas e a geléia real retirada. Cada cúpula fornece entre 200 e 300 mg de geléia.

9.44 Como a geléia real é armazenada?

Protegida da luz, em ambiente refrigerado, inclusive congelada. Ela também pode ser desidratada (por liofilização).

Veneno
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9.45 O que é o veneno?

O veneno, ou apitoxina, é um produto sintetizado pelas glândulas de veneno das operárias e da rainha. É basicamente composto por uma ampla mistura de enzimas, proteínas e outras moléculas menores.

9.46 Quanto veneno possui uma abelha?

Operárias em fase de guarda ou forrageamento possuem entre 100 e 150 mg (milionésimos de grama). Rainhas possuem, em média, 700 mg.

9.47 Como o veneno atua?

Ele é injetado pelas abelhas, com o auxílio do ferrão, nos seus predadores (reais ou presumidos). Algumas de suas substâncias causam dor, enquanto outras provocam uma reação alérgica de intensidade variável, que depende do porte e da sensibilidade da vítima.

9.48 Como evitar uma reação alérgica ao veneno?

Evitando abelhas. Fora isso, um médico pode prescrever-lhe medicamentos antialérgicos para serem usados após as ferroadas e diminuir a reação, ou submetê-lo a uma dessensibilização. Mas isso, normalmente, só é feito em caso de sintomas mais graves do que simples reações locais.

9.49 Como se extrai o veneno das abelhas?

Por meio de um equipamento composto por uma tela metálica e uma membrana. A tela metálica é carregada eletricamente, o que provoca um pequeno choque nas abelhas e leva-as a ferroar a membrana e depositar ali o veneno. A membrana cede o suficiente para que o ferrão não seja arrancado, evitando assim a morte da abelha.
Pela pequena quantidade de veneno de cada abelha, o rendimento é muito baixo - um grama é obtido a partir de 100.000 ferroadas. E o processo de estimulação acaba estressando muito o enxame, que se torna hiperagressivo. Por essas razões, o valor do veneno é muito alto.

9.50 Quanto vale o veneno?

De 35-55 dólares por grama no mercado internacional, o mesmo que 3 a 5 gramas de ouro.

9.51 Para que serve o veneno?

O veneno ainda é objeto de muito pesquisa no mundo inteiro. O seu uso nos tratamentos de dessensibilização é prática corrente. Diversas pesquisas também apontam para uma possível utilidade no tratamento de artrite reumatóide, uma doença degenerativa das articulações, muitas vezes acompanhada por dor intensa.






Flora Apícola

Flora Apícola

10.1 O que é considerado flora apícola?

Um conjunto de plantas de interesse para as abelhas. Normalmente, essas plantas são classificadas como nectaríferas ou poliníferas, mas as boas produtoras de própolis também podem ser incluídas. Outras plantas que devem integrar a flora apícola são aquelas que não se enquadram propriamente em nenhum dos tipos acima, mas são hospedeiras habituais de insetos que produzem um pseudonéctar (melato) que é colhido pelas abelhas e transformado em mel.

10.2 Como saber qual é a flora apícola de uma região?

Impossível dizer sem examiná-la. Cada região possui sua vegetação própria, plantada ou nativa, adaptada às condições de solo, clima, topologia e ecologia. Uma região distante poucas dezenas de quilômetros de outra pode ter flora apícola predominante bastante diferente.
Para conhecer as plantas principais, pode-se perguntar a um apicultor experiente da região, ou observar cuidadosamente a atividade das abelhas por um ou dois anos.

10.3 O que é o calendário apícola?

No que diz respeito à flora, o calendário determina os ciclos de floração da região por espécie. Em geral, muitas plantas florescem ao mesmo tempo, criando períodos de abundância de alimento que podem resultar em colheita para o apicultor. Esses períodos são chamados de safras. Em contrapartida, os períodos em que a quantidade de alimento disponível para as abelhas é escassa ou nula são chamados de entressafras.
No Brasil, o número de safras e os seus períodos de ocorrência são bastante variáveis. Duas safras por ano, uma maior e outra menor ocorrem em muitas regiões.

10.4 Como descobrir o calendário apícola de uma região?

Da mesma forma que a flora apícola - perguntando ou observando. Aqui também, grandes variações podem existir entre regiões próximas, especialmente se a diferença de altitude entre elas for significativa. Os livros, por exemplo, definem a época de floração numa faixa ampla, de dois, três ou mais meses. Um leitor desavisado pode imaginar que a floração se estende por todo esse intervalo, mas, na verdade, este é apenas o período provável da sua ocorrência.
Aliás, a mesma região pode apresentar variações significativas no seu calendário apícola, de um ano para outro, por conta de fenômenos climáticos. O que se consegue, na verdade, é apenas uma média, mas que já é muito importante para o apicultor.

10.5 Por que o calendário apícola é importante?

Porque ele determina grande parte do manejo. Alimentação artificial, troca de rainhas e substituição de quadros, por exemplo, são atividades típicas da entressafra, e todos guardam uma relação temporal importante com a safra.

10.6 Quanto dura em média uma florada?

Depende muito da espécie e do tipo de plantio. A família Myrtaceae (dos eucaliptos) floresce por um ou dois meses, às vezes mais. A Asteraceae (assa-peixes, vassouras, carquejas) também tem uma florada longa, e uma espécie sucede a outra, cobrindo um período longo. A Brassicaceae (canola, nabo, couve) pode florescer por mais de dois meses. A Rutaceae (citros) tem uma floração curta, de cerca de duas semanas. Muitas outras espécies, talvez a maioria, têm uma floração relativamente curta, de alguns dias a duas semanas.

10.7 Floradas curtas são inúteis para as abelhas?

Depende do momento de ocorrência. Uma florada curta, mesmo com bom volume de néctar e concentração de açúcar, não pode ser aproveitada pelas abelhas enquanto o enxame ainda não se desenvolveu o suficiente. Essa é a principal razão do sucesso dos apicultores que estimulam corretamente as suas abelhas com alimento na entressafra: elas conseguem aproveitar bem as primeiras floradas.
Depois de o enxame estar bem desenvolvido, naturalmente ou por intervenção do apicultor, qualquer florada que seja atrativa para as abelhas é útil.

10.8 Quais são as melhores plantas apícolas?

Essa é uma das perguntas mais feitas na apicultura. Há uma variedade enorme de plantas apícolas, mas há também um problema básico: plantas de excelente desempenho numa região podem se tornar más produtoras em outra. Por essa razão, diversos estudos chegam a conclusões aparentemente incompatíveis ou mesmo conflitantes.
Na prática, é preciso recorrer a informações de inúmeras fontes e extrair delas algum consenso sobre espécies mais úteis.

10.9 A flora apícola de uma região pode ser melhorada?

Sim. O plantio de espécies melíferas que tenham bom desempenho numa região pode resultar em grande melhora da flora apícola. Uma abordagem recomendada é o plantio de espécies arbóreas perenes, consorciadas com espécies herbáceas ou arbustivas anuais, para ganho a curto, médio e longo prazos.
A questão econômica, porém, não é tão clara. Por exemplo, alguns estudos identificaram espécies com altos potenciais melíferos, da ordem de 200 a 1.000 quilos por hectare. Mas este é um potencial teórico, calculado a partir de estimativas do número médio de flores por hectare durante uma safra e do volume e da concentração média de açúcar do néctar produzido por cada flor. Não custa lembrar que, para que este néctar seja recolhido, é preciso haver condições climáticas adequadas. Também, muitas vezes há uma enorme variação no desempenho das plantas de um ano para outro. E como se não bastassem essas incertezas, nada impede que um pasto apícola cuidadosamente cultivado seja aproveitado entusiasticamente por todos os demais enxames da região, sejam eles naturais ou alojados em colméias de outros apicultores.
Uma alternativa indiscutivelmente boa do ponto de vista econômico, é o aproveitamento das culturas comerciais, especialmente as voltadas para a produção de frutas, como os citros, ou grãos, como o girassol ou a canola.

10.10 Como saber o que deve ser plantado?

Este é um tema delicado, do ponto de vista ecológico. Muitos ecologistas recomendam que apenas as espécies nativas (ou exóticas há muito aclimatadas) sejam plantadas, a fim de evitar um possível desequilíbrio ecológico. É uma posição cautelosa, mas a multiplicação artificial e maciça de uma espécie nativa também pode causar algum desequilíbrio. Isso é especialmente importante em grandes vazios demográficos e áreas de preservação ambiental, onde uma planta invasora poderá se alastrar livremente antes que o seu dano seja percebido.
Uma lista de espécies locais de interesse apícola pode ser obtida com os apicultores mais experientes da região, especialmente os mais inclinados para este assunto (não são muitos, infelizmente). Naturalmente, a região considerada não precisa se restringir às vizinhanças do apiário; ela pode compreender, por exemplo, os estados geograficamente próximos.
E uma boa alternativa sempre será uma seleção pessoal do apicultor, a partir da observação cuidadosa e muita leitura.

10.11 Que critérios definem uma boa planta nectarífera?

Basicamente, três: quantidade, qualidade e disponibilidade do néctar produzido. No que diz respeito a néctar floral, os fatores levados em consideração são, principalmente, os seguintes:
· Duração da floração;
· Confiabilidade (previsibilidade) da floração;
· Volume de néctar produzido por planta;
· Concentração de açúcar do néctar;
· Acessibilidade da abelha ao nectário;
· Qualidade do mel produzido, consideradas as suas propriedades organolépticas (aroma, sabor, textura, aspecto, etc.).
Há autores que também incluem a abundância regional como um critério para qualificação de planta nectarífera. Na minha opinião, isso é um equívoco, pois confunde a avaliação individual de cada planta com a sua participação relativa no conjunto da flora apícola regional, que são pontos bem diferentes.
Alguns desses fatores não são mensuráveis senão em laboratório, mas são percebidos pelo nível de atratividade que as flores exercem nas abelhas e pela produção destas.
Ou seja, de forma mais simples, uma boa nectarífera é aquela que floresce intensamente, todos os anos (ou sempre que plantado), atrai muitas abelhas e dá um mel saboroso.

10.12 Há plantas de floração imprevisível?

Sim. Muitas espécies perenes apresentam grandes variações de um ano para outro. É o mesmo processo que ocorre com as frutíferas, para as quais, sem manejo adequado (raleio dos frutos), os anos de abundância precedem os de escassez. Os eucaliptos, por exemplo, reconhecidos mundialmente como uma excelente fonte de néctar e pólen, são notoriamente pouco confiáveis. A espécie robusta, muito difundida no Brasil e responsável por colheitas abundantes na região sul, é uma das mais confiáveis, com florações fortes e repetidas.

10.13 Que critérios definem uma boa planta polinífera?

A flora polinífera é muito mais abundante do que a nectarífera, e, talvez por esta razão, receba menos atenção. É comum encontrar-se plantas qualificadas como boas produtoras de pólen, mas não estimativas de produtividade por espécie, por exemplo.
Do ponto de vista da necessidade alimentar das larvas de abelha, porém, sabe-se que há polens muito melhores que outros. O primeiro dado importante é que o total de proteína no pólen deve ser igual ou superior a 20%, mas ele, por si só, não significa muito. Um estudo realizado por DeGroot em 1953 determinou as quantidades mínimas de 10 aminoácidos que devem estar presentes na proteína do pólen para que as larvas possam aproveitá-la integralmente. Por exemplo, a proteína presente num pólen deve conter no mínimo 4% do aminoácido isoleucina. Se tiver apenas 3%, segundo DeGroot, as larvas só conseguirão digerir 3/4 da proteína total. Nesse caso, se o volume total de proteína for de 24% e todos os demais aminoácidos estiverem dentro do mínimo necessário, a proteína digerível para as larvas será de apenas 18%, o que é um valor insuficiente.
Um exemplo desta situação é o que ocorre com a alfafa, que provoca um enfraquecimento do enxame pela intensa colheita de néctar sem um o pólen de qualidade suficiente para manter as crias [STA96]. Já o pólen da Corymbia (ex-Eucalyptus) maculata é tido como um dos melhores polens para as abelhas na Austrália. Sementes dessa árvore são facilmente encontráveis no Brasil, por exemplo, no site do IPEF (http://www.ipef.br).

10.14 Que critérios definem uma boa planta propolífera?

Menos informações ainda se têm sobre plantas propolíferas. Uma referência freqüente à Baccharis dracunculifolia (vassoura, alecrim) afirma que ela produz a própolis verde, um tipo especialmente procurado e valorizado pelos compradores internacionais.

10.15 Como identificar uma planta?

Uma vez que se tenha observado uma planta de interesse, o primeiro passo é fazer uma pesquisa como os moradores locais para descobrir o seu nome popular. Com o nome popular, pode-se descobrir a espécie com uma simples consulta à Internet  ou outro buscador). Não é garantido, pois o mesmo nome popular às vezes é usado para inúmeras espécies completamente diferentes.
Não conseguindo o nome popular, pode-se recorrer a herbários de universidades ou Jardins Botânicos. Biólogos que fazem trabalho de campo, como os que trabalham na preparação de relatórios de impacto ambiental (RIMAs), têm vasto conhecimento sobre a vegetação regional, e podem ajudar.
Uma alternativa é a pesquisa bibliográfica própria. Os livros de Harri Lorenzi, do Instituto Plantarum , por exemplo, são abrangentes, e as espécies são muito bem descritas e fotografadas. 









29 de ago. de 2015

INIMIGOS DAS ABELHAS

11. Inimigos

11.1 Quais são os inimigos das abelhas? [3]

Há vários. Microorganismos causadores de doenças de cria e de adultos, parasitas internos, externos e sociais, substâncias tóxicas, predadores e outras pragas (referências em [ESP02], [GON02], [PER03], [SAM98], [SAN99], [SHI92], [WIE87]).
No que diz respeito ao Brasil e às abelhas africanizadas, os principais problemas são as substâncias tóxicas e o vandalismo ou roubo. Em relação às doenças e parasitas em geral, as africanizadas apresentam uma resistência maior que as européias. Em parte, essa resistência tem origem orgânica, como no caso da característica SMR (de Suppress Mite Reproduction), freqüentemente encontrada nas africanizadas, que impede a reprodução da varroa nos alvéolos de cria. No caso das doenças, a maior resistência das africanizadas provavelmente se deve a um comportamento higiênico mais desenvolvido, que as leva a remover os cadáveres mais rapidamente e com maior eficiência, diminuindo assim a chance de alastramento da infecção.
Ao mesmo tempo, essas abelhas têm forte tendência de abandonar completamente o ninho quando enfrentam algum tipo de perturbação mais forte, deixando para trás todos os organismos indesejados. Esse tipo de comportamento ajuda no controle de parasitas, que chegam a devastar fortes colônias de européias, mas raramente fazem o mesmo com africanizadas.
Nos países que criam abelhas européias, três pragas são responsáveis pela maior parte dos prejuízos: a podridão americana, a varroa e o besouro da colméia.
Na África, os criadores de Apis mellifera scutellata têm sofrido nos últimos anos com um caso grave de parasitismo social da A.m. capensis [GON02].

11.2 Como são classificados esses inimigos?

Há varias classificações possíveis. Uma delas, muito citada, é por fase da vida da abelha em que ela é atingida. Por exemplo, as principais doenças de cria são as seguintes:
· Podridão européia (ou CPE - Cria Pútrida Européia)
· Podridão americana (ou CPA - Cria Pútrida Americana)
· Cria ensacada
· Cria ensacada brasileira
· Cria giz
Já as principais doenças de adultos são estas:
· Nosemose
· Disenteria
· Envenenamento
· Fome e frio
E há também os parasitas e outras pragas:
· Varroa
· Acarapis woodi (doença chamada de acariose)
· Aethina tumida (besouro da colméia)
· Apis mellifera capensis
· Traças de cera
· Formigas

11.3 Podridão européia?

Agente: bactéria Melissococcus pluton.
Sintomas: larvas mortas, amareladas ou marrons. Cheiro ácido forte. Favo de cria com poucos alvéolos operculados em meio a muitos vazios ou com larvas mortas.
Contágio: as abelhas adultas contaminam as larvas ao alimentá-las.
Prejuízo: significativo, quando a colônia não tem alimento suficiente.
Ocorrência no Brasil: relativamente comum.
Controle: uma alimentação abundante, energética e protéica, geralmente resolve o problema. Se ele persistir, uma opção é substituir a rainha para tentar mudar o perfil de tolerância à doença da colônia.
Observação: essa doença pode ser tratada com Terramicina, mas essa não é a melhor escolha (veja o item 11.20 abaixo)

11.4 Podridão americana?

Agente: bactéria Paenibacillus larvae
Sintomas: crias operculadas (pré-pupa/pupa) mortas, opérculos perfurados. Larvas marrons que, quando esmagadas com um palito, adquirem uma consistência viscosa e provocam a criação de um "fio" no momento em que o palito é removido.
Contágio: fácil, através de mel e pólen contaminados com os esporos da bactéria. A transmissão se dá por pilhagem de colônias infectadas, transferência de favos de alimento pelo apicultor e até mel extraído que é recolhido pelas abelhas (essa forma proporciona a "importação" da doença de outros países, junto com méis contaminados).
Prejuízo: muito grande, podendo devastar apiários.
Ocorrência no Brasil: ainda não detectada.
Controle: colméias suspeitas devem ser imediatamente isoladas e ter uma amostra enviada a análise de laboratório. Como esta doença ainda não foi identificada no Brasil, não existe uma diretriz nacional sobre o que fazer se o resultado for positivo. O melhor talvez seja adotar o critério mais radical, usado por diversos países, que é o da destruição completa das abelhas e de todas as partes da colméia. Para isso, remova primeiro todos os quadros e queime-os durante o dia. À noite, feche a colméia e mate as abelhas com um inseticida. Essa parte é especialmente difícil para o apicultor, mas ele deve lembrar que a sobrevivência de todos os demais enxames está em jogo. No dia seguinte, queime as caixas, fundo, tampa e as abelhas mortas. O fogo é necessário porque os esporos do P. larvae suportam temperaturas de até 150 ºC. Alguns países e estados americanos admitem a esterilização do equipamento ao invés da sua destruição, mas os meios não são facilmente encontráveis no Brasil ou são muito perigosos (irradiação beta e gama, mergulho em parafina a 160 ºC, fervura em solução de soda cáustica).

11.5 Cria ensacada?

Agente: vírus (SBV, de Sacbrood Virus, sem nome científico)
Sintomas: crias parcialmente operculadas em meio a outras totalmente operculadas ou já emergidas. Pré-pupas mortas, com cor variando do amarelo ao marrom-escuro, especialmente com a extremidade da cabeça mais escura que o resto do corpo. Indivíduos mortos podem ser facilmente removidos dos alvéolos, mas, quando agarrados por uma pinça, tomam a forma de um saquinho (daí o nome).
Contágio: provavelmente através das abelhas adultas, ao alimentar as larvas.
Prejuízo: pouco significativo, podendo passar despercebido em enxames fortes.
Ocorrência no Brasil: desconhecida (veja item 11.6).
Controle: a manutenção de enxames fortes, com bastante alimento é suficiente.

11.6 Cria ensacada brasileira?

Agente: pólen do barbatimão (Stryphnodendron spp.)
Sintomas: similares aos da cria ensacada (descritos acima)
Contágio: pelas abelhas adultas, ao alimentar as larvas com o pólen.
Prejuízo: grande, com enfraquecimento ou morte de muitos ou todos os enxames do apiário.
Ocorrência no Brasil: muito freqüente na região Sudeste. Possível em outras regiões onde exista esta planta.
Controle: alimentação com suplemento protéico pelo menos 15 dias antes do início da florada do barbatimão. Manutenção dessa alimentação durante todo o período da florada.

11.7 Cria giz?

Agente: fungo Ascosphaera apis
Sintomas: larvas rígidas, aparentando mumificação. Podem ser facilmente removidas do favo com uma sacudida.
Contágio: pelas abelhas adultas, ao alimentar as larvas com pólen contaminado com o fungo.
Prejuízo: moderado em enxames mais suscetíveis.
Ocorrência no Brasil: já detectado, mas ainda não relevante.
Controle: manutenção de enxame forte e substituição freqüente da rainha.

11.8 Nosemose?

Agente: protozoário Nosema apis
Sintomas: abelhas incapazes de voar, desorientadas no chão da colméia, com tremores, com asas em posição anormal e abdômen inchado.
Contágio: pelas fezes das abelhas adultas contaminadas, quando depositadas dentro da colméia (por impossibilidade de realizar os vôos higiênicos).
Prejuízo: grande em climas temperados, pequeno nos demais.
Ocorrência no Brasil: existente, mas atualmente pouco relevante.
Controle: manutenção de enxame forte e substituição freqüente da rainha. Esterilização eventual dos equipamentos por imersão em água quente.

11.9 Disenteria?

Agente: más condições alimentares e sanitárias
Sintomas: presença de matéria fecal marrom ou amarelada na colméia, abelhas com movimentos lerdos e abdomens inchados. Mortandade de abelhas.
Causas: alimento fermentado, alimento com impurezas (como as presentes no açúcar mascavo e melado de cana), alimento com alto teor de HMF (mel velho, açúcar invertido), excesso de umidade na colméia.
Prejuízo: de pequeno a muito grande, podendo acabar com o enxame.
Ocorrência no Brasil: geral.
Controle: eliminação das causas.

11.10 Envenenamento?

Agente: inseticidas
Sintomas: mortandade súbita de adultas dentro da colméia ou redução drástica do enxame (mortandade no campo).
Causas: aplicação de inseticidas em culturas vegetais no raio de ação das abelhas. Fungicidas e herbicidas normalmente não matam as abelhas, ainda que possam deixar resíduos nos produtos coletados.
Prejuízo: Muito grande, podendo devastar o apiário.
Ocorrência no Brasil: geral.
Controle: escolha prévia do local do apiário, conhecimento prévio da rotina de pulverização das culturas vizinhas, remoção das colméias antes das pulverizações, alimentação abundante durante e após as pulverizações.

11.11 Fome e frio?

Agente: falta de alimento energético
Sintomas: Morte ou forte redução do enxame, com abelhas adultas mortas dentro dos alvéolos, as cabeças voltadas para o fundo.
Causas: falta de alimento energético (mel, néctar, xarope), especialmente na entressafra e em clima frio, quando o consumo de mel é aumentado para a geração de calor. É importante salientar que qualquer enxame normal só morrerá de frio se não tiver mel suficiente a disposição.
Prejuízo: Grande, com possível perda do enxame.
Ocorrência no Brasil: principalmente nas regiões frias (Sul) ou naquelas em que as entressafras são severas e longas.
Controle: Alimentação artificial com xarope ou mel deixado na colméia em quantidade suficiente para a entressafra.

11.12 Varroa?

Agente: ácaros Varroa destructor e Varroa jacobsoni (talvez outros)
Sintomas: presença de muitas larvas (especialmente de zangões) com ácaros - vistos a olho nu como pontos marrons, do tamanho de uma cabeça de alfinete. Os ácaros estão presentes nos adultos também, mas não são tão facilmente identificáveis.
Um teste simples de ser feito é o seguinte: recolher uma porção de abelhas adultas (500-1000 abelhas) num vidro, adicionar água e sabão líquido a 4% (ou álcool etílico ou isopropílico a 70%) e agitar bem. Depois, coar as abelhas e verificar a presença de varroas no líquido.
Prejuízo: muito grande em climas temperados e abelhas européias, menor em climas tropicais e abelhas africanizadas.
Ocorrência no Brasil: existente, mas ainda não especialmente relevante. Exige observação.
Controle: manutenção de enxames fortes, bem alimentados. Substituição da rainha em caso de infestação acentuada. O controle químico, com fluvalinato, é permitido e usado em outros países, mas não disponível nem recomendado por grande parte dos apicultores no Brasil.
Observação: existe um inseto (Braula coeca) que é praticamente inofensivo às abelhas, mas muito parecido com a varroa. Ele se aloja no tórax das operárias e da rainha, às vezes em grupos. Uma diferença perceptível é que ele possui 3 pares de patas, que se estendem para o lado do corpo, enquanto que a varroa, um aracnídeo, possui 4 pares, que se estendem para frente.

11.13 Acariose?

Agente: ácaro Acarapis woodi
Sintomas: imprecisos, muito semelhantes aos de outras doenças: enxame anormalmente reduzido, abelhas arrastando-se com asas desconjuntadas. A confirmação só pode ser feita em laboratório.
Prejuízo: grande, se não tratado.
Ocorrência no Brasil: existente, mas atualmente irrelevante.
Controle: manutenção de enxames fortes, bem alimentados, com rainha nova.

11.14 Besouro da colméia?

Agente: coleóptero Aethina tumida
Descrição: fêmeas adultas deste besouro são atraídas pelo mel e podem entrar na colméia ou pôr ovos em favos expostos ao ar livre. As larvas, de pouco mais de 1 cm, alimentam-se de mel e de crias vivas, infestando qualquer tipo de favo. O mel, fermentado pelas fezes das larvas, é repudiado pelas abelhas. Poucos indivíduos adultos podem causar pesadas infestações.
Prejuízo: muito grande na América do Norte, com exterminação de enxames. Na África, esse besouro raramente cria problemas para os enxames de Apis mellifera scutellata, embora a sua convivência seja comum.
Ocorrência no Brasil: ainda não encontrado.
Controle: difícil. Verificação cuidadosa e pronta eliminação de favos infectados. Manutenção de enxames fortes. Prevenção por exposição mínima dos favos durante o manejo e colheita de mel.

11.15 Apis mellifera capensis?

Agente: abelha A.m. capensis
Descrição: operárias da abelha capensis invadem colméias de A.m. scutellata (só dela) e passam a competir com a rainha, pondo ovos e produzindo feromônio de rainha. Esta acaba morrendo, atacada pelas invasoras ou vítima de desnutrição por falta de atendimento das suas operárias. Os ovos postos pelas capensis, apesar de não fecundados, produzem novas fêmeas poedeiras, o que acaba desorganizando a colméia de tal modo a inviabilizá-la.
Prejuízo: muito grande na África do Sul, com grande exterminação de enxames.
Ocorrência no Brasil: ainda não identificada.
Controle: muito difícil. Prevenção por isolamento das duas espécies.

11.16 Traças de cera?

Agente: Galleria mellonella (traça maior) e Achroia grisella (traça menor)
Descrição: indivíduos adultos põem ovos no interior da colméia ou em favos guardados, especialmente os mais escuros. As larvas alimentam-se de cera e formam túneis cheios de fezes e fios de seda nos favos, que se tornam inaproveitáveis para as abelhas. Em infestações pesadas, as larvas chegam a destruir a madeira dos quadros e das caixas.
Prejuízo: insignificante ou inexistente em enxames médios e fortes; importante em enxames fracos. Possivelmente grande em favos armazenados.
Ocorrência no Brasil: geral.
Controle: manutenção de enxames fortes. Enxames fracos devem ser protegidos por redução do alvado e vedação das frestas das colméias. Favos escuros (especialmente os de ninho) devem ser derretidos tão logo sejam retirados da colméia. Favos claros devem ser guardados, preferencialmente, em ambiente claro, seco e arejado. O congelamento dos favos a -15 ºC por 2 horas destrói todas as fases das traças (ovos, larvas e adultos).
Observação: em alguns países o paradiclorobenzeno (PDB) é uma substância química aprovada para controle da traça em favos armazenados. No Brasil, recomenda-se sempre evitar procedimentos que possam deixar resíduos indesejáveis na colméia e nos seus produtos.

11.17 Formigas?

Agente: diversas espécies de formigas
Descrição: as formigas costumam atacar repentinamente e causar grandes danos, devorando as crias, o mel, o pólen e provocando um grande estresse na colméia.
Prejuízo: destruição dos favos e abandono dos enxames.
Ocorrência no Brasil: geral.
Controle: manutenção da colméia em posição elevada em relação ao solo. Uso de cavaletes com proteção contra formigas, como lã ou estopa embebida em óleo, arandelas com óleo, cúpulas invertidas (de garrafas PET, por exemplo). Limpeza do terreno e combate das formigas predadoras nas imediações do apiário.

11.18 Como se pode confirmar uma suspeita de doença?

Enviando uma amostra de favo, crias e/ou adultas para análise num laboratório. Isso especialmente necessário no caso de suspeita de podridão americana, que é a doença apícola mais importante.

11.19 A quem e como se deve enviar as amostras?

Antes de enviar amostras a algum lugar, entre em contato com alguma autoridade ligada à área de sanidade apícola. Por exemplo, existe oComitê Científico Consultivo em Sanidade Apícola - CCCSA, instituído pela Portaria nº 09, de 18 de fevereiro de 2003, da Secretaria de Defesa Agropecuária, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). Seus membros podem ser contatados pelos seguintes e-mails (para formar os endereços, junte as palavras em negrito com o caráter "@" entre elas):
Aroni Sattler (UFRGS/Porto Alegre/RS) - aronisattler em yahoo.com.br
Dejair Message (UFV/Viçosa/MG) - dmessage em mail.ufv.br
David de Jong (USP/Ribeirão Preto/SP) - ddjong em fmrp.usp.br
Dulce Schuch (MAPA/Porto Alegre/RS) dmtschuch em yahoo.com

11.20 Por que não tratar as doenças com remédios?

Medicamentos sempre oferecem o risco de, se mal usados, contribuírem para a seleção de cepas resistentes dos organismos que estão sendo combatidos. Além disso, eles contaminam os produtos da colméia e não têm sido necessários no Brasil. A maior resistência da abelha africanizada em relação à européia permite que muitas doenças sejam tratadas com a simples adoção de medidas sanitárias simples e/ou substituição da rainha - e conseqüente alteração do perfil genético da colméia em cerca de dois meses. Essa alteração genética é uma tentativa de criar um enxame com resistência orgânica maior ou comportamento higiênico mais apurado, o que é perfeitamente possível com a aquisição de rainhas africanizadas selecionadas.
Dessa forma, busca-se um melhoramento genético com a extinção das características ruins em relação às doenças. O retorno deste procedimento é um gasto menor em manejo e nulo em remédios, mas, principalmente, o privilégio de se recolher produtos absolutamente naturais, sem contaminantes químicos de nenhuma espécie.

11.21 Como evitar o roubo e o vandalismo?

Esse é um problema difícil. Por representar um perigo a pessoas e animais, o apiário necessariamente deve ser localizado a uma certa distância de casas e galpões, o que o torna um alvo fácil para ações criminosas. Há muito pouco o que fazer sem investir muito.
A primeira tentativa é ocultar da melhor forma possível o apiário da vista de populares. O uso de cores discretas nas colméias, telhados e suportes pode ajudar.
Alguns apicultores sugerem adotar equipamentos especiais, como fundos (chãos) de colméias com furos grandes, ou tampas integradas com telhados pesados. A idéia é que as colméias não possam ser carregadas sem que as abelhas ataquem os ladrões. Isso pode funcionar na primeira vez, mas dificilmente dará resultado numa segunda tentativa.
A montagem de armadilhas nas imediações do apiário é defendida por alguns, mas é preciso considerar muito bem as possíveis conseqüências. Armadilhas que causem dano físico ao invasor podem motivar a responsabilização criminal do apicultor. Armadilhas que apenas assustem ou que provoquem ruídos altos ou ativem sirenes talvez possam ser usadas.
Não há local 100% seguro, mas o conhecimento e uma boa relação com os vizinhos também ajudam. Um pouco de mel presenteado na colheita pode angariar aliados vigilantes.

OUTROS

É sem dúvida o homem, o principal inimigo das abelhas, devido aos maus tratos que lhe dá, não as pondo em condições de não serem incomodadas, deixando-as mesmo morrer à fome. Existem diversos aspectos relacionados com o maneio da colmeia que se podem considerar incorrectos.
Geralmente os erros mais importantes são:
- Instalação de colmeias em locais pouco protegidos, nomeadamente zonas ventosas, frias e demasiado húmidas e em locais onde frequentemente se fazem tratamentos fitossanitários.
- Falta de higiene durante a manipulação, transmitindo doenças para outras colmeias e mesmo para outros apiários.
- Excesso de desdobramentos e a cresta exagerada, reduzem também a viabilidade dos enxames uma vez que reduzem as reservas necessárias para ultrapassar os períodos de escassez.
Como conclusão, uma das principais causas de morte dos enxames, é a extracção excessiva de mel sem a necessária compensação.
Aves insectívoras: Comem grande número de abelhas, quando estas se encontram a voar, ou a visitar as flores, não sofrendo, ao que parece com o chamado « veneno » das abelhas.
Os patos também são grandes apreciadores de abelhas dizimando muitas.
De todas as aves, nos Açores a que maior número de vítimas produz será ....
Formigas: Consomem grande volume de mel, causando enormes prejuízos porque enfraquecem as colónias, matam a criação e as colmeias atacadas pelas formigas ficam mais sujeitas à pilhagem ( roubo de mel de uma colónia de abelhas enfraquecida por outra colónia de abelhas ).
Para evitar o ataque pelas formigas, temos de proteger as colmeias assentando os seus pés em copos de um material resistente com óleo não secativo. Tal medida é eficaz apenas a curto prazo, uma vez que, em caso de necessidade, as formigas constroem pontes com os corpos das companheiras mortas. Os venenos são eficazes mas dificeis de usar sem também destruirem as abelhas. Assim, as formigas devem ser destruídas na origem. É importante, evitar que qualquer ramo de planta se encoste à colmeia, facilitando a passagem das formigas.
Vespas: Grandes inimigas das abelhas. Destruir sem pre que possível os vespeiros com soluções insecticidas. Se os vespeiros se encontrarem em local fechado, pode-se queimar enxofre para as sufocar. A caça aos vespeiros de vespas e vespões é mais fácil durante a noite.
Lagartas e cobras: Também são inimigas das abelhas e devem ser combatidas junto ao apiário.
Ratos: Gostam muito de mel, e por isso devem se combatidos. A utilização de raticida ou ratoeiras junto das colmeias desde que não ponha em perigo as abelhas e animais domésticos é aconselhável.
Aranhas: São inimigas das abelhas, uma vez que constróem teias nas imediações do apiário capturando frequentemente abelhas que acabam por perecer.
Besouros: Conseguem entrar nas colmeias por possuírem uma carapaça quitinosa e invulnerável e alimentam-se de mel.
Borboleta Sfinge caveira: Grandes inimigas das abelhas e grandes apreciadoras de mel. Não são atacadas pelas abelhas por possuírem um a espessa felpa que lhes cobre o corpo, cuja altura é superior ao aguilhão das abelhas.
As abelhas para se defenderem colunas de cera e própolis na entrada das colmeias.
Piolho das abelhas ( Braulea coeca ): Pequenos insectos muito semelhantes à Varroa jacobsoni. Encontram-se em número variável, de 1 a 3, no dorso e tórax das abelhas. Para se alimentarem dirigem-se para junto da boca das abelhas, onde colhem algum alimento.
Combatem-se fumigando com fumo de tabaco, depois de se ter colocado no fundo da colmeia uma folha de papel, que recebe os piolhos como que embriagados que depois se esmagam ou queimam.
Traça ou tinta: Pequena borboleta nocturna semelhante à traça da roupa. Alimentam-se de mel e permanecem no estado larvar de 30 a 100 dias sendo esta a fase mais prejudicial. Como as borboletas são impedidas de entrar na colmeia pelas obreiras, fazem a postura em qualquer fenda da colmeia. Por vezes também fazem a postura, nas anteras das flores e, quando as abelhas colhem o pólen levam sem saber os ovos de « traça » juntamente com o pólen ecloindo posteriormente dentro da colmeia. Estas larvas para além de se alimentarem de mel também se alimentam dos restos das peles das mudas das larvas e das crisálidas das abelhas. Os casulos, onde crisalidam, ficam muitas vezes, sobrepostos, sendo de cor parda, baça, como sacos, arrumados em armazém.
Estas borboletas por ser nocturna pode ser capturada com uma lanterna, cujos vidros se untam com um óleo espesso, ou fazendo uma fogueira onde as borboletas caem depois de terem queimado as asas.
Principais doenças
Podem-se agrupar em duas categorias conforme afectam a criação ou abelhas no estado adulto. A varroose ( em fase de enorme expansão em Portugal ) incide em ambos os estados de vida das abelhas.
Doenças de criação:
Loque americana
Loque europeia
Micoses
Doenças dos adultos:
Acariose
Nosemose
Doença mista:
Varroose
Loque Americana: provocada por uma bactéria ( Bacillus larvae ) que infecta o aparelho digestivo das larvas, matando-as em pouco tempo. O interior dos alvéolos fica preenchido com um líquido viscoso amarelo que com o tempo endurece. As abelhas não conseguem limpar os alvéolos e à medida que a doença se propaga deixa de haver espaço para a postura da rainha e a colónia acaba por morrer.
Esta doença só se manifesta depois dos alvéolos estarem operculados.
Loque europeia: A sua causa é também uma bactéria ( Streptococcus pluton ) que se desenvolve no estômago das larvas durante o estádio inicial de crescimento ( antes da operculação ). As obreiras conseguem controlar a doença até um certo ponto, retirando as larvas mortas para o exterior. No entanto pode haver uma infecção maciça da criação, ameaçando toda a colónia.
Micoses: Os fungos mais comuns que se desenvolvem nas larvas das abelhas são do género Ascophaera e Aspergillus. São ingeridos pelas larvas, desenvolvendo-se no seu interior tomando rápidamente conta do seu organismo. As larvas morrem e apresentam um aspecto bolorento ou granuloso, conforme os casos.
Acariose: doença parasitária provocada por um ácaro muito pequeno ( Acarapis wood ) que se multiplica na traqueia principal da abelha. Como os ácaros se alimentam da hemolinfa, através de perfurações que fazem na parede da traqueia, têm uma forte acção debilitante. As abelhas colocam-se no exterior da colónia, esfregam o abdómen com as patas e imobilizam-se, morrendo de frio.
Nosemose: Infecção provocada por um organismo unicelular denominado Nosema apis, que se desenvolve nas células do intestino do insecto, que ao defecar espalha grande número de esporos. Os sintomas externos desta doença são muito semelhantes aos da acariose, podendo-se por vezes distinguir, quando a abelha apresenta diarreia.
Varroose: Doença que afecta a abelha tanto no estado adulto como durante o desenvolvimento larvar. Surgiu em Portugal à relativamente pouco tempo vinda de Espanha ( 1987 ) e é provocada pelo ácaro Varroa jacobsoni que se confunde facilmente com o piolho da abelha ( Braulea coecca ), podendo no entanto detectar-se diferenças quanto à forma e número de patas através de uma lupa. A Varroa fixa-se no exterior da abelha, preferencialmente nos pontos onde a carapaça é mais fina ( entre os elos abdominais ) fazendo perfurações para sugar a hemolinfa. Para se multiplicar, introduz-se nos alvéolos com larvas e reproduz-se enquanto eles estão operculados e assim as jovens abelhas já nascem debilitadas.
No período inicial de infestação, a varroose não provoca sintomas graves. No entanto, a morte do enxame pode-se dar, de repente, 2 a 3 anos depois da infestação, quando o número de varroas rondar os 10.000.
Nas zonas mais quentes, a morte é mais rápida por não haver paragem de postura.

Fêmeas adultas de V. jacobsoni.

Pupa infestada com V. Jacobsoni.
Características da VARROA:



Varroa jacobsoni – Fêmea adulta
Ácaro castanho-avermelhado, de pequenas dimensões ( a fêmea mede cerca de 1,5 x 1 mm );
Aparelho bucal adaptado para picar e sugar;
Procura zonas moles da carapaça da abelha, onde faz perfurações ( entre os elos abdominais );
Entre os elos abdominais suga a hemolinfa debilitando a abelha.

Varroa jacobsoni – Macho adulto
Como se reproduz:
A criação faz-se no interior dos alvéolos de criação das abelhas, sobretudo no dos zangãos;
As fêmeas entram nos alvéolos 1 a 2 dias antes da operculação e põem um ovo de 2 em 2 dias ( 6-10 ovos );
Em médias dentro de 7 dias surgem novas varroas que, 4 a 13 dias depois podem reproduzir-se;
Alimentam-se sugando a hemolinfa das larvas e das ninfas.
Como é parasitado o enxame: 



Manipulação das colmeias pelo apicultor que contactou com enxames infestados;
Erros de voo de obreiras de colmeias próximas;
Divagação dos zangãos;
As boas condições de desenvolvimento do enxame favorecem o desenvolvimento da varroa;
O período de maior desenvolvimento da varroa é na Primavera, altura da criação dos zangãos;
Depois de parasitado o enxame as larvas das abelhas podem morrer antes da eclosão, e as que nascem apresentam muitas vezes deformações mais ou menos graves;
Importante salientar que esta parasitose favorece o aparecimento de infecções secundárias, enfraquecendo o enxame;
No fim do Verão (depois da postura), no Outono (depois da armazenagem de alimentos) e durante o Inverno, as colónias estão vulneráveis, sendo as alturas em que morre maior número de enxames.
 
Como controlar a Varroose:



Aplicação de acaricida – Tiras de Apistan
Devem-se verificar frequentemente os enxames e observar se estão parasitados.
Os testes fazem-se no principio da Primavera e no Outono, devendo proceder ao tratamento quando o número de varroas for superior a 5%.
Métodos de diagnóstico:
1. Desoperculação dos alvéolos dos zangãos e observação das larvas.
2. Observação da sobreiras. Podem-se matar cerca de 300 abelhas de cada colmeia, por asfixia, dentro de um saco de plástico com pouco oxigénio. Lavam-se com água e detergente ou álcool dentro de um frasco agitando bem. Voltar a agitar passados 20 minutos e coar para um pano branco, através de uma malha larga, para reter só as abelhas. Se existirem varroas contam-se.
3. Armadilhas de rede ou papel engordurado.
4. Utilização de produtos químicos, em conjunto com armadilhas de rede.
Alguns tratamentos homologados em Portugal.
Nome
Sub. activa
Mét. Aplic.
Mat. Necess
Preparação
Dose p/col
Calendário
FOLBEX-VA
Bromopropilato
Fumigação
Tiras de pa-pel fumígeno
1 Tira
4 xs4 em 4 dias
PERIZIN
Cumafos
Contacto *
Dosificador
10/490ml
50 ml
2 xs - 7 dias de intervalo
APISTAN
Fluvalinato
Contacto
Tiras de plástico impregnadas
3 tiras
dte 3 semanas
APITOL
Thiazolina
Contacto *
Dosificador
20g/100ml
100 ml
2 xs - 7 dias de intervalo
* molhar as abelhas