7 de jun. de 2017

Origem dos Equídeos (Cavalos)



Origem dos Equídeos

        Os equinos atuais descendem de animais que habitavam a Terra aproximadamente há 50.000.000 anos, no período geológico conhecido como Eoceno. Estes mamíferos, pouco parecidos com o cavalo atual, possuía 25 a 50 cm de altura (tamanho de uma raposa), dorso ligeiramente arqueado e apoiava-se sobre 4 dedos nos membros anteriores e posteriores. O maior número de dedos capacitava os animais a correrem de maneira segura e eficiente nos campos pantanosos das florestas tropicais, buscando alimento ou escapando dos predadores, saltando e escondendo-se entre os arbustos. Possuía dentes com estruturas simples mais apropriados ao consumo de folhas tenras, brotos e porções carnosas das plantas. Um fóssil desse pequeno animal foi classificado na Inglaterra em 1838 como um roedor, recebendo o nome de Hyracotherium. Mais tarde, em 1876, o Hyracotherium foi comparado a outro fóssil encontrado na América do Norte, denominado Eohippus, quando foi constatado que se tratavam de animais de mesmo gênero. Pelas leis de prioridade do Código de Nomenclatura Zoológica, o nome Hyracotherium prevalece sobre o Eohippus, apesar de que o último nome é amplamente utilizado.
    Outros fósseis da época Oligoceno encontrados na América do Norte constituíram a segunda peça da evolução dos equinos, entre eles dois tipos distintos. O Mesohippus, com aproximadamente 60 cm de altura, três dedos e dentes semelhantes ao seu ancestral que não correspondiam a animais consumidores de pasto. Outro tipo foi o Miohippus, que era muito semelhante ao Mesohippus, mas com maior estatura, o qual acredita-se que tenha migrado para a Europa e, posteriormente, desaparecido.
    O estudo da origem dos equinos na época Mioceno, mostra que estes viviam em três ambientes distintos: terras baixas (Pliohippus), terras altas (Parahippus) e terras desertas (Merychippus) comprovando as notáveis adaptações evolutivas em relação ao tamanho, estrutura esquelética e dentição. No Mioceno, as gramíneas tornaram-se mais abundantes e os herbívoros deixaram de ser consumidores de arbustos para consumirem pastos, havendo necessidade de adaptação dos dentes a este alimento mais fibroso, que promovia maior desgaste dentário.
    Para escapar dos predadores estes indivíduos sofreram transformações anatômicas para adquirir velocidade. No estudo da Osteologia observa-se que no antebraço a fusão dos ossos rádio e ulna determinou a perda de rotação dos membros anteriores. Nos membros posteriores, a tíbia e a fíbula também sofreram fusão semelhante. As articulações dos cavalos começaram a trabalhar num só plano, para frente e para trás, o que permitiu aumento na velocidade quando comparado a outras espécies. O dedo médio tornou-se maior e mais robusto, sendo capaz de suportar o próprio peso, os laterais apesar de apresentarem pequenos cascos não entravam em contato com o solo quando em estação, ainda que isto poderia acontecer quando corria. Os gêneros dessa época possuíam aproximadamente um metro de altura, eram mais esbeltos, mais ativos, inteligentes e atléticos. Restos fossilizados destes animais foram encontrados em praticamente toda a América do Norte.
    Muito semelhante ao cavalo moderno o Pliohippus (Época Plioceno), foi o primeiro gênero a apresentar um só dedo, embora os ossos estilóides (metacarpianos e metatarsianos acessórios) fossem maiores que no cavalo moderno. O Pliohippus mesmo sem apresentar significativas mudanças evolutivas é considerado o antecessor do gênero Equus.
    O Pleistoceno foi a Época do surgimento do homem e simultaneamente do gênero Equus, que difundiram-se por todo o mundo. Fósseis desse gênero foram encontrados na Ásia, Europa, África, América do Norte e América do Sul. O gênero Equus (Época Pleistoceno) difere pouco dos seus antepassados próximos (Pliohippus) e a estrutura dentária é a principal diferença, mais especializada na trituração de pasto por apresentar dentes pré-molares e molares com mesas dentárias mais desenvolvidas.
    Acredita-se que o berço da evolução do cavalo até o gênero Equus foi a América do Norte, pelos inúmeros fósseis dos diferentes gêneros encontrados em diversas regiões como os estados da Flórida, Texas, Montana, Califórnia e Óregon. Apesar desta teoria, quando o Hemisfério Ocidental foi descoberto pelos europeus não existiam cavalos nas Américas, o motivo ainda representa um dos mistérios da história.
    Após a difusão do Equus por todo o mundo, a partir da América do Norte, desenvolveram-se formas distintas desse gênero em diferentes regiões e em diferentes épocas, provavelmente influenciadas pelas grandes variações de altitude, clima, solo e alimentos. Os primeiros equídeos selvagens adaptaram-se bem a vários ambientes como estepes, bosques, desertos e tundras. O Equus caballus (cavalos domésticos) foi encontrado no norte da Ásia e em toda a Europa, o Equus hemionus (Onagro e o Kiang) no centro e sul da Ásia, o Equus asinus (jumentos) no norte da África e as diferentes espécies de zebras, entre elas, Equus zebra, também encontradas na África.

Os cavalos selvagens

    A história recente dos cavalos selvagens é mais obscura que a sua própria origem, pois baseia-se em desenhos encontrados nas cavernas do sul da França. Estes mostram cavalos com características distintas, como o de tipo pesado que representa os animais de tração (ou tiro) e os de sela que é representado por um tipo menor e refinado. Os verdadeiros cavalos selvagens habitavam a Europa e a Ásia, já que haviam desaparecido completamente das Américas no fim do período Terciário.
    A classificação inicial dos cavalos é baseada nos tipos sela e tração, classificados em cavalos orientais e ocidentais. Os orientais, chamados também de "sangue quente" (temperamento ativo), eram cavalos pequenos bem proporcionados, esguios, de membros altos e finos, cabeça pequena com fronte ampla, chanfro curto e estreito, pele fina e perfil cefálico quase sempre reto, poucas vezes subconvexo ou subcôncavo. Denominados Equus caballus orientalis (Tarpã), provavelmente originaram os animais de sela da região do Mediterrâneo.
    Os cavalos ocidentais ou Equus caballus occidentalis, também chamados de "sangue frio" (temperamento calmo), eram grandes, pesados, com abundantes crina e cauda, pelos longos, pele grossa, linhas notadamente convexas e de grande potência, provavelmente originaram os animais de traçãona Europa Central.
    Outro tipo selvagem existente até o final dos anos 80, era o Equus caballus przewalskii, que habitava, em estado puro, o leste asiático próximo à fronteira da Mongólia. Eram animais compactos e pequenos, com 1,30m de altura, com cabeça comprida e larga, crinas curtas e eretas, cor do corpo variando do castanho ao baio, com crina e cauda negras. Contribuiu para formação das raças locais, os cavalos do sul da Rússia e da Mongólia.


A história do homem e o cavalo

    A primeira relação entre o homem primitivo e os equinos foi alimentar, pois os cavalos sempre foram fonte de alimento para diferentes espécies, inclusive para o ser humano. Mais tarde, o homem descobriu outras virtudes nos cavalos além de proporcionar alimento, o que com certeza contribuiu para sua domesticação. A época e o local exato desta domesticação ainda é uma dúvida entre os historiadores, citam a China e a Mesopotâmia, entre os anos 4.500 a 2.500 a.C., como dois desses locais. No ano 1.000 a.C., o cavalo já havia sido domesticado e difundido em quase toda a Europa, Ásia e norte da África.
    Logo após a sua domesticação, o cavalo foi utilizado como poderoso instrumento de conquista, transporte, carga, tração, diversão e de competições esportivas. São incontestáveis os benefícios que a domesticação dessa espécie trouxe para a humanidade, pois todas as grandes conquistas dos diferente povos, desde as mais antigas civilizações até a idade moderna deram-se no dorso dos equídeos. Muitas são as provas desta estreita relação, onde a mitologia e a própria história mostram cavalos imortalizados como Bucéfalo, Roan Barbary, Incitatus e Marengo. Nas conquistas intercontinentais, como por exemplo a colonização das Américas, os cavalos também tiveram presença marcante. Quando os primeiros europeus desembarcaram no "Novo Mundo" trouxeram muitos equídeos que foram os principais recursos desses conquistadores.


COMPARAÇÃO DE TAMANHOS ENTRE ALGUMAS ESPÉCIES ANCESTRAIS DE CAVALOS.

Os ancestrais dos cavalos

Hyracotherium

O primeiro equídeo de que há registo foi classificado pelo nome de Hyracotherium. Era um pequeno animal de floresta nos primórdios do Eoceno, há cerca de 55 milhões de anos atrás – “apenas” 10 milhões de anos depois de se extinguirem os dinossauros.
Este pequeno ancestral do cavalo moderno, que não media mais de 30 centímetros ao garrote, era muito diferente em aparência dos cavalos que vemos hoje em dia. Era na verdade um pouco parecido com um cão: dorso arqueado, pescoço curto, pernas curtas e uma longa cauda.
A sua alimentação baseava-se em frutas e folhagem de árvores. Graças à sua morfologia, este pequeno animal tinha tanta facilidade em saltar como um veado, sendo apenas mais lento e um pouco menos ágil.
Este pequeno equídeo foi em tempos conhecido pelo nome de Eohippus, que significa “cavalo do amanhecer”.


HYRACOTHERIUM

Hyracotherium tinha algumas características que devem ser referidas:
  • Sendo um animal de floresta e de pântano, possuía quatro dedos em cada membro anterior e três em cada membro posterior. Aquilo que é actualmente o casco era uma das unhas, estando ainda presente em alguns cavalos a segunda unha vestigial;
  • A forma como o Hyracotherium apoiava as patas era semelhante á dos cães, exceptuando o facto de ter pequeninos “cascos” em cada dedo, em vez de ter garras;
  • Cérebro pequeno, com lobos frontais especialmente pequenos;
  • Baixa inserção dos dentes, sendo a dentição composta por três incisivos, um canino, quatro pré-molares distintos e três molares “moedores” em cada lado de cada mandíbula (esta é a constituição dentária dos mamíferos mais primitivos). As cúspides dos molares foram ligeiramente unidas em cristas baixas, dentição típica de um animal omnívoro.
Nesta altura da era Eoceno os equídeos não eram muito diferentes dos restantes membros do grupo perissodáctilo. O género em que se inclui o Hyracotherium inclui também outras espécies que podem estar até relacionadas (ou mesmo ser ancestrais) com o rinoceronte e o tapir.
Fazendo uma retrospectiva, o Hyracotherium, apesar de ser bastante primitivo, foi um animal que se adaptou perfeitamente ao meio onde habitava. Aliás, ao longo da maior parte do Eoceno, esta espécie sofreu poucas alterações. O corpo e membros mantiveram-se praticamente inalterados, apenas com ligeiras diferenças nos dedos. A maior alteração deu-se ao nível da dentição. À medida que os equídeos começavam a comer mais plantas e menos fruta, começaram a desenvolver mais dentes de moer, para melhor lidar com o novo tipo de alimentação.


OROHIPPUS

Aproximadamente a meio do Eoceno houve uma gradual transição do Hyracotherium para um parente próximo. O Orohippus era em tudo semelhante ao Hyracotherium, costas arqueadas, pescoço curto, “patas de cão”, focinho curto, etc.
A alteração mais significativa verificou-se nos dentes. O forma do ultimo pré-molar alterou-se, dando ao animal mais um “dente moedor”. A juntar a isto, as cristas nos dentes eram mais pronunciadas, indicando que o Orohippus estava a comer alimento mais rijo.

Epihippus

Epihippus surgiu do Orohippus. Tal como os seus antecessores, possuía ainda bastantes semelhanças com um cão. Cérebro pequeno, quatro dedos nos anteriores e três nos posteriores, patas com almofadas plantares. No entanto a forma dentária continuava a evoluir. Nesta altura os dois últimos pré-molares tornavam-se semelhantes aos molares, proporcionando ao animal cinco “dentes moedores”.
Há uma fase posterior do Epihippus, algumas vezes chamada de Duchesnehippus. Não está provado se seria um sub-género ou uma espécie de Epihippus. Este animal era basicamente um Epihippus com uma dentição semelhante ao mesmo, apenas um pouco mais primitivo do que o posterior cavalo do Oligoceno.

Fim do período Eoceno, inicio do Oligoceno

À medida que se aproximava o Oligoceno (36-23 milhões de anos atrás), a fisionomia dos cavalos começava a sofrer algumas alterações.
O clima da América do Norte estava a tornar-se mais seco, as ervas a começar a desenvolver-se e as vastas florestas estavam a começar a diminuir de tamanho. A resposta dos animais a esta alteração do seu habitat natural foi o desenvolvimento de uma dentição mais resistente, o alargamento do corpo e começaram a surgir animais um pouco mais altos e com membros que lhes permitiam a fuga em caso de necessidade, uma vez que cada vez mais viviam em espaços abertos.


MESOHIPPUS

A espécie Mesohippus celer surgiu “repentinamente” no ultimo período do Eoceno. Este animal era ligeiramente mais largo e mais alto que o Epihippus, medindo cerca de 50 centímetros ao garrote. Já não era tão semelhante a um cão. Tinha o dorso menos arqueado, os membros mais compridos, o pescoço mais longo e mais fino, o chanfro estava também mais largo e mais comprido.
Mesohippus tinha três dedos nos seus posteriores e nos anteriores o que era o quarto dedo estava agora reduzido a uma unha vestigial que com o passar do tempo acabaria por desaparecer.
Outras alterações significativas:
  • Hemisférios cerebrais notoriamente mais largos;
  • Os últimos três pré-molares eram semelhantes aos molares, proporcionando ao Mesohippus um conjunto de seis “dentes de moer” semelhantes, com apenas um pré-molar na frente;
  • Tem as mesmas cristas de dente que o Epihippus, bem-formadas e agudas, mais próprias para moer a vegetação mais resistente.

Miohippus

Pouco depois do aparecimento do Mesohippus celer e do seu parente próximo Mesohippus westoni, surgiu um animal semelhante, o Miohippus assiniboiensis.
Esta transição ocorreu algo “repentinamente”, mas felizmente foram encontrados alguns fósseis de transição que permitiram relacionar os dois géneros. Um Miohippus era notoriamente mais largo do que o típico Mesohippus, possuindo também um crânio ligeiramente mais longo.
Miohippus começou também a apresentar uma crista nos seus dentes superiores. Esta crista tornou-se uma característica nas mais recentes espécies equinas.

Primórdios do Mioceno

Mesohippus acabou por desaparecer a meio do Oligoceno. O Miohippus continuou a existir durante algum tempo tal como era, e logo no principio do Mioceno, há cerca de 24 milhões de anos, começou a modificar-se rapidamente. A família de cavalos começou a separar-se em pelo menos duas linhas principais de evolução e mais um pequeno ramo distinto.
  1. Indivíduos com três dedos em cada membro. Estes indivíduos tornaram-se bastante resistentes, espalhando-se gradualmente pelas planícies. Sobreviveram durante cerca de dez milhões de anos. Mantiveram a dentição do Miohippus. Este género inclui o Hipohippus e o Megahippus;
  2. Uma linha de cavalos pigmeus, que acabaram por não sobreviver durante muito tempo. Eram os Archeohippus;
  3. Uma linha de indivíduos que evoluiu através da alteração dos hábitos alimentares, tirando partido dos novos tipos de pasto.
Grandes planícies começavam agora a surgir, criando uma nova oportunidade aos “comedores de erva”. Estes precisavam de uma dentição forte e resistente, pois este novo tipo de alimentação era mais difícil de mastigar.

O cavalo como animal de planície



PARAHIPPUS

À medida que a terceira linha de cavalos do Mioceno se começava a alimentar unicamente de ervas, diversas alterações começaram a ocorrer, começando obviamente pela dentição.
As pequenas saliências nos dentes começaram a alargar e a formar uma espécie de cristas que ajudavam a moer a comida. Houve um aumento na altura das coroas dos dentes, para que estes pudessem continuar a crescer depois do desgaste do topo do dente, desgaste esse que era provocado pelo movimento continuo de mastigar.
Estes cavalos tornaram-se exímios corredores. Houve um aumento no tamanho do corpo, no comprimento dos membros e no comprimento do chanfro. Alguns ossos que antes estavam unidos por ligamentos começaram a fundir-se. A musculatura das pernas tornou-se ideal para os movimentos de andar para a frente e recuar.
A alteração mais significativa foi o facto de que, a partir de dada altura o cavalo começou a manter-se em “pontas dos pés“, ou seja, em vez de apoiar todos os dígitos no chão (como um cão, por exemplo), passou a apoiar o peso de cada membro sobre um único casco que se desenvolveu com essa finalidade. Esta alteração permitia uma maior velocidade em caso de necessidade de fuga.
Esta foi uma das épocas mais interessantes no que toca á evolução do cavalo. A transições podem ser vistas nos seguintes exemplos.

Kalobatippus

Este género não é dos mais conhecidos, mas o seu tipo de dentição parece ser um meio termo entre o Miohippus e o posterior Parahippus.

Parahippus

Surgiu no inicio do Mioceno. O típico Parahippus era um pouco mais largo que o Miohippus, mas mantendo uma forma corporal semelhante e um tamanho de crânio igual. O Parahippus ainda mantinha os seus três dígitos, mas estava a começar a desenvolver os ligamentos elásticos que seriam de grande utilidade quando fosse um animal com apenas um digito.
Parahippus mostrou modificações graduais nos seus dentes, inclusive o estabelecimento permanente da crista extra que foi tão variável no Miohippus. O Parahippus evoluiu rapidamente até se tornar um cavalo rápido e ágil, ao qual foi dado o nome de Merychippus gunteri.
Os fósseis encontrados de Parahippus (Parahippus leonensis) que foram encontrados, são na verdade tão semelhantes ao Merychippus que se torna difícil traçar uma linha entre os dois géneros.

Merychippus

Um Merychippus media aproximadamente cerca de 80 centímetros, o maior cavalo daquela altura. O chanfro alongou mais um pouco, o maxilar tornou-se mais profundo, os olhos do cavalo “moveram-se” um pouco mais para trás, para dar espaço ás grandes raízes dos dentes, o cérebro aumentou de tamanho, tendo um neocortex fissurado e um maior cerebelo, o que fazia do Merychippus um cavalo mais inteligente e mais ágil do que os restantes.
Meryhippus possuía ainda três falanges, no entanto o peso de cada membro já assentava unicamente sobre um casco, que mantinha o seu movimento através de uma rede de ligamentos bastante elásticos e resistentes. O rádio e o cúbito do antebraço fundiram-se, eliminando assim a rotação do membro. Do mesmo modo a fíbula sofreu uma diminuição no seu tamanho.
Todas estas mudanças ocorreram para que o cavalo em corrida conseguisse ter mais velocidade e agilidade de movimentos, mesmo em terrenos difíceis!

Fins do Mioceno

Nos fins do Mioceno, há cerca de 5 milhões de anos atrás, o Merychippus foi um dos primeiros animais a habitar as planícies. Este animal rapidamente evoluiu e deu origem a 19 novas espécies de cavalos que se dividiram em três grandes grupos.
  1. Os herbívoros de três falanges. Este género era extremamente resistente e adaptou-se bem ao seu novo habitat. O Merychippus dividiu-se em quatro diferentes géneros e cerca de 16 espécies. Estes espalharam-se desde o Novo Mundo até ao Velho Mundo, em várias épocas de migração conjunta;
  2. Uma linha de cavalos mais pequenos que incluía os Protohippus e os Calippus;
  3. Uma linha de “verdadeiros equinos”, nos quais as falanges laterais estavam a diminuir de tamanho. O Merychippus deu origem a duas novas espécies: O M. sejunctus e o M. isonesus. Estes por sua vez deram origem ao M. intermontanusM. stylodontus e M. carrizoensis.
Como esta breve lista mostra, novas espécies surgiram em rápida sucessão, em todos os três grupos. Esta rápida especificação torna difícil determinar exactamente quais espécies surgiram primeiro, ou quais deram origem a quais.
Através de toda a evolução das várias espécies, a fossa nasal destes animais tornou-se mais complexa. As novas espécies que entretanto foram surgindo foram desenvolvendo um certo tipo de glândulas semelhantes ás que possuem actualmente os veados e antílopes.

Cavalos com uma única falange (casco)



PARAHIPPUS

Concentremo-nos agora na linha do Merychippus, linha essa que conduziu aos “verdadeiros cavalos”.
As ultimas espécies desta linha, tais como o M. carrizoensis eram cavalos largos, com pequenas unhas vestigiais na lateral do casco, na linha que divide o casco da quartela. Estes deram origem a dois grupos distintos que com o tempo acabaram por perder as unhas vestigiais. Á medida que estas alterações anatómicas ocorriam, desenvolviam-se ligamentos que tinham como objectivo ajudar a manter o casco estável durante a corrida em terreno difícil.
Este grupo incluía:

Pliohippus

Surgiu a meio do periodo Miocénico como um animal ainda com três unhas. A perda gradual das unhas é visto no Pliohippus através de três diferentes épocas do Mioceno.
Pliohippus era bastante semelhante ao posterior Equus, o que fez com que até recentemente se pensasse que seria o seu antecessor directo. Duas diferenças significativas esclareceram este ponto. O Pliohippus tinha uma fossa nasal bastante funda, enquanto que a do Equus não era tão funda. Além disso, os dentes do Pliohippus eram bastante mais curvados do que os do Equus.
Apesar de o Pliohippus estar relacionado com o Equus não foi uma evolução directa de um para o outro.

Astrohippus

Astrohippus foi um dos descendentes do Pliohippus, outro cavalo que tinha apenas uma unha (casco). Este animal possuía também uma fossa nasal bastante pronunciada.

Dinohippus

E finalmente a terceira geração de cavalos com uma só unha (descobertos recentemente).
O antecessor directo do Dinohippus ainda não é conhecido. As espécies mais recentemente conhecidas são o D. spectansD. interpolatus, e D. leidyanus. Estes já tinham diversas parecenças com a espécie Equus, no que toca á anatomia do casco, dentes e forma do crânio. Os dentes eram ligeiramente mais estreitos do que no Merychippus, e as fossas nasais diminuíram significativamente.
Uma espécie que surgiu um pouco mais tarde foi chamada de D. mexicanus. Esta espécie tinha os dentes ainda mais estreitos e fossas nasais menores.
Dinohippus era o tipo de cavalo mais comum na América do Norte, e acredita-se que tenha dado origem ao Equus (relembremos que o Equus tinha os dentes muito estreitos, direitos e quase não tinha fossas nasais).


EQUUS SCOTTI

Chegamos então ao Equus, a génese de todos os equinos modernos. O primeiro Equus media entre 90 centímetros a um metro mas já possuía um corpo de cavalo.
Coluna rígida, pescoço longo, pernas compridas, alguns ossos dos membros fundidos e sem nenhuma rotação, chanfro comprido, curvilhões baixos. O cérebro era um pouco mais baixo do que no Dinohippus. Tal como o Dinohippus, o Equus era (e é) um animal com uma única unha (casco), possuindo ligamentos elásticos que impedem que o casco torça ou saia do sitio.
Os exemplares do género Equus possuem ainda o código genético que faz com que continuem a surgir unhas vestigiais. Por vez acontece um poldro nascer com unhas completamente formadas, mas de tamanho diminuto.
As mais recentes espécies de Equus conhecidas formavam um grupo de três, conhecido como Equus simplicidens. Estes tinham ainda algumas características primitivas do Dinohippus, tais como uma ligeira fossa nasal. Tinham também listras de zebra e um crânio de burro. Tinham provavelmente crinas duras e erectas, uma cauda com pouco pêlo, membros listrados e alguma perda de pêlo no corpo.
Estes diversificaram- se rapidamente em quatro grupos diferentes, e pelo menos 12 espécies novas. Estas novas espécies coexistiram pacificamente com outras como o Astrohippus, enquanto prosseguiam a sua evolução natural. Durante a primeiro era glaciar (fim do Plioceno, há cerca de dois milhões de anos) várias espécies de Equus migraram para o Velho Mundo.
Algumas entraram em África e deram origem ás zebras que conhecemos actualmente. Outras espalharam se através da África do Norte, evoluindo para espécies adaptadas a condições desérticas. Outras espécies espalharam- se através da Ásia e Europa, mais concretamente aquele que foi considerado o “verdadeiro cavalo”: Equus caballus. Outras espécies Equus espalharam-se pela América no Sul.
Comparemos o Equus ao Hyracotherium e podemos concluir que nunca poderiam ser considerados do mesmo “tipo” pois as diferenças entre ambos sugerem uma evolução a longa escala.

Equinos Modernos



EQUUS FERUS CABALLUS

Gradualmente foram desaparecendo os cavalos com três unhas. A maioria dos cavalos com uma unha, que habitavam na América do Norte acabaram também por desaparecer à medida que tinha lugar uma era glaciar.
No entanto, os exemplares do género Equus conseguíram resistir até cerca de um milhão de anos atrás. O género Equus estava presente por todo o território de África, Ásia, Europa, América do Norte e América do Sul.
No Pleistoceno, na América do Norte e América do Sul houve diversas espécies que se extinguiram, incluindo grandes mamíferos. Todas as espécies equinas que habitavam estas zonas desapareceram, assim como o mamute e o tigre dentes de sabre.
Estas extinções em massa parecem ter sido causadas por uma combinação de alterações climáticas, assim como um excesso de procura e caça destes animais. Pela primeira vez em milhões de anos não havia espécies equinas nas Américas.
Os únicos exemplares do género Equus (e de toda a família Equidae) que sobreviveram:
  • Equus burchelli – A zebra africana, inclui as sub-espécies zebra de Grant, zebra de Burchel’s e a zebra de Chapman’s, o Quagga, etc. Este tipo de zebra é o que se considera a “típica zebra”, com listras verticais largas e listras horizontais no dorso.
  • Equus zebra – A zebra sul-africana. Uma espécie mais pequena e com um padrão diferente da anterior.
  • Equus grevyi – A maior espécie de zebra, com listras muito estreitas e enormes orelhas.
  • Equus ferus caballus – O verdadeiro cavalo, que por sua vez deu origem a muitas outras subespécies.
  • Equus ferus przewalskii – O cavalo de Przewalski, uma subespécie selvagem e rara de cavalo.
  • Equus hemionus – Espécies adaptadas ao deserto, incluindo “onagros”, Equus kiang.
  • Equus asinus – Burros, localizados na África do Norte.

Conclusão



ORIGEM E EVOLUÇÃO DO CAVALO


Para muita gente, a espécie equina é o exemplo clássico de evolução. À medida que mais e mais fósseis de cavalos foram sendo encontrados algumas ideias sobre a evolução destes animais foram mudando, mas os equinos não deixam de ser um bom exemplo quando nos referimos a evolução.
De facto, temos agora fósseis de diferentes espécies e gêneros, que nos permitem avaliar as causas de uma outra outra especificação própria do processo evolutivo.
Além de mostrar que houve de facto uma evolução, o fóssil equida mostra outras características da dita evolução:
  • A evolução não acontece numa linha exata. É como um arbusto que se vai desenvolvendo, sem ter um objectivo predefinido. A evolução do cavalo não teve um sentido inerente. Há a noção de que houve de facto um desenvolvimento da espécie porque acontece apenas um dos gêneros estar vivo, o que leva algumas pessoas a pensar que a evolução tinha como objectivo esse gênero específico. A evolução equina é um ramo bastante diversificado, que está amplamente descrito nos livros e textos de biologia.
  • Não há nenhuma “tendência” verdadeiramente consistente. Seguir uma linha desde o Hyracotherium até ao Equus mostra que várias alterações se foram dando, tais como a redução do numero de dígitos, aumento do tamanho dos dentes e modificação dos mesmos em prol da mudança de alimentação, alongamento do chanfro, aumento do tamanho do corpo. Mas estas alterações não se verificam em todas as linhas de evolução. A tendência principal foi o aumento da altura dos exemplares, no entanto há espécies que não respeitam esta regra, ou seja, que diminuíram de tamanho em relação aos seus antecessores (ArcheotippusCalippus). Alguns cavalos desenvolveram fossa nasal, outros perderam-na. Estes traços não evoluíram necessariamente juntos ou de uma forma constante. Por exemplo, durante todo o período eocénico os membros mudaram muito pouco e somente os dentes evoluíram. Durante o período miocénico dentes e extremidades (dos membros) evoluíram rapidamente. As taxas de evolução dependem das pressões ecológicas que a espécie tem que enfrentar.
  • Novas espécies podem surgir através de mecanismos evolucionários diferentes. Por vezes as espécies podem afastar-se das características dos seus antecessores (ex: Miohippus do Mesohippus) e passar a co-existir com os mesmos. Outras espécies podem surgir através de uma alteração genética nos seus antecessores. Por vezes apenas um ou duas espécies surgiam, ou então haviam longos períodos sem surgir nenhuma nova espécie (ex. em todo o período Eocénico só o Hyracotherium existiu), outra vezes haviam um vasto leque de novas espécies, quando as condições ecológicas o permitiam.
De novo a evolução ocorre de acordo com as pressões ecológicas a que estão sujeitas os indivíduos das várias espécies e nas variações ocorridas dentro das várias espécies.
A evolução acontece no mundo real, com variações diversas, não podendo ser reduzida a um processo simples e único.






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4 de jun. de 2017

Criação de Gado Leiteiro (Resumo)



Este Agrodok fornece informação sobre os aspectos principais da criação de gado leiteiro nas regiões tropicais, como sejam a alimentação, seleção, cuidados de saúde, reprodução e registo. Este manual é dirigido a produtores agropecuários em pequena escala, que seguiram uma formação e que têm certo conhecimento de gado leiteiro. O segundo grupo-alvo é constituído por pessoal técnico, como sejam extensionistas e peritos de produção animal, que podem ajudar, como
assessores, os produtores agropecuários em pequena escala com planos de começar ou melhorar a produção leiteira.
Uma produção de 1500 até 3000 kg de leite por vaca por ano parece factível para produtores em pequena escala, que também é o nível de produção suposto para a temática deste livro. Uma combinação dum melhor maneio e uma melhoria genética do rebanho também pode contribuir para um aumento da produção de leite. Contudo, os produtores que têm apenas poucas vacas, com um intervalo prolongado entre os partos e uma mortalidade elevada de vitelos, terão poucas oportunidades para a seleção de bezerras de substituição. Para além disso, uma criação seletiva pode ser difícil, particularmente se a escolha de sêmen ou dos touros for limitada. Recomenda-se recorrer ao aconselhamento de peritos dum centro de reprodução animal, caso houver.
Este manual é o produto duma cooperação intensiva entre os três autores, que, conjuntamente, contam com mais de 100 anos de experiência na produção de leite e no desenvolvimento leiteiro na África, Ásia, Europa e América Latina. Gostaríamos de expressar os nossos sinceros agradecimentos a todos que participaram na produção deste Agrodok incluindo os homólogos que contribuíram com uma leitura crítica.
Aproveitamos também para agradecer em especial a Paul Snijders pelas suas contribuições para os Capítulos 2 e 3, e a Richard Burnie, que fez as ilustrações. 
Esperando que este Agrodok ajude os produtores a rentabilizarem a sua produção leiteira, gostaríamos de incentivar comentários, sugestões, acrescentamentos e críticas dos leitores. 


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28 de mai. de 2017

Mercado, Comercialização e Coeficientes Técnicos na Produção de Leite



Mercado e Comercialização

Mercado de Leite de Derivados

As mudanças do início da década de 90, com a abertura da economia, liberação de preços e o plano de estabilização, trouxeram modificações importantes para toda a cadeia agroindustrial do leite, aumentando os investimentos no setor. O novo cenário foi reforçado com a implementação do Plano Real em 1994, aumentando o mercado consumidor e viabilizando aumentos de produção.
Uma das mais significativas mudanças ocorrida no mercado de lácteos trata da importância assumida pelos supermercados como pontos de distribuição, a partir principalmente da entrada do leite longa vida (ou UHT) no mercado, que veio atender às exigências de comodidade e conveniência do consumidor, cada vez mais consciente de seus direitos.
A demanda por leite e derivados pode ser aumentada por diversos fatores, entre eles o aumento de população, crescimento de renda, redução de preços relativos, mormente, de produtos concorrentes ou substitutos, e mudanças nos hábitos alimentares. Na realidade a demanda é alterada por diversos fatores que podem ocorrer simultaneamente.
A queda da renda da população nos últimos 25 anos pode ser mostrada tomando os valores do salário mínimo como referência. Na média, o salário mínimo reduziu-se cerca de R$ 9,00 ao ano a preços de dezembro de 2001. Isto representa uma perda real de poder aquisitivo do consumidor com impactos relevantes no consumo de produtos lácteos, que se altera significativamente com as mudanças nos níveis de renda da população. Contudo, no início do Plano Real houve crescimento do salário mínimo representando maior potencial de compra e com fortes impactos na demanda por produtos lácteos, durante 1994 a 1997.
O aumento populacional configura um aumento de demanda por alimentos, incluindo o leite e seus derivados. O crescimento da população no período de 1960 a 1999 foi de 2,32% , muito aquém do crescimento da oferta de leite e derivados. Uma melhoria de renda proporcionada pelo aumento do salário mínimo a partir de 1994, ano inicial do Plano Real, proporcionou uma elevação de consumo de leite. Os dados são mostrados na Tabela 11. Após 1998, o consumo de leite se estabiliza ao redor de 130 litros/hab./ano.
Pode-se argumentar ainda que a demanda da indústria de transformação é dependente do consumidor final e do conjunto de produtos lácteos que ele consome. No caso brasileiro, segundo houve mudanças substanciais na demanda e no conjunto de produtos ofertados e consumidos. Destaca-se o crescimento do leite longa vida e o crescimento dos produtos de maior valor agregado como queijos, iogurtes e sobremesas. A Tabela 12 mostra as variações nas vendas e nos preços de produtos lácteos.

Tabela 11. Consumo de leite no Brasil, 1985/2000.
Ano
Consumo
(litros/habitante/ano)
Aumento (%)
1985
94
-
1990
107
12.15
1991
112
4.46
1992
108
-3.70
1993
107
-0.93
1994
113
5.30
1995
124
8.87
1996
135
8.15
1997
129
-4.65
1998
130
0.77
1999
130
0.00
2000
129
-0.78
Fonte: Banco de Dados Econômicos da Embrapa Gado de Leite.

Além da mudança no mix dos produtos ofertados e substancial redução de preços, ocorreu após o Plano Real a abertura econômica, que levou a uma elevação dos requerimentos de qualidade advindos da comparação entre produtos nacionais e importados, e maior conscientização do consumidor a respeito de saúde e segurança alimentar.

Tabela 12. Variações na venda e nos preços de derivados de leite (1996 – 1998).
Produto lácteo
Vendas (%)
Preços (%)
Leite asséptico
106
-11
Leite flavorizado
43
-8
Petit-suisse
35
-15
Creme de leite
27
-12
Sobremesas gelificadas
23
-6
Iogurte
19
-14
Leite condensado
18
-10
Leite em pó
9
-21
Doce de leite
8
-16
Fonte: Acnielsen (1998), citado por Martins (2001).

Destaca-se que a redução dos preços dos produtos lácteos representa a incorporação de parcelas da população no mercado e estímulo ao consumo daqueles que já participavam dele. Em outras palavras, representa, em termos agregados, um aumento de renda real para os consumidores. A Tabela 12 também mostra a mudança do conjunto  dos produtos lácteos consumidos pelos brasileiros, representando uma mudança de hábitos de consumo ao incorporar produtos de maior valor agregado, com graus de sofisticação maior e características de conveniência bastante peculiares.
Em resumo, os agentes que atuam na cadeia de lácteos devem promover modificações rápidas para se adequar aos requerimentos do mercado globalizado, inclusive com vistas a exportação . As mudanças mais importantes são a definição dos requerimentos de qualidade superior, aumento da oferta de produtos de maior valor agregado, racionalização da coleta por meio da granelização, concentração da indústria, requerimentos de escala e profissionalização da produção primária.
Em relação ao mercado externo, sabe-se que o Brasil é um tradicional importador de produtos laticínios, chegando a importar até 30% do leite consumido no País. Em média importou-se cerca de 10% da produção nacional nos últimos anos. A partir de 1995 observa-se uma clara tendência de redução nos gastos com importação de lácteos e simultaneamente uma ligeira evolução na receita com exportações, valor que chegou a representar quase um quarto do volume importado em 2001, conforme a Tabela 13. Considerando a falta de tradição do País neste mercado, estes são dados que apontam um novo caminho que pode, de certa forma, revolucionar o setor produtivo do leite nacional.
O potencial produtivo do setor e suas vantagens comparativas em relação a outros países produtores e tradicionalmente exportadores é muito grande e deverá ser trabalhado intensamente, tanto pelo Governo como pela iniciativa privada, a partir de então. A implementação da Portaria 56/99 do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, que regulamenta o Programa Nacional de Qualidade do Leite, deverá ser uma das primeiras iniciativas do Brasil visando ganhar a credibilidade dos principais e maiores centros importadores de derivados de leite no mundo.

Tabela 13. Exportações e Importações de Leite e Derivados pelo Brasil.
Ano
Exportações
(US$ 1.000 FOB)
Importações
(US$ 1.000 FOB)
1995
9.776
620.109
1996
24.983
523.276
1997
19.394
466.894
1998
25.817
518.969
1999
15.658
445.426
2000
24.974
378.620
2001
42.778
183.020
Fonte: ABIA – SECEX, disponível em www.abia.org.br

Coeficientes técnicos na produção de leite

Coeficientes técnicos são valores numéricos que expressam uma relação física entre a quantidade de insumo gasta para produzir uma certa quantidade de leite. Em geral, no cálculo dos coeficientes técnicos, tanto os insumos como o leite são quantificados considerando o período de um ano. Este é o tempo normalmente considerado para analisar os resultados técnicos e econômicos de uma empresa com a produção de leite estabilizada.

Exemplo
Suponhamos que os números abaixo foram anotados em uma fazenda para o período de um ano:
  • Produção total de leite: 547.500 litros.
  • Mão-de-obra usada nos serviços de rotina (trato e cuidados com o rebanho, ordenha, limpeza de instalações, máquinas e equipamentos, etc): três adultos diariamente (3 x 365 dias = 1.095 d.h.);
    d.h. significa um dia-homem ou um dia de serviço prestado por um trabalhador adulto.
  • Ração (concentrados) para 75 vacas em lactação: 246.375 Kg
  • Fertilizantes para a produção de 1.600 toneladas de silagem e para as forragens verdes:
sulfato de amônio
14.000 Kg
superfosfato simples
14.000 Kg
cloreto de potássio
3.600 Kg
calcário
40.000 Kg
Considerando apenas estes insumos a título de exemplo, têm-se os seguintes coeficientes técnicos:
  • Mão-de-obra de rotina (manejo do rebanho): 1.095 d.h./547.500 litros = 0,002 d.h./litro.
  • Sulfato de amônio: 14.000 Kg / 547.500 litros = 0,0256 Kg/litro.
  • Superfosfato simples: 14.000 Kg / 547.500 litros = 0,0226 Kg/litro.
  • Cloreto de potássio: 3.600 Kg / 547.500 litros = 0,0066 Kg/litro.
  • Calcário: 40.000 Kg / 547.500 litros = 0,0731 Kg/litro.

Os coeficientes técnicos podem ser expressos em diferentes unidades para melhor atender à comparação ou à análise que for feita. Por exemplo, desejando-se saber quanto de mão-de-obra de manejo é necessário para produzir 1.000 litros de leite, basta multiplicar por 1.000 o coeficiente para produzir um litro, ou seja, 0,002 d.h. x 1.000 = 2 d.h/1.000 litros.
Semelhante ao exemplo acima, pode-se calcular todos os coeficientes técnicos para os mais diversos e numerosos insumos utilizados no sistema de produção de leite objeto de análise. De posse da lista de todos os coeficientes técnicos, pode-se calcular e atualizar o custo de produção de leite por meio de planilhas de custo.
Não se deve confundir o coeficiente técnico, que é uma relação de insumo gasto para produzir certa quantidade de produto, com o índice ou indicador de produtividade. Neste caso a relação, também física, é da quantidade produzida por unidade de insumo. No exemplo acima, o índice de produtividade da mão-de-obra é de 500 litros por 1 d.h. Em outras palavras, o trabalho de 1 d.h. resulta na produção de 500 litros de leite, neste caso (500 litros/1 d.h.).




22 de mai. de 2017

Manejo Sanitário das Vacas Leiteiras



O manejo sanitário correto deve iniciar com atenção para as anotações das ocorrências dentro do rebanho. Somente com os dados passados é que podemos analisar e tomar iniciativas para suprimir ou implementar medidas que possam auxiliar o manejo sanitário do rebanho. Sem estas informações, não podemos melhorar os índices zootécnicos dos animais.
Para melhor visualizar o texto, os itens ficarão subdivididos da seguinte forma:


Vacas gestantes

Como ponto de partida, uma vaca gestante nos dois últimos meses de gestação deve encerrar a lactação, isto é, deve-se fazer com que ela interrompa a produção de leite para que a glândula mamária possa descansar, preparar-se para próxima lactação e produzir um colostro de boa qualidade. Se for uma novilha, esta preparação vem naturalmente, já que ela nunca pariu.
Em torno de vinte a trinta dias antes do parto, este animal deve ser levado para a maternidade, a qual deve ser de preferência um pasto próximo ao curral, facilitando a observação diária. No caso de confinamento total, deverão ir para uma baia-maternidade. O fato de ter uma maternidade vai facilitar alguma interferência que for necessária no decorrer do parto. Por observação na maternidade, conclui-se que, em rebanhos nos quais se faz a observação no parto, os problemas são resolvidos de forma mais rápida e com maior sucesso e menor índice de natimortos.
Neste período a fêmea deve receber a mesma dieta que irá receber após o parto, com restrição do sal mineral. É muito importante que neste período isto ocorra pois permite que os microorganismos do rúmen se adaptem à dieta que vai ser ingerida durante a lactação.
É bom lembrar que neste período final de gestação o animal sofre as maiores transformações. Geralmente ficam mais pesados, o que dificulta a locomoção e reduz a capacidade de competição exigindo, portanto, maiores cuidados.

Parto

No parto o animal perde em média 80 kilos de peso entre o feto, líquidos fetais e as membranas que envolvem o próprio feto. Isto acarreta uma mudança muito brusca que ocorre em poucas horas, levando a um certo desconforto para o animal. É um momento de muito estresse quando pode aparecer inúmeros problemas para os quais devemos ficar atentos.
Devemos interferir o mínimo no parto. Os partos-problemas, isto é, aqueles chamados distócicos, ocorrem com pouca freqüência e, neste caso, a interferência humana deve causar o mínimo de danos possível, tanto à vaca quanto ao bezerro. Contudo, uma pequena ajuda para evitar complicações não fará mal algum. Os casos mais graves, porém, devem contar com acompanhamento ou supervisão de um médico-veterinário. É comum pessoas sem treinamento adequado intevir de forma inadequada e acabar causando mais problemas, e, quando chegam a chamar o veterinário, a chance de resolver o problema já diminuiu drasticamente. A decisão de chamar o veterinário deve ser tomada o quanto antes.

Colostro

Após o nascimento, o bezerro deve permanecer junto à mãe por pelo menos 24 horas. Sabemos que o bezerro junto à mãe, mama de 12 a 15 vezes ao dia. Estas mamadas permitem que o colostro passe muitas vezes pelo aparelho digestivo, aumentando a superfície de contato do colostro com a parede intestinal, favorecendo, assim a absorção de imunoglobulinas (anticorpos). Por outro lado, podemos fornecer o colostro de forma artificial, oferecendo dois litros, duas vezes por dia, com intervalo próximo de 12 horas. O importante é que o bezerro beba em torno de 10% do seu peso em colostro, nas primeiras 24 horas. 
O bezerro nasce sem proteção de anticorpos contra os agentes de doenças. A forma de adquirir estes anticorpos (defesa) é ingerindo o colostro. O colostro é o primeiro produto produzido pela glândula mamária no início da lactação. É uma rica fonte dos anticorpos que foram produzidos nos dois últimos meses de gestação. Após o nascimento, é imperativo que o bezerro beba o colostro o quanto antes para que ele adquira estes anticorpos. A capacidade de absorver os anticorpos fornecidos pela mãe no interior do aparelho digestivo do bezerro é, aproximadamente, nas primeiras 36 horas. Essa capacidade de absorção tem como pico máximo entre seis e dez horas, quando começa a diminuir gradativamente até a trigésima sexta hora. A partir deste ponto, o colostro continua sendo um alimento muito rico e deve ser aproveitado pelo bezerro e outros do mesmo plantel que são tratados de forma artificial, porém perde a importância como fonte de anticorpos.
De outra forma, uma das funções do colostro é ajudar na primeira descarga intestinal, isto é, ajuda a expelir as primeiras fezes, que é o chamado mecônio. O mecônio são fezes amarelas pegajosas de difícil eliminação, portanto, sendo o colostro um leve laxante, vai ajudar nesta eliminação. Neste período devemos interferir somente se houver necessidade. Na maioria das vezes, esta intervenção é desnecessária. Uma das vantagens da maternidade é a possibilidade de observação do recém-nascido e qualquer problema que surgir neste local facilita o socorro.
O excesso de colostro pode e deve ser dado para os outros bezerros. Neste caso ele não tem função de fornecedor de anticorpos, pois bezerros mais velhos perdem a capacidade de absorção dos anticorpos, mas, como alimento é até mais rico que o próprio leite. É bom lembrar que como o colostro tem uma função laxativa, para fornecer aos outros bezerros o melhor é diluir em outra quantidade de leite para não causar males de desarranjo aos bezerros mais velhos

Corte e cura de umbigo

A cura de umbigo deve ser feita com um desinfetante e um desidratante. Uma solução que se tem usado com sucesso é o álcool iodado, que pode ter uma variação de 6 a 10%. O curativo deve ser feito todos os dias, por três a quatro dias. Se correr tudo bem, o coto umbilical cairá por volta do nono dia.

Forma de ordenha

De acordo com o manejo adotado, o qual pode ser com ou sem o bezerro ao pé, vamos ter condutas diferentes para cada modalidade.
Com o bezerro ao pé, este fica à disposição na hora da ordenha para vir e apojar. Feito isso, ao acabar a ordenha, o bezerro é solto com a mãe para retirar o leite residual. Pode ser separado imediatamente após o esgotamento total do leite, ou permanecer junto até a hora da apartação à tarde. Este manejo não é o mais recomendado pois, neste caso, o bezerro mama o leite que poderia ser aproveitado na ordenha da tarde. Este tipo de manejo apresenta algumas vantagens, porém as desvantagens estão em supremacia.
Por outro lado, se alimentamos os animais de forma artificial, o contato da mãe com o bezerro não existe. Isto facilita a mão-de-obra e tem-se um maior controle do que o animal está ingerindo, contudo traz todos os transtornos da criação de órfãos. Esta prática permite a observação individualizada, dando a oportunidade de se tomar atitudes mais rápidas para sanar os problemas que aparecem.
Num sistema de criação, com ou sem bezerro ao pé, devemos estar sempre atentos aos problemas que podem surgir. É bom chamar a atenção para a escolha do local para o criatório de bezerros. Este local deve ser de fácil acesso, bem drenado e que se evite a canalização de ventos constantes. Tem que ser um local que, após uma chuva, seque com poucos dias de sol. Tem que ter alguma inclinação para o escoamento das águas e dejetos excessivos.

Diarréias

Uma doença comum que acomete os bezerros nesta época é a diarréia. O animal com diarréia se caracteriza por apresentar fezes líquidas que pode ter as mais variadas aparências, desde amarela viva, passando por esverdeada, preta e vermelha, até mesmo com sangue vivo. Não se pode dar um diagnóstico seguro do causador da diarréia, pela cor das fezes, mas podemos checar a alguns componentes destas fezes e daí conduzir o tratamento com melhor eficiência.
Mas a grande importância desta enfermidade é levar o animal à desidratação que normalmente é a causa principal da morte. O animal apresenta a doença, fica triste, não se alimenta de forma adequada, muitas vezes apresenta respiração acelerada e vai aos poucos apresentando sinais de desidratação, como pele seca, olhos fundos, entre outras. Por fim, as extremidades apresentam baixa temperatura e logo a seguir ele morre.
Neste caso, quando forem observados os primeiros sinais de desidratação, devemos socorrer o mais rápido possível, dando mais líquidos para este animal. Podemos lançar mão da hidratação oral em primeira mão. Podem surgir casos de diarréia de causa nutricional, quando os animais não estão habituados com certo tipo de alimentação, por exemplo, nova ração que pode estar contaminada por fungos ou outros microorganismos. Nos casos mais graves, a presença de um veterinário é necessária.

Micoses

Outra enfermidade comum nesta época é o aparecimento de micoses. Existe um tipo de micose denominado "tinha", que causa lesões de placas arredondadas que aparecem comumente na região da cabeça e pescoço. São placas de tamanho variado, em geral de forma arredondada, muito comum em criatório coletivo. Normalmente não causa maiores danos e pode ser tratado com certa facilidade. A utilização de tintura de iodo tem efeito satisfatório, desde que aplicada todos os dias, até o desaparecimento das lesões. Esta enfermidade é mais comum em ambientes de grande concentração de animais. Em bezerreiros coletivos, onde os bezerros permanecem muito tempo juntos, o aparecimento de "tinha" é comum.

Tristeza parasitária

Agora, ainda existe uma certa proteção dada pelo colostro e os animais começam a desenvolver a parasitose de carrapatos. É o momento em que os primeiros sintomas da tristeza parasitária começam.
A tristeza parasitária é transmitida pelos carrapatos e insetos hematófagos como moscas e pernilongos. A tristeza é causada por dois agentes parasitários: o Anaplasma e a Babesia. A anaplasmose é causada pelo Anaplasma marginale e a babesiose é causada pela babesia sp. A babesia é transmitida pelos carrapatos e a anaplasma pelos insetos hematófagos. Ambas são doenças que causam anemia grave, podendo, com freqüência, levar os animais à morte. No campo é muito difícil diagnosticar estas doenças separadamente com certeza absoluta. O tratamento para a tristeza parasitária deve ser realizado assim que os primeiros sintomas forem observados. Temos no mercado vários tipos de medicamentos que são utilizados para o tratamento desta doença. Esta deve ser uma recomendação do veterinário assistente na propriedade. Quanto mais precoce o tratamento, melhor a recuperação.

Verminose

A partir dos três meses de idade, podemos estar atentos às verminoses, as quais acometem os bovinos jovens. Bovinos com idade até dois anos são muito sensíveis às verminoses e por isto devem receber atenção especial nesta fase, que é de grande desenvolvimento.
Como as larvas de vermes estão disseminadas nas pastagens, os animais sob pastejo normal estão continuamente se infectando. Para que esta convivência esteja sob controle, devemos combater os vermes de forma estratégica. Se sabemos que estas larvas de vermes estão espalhadas nas pastagens, temos que atacar de forma que estejamos com mais vantagens.
Em geral, no Brasil, na época de temperatura fria, que coincide com a seca, as pastagens estão em seu pior momento, com o capim sem desenvolvimento, de porte baixo, e as larvas não têm como sobreviver de forma normal. Neste caso, então, a maior população de vermes está dentro dos animais. Assim sendo, esta é a melhor época para se combater estes vermes.
Se "vermifugarmos" os animais no inicio, meio e fim da época seca, estaremos fazendo um excelente controle destes parasitas, de forma econômica e eficiente. O uso de vermífugos com poder residual maior, como as avermectinas, pode facilitar este controle estratégico, exigindo apenas duas "vermifugações", sendo uma no início e a outra no fim de seca. Outra forma é, a partir de três meses de idade, "vermifugar" todos os animais, mensalmente, até a idade de um ano. Esta estratégia tem bom retorno financeiro.

Vacinação

Basicamente, temos, dentro de um programa sanitário, algumas vacinas de uso obrigatório.
A vacinação contra a brucelose é obrigatória somente para as fêmeas na idade entre três e oito meses de idade.
Não se pode vacinar estas fêmeas a partir desta idade pois a titulação do exame pode ser positivo para o resto da vida e este animal é considerado positivo e o destino certamente é o abate.
Outra vacina obrigatória é a da febre aftosa, que deve ser aplicada de acordo com a região do pais, como indicado pelos órgãos de defesa sanitária do estado.
A vacinação contra o carbúnculo sintomático deve ser realizada em todos os animais acima de três meses de idade, sendo repetida de seis em seis meses até os dois anos de idade. É nesta idade que os animais estão mais sujeitos a desenvolver esta enfermidade. Como característica, é uma doença que afeta os animais com melhores escores corporais.
Outra vacinação importante é a contra a raiva, que deve ser aplicada anualmente, principalmente em regiões de surto, quando grande parte do rebanho pode ser afetada pela doença.
Existe no mercado um número grande de vacinas contra várias doenças, como leptospirose, rinotraqueíte infecciosa dos bovinos - IBR, diarréia bovina a vírus - BVD, mamite, campilobacteriose, colibacilose e outras tantas que devem ser indicadas para cada caso e pelo veterinário responsável pelo rebanho. Cada caso vai exigir uma conduta específica de acordo com a recomendação do veterinário.

Controle de carrapatos

Uma das doenças mais importantes que afeta nossos rebanhos é a carrapatose. É uma doença que causa enormes prejuízos e grande desconforto para os animais, prejudicando o seu desenvolvimento e produção. Os carrapatos, além dos problemas que normalmente causam, transmitem doenças que afetam de forma drástica o animal. Estas doenças são a babesiose e a anaplasmose que fazem parte do complexo “tristeza parasitária”.
Um grande complicador no combate aos carrapatos é que não podemos eliminá-los do rebanho, pois apesar de transmitir a tristeza parasitária, são eles que mantêm os níveis de anticorpos contra esta doença. Os carrapatos inoculam constantemente os agentes da tristeza parasitária nos bovinos. Assim, eles estão sempre sendo estimulados a produzir anticorpos contra a tristeza parasitária.
Por outro lado, é imperativo que nossa vigilância esteja sendo levada com seriedade, pois qualquer descuido, a população de carrapatos pode aumentar de tal forma que pode levar alguns animais à morte. É comum, em propriedades descontroladas, que os animais estejam tão afetados que comecem a emagrecer, não tenham o rendimento esperado e cheguem ao extremo de morrer.
Uma proposta de controle é o estratégico, que consiste em banhar os animais de forma a não deixar o desenvolvimento de teleóginas por um período de 120 dias. No Sudeste este controle deve ser realizado na época de maior calor, que coincide com a época das chuvas, quando aumenta também a umidade relativa do ar. A partir de dezembro, começa um pico de crescimento do carrapato que deve ser combatido por banho carrapaticida. Estes banhos devem ser realizados a cada 21 dias, com um total de cinco a seis banhos. Este combate deve cobrir um período de 120 dias sem que haja desenvolvimento de teleóginas. Este banho pode ser dado por aspersão ou pour on. Se o carrapaticida utilizado tiver maior tempo residual, estes banhos podem ser mais espaçados com intervalos de 35 dias. O importante é combater os carrapatos de maneira que não permita o desenvolvimento de teleóginas.
A forma de dar banho pode variar com o produto. Em geral o banho por aspersão requer em torno de quatro a cinco litros de solução por animal adulto. O animal tem que ser molhado totalmente desde a cauda até a ponta do focinho. Um dos grandes problemas que encontramos nos banhos carrapaticidas é que as partes baixas e as reentrâncias da pele, muitas vezes, não ficam bem molhados e os carrapatos que ali estiverem não sofrerão os efeitos do veneno. Estes carrapatos vão se desenvolver e contaminarão as pastagens, prejudicando de forma drástica o controle destes parasitas.
Quando formos banhar o rebanho, devemos atingir todo o contingente no menor espaço de tempo. Por exemplo, não é recomendado que se banhe os animais solteiros numa semana e os de leite na semana seguinte. Além de termos um controle muito trabalhoso dos animais que foram banhados, pode acontecer de um deles trocar de lote e ser o contaminador daquele pasto. O ideal é que se banhe todo o rebanho no máximo em três dias.
Um agravante do combate aos carrapatos é durante a época em que se tem a maior precipitação pluviométrica. Quando os animais tomam banho carrapaticida e logo após são atingidos por uma chuva, dependendo do produto utilizado, este é lavado e perde o efeito. Neste caso o controle é interrompido e não se alcançam os resultados esperados. Este é um dos grandes causadores de insucesso do combate estratégico dos carrapatos.
Outro que se deve chamar a atenção é que os banhos não foram dados de forma adequada, tanto em quantidade quanto em qualidade, não atingindo todos os pontos do corpo do animal. Há uma variação enorme da quantidade gasta pelos proprietários para banhar seus rebanhos. Esta quantidade varia de meio litro até oito litros por animal. Como se há de convir, com meio litro de calda não é possível banhar todo um animal adulto. Por outro lado, oito litros para banhar um animal está se desperdiçando o produto.
Um dos grandes problemas que encontramos nas propriedades é a forma de se dar banho. Quando se faz uso de aspersores, os costais são o vilão da história. Com uma capacidade para 20 litros de calda, que daria para banhar entre quatro e cinco animais, temos visto que nas propriedades, com mesma quantidade de calda, o funcionário banha até 40 animais. Conclui-se que este banho foi mal dado. Este problema vem da bomba que é pesada, o trabalho realizado pelo operador é pesado e, por esse motivo, os três primeiros animais têm banhos melhores, nos outros vem o cansaço e o operador não agüenta mais, então, não consegue trabalhar adequadamente, fugindo do objetivo.
É muito comum, nestes casos, as pessoas reclamarem do produto. Muita vezes há troca do produto sem que se preocupe com o princípio ativo que pode, com freqüência, ser o mesmo que o anterior. Às vezes, no segundo banho com o mesmo produto, o operador consegue um melhor sucesso. O motivo é, simplesmente, porque houve maior capricho no banho.
Outra ação comum é a troca constante de base medicamentosa, sem critério. Isso ocorre sempre que não se tem sucesso com os tratamentos. Mesmo assim, apesar da troca por outra base, o vilão continua sendo o banho mal realizado.
Todos estes cuidados devem ser observados na hora de planejar o controle estratégico. Qualquer erro, em qualquer fase, pode comprometer seriamente o sucesso.

Controle de mamite

A mamite é a inflamação da glândula mamária. É causada pelos mais diversos agentes. Os mais comuns são as bactérias dos gêneros estreptococos e estafilococos. Outros agentes causadores de mamites são os coliformes.
É preciso trabalhar preventivamente no controle de mamite, pois esta é uma doença que surge repentinamente. Sendo uma doença de manejo, para se fazer uma prevenção adequada, é preciso considerar todo o manejo da propriedade. Quando os índices dessa doença se elevam, significa que uma ou mais ações dentro do manejo está sendo executada de forma inadequada. Vale ressaltar que as mamites ambientais são esporádicas e podem acometer qualquer dos animais em lactação.
Dentro deste manejo da propriedade, devemos levar em consideração todo o processo realizado diariamente dentro da propriedade, desde quando os animais estão no pasto, vão para a ordenha e voltam para o pasto.
Não importando a forma de ordenha, seja ela mecânica ou manual, deve ser observado a condução de todo o processo, pois um dos grandes causadores de mamite é quando a ordenha não é bem conduzida. No processo com ordenha mecânica, os equipamentos devem ser conduzidos como recomendado pelos fabricantes. As trocas de peças e borrachas têm que ser executadas dentro do prazo recomendado, assim como o nível de vácuo, pois tanto o excesso como a falta deste vácuo são grandes fatores predisponentes para o aparecimento de mamite. Esses são alguns exemplos do que pode causar a presença da mamite.
Existem vários testes que podem auxiliar no diagnóstico da mamite. O “CMT” (California Mastitis test) é um teste que pode ser realizado no campo, muito prático. Porém, deve ser executado por profissional treinado. A contagem de células somáticas “CCS” é outro exame que é usado para o diagnóstico da mamite, o qual é feito em laboratório. Estes dois meios de diagnóstico são utilizados para diagnosticar a mamite subclínica. Esta mamite ocorre com certa freqüência nos rebanhos. É a mamite que não podemos enxergar a olho nu, porém ela é a precursora da mamite clínica. A mamite clínica é aquela que se pode ver a olho nu.
Outro teste que pode auxiliar no diagnóstico da mamite é a cultura. Toma-se uma porção do leite afetado e faz-se uma cultura em laboratório. Este exame é utilizado para identificar o causador da mamite.
O teste prático mais eficiente é o teste da caneca telada ou de fundo escuro. Esse é o teste que se deve fazer a cada ordenha. Ele detecta a mamite clínica nos primeiros jatos de leite. Quando a mamite clínica aparece, há um depósito de leucócitos (células de defesa) no canal da teta e estes leucócitos formam grumos que são visualizados logo nos primeiros jatos de leite. Estes primeiros jatos devem ser depositados na caneca de fundo escuro ou telada onde os grumos serão visualizados com mais facilidade. Devido o contraste do fundo da caneca com os próprios grumos, estes ficam mais aparente. Neste caso, estamos diante da mamite clínica.
No caso de mamite clínica, o animal deve ser retirado do recinto e ser ordenhado mais tarde, após os animais sadios. Dependendo da gravidade da mamite, o animal deve ser ordenhado fora do local de ordenha para não contaminar o ambiente. Se a mamite for crônica, o animal deve ser descartado.
No caso de controle adequado da mamite, pode-se utilizar a linha de ordenha onde primeiramente são ordenhadas as vacas sadias, depois as que já tiveram mamite e foram curadas e, no final, aquelas que estão com mamite e em tratamento.
O tratamento das vacas com mamite varia de acordo com o caso apresentado. Em geral, os tratamentos devem ser precedidos de ordenhas sucessivas: em torno de quatro no período do dia. Se for o caso de necessidade de medicamento, tratar somente após a última ordenha do dia.
As vacas secas devem ser tratadas com medicamentos próprios para esta fase. Existe no mercado vários medicamentos para tratamento preventivo de vacas neste período de descanso. É bom lembrar que estes medicamentos nunca devem ser utilizados para tratar mamites comuns, pois eles são próprios para a prevenção da mamite no período seco.

Cascos

Uma das grandes preocupações em todos os criatórios de bovinos são os cascos. A importância dos cascos na locomoção do animal é vital. Qualquer problema que possa vir a acontecer com os cascos pode comprometer de forma drástica a produção.
São muitas causas que prejudicam os cascos. Dentre as várias que podemos citar, temos como muito importante a alimentação e o desgaste que ocorre, principalmente, em animais confinados. Em animais não confinados, quando chega a estação chuvosa, época em que o barro é abundante, há um amolecimento dos cascos que favorece o desgaste deles. Estes fatores somados levam ao aparecimento de vários problemas que afetam diretamente os animais.
Animais que têm os cascos comprometidos podem apresentar inúmeros problemas, mas um dos que mais chamam a atenção é a reprodução. Os animais afetados não só têm perda de peso como não demonstram cios. Esta perda afeta diretamente o intervalo entre partos, além de ser comum a perda total do animal.