19 de out. de 2016

Pastagens Adubadas para Produção de Carne


Pastagens Adubadas para Produção de Carne

As pastagens constituem-se na forma mais prática e econômica de alimentação de bovinos, sendo que o Brasil, pela extensão da sua área territorial e pelas condições climáticas favoráveis, apresenta enorme potencial de produção de carne em pastagens. Porém, estima-se que cerca de 80% dos 45 a 50 milhões de hectares da área de pastagens nos Cerrados do Brasil Central, que responde por 60% da produção de carne nacional, apresentam algum grau de degradação (Barcellos, 1996).
A degradação das pastagens pode ser decorrente de vários fatores (p. ex., espécie forrageira não adaptada às condições locais, mau estabelecimento e manejo inadequado), sendo que a redução da fertilidade do solo, em razão dos nutrientes perdidos no processo produtivo (por exportação no corpo dos animais, erosão, lixiviação, fixação e acúmulo nos malhadouros) está entre os mais importantes (Kichel et al., 1997). De acordo com Werner (1994), a redução da disponibilidade do nitrogênio é uma das principais causas da degradação das pastagens tropicais, o que resulta em queda acentuada da capacidade de suporte da pastagem e do ganho de peso vivo dos animais a cada ano de utilização. Uma alternativa no caso do nitrogênio, em sistemas pouco intensivos, seria o uso de pastagens tropicais consorciadas. Todavia, essa tecnologia ainda constitui-se em desafio para a pesquisa.
Essa situação tem contribuído para que a pecuária de corte apresente, há décadas, índices zootécnicos muito baixos, com lotação das pastagens em torno de 0,5 UA/ha/ano e produtividade na faixa de 100 kg de peso vivo/ha/ano (uma unidade animal, UA, equivale a um animal de 450 kg de peso vivo). Há, portanto, necessidade de se evitar a degradação das pastagens e também intensificar a sua produtividade, a fim de tornar a pecuária de corte, principalmente nas terras mais valorizadas, mais rentável e mais competitiva frente a outras alternativas de uso do solo.
A produtividade animal em pastagens é determinada por dois componentes básicos: desempenho por animal (ganho de peso vivo) e capacidade de suporte (número de animais por unidade de área). O desempenho animal é função da ingestão de matéria seca, da qualidade da forragem e do potencial genético do animal utilizado, e a capacidade de suporte é função do potencial de produção de matéria seca da forrageira e da eficiência de colheita (Boin, 1986).
Quanto ao desempenho animal, a média do ganho de peso vivo, nas águas, está na faixa de 0,6 a 0,8 kg/animal/dia, podendo chegar a até 1,0 kg/animal por dia (Corsi, 1993).
Embora a média de ganho diário de peso vivo obtida normalmente nas pastagens tropicais não alcance a proporcionada pelas forrageiras temperadas, a produtividade animal pode ser alta, em razão do grande potencial de produção de matéria seca das espécies tropicais durante o período das águas.
Para a expressão desse potencial, é necessário considerar que as gramíneas forrageiras são tão ou mais exigentes do que as culturas agrícolas tradicionais (Silva, 1995). Dessa forma, para a exploração intensiva das pastagens nos solos de cerrado, a correção do solo e a adubação estão entre os fatores mais importantes a determinar o nível de produção das forrageiras.

Como iniciar o sistema

No intuito de elevar a produtividade da pecuária de corte, a Embrapa Pecuária Sudestevem manejando forrageiras tropicais das espécies Panicum maximum (cultivares Tanzânia e Mombaça), Brachiaria brizantha (braquiarão) e Cynodon dactilon(cultivar Coastcross), sob sistema intensivo rotacionado. Essa técnica permite aproveitar o potencial máximo de crescimento das forrageiras tropicais durante o verão, quando a lotação é ajustada em função do crescimento do capim, evitando ao máximo as perdas decorrentes do subpastejo ou do superpastejo.
O pecuarista deve ter em mente que as pastagens no sistema intensivo rotacionado deverão ser tratadas como uma cultura agrícola, à qual se aplicam os nutrientes para que a forrageira atinja todo o seu potencial produtivo. Esse sistema pode ser implantado em pastagens já formadas, apenas corrigindo a fertilidade do solo, ou em áreas formadas especificamente para esse fim.
A decisão da escolha da área deve estar baseada em vários fatores, tais como:
  • Tipo de gramínea;
  • Estande;
  • Topografia;
  • Infra-estrutura;
  • Custo de implantação de uma nova área; e
  • Fertilidade original do solo.

Tipo de gramínea

As forrageiras mais comuns e que podem ser utilizadas sob manejo intensivo são: capim-braquiária, capim-braquiarão, capim-colonião, capim-tanzânia, capim-tobiatã, capim-mombaça, capim-coastcross, capim-estrela e capim-tifton.
O produtor deve dar preferência às pastagens adaptadas à sua região, que apresentem condição de responder mais rapidamente às adubações e não estejam em processo de degradação.
Gênero Brachiaria
Teve papel extremamente importante no Brasil, pois viabilizou a pecuária de corte nos solos ácidos e de baixa fertilidade, predominantes na região dos Cerrados, e constitui ainda hoje a base das pastagens cultivadas brasileiras. Além disso, propiciou o desenvolvimento de expressiva indústria de semente, colocando o Brasil como o maior exportador desse insumo para o mundo tropical (Valle et al., 2000).
As principais características das cultivares em uso no Brasil são apresentadas na Tabela 7.1.

Gênero Panicum
Panicum maximum Jacq. é uma das espécies de plantas forrageiras mais importantes para a produção de bovinos nas regiões de clima tropical e subtropical, sendo a cultivar Colonião a mais difundida e de introdução mais antiga no Brasil. A demanda por sementes dessa cultivar vem diminuindo, em virtude de lançamentos de novas cultivares mais produtivas. O uso e o interesse por plantas pertencentes ao gênero Panicumtêm crescido nos últimos anos, provavelmente em virtude de seu grande potencial de produção de matéria seca por unidade de área, ampla adaptabilidade, boa qualidade de forragem e facilidade de estabelecimento.
Dessa forma, já foram lançados no Brasil, por diversas instituições de pesquisa, várias outras cultivares de Panicum maximum, tais como: Tobiatã, Vencedor, Centenário, Centauro, Aruana, Tanzânia, Mombaça e Massai.
As cultivares de Panicum maximum Jacq. disponíveis comercialmente são basicamente adaptadas a solos profundos, bem drenados e de boa fertilidade. O cultivo dessas espécies em solos que não satisfazem essas condições e que não recebem adequado suprimento de nitrogênio, tem levado freqüentemente à má formação, ou, mais comumente, à baixa persistência sob pastejo, com conseqüente perda da capacidade produtiva e necessidade de medidas corretivas de recuperação em curto prazo (Herling et al., 2000).
As principais características das cultivares em uso no Brasil são apresentados na Tabela 7.2.
Tabela 7.2. - Principais características das cultivares de Panicum em uso no Brasil.
Atributo
Colonião
Tanzânia
Mombaça
Aruana
Massai
Tobiatã
Centenário
Vencedor
Cobertura do solo
-
-
-
-
Alta
-
-
-
Tolerância a solos ácidos
Baixa
Baixa
Baixa
Baixa
Média
Baixa
Alta
Alta
Tolerância a baixa fertilidade de solo
Baixa
Baixa
Baixa
Baixa
Média
Baixa
Alta
Alta
Resposta à adubação
Alta
Alta
Alta
-
-
Alta
Média
Média
Qualidade da forragem
Alta
Alta
Alta
Alta
Média
Alta
Alta
Alta
Tolerância a cigarrinha
Baixa
Média
Média
-
Alta
Baixa
-
Baixa
Facilidade de manejo
Baixa
Média
Baixa
-
-
Baixa
-
-
Tolerância a frio e seca
Alta
-
-
Alta
Alta
-
-
-
Produção de silagem
-
-
Adequado
-
-
-
-
-
Tolerância a pastejo intensivo
-
-
-
Alta
Alta
-
-
-
GêneroCynodon
O gênero Cynodon se apresenta como mais um recurso forrageiro para as regiões tropicais e subtropicais. Existem duas espécies principais:C. dactylon(L.) Pers. (capim-bermuda), e Cynodon nlemfuensis Vanderyst var. nlemfuensis (capim-estrela). No grupo das bermudas, vários híbridos estão disponíveis: Coastcross, Florakirk, Tifton 44, Tifton 68 e Tifton 85. No grupo das estrelas estão disponíveis as cultivares: Florico, Florona e Ona. No Brasil, as áreas de pastagens com o gênero Cynodonsão pouco representativas em relação às áreas com os gêneros Panicum e Brachiaria. Além disso, as informações sobre Cynodon no Brasil são escassas e estão mais relacionadas com a cultivar Coastcross (Vilela & Alvim, 1998). Esta espécie, nas condições brasileiras, tem apresentado, sob adubação, elevada produção de forragem de boa qualidade, sendo usada tanto na forma de pastejo como na forma de feno.

Estande
O estande representa a população de plantas por área, portanto, o produtor, ao escolher a área, deve levar em consideração o percentual de cobertura da planta forrageira existente na pastagem.
De maneira geral, pastagens com estande de 70 a 80% da forrageira selecionada podem ser recuperadas para utilização no sistema de pastejo intensivo rotacionado. A recuperação, nesse caso, se dará por meio de correção da fertilidade e adubações em cobertura, não necessitando do preparo convencional de solo. O produtor deve estar atento para que a área escolhida esteja livre de plantas invasoras e pragas, como cupins e formigas.

Topografia

As áreas planas ou com pequeno declive apresentam vantagens em relação às áreas de maior declive, pois facilitam a distribuição de corretivos e adubos, favorecem o rendimento da mecanização, reduzem a perda de insumos e são, em regra, áreas onde o solo é menos susceptível à erosão.
A localização e a distância dessas áreas em relação à estrutura de apoio são aspectos importantes que irão influenciar na facilidade do acompanhamento do sistema.

Infra-estrutura

Como forma de diminuir o custo de implantação, sempre que possível, devem ser aproveitadas as áreas que já estejam cercadas e que disponham de água com facilidade de acesso e distribuição.

Custo de implantação de uma nova área

Outro ponto a ser considerado é o custo de implantação ou de renovação da área destinada ao manejo intensivo. Em geral, o custo de formação de novas áreas alcança, em média, o dobro do custo da recuperação de áreas já existentes. Portanto, a decisão entre reformar ou recuperar as áreas de pastagem deve ser criteriosa e orientada por técnico especializado.

Fertilidade original do solo

A fertilidade do solo da área a ser escolhida é fator que deve ser considerado. Quanto maior for a fertilidade, tanto menor será a quantidade de insumos (calcário e adubo) necessária para a intensificação, com retorno mais rápido do capital investido.

Implantação da pastagem

Boa formação do pasto é essencial para o sucesso de sistemas de produção animal em pastagens. Dentre as causas de insucesso na implantação de pastagens, podem-se citar: métodos incorretos de semeadura; espécies forrageiras inadequadas; tipo de solo inadequado; baixo vigor e baixo valor cultural das sementes; equipamentos para semeadura mal regulados ou inadequados; época do ano em que é feito o plantio; pragas e doenças; falta de umidade no solo; cobertura insuficiente da semente; cobertura demasiada da semente; formação de crostas no solo; falta de corretivos e fertilizantes; drenagem insuficiente; e presença de plantas invasoras.
Dessa forma, para boa formação do pasto, os seguintes itens devem ser observados: escolha da espécie ou cultivar; escolha da área; preparo do solo; época de plantio; calagem e adubação de formação; qualidade e quantidade de mudas ou sementes; e método de plantio.
A escolha da espécie ou cultivar e da área deve ser feita levando-se em consideração as características descritas no item 7.1. Em áreas de maior declividade, é importante a adoção de técnicas de conservação do solo, como a construção de terraços.
O preparo do solo deve ser feito de forma a criar condições ideais para a germinação das sementes e para o crescimento da planta. Como as sementes de gramíneas forrageiras são, de modo geral, muito pequenas, o preparo adequado do solo (evitando o preparo excessivo e a degradação física) é muito importante a fim de permitir maior contato da semente com as partículas de solo. Esse processo irá facilitar, também, a colocação das sementes em profundidade adequada. Para a maioria das espécies forrageiras, a profundidade de plantio recomendada é de 2 a 4 cm.
As forrageiras tropicais devem ser plantadas durante o período chuvoso e quente do ano, quando as condições climáticas são mais favoráveis ao desenvolvimento das plantas. Na região Sudeste do Brasil, recomenda-se que este seja realizado entre novembro e janeiro.
A necessidade de calagem e adubação em áreas de pastagens intensivas será discutida no item 7.3. É importante ressaltar que as gramíneas forrageiras, de modo geral, respondem bem à adubação fosfatada no momento da implantação.
A aquisição de boa semente ou muda é essencial para o sucesso da implantação. A semente deve ser de procedência idônea, para evitar a contaminação do solo com plantas daninhas indesejáveis e garantir a integridade genética da espécie ou cultivar adquirido. A escolha da semente deve ser feita com base em sua qualidade. Esta pode ser determinada por meio de procedimentos específicos de análise, em que serão determinados a pureza física, a presença de plantas daninhas, e o vigor e o valor cultural das sementes. É importante ressaltar que o valor cultural da semente, de modo isolado, não é um bom critério de escolha. Sementes com alto valor cultural, porém contaminadas com determinadas espécies invasoras ou com vigor muito baixo devem ser evitadas.
A densidade de semeadura varia de acordo com a espécie forrageira. Na Tabela 7.3 é mostrada a densidade de semeadura recomendada para algumas gramíneas tropicais.
A semeadura pode ser feita nos sulcos, utilizando-se semeadoras de sementes miúdas, ou em superfície, utilizando-se calcareadoras. O plantio com semeadoras é mais indicado. Neste caso, o espaçamento entre linhas deve ser de 20 cm. Após o plantio, é interessante que seja feita a compactação da semente para aumentar o contato dela com o solo. Essa operação pode ser feita com o auxílio de rolos compactadores ou com o próprio rodado do trator.
Para as gramíneas que não produzem sementes, como os cultivares dos gêneros Cynodon, a formação é feita por via vegetativa. Nesse caso, devem-se utilizar mudas maduras e sadias, colhidas de locais livres de pragas, doenças e plantas daninhas. Mudas jovens, pequenas e tenras não devem ser utilizadas, pois desidratam rapidamente no sulco. Para o plantio de espécies do gênero Cynodon,as mudas devem ser colhidas com cerca de 110 dias e serão necessários 2,5 t/ha de mudas para plantio no sulco, 3,0 t/ha de mudas para plantio em covas e 4,0 a 5,0 t/ha para plantio a lanço (Rodrigues et al., 1998). O mais indicado é o plantio em sulcos, que devem ser feitos com 50 a 100 cm de espaçamento, a 5 a 15 cm de profundidade. Nesse caso, dois terços da muda devem ser enterrados, deixando-se o terço apical sobre o solo.

Adubação de pastagens intensivas

Para a obtenção de elevada quantidade de forragem, é necessário considerar que as gramíneas forrageiras são tão ou mais exigentes do que as culturas tradicionais (Silva, 1995). Dessa forma, para a exploração intensiva das pastagens nos solos de cerrado, a correção e a adubação estão entre os fatores mais importantes a determinar o nível de produção das forrageiras. Tendo em vista a baixa fertilidade dos solos de cerrado, é necessário que se estabeleçam, inicialmente, níveis de fertilidade a serem alcançados, como possibilidade de viabilização técnica e econômica, dada a gradual capacidade de resposta dos solos no processo de recuperação.
Um aspecto importante é realizar a correção e a adubação de forma equilibrada, mantendo a proporcionalidade entre os nutrientes Ca+2, Mg+2e K+, no complexo coloidal do solo, em 65 - 85% de Ca+2, 6 - 12% de Mg+2, 2 - 5% de K+ e 20% de H+(Silva, 1995).

Calagem

Segundo Lopes (1983), Corsi & Nussio (1993) e Vitti & Luz (1997), a calagem deve ser a primeira prática de correção para inserir os solos de cerrado no processo produtivo, reduzindo a acidez, fornecendo Ca e Mg, aumentando a eficiência das adubações e a capacidade de troca catiônica (CTC). Trabalho de Lopes (1983) mostra a necessidade de calagem para elevar o pH dos solos de cerrado a valores acima de 5,5, para, efetivamente, ativar a formação de cargas negativas da fração orgânica do solo, aumentar a CTC e reduzir o potencial de perdas de cátions por lixiviação. Quanto ao critério da calagem, no Estado de São Paulo é utilizado o método da saturação por bases, em que a recomendação de calcário é obtida pela equação: NC = [(V2 - V1) x T / [PRTN x10], sendo: NC = necessidade de calcário (t/ha) para a profundidade de 0 - 20 cm; V1 = saturação por bases atual (baseada no resultado da análise do solo); V2 = saturação por bases desejada; T = CTC a pH 7,0 e PRNT = poder relativo de neutralização total do calcário (%).
No caso de pastagens exploradas intensivamente, é indicado atingir valores de saturação por bases em torno de 70% (Vitti & Luz, 1997) e/ou superiores (Corsi & Nussio, 1993), mantendo assim o pH acima de 5,5.
A calagem na formação das pastagens é feita de forma semelhante à das culturas tradicionais, realizada 30 a 90 dias antes do plantio, de acordo com o PRNT do calcário e, parceladamente ou não, antes e após a aração, de acordo com a quantidade a ser utilizada. A fonte indicada é o calcário dolomítico e/ou magnesiano, que fornece Ca e Mg.
Após a formação da pastagem, em sistemas intensivos, as adubações, principalmente com sulfato de amônio, uréia e nitrato de amônio, aceleram o processo de acidificação, havendo necessidade de calagens de manutenção, que deverão ser realizadas em cobertura, após o período das águas.

Adubação com Fósforo (P)

A deficiência de P nos solos de cerrado é generalizada, o que compromete principalmente o estabelecimento das pastagens em virtude do seu papel no desenvolvimento do sistema radicular e no perfilhamento das plantas. Nessa situação, a adubação fosfatada é considerada de vital importância, ocorrendo, de modo geral, maiores respostas em produção até a faixa de 200 kg de P2O5/ha (Corrêa et al., 1997a; Corrêa et al., 1997b). As fontes mais eficientes são as solúveis, tais como o superfosfato simples (20% de P2O5), o superfosfato triplo (46% de P2O5), o fosfato monoamônio - MAP (50% de P2O5), e o fosfato diamônio - DAP (46% de P2O5), vindo a seguir os termofosfatos (18% de P2O5) e os fosfatos parcialmente acidulados (25 a 30% de P2O5). Os fosfatos naturais brasileiros praticamente não contém P solúvel em ácido cítrico a 2% ou em água, não sendo indicados, principalmente em sistemas intensivos de exploração das pastagens.
De modo geral, são indicados teores de P no solo (método da resina) de 10 ppm (Werner, 1971) e 20 ppm (Monteiro, 1994), cujas variações são, provavelmente, função do nível de exploração, potencial produtivo do solo e espécie forrageira.
Embora após o estabelecimento, com o maior desenvolvimento do sistema radicular das plantas, a resposta ao P seja inicialmente menos acentuada, em virtude da maior contribuição do P nativo (Corrêa & Freitas, 1997), há necessidade da adubação fosfatada de manutenção, a fim de garantir a produtividade e o teor mais adequado de P na forragem. Essa adubação é feita em cobertura, junto com as outras adubações, e sua dosagem dependerá do nível de exploração e da dose de P aplicada no estabelecimento. Embora o P tenha baixa mobilidade no solo, pastagens, principalmente sob alta adubação, apresentam intenso desenvolvimento de raízes ativas na superfície do solo, o que permite a absorção eficiente do P aplicado em cobertura (Corsi & Nussio, 1993).

Adubação com Potássio (K)

As gramíneas forrageiras são relativamente exigentes em K, sendo necessária a adubação com esse nutriente, principalmente em sistemas intensivos de exploração das pastagens, de modo a não limitar a resposta ao nitrogênio. De modo geral, o K deve ser elevado para níveis de 2 a 5% da CTC (Silva, 1995), dependendo principalmente do nível de exploração da pastagem. Teores de K menores do que 1,5%, na parte aérea das plantas, têm sido associados à deficiência desse nutriente no solo.
A principal fonte de K é o cloreto de potássio (60% de K2O), que deve ser aplicado parceladamente junto com a adubação nitrogenada. A relação N:K2O de 1:1 tem sido indicada inicialmente nas adubações, quando os teores de K no solo são muito baixos. Em sistemas intensivos de exploração de pastagem, com a maior reciclagem do K por meio de partes mortas das plantas, perdas de pastejo, fezes e urina, esta relação poderá ser alterada com o tempo.

Adubação com Enxofre (S)

Os teores de S são freqüentemente baixos, principalmente em solos arenosos e pobres em matéria orgânica. Desta maneira, a adubação com S será necessária principalmente em pastagens exploradas com elevados níveis de nitrogênio e com adubos que não contenham esse nutriente (uréia, MAP, DAP, nitrato de amônio, nitrato de cálcio).
De modo geral, é recomendada a relação N:S na adubação de pastagens de 5:1 (Malavolta, 1982). Também, as necessidades de S para gramíneas forrageiras tropicais podem ser avaliadas pela análise do tecido foliar (Vitti & Novaes, 1986). Relações N:S na parte aérea > 20 têm sido associadas com deficiência desse nutriente e relação N:S = 11 a 13 e teor de S > 1,5% g/kg (0,15% ou1,5 g/kg) são considerados adequados.
O enxofre poderá ser fornecido juntamente com outros adubos, como o sulfato de amônio (24% de S), superfosfato simples (12% de S) e fosfatos parcialmente acidulados (6% de S). Outra fonte disponível é o gesso, que contém de 15% a 16% de S, sendo recomendada a aplicação mínima de S de 30 a 40 kg/ha/ano, em pastagens bem supridas com nitrogênio e fósforo (Monteiro, 1995).

Adubação com Nitrogênio (N)

O nitrogênio é o nutriente geralmente mais deficiente no solo e o mais importante em termos de quantidade necessária para maximizar a produção de matéria seca das gramíneas forrageiras e, como conseqüência, propiciar maior lotação e maior produção de carne por hectare.
Cerca de 98% do N presente no solo é proveniente da matéria orgânica, todavia, em razão da baixa taxa de mineralização nos solos, 10 a 40 kg de N/ha/ano (Guilherme et al., 1995) não são suficientes para sustentar elevadas produções, pois as gramíneas forrageiras tropicais têm potencial para responder a até 1800 kg de N/ha/ano (Chandler, 1973), com respostas lineares a até 400 kg de N/ha/ano, dependendo do solo, da espécie e do manejo. Todavia, a maior eficiência do seu uso somente ocorrerá quando os demais nutrientes estiverem em níveis adequados no solo e a pastagem for manejada adequadamente para que os animais aproveitem a forragem produzida.
As principais fontes de nitrogênio são: uréia (45% de N), que apresenta menor custo/kg de N, mas maior perda de N por volatilização; sulfato de amônio (20% de N), maior custo/kg de N, maior poder de acidificação, menores perdas de N, além de ser fonte de S; nitrato de amônio (33% de N), maior custo/kg de N, higroscópico, menores perdas de N; e nitrocálcio (20 a 25% de N), maior custo/kg de N, muito higroscópico, menores perdas de N, e menor poder de acidificação.
A aplicação do adubo nitrogenado, no caso do pastejo rotacionado, deve ser feita em cobertura, após a saída dos animais de cada piquete e em seqüência, de acordo com o período de ocupação. Assim, as aplicações são repetidas quatro a seis vezes em cada piquete, nas águas, de acordo com o período de descanso da pastagem.
Indicações gerais de correção e adubação, para iniciar a exploração intensiva em solos de cerrado de baixa fertilidade, são: calagem, para elevar a saturação por bases acima de 60%; adubação fosfatada, para elevar o teor de P no solo (método da resina) para 10 - 15 ppm; e adubação de produção, em torno de 1000 kg/ha da fórmula 20-5-20 ou similar, aplicada parceladamente quatro a seis vezes durante as águas; aplicação preventiva de micronutrientes (40 a 50 kg/ha de FTE BR-12 ou similar, a cada três anos); e calagem posterior (1 a 1,5 t de calcário/ha na seca).

Adubação com Micronutrientes

Com relação ao uso de micronutrientes em pastagens exclusivas de gramíneas, é relativamente pequeno o número de trabalhos experimentais e estes praticamente não mostram resposta à sua aplicação. Todavia, em sistemas intensivos de exploração das pastagens, a resposta provavelmente ocorrerá, em virtude dos baixos teores nos solos de cerrado, da maior extração pelas plantas, do uso de adubos mais concentrados e da condição de pH mais elevado, o que diminui a disponibilidade de alguns micronutrientes para as plantas.
Os micronutrientes mais deficientes nos solos de cerrados são o zinco, o boro e o cobre. Monteiro (1995) sugere (por ha): 3 a 5 kg de bórax, 4 a 6 kg de sulfato de cobre, 6 a 15 kg de sulfato de zinco e 0,2 a 0,3 kg de molibdato de sódio. Na Embrapa Pecuária Sudeste, em sistema intensivo de pastagens de gramíneas, tem sido utilizado de forma preventiva o FTE BR12 (9% de Zn, 1,8% de B, 0,80% de Cu, 3% de Fe, 2% de Mn e 0,10% de Mo), na dose de 50 kg/ha, a cada três anos. É um produto insolúvel em água, com liberação lenta dos micronutrientes, podendo ser aplicado junto com a adubação fosfatada no plantio e/ou com as adubações de produção.

Manejo de plantas forrageiras dos êneros Panicum, Brachiaria e Cynodon

Os principais objetivos do manejo das pastagens são assegurar a longevidade e a produtividade da planta, além de fornecer alimento em quantidade e qualidade para atender às exigências nutricionais de ruminantes (Silva et al., 1998).
O manejo das espécies forrageiras está relacionado às suas características morfológicas e fisiológicas, estando também interrelacionado com a rebrota, com a composição botânica e com a produção animal pretendida (Maraschin, 1988).
Em pastagens, as plantas forrageiras estão sujeitas a desfolhas consecutivas, cuja freqüência e intensidade dependem principalmente da estratégia de manejo utilizada.
Existem dois métodos clássicos de pastejo, com suas variações: o contínuo e o rotacionado.

Pastejo com lotação contínua

No pastejo com lotação contínua, os animais permanecem na mesma área durante toda a estação de pastejo ou durante o ano. As plantas forrageiras do gêneroBrachiaria, principalmente aB. decumbense aB. humidicola, e as do gêneroCynodonpodem apresentar bom desempenho sob pastejo contínuo, pois esse sistema é mais adequado para plantas de crescimento prostrado, estoloníferas e/ou rizomatosas, que apresentam intenso perfilhamento e ritmo acelerado de produção de folhas.
Gomide et al. (1997), com base em estudos preliminares com lotação contínua em Brachiaria decumbens, recomendaram manter a altura da pastagem entre 20 e 40 cm. Outra forma de se ajustar o manejo é por meio da disponibilidade de forragem. Euclides et al. (1993), em pastejo continuo, verificaram que em pastagens de Brachiaria decumbens Brachiaria brizanthao ponto de máximo ganho por animal foi de 500 g/dia com disponibilidade de MVS (matéria verde seca) de 1000 kg/ha. Esse valor foi estimado por esses autores como sendo o limite mínimo, abaixo do qual o desempenho animal é limitado pela disponibilidade de forragem.
No caso de plantas forrageiras do gênero Cynodon, os trabalhos de pesquisa feitos na Universidade da Flórida têm recomendado, de forma geral, manter a altura de pastejo entre 15 e 25 cm. Por outro lado, Hill et al. (1993) sugerem que pastagens de Tifton 78 e Tifton 85 devem ser manejadas com disponibilidade de forragem ao redor de 2500 kg de matéria seca por hectare. Já para os capins do grupo estrela (Florico e Florona), que são de porte mais elevado do que os capins do grupo bermuda, é indicado manter altura de pastejo acima de 30 cm (Mislevy et al., 1989a, b).
A vantagem do método de pastejo com lotação contínua é a possibilidade de se obter desempenho animal mais elevado, em vista da oportunidade que o animal tem de exercer pastejo seletivo. Todavia, quando se trabalha com oferta elevada de forragem com gramíneas tropicais, com o avançar da estação de pastejo ocorre o acúmulo de material morto, o qual passa a contribuir negativamente para a produção futura do pasto (Penati et al., 1999).
Assim, à medida que se intensificar a produção das pastagens com essas forrageiras, o pastejo rotacionado também passa a ser indicado, por permitir controle do resíduo pós-pastejo de forma mais adequada.

Pastejo rotacionado

Com a elevada produção de forragem obtida sob adubação intensiva, o sistema de pastejo rotacionado, que se caracteriza pela mudança periódica e freqüente dos animais de um piquete para outro dentro da mesma pastagem, é o mais indicado, por garantir maior uniformidade e melhor eficiência de pastejo e maior controle do estoque de forragem. Esse sistema facilita, assim, a determinação da oferta de forragem ótima, que é definida em termos de quilogramas de matéria seca de forragem ofertada por dia por 100 kg de peso vivo (% PV). Essa avaliação é importante, pois não são desejáveis nem o excesso de animais em relação à forragem disponível (superpastejo), porque interfere na produção animal e prejudica a rebrota das plantas, nem a falta de animais (subpastejo), porque propicia perdas de forragem.
O pastejo rotacionado é também indicado, independentemente da intensificação, para espécies forrageiras de hábito de crescimento ereto, tais como as cultivares de Panicum maximum e a Brachiaria brizanthacv. Marandu (Penati et al., 1999).
O número de piquetes de cada pastagem será função do período de descanso (PD) e do período de ocupação (PO), que pode ser obtido pela equação: Número de piquetes = (PD/PO) + 1. O período de ocupação deve ser de curta duração, de um a três dias, para garantir melhor rebrota das plantas e facilitar o controle da lotação da pastagem. O período de descanso varia conforme a espécie forrageira, para obter melhor equilíbrio entre produção e qualidade da forragem (Tabela 7.4).

A altura do resíduo, embora não seja tão preciso, é um indicador prático para evitar o subpastejo e o superpastejo. Na Tabela 7.5, é sugerida a altura de resíduo para algumas forrageiras dos gênerosPanicum, BrachiariaeCynodon. A altura varia com as espécies forrageiras, de acordo com suas características morfofisiológicas. O subpastejo significa perda de forragem e excesso de sombreamento na base das plantas, o que pode comprometer o perfilhamento. Além disso, resíduo excessivo compromete as características estruturais da pastagem, a qualidade da forragem e a produtividade por hectare (Gomide & Gomide, 2001). O superpastejo, por outro lado, influencia negativamente a produção animal e pode comprometer a rebrota das plantas e a sua persistência.
Exemplo de Sistema Intensivo de Produção de Bovinos de Corte em Pastagens na Embrapa Pecuária Sudeste, em São Carlos, SP
As pastagens foram estabelecidas em Latossolo Vermelho-Amarelo e Vermelho-Escuro distróficos, que apresentavam, inicialmente (1994), 2 ppm de P (método da resina) e 12% de saturação por bases (V%), nas áreas com pastagens de Brachiaria brizantha cv. Marandu (12 ha) e Panicum maximum cv. Mombaça (10 ha). Atualmente, com as correções e as adubações posteriores, os valores de P e V% na camada de 0 - 10 cm estão em torno de 15 ppm e 60%, respectivamente. Nas áreas com pastagens de Cynodon dactylon cv. Coastcross (14 ha) e Panicum maximum cv. Tanzânia (8 ha), os valores iniciais eram de 5 ppm e 36%, sendo atualmente de 20 ppm e 70%, respectivamente, para P e V%.
O sistema de pastejo é o rotacionado, com período de descanso de 36 dias e ocupação de três dias, com exceção da pastagem de capim-coastcross, em que o período de descanso é de 24 dias e a ocupação é de quatro dias. A adubação de 1000 a 1500 kg/ha da fórmula 20-05-20 ou similar é aplicada parceladamente em seis vezes, durante as águas, no caso do capim-coastcross, e quatro vezes para as demais pastagens, totalizando 200 ou 300 kg de nitrogênio (N) por hectare por ano, conforme Tabela 7.6. A lotação é ajustada com animais extras, de acordo com a maior disponibilidade de forragem, que ocorre normalmente em janeiro, fevereiro e março, em conseqüência das condições climáticas mais favoráveis para o crescimento das gramíneas forrageiras tropicais. Tem sido obtido, em média, no período das águas, acúmulo de forragem de 2500 a 4000 kg de matéria seca/ha, a cada ciclo de pastejo, variando com a época, o nível de adubação, a fertilidade do solo e a espécie forrageira.
Os teores de proteína bruta obtidos são de 9 a 10% para o capim-marandu, 10 a 12% para o capim-tanzânia e o capim-mombaça, e de 12 a 14% para o capim-coastcross. Na Tabela 7.6, estão apresentadas informações sobre a produção por animal e por área, obtidas com essas pastagens sob adubação intensiva na Embrapa Pecuária Sudeste, em São Carlos, SP.
As gramíneas não devem ser comparadas, pois existem variações quanto a solo, idade da pastagem, nível de adubação, categoria animal, etc., mas os resultados demonstram que diferentes gramíneas, desde que manejadas adequadamente, podem apresentar bom desempenho, tanto em produção por animal quanto por área.

Estacionalidade da produção de forragem

Embora em sistema intensivo de uso das pastagens se consiga maior produção de forragem no período da seca do que nos sistemas extensivos, em decorrência principalmente do efeito residual das adubações, a estacionalidade da produção de forragem, em razão de fatores climáticos, vai continuar ocorrendo, com valores de 10% a 20% da produção total anual, a menos que seja corrigida, em parte, com o uso de irrigação. Dessa forma, na exploração da pastagem, seja extensiva ou intensiva, haverá sempre um período de produção abundante de forragem, nas águas, e outro de escassez, na seca.
Na região Centro-Sul do Brasil, a estacionalidade da produção é causada principalmente pela redução da precipitação pluvial, da temperatura e da radiação solar, durante o período de abril a setembro. Na Figura 7.1, são ilustradas as médias das taxas mensais de acúmulo de matéria seca em pastagem de capim-tanzânia (Panicum maximum cv. Tanzânia), adubado, sem irrigação, nos anos de 1995 e 1996, na Embrapa Pecuária Sudeste. Verifica-se que a precipitação pluvial e a temperatura mínima são críticas para o crescimento das gramíneas forrageiras tropicais, principalmente no período de maio a setembro.

Figura 7.1. Médias das taxas mensais de acúmulo de matéria seca (MS) em pastagem de capim-tanzânia adubado, sem irrigação, em 1995 e 1996, na Embrapa Pecuária Sudeste, em São Carlos, SP.
Fonte: Corrêa, 1995.
Assim, quando grande porcentagem da área da propriedade é intensificada, há necessidade de se aliviar a lotação na seca ou dispor de um sistema de alimentação para esse período de escassez de forragem. O número de animais a ser mantido na seca, fora das áreas de pastagens intensificadas, aumenta à medida que aumenta a produtividade das pastagens nas águas. O custo de alimentação desses animais durante a seca é um dos principais fatores a serem considerados na viabilização da intensificação da produção por unidade de área (Boin & Tedeschi, 1997).
A lotação poderá ser reduzida com a venda de animais de descarte no final das águas ou, principalmente, daqueles que apresentem peso adequado de abate. O preço de venda desses animais no período de safra (quando o preço por arroba é mais baixo) é compensado pelo seu menor custo. Também pode ser feito ajuste, no caso da fase de cria, programando-se a parição para outubro (Corsi & Santos, 1995), combinando o período de maior exigência nutricional dos animais com a época de maior produção de forragem.
O confinamento pode ser uma alternativa interessante, que permite reduzir a lotação das pastagens e manter a intensificação da produção com a possibilidade de venda de animais na entressafra, combinando maior preço, maior giro de capital e maior produtividade.
Se a decisão for de manter lotação mais elevada na pastagem, uma opção é a suplementação no pasto com volumosos, tais como cana-de-açúcar, silagem e feno.






12 de out. de 2016

Nutrição de Bovinos (Gado de Corte)


Alimentação

Alimentação de bezerros na fase de cria

Efeito da alimentação no desenvolvimento funcional do rúmen
Ao nascer, os bezerros são considerados pré-ruminantes, com o estômago apresentando características diferentes do ruminante adulto, não sendo capazes de utilizar alimentos sólidos. Nessa fase inicial da vida, o leite é um importante alimento para os bezerros. As mudanças anatômicas, fisiológicas e metabólicas que ocorrem no sistema digestivo dos bezerros são caracterizadas pela transição de digestão semelhante à de um monogástrico (essencialmente enzimático) para digestão de ruminante. Isto ocorre geralmente no período entre o nascimento e o terceiro ou o quarto mês de idade. A extensão dessas modificações é função do tipo de dieta ingerida. Assim, a diminuição da ingestão de leite (que passa diretamente para o abomaso, através da goteira esofágica) e o início da ingestão de forragem e/ou concentrado (que permanecem no rúmen-retículo) estimulam a atividade celulolítica e, conseqüentemente, a absorção de ácidos graxos voláteis (AGV), principal fonte energética dos ruminantes.
Efeito da produção de leite das vacas sobre o peso de bezerros à desmama
A produção de leite das vacas de corte é importante para a alimentação dos bezerros na fase de cria, pois a maior parte dos nutrientes ingeridos pelos bezerros nos primeiros meses de vida é suprida pelo leite materno. A desmama tradicional realizada aos 6 a 8 meses de idade segue a curva de lactação da vaca de corte. Vacas da raça Nelore atingem seu máximo de produção (4,7 litros/dia) nos primeiros 30 dias de lactação, permanecendo a produção mais ou menos estável até os 90 dias, quando declina rapidamente até atingir a média diária de 2,7 litros aos 5 meses. Vacas de origem européia e seus mestiços apresentam maior produção de leite do que vacas nelores, conforme pode ser verificado na Tabela 6.1. Além de raça ou grupo genético, a produção de leite de vacas em pastejo é dependente tanto da quantidade e da qualidade da forragem disponível, quanto da reserva de nutrientes que a vaca armazena antes do parto, e influenciará no peso à desmama dos bezerros. 
Existe relação linear positiva entre a produção de leite da vaca e o peso do bezerro à desmama. Embora o aumento da produção de leite permita aumentar o ganho de peso e o peso à desmama dos bezerros, não se pode esquecer que o nível nutricional, na maioria dos sistemas baseados em pastejo, é limitante para dar suporte a níveis elevados de produção de leite. Por outro lado, à medida que o bezerro cresce, sua dependência do leite materno vai diminuindo, sua capacidade de pastar aumenta e, conseqüentemente, reduz a quantidade de leite necessária para determinado ganho de peso. Tem sido observado que o consumo de matéria seca de forragem aumenta com a idade e observou-se que esse consumo representa 0,62; 1,46; 1,51; 1,75 e 2,20% do peso do bezerro aos dois, três, quatro, cinco e seis meses de vida, respectivamente. 
Suplementação para bezerros em aleitamento
À idade de aproximadamente 3 meses, mais da metade da energia necessária ao bezerro de corte provém de outras fontes alimentares que não o leite da mãe. A suplementação dos bezerros em pastagens é necessária quando se objetiva maior taxa de ganho de peso ou maior peso à desmama. Pode-se observar, na Tabela 6.2, que para um animal ser desmamado com 150 kg de peso vivo aos 7 meses de idade, a média diária de ganho de peso será de 0,57 kg, ganho possível de ser alcançado somente com leite e pastagem. Para desmamar um bezerro com 200 kg de peso vivo, seria necessário ganho de peso vivo diário de 0,80 kg, o que pode ser conseguido sem suplementação somente em situações em que se utilizem animais com bom potencial genético e bom manejo da pastagem. Para obtenção de média de ganho diário superior a 0,80 kg até a desmama, é necessário algum tipo de suplementação de boa qualidade.
Quando os bezerros se aproximam da desmama, suas exigências nutricionais aumentam. O aumento das exigências é maior em bezerros com potencial maior de ganho de peso (por exemplo, machos cruzados). Se as exigências nutricionais do bezerro são maiores do que os nutrientes supridos pelo leite e pelo pasto, obviamente o ganho de peso será restrito. A produção de leite da vaca decresce no final da estação chuvosa, assim como a disponibilidade e a qualidade do pasto. Então, a diferença entre as exigências nutricionais do bezerro e a quantidade de nutrientes supridos pelo pasto e pelo leite tendem a aumentar. Como opções para evitar que deficiências nutricionais influenciem o desempenho dos bezerros, existem dois tipos de suplementação que podem ser utilizados para suplementar a dieta dos bezerros na fase pré-desmama, conhecidas como creep feeding e creep grazing.
Creep feeding
creep feeding é a suplementação alimentar para os bezerros durante a fase que eles mamam nas vacas. A suplementação tem sido feita geralmente com concentrado em cocho privativo, ao qual só os bezerros têm acesso. A estrutura para esse sistema de alimentação exclusivo para os bezerros é bastante simples. Compõe-se basicamente de um pequeno cercado, onde ficam os cochos e aos quais apenas os bezerros têm acesso. A vantagem dessa técnica é permitir a desmama de bezerros mais pesados e proporcionar redução no tempo de abate dos animais.
Recomenda-se fornecer diariamente de 0,5 a 1,0% do peso vivo do bezerro em concentrado. A média do consumo durante o período de fornecimento será de 0,6 a 1,2 kg de concentrado/animal/dia. A sugestão dos teores de nutrientes é de 75 a 80% de NDT e de 18 a 20% de proteína bruta. Como exemplo, a composição pode conter aproximadamente 78% de milho, 20% de farelo de soja, 2% de calcário calcítico e 1% de mistura mineral. É importante lembrar que a recomendação da composição e dos teores de nutrientes do concentrado para diferentes propriedades pode variar em função da taxa de ganho, da quantidade de leite produzida pelas mães e, principalmente, da quantidade de forragem disponível e da qualidade da forragem, lembrando que os bezerros possuem hábito de pastejo seletivo e que, portanto, na amostragem deve-se procurar colher amostras representativas da forragem que está sendo pastejada.
O aumento no peso à desmama com a utilização desse sistema é variável. Os fatores que influenciam a resposta são a quantidade e a qualidade do pasto, a produção de leite das mães, o potencial genético do bezerro, o sexo, a idade dos bezerros à desmama, o tempo de administração, o consumo e o tipo de suplemento. Alguns trabalhos mostram variação de 13 a 40 kg, conforme pode ser visto na Tabela 6.3
Na maioria dos programas de cruzamento utilizam-se matrizes da raça Nelore, cujos produtos ½ sangue europeu apresentam maiores exigências nutricionais. Quando essas exigências são atendidas, os bezerros cruzados expressam o maior potencial de ganho de peso que possuem, em comparação ao dos animais nelores puros. Para suprir as deficiências, o emprego da suplementação pelo métodocreep feeding tem proporcionado bons resultados no desempenho de bezerros ½ europeu + ½ Nelore , com pesos à desmama acima dos 230 kg para os machos. 
Creep grazing
creep grazing pode ser empregado de duas formas. Uma opção é utilizar uma área de pasto de acesso exclusivo dos bezerros. Outra alternativa é a utilização de sistema rotacionado, em que os bezerros têm acesso ao pasto antes das vacas. O objetivo é que os bezerros pastem as pontas tenras ou as partes mais nutritivas das plantas, em vez dos colmos ou folhas velhas (senescentes), que serão usadas pelas vacas no restante do pastejo.
Trabalho realizado nos Estados Unidos (Harvey & Burns, 1988) mostra aumento significativo no ganho de peso vivo por hectare com a utilização do creep grazingem milheto. Trabalhos com a utilização do creep grazing precisam ser realizados no Brasil para verificar a viabilidade dessa técnica nas diferentes condições edafoclimáticas.

Alimentação de novilhas na fase de recria

Dentre os fatores que contribuem para o baixo desfrute da bovinocultura de corte no Brasil, destaca-se a idade elevada de acasalamento das novilhas. Essa idade está associada com a fase de recria, que envolve o desenvolvimento do animal da desmama ao início do processo produtivo, ou seja, o estágio em que este atinge o peso ideal para manifestar a puberdade.
Em virtude de o desenvolvimento ponderal entre o desmame e o início da vida produtiva ser vagaroso, a fase de recria nas regiões tropicais reúne o maior contingente populacional. Ademais, a fase de recria retém os bovinos, especialmente os zebuínos, por longo tempo, entre 12 e 36 meses. Essas duas características combinadas, ou seja, grande contingente populacional e prolongada duração da fase de recria, contribuem para reduzir a eficiência do processo produtivo nos trópicos.
Face aos grandes investimentos (terra, instalações, animais, etc.) e aos altos custos de manutenção (alimentação, trabalho, produtos veterinários, etc.) que acompanham um rebanho de recria, torna-se desejável que os animais entrem em produção o mais precocemente possível e haja melhora da eficiência reprodutiva principalmente das fêmeas primíparas. Assim, torna-se necessário encurtar o tempo de permanência dos animais na fase de recria e para que isso seja possível é necessário o conhecimento das alternativas que propiciarão melhor aproveitamento dos recursos produtivos visando a maximizar o retorno econômico.
A idade à puberdade é de extrema importância quando o sistema de produção prevê acasalamento de novilhas para possibilitar o primeiro parto em idade mais precoce.
A puberdade e, conseqüentemente, a idade ao primeiro parto são reflexo direto da taxa de crescimento, que é determinado pelo consumo de alimentos. As novilhas que concebem cedo na estação de monta desmamam bezerros maiores e têm maior produtividade durante a vida. Novilhas com puberdade inerentemente precoce podem acasalar a custo menor do que novilhas com idade inerentemente tardia à puberdade.
As novilhas devem manter-se crescendo durante todo o ano para que alta porcentagem delas apresente ciclo estral e taxa de concepção normal. Períodos de irregularidade na distribuição de alimentos ocasionam severos efeitos no retardamento da concepção. Variações no consumo de alimento, com nível restrito durante a seca, exercem influência negativa sobre a idade à puberdade e a idade à primeira fecundação.
A taxa de fertilidade de novilhas cobertas em seu primeiro cio é menor do que a obtida no terceiro estro e, conseqüentemente, seria ideal que as novilhas atingissem a puberdade cerca de dois meses antes da estação de monta. Isto evitaria que novilhas concebam ao final da estação de monta e, conseqüentemente, tenham ainda menores possibilidades de conceber durante a estação de monta seguinte como primíparas.
A utilização de pastagens melhoradas, com espécies de maior qualidade e adequada disponibilidade, é uma garantia para índices reprodutivos altos e consistentes entre os anos, especialmente para vacas jovens, sendo fundamental em sistemas intensivos de pecuária.
Embora a fase de recria seja menos complexa do que a fase de cria, ela requer muita atenção do produtor, pois os requerimentos nutricionais do animal em crescimento estão constantemente mudando, em função de alterações na composição de seu corpo. À medida que a idade do animal vai avançando, reduz-se a taxa de formação de ossos e proteína, com aumento acentuado na deposição de gordura. Do início dessa fase até a puberdade, o monitoramento do ganho de peso diário é fundamental, não devendo ultrapassar a média de 900 gramas por dia. Este procedimento evita a má formação da glândula mamária (acúmulo de gordura e menor quantidade de tecido secretor de leite) resultando em menor produção de leite para o bezerro e, conseqüentemente, menor desempenho de sua progênie.
A idade à primeira cobrição determinará a alimentação das novilhas nessa fase. Idades à primeira cobrição mais precoces (15 - 16 meses) exigirão planos mais elevados de alimentação do que aqueles para idades mais avançadas para a primeira cobrição (24 - 26 meses).
Embora a idade cronológica da novilha seja importante, geralmente a puberdade ou a idade ao primeiro cio para a maioria das raças européias ou cruzamentos é reflexo da idade fisiológica (tamanho ou peso). Desse modo, o plano de alimentação a ser adotado para as novilhas cruzadas será aquele que, de forma mais econômica, permita que elas atinjam o peso para cobrição o mais cedo possível. O peso vivo para cobrição das novilhas varia de acordo com a raça ou o grupo genético e também com o nível de alimentação que poderá ser fornecido após a cobrição, mas tem sido sugerido de modo geral o peso de 300 kg para as fêmeas cruzadas e de 280 kg para as fêmeas da raça Nelore. 
Recria de novilhas em pastagem
Pastos de excelente qualidade e bem manejados podem suprir os nutrientes para o crescimento das novilhas durante o período das águas, desde que uma mistura mineral esteja sempre à disposição. A suplementação volumosa na seca pode ser feita com forragens verdes picadas, cana-de-açúcar adicionada de 1% de uréia, silagens ou fenos. Para o fornecimento de volumosos em cochos, é necessário minimizar a competição por alimento entre os animais manejados em grupos e, para isso, é importante propiciar aos animais área suficiente de cocho, permitindo que todos tenham chance de se alimentar.
O fornecimento de concentrado às novilhas depende da idade, da qualidade do alimento volumoso utilizado e do plano de alimentação adotado. A suplementação da dieta de novilhas cruzadas Angus x Nelore, Simental x Nelore, Canchim x Nelore e Nelore, com aproximadamente 12 meses de idade, na Embrapa Pecuária Sudeste, com cana, 0,9% de uréia, 0,1% de sulfato de amônio e 1,5 kg de concentrado contendo 18% de proteína bruta, mantidas em pastagem na seca, resultou em média de ganho diário de aproximadamente 0,4 kg por animal por dia. Em outro trabalho realizado na Embrapa Pecuária Sudeste, utilizando fêmeas desmamadas com sete meses mantidas em pastagem e recebendo cana-de-açúcar e 1,5 kg de concentrado com 70% de farelo de soja, 17% de milho, 4,5% uréia, 0,5% de sulfato de amônio, 2,0% de calcário calcítico, 6,0% de mistura mineral e 48% de proteína bruta, observou-se média diária de ganho de 0,63 kg por animal por dia nos animais cruzados de Angus x Nelore e Simental x Nelore. 
Recria de novilhas em confinamento
Nesse sistema, os alimentos são levados às novilhas que permanecem confinadas durante todo o tempo, sem acesso ao pasto. Elas podem receber, no cocho, forragem verde picada, silagem e/ou feno. Mistura mineral deverá estar sempre à disposição, em cochos separados, independentemente do volumoso utilizado.
Ao se fornecer rações à base de silagem de milho para novilhas, deve-se observar a necessidade de suplementação protéica, se não houve utilização de uréia ou outra fonte de nitrogênio não-protéico na ensilagem. Às vezes, é necessário limitar o consumo da silagem de milho, para evitar que as novilhas fiquem obesas.
O fornecimento de concentrado vai depender do ganho de peso desejado durante essa fase. É importante ter sempre em mente que os extremos, subalimentação ou superalimentação, devem ser evitados. Resultados de consumo diário de matéria seca, ganho de peso e conversão alimentar obtidos em trabalho realizado na Embrapa Pecuária Sudeste (Rodrigues et al., 2002) com novilhas da raça Canchim, confinadas na fase de recria, alimentadas com variedades de cana-de-açúcar, são mostrados nas Tabelas 6.4 e 6.5. Todas as novilhas foram suplementadas com 1,3 kg de concentrado com 77% de farelo de soja, 12,5% de uréia, 1,4% de sulfato de amônio, 1,5 de calcário calcítico e 7,6% de suplemento mineral.  

Alimentação de vacas de corte em gestação

Pode-se considerar a nutrição da vaca gestante como sendo o primeiro passo na produção de bovinos e, como em qualquer outra atividade, o sucesso vai depender de como esse primeiro passo é dado.
A Tabela 6.6 evidencia a importância da alimentação pré-parto nos problemas referentes a mortalidade, peso ao nascer e incidência de diarréia nos bezerros.
Qualquer tentativa de produção eficiente de bovinos está diretamente ligada à melhoria de condições de alimentação, notadamente no período de seca. Ênfase deve ser dispensada especialmente ao fornecimento adequado de energia, proteína, cálcio e fósforo, bem como para deficiências regionais de microelementos.
A produção animal pode ser expressa como uma função de consumo e utilização de alimentos, como se segue: produção animal = consumo de alimentos x teor de nutrientes x digestibilidade dos nutrientes. Os nutrientes podem ser obtidos de diferentes fontes alimentares, sendo que fatores econômicos locais e momentâneos determinarão a decisão sobre as fontes recomendadas.
O custo dos alimentos deve ser baixo, considerando-se que a atividade como um todo deve ser lucrativa. A razão disso é o fato de que alta porcentagem dos nutrientes necessários pelos animais é utilizada para satisfazer as exigências de mantença da vaca (Rodrigues, 2002) e somente uma parte bem menor dos nutrientes necessários na atividade de produção de bovinos de corte é recuperada pela venda de animais para abate. Em condições normais de preço, isto significa que a vaca deve ser mantida em pastagens durante o verão, e no inverno ou na seca deve ser suplementada com outro tipo de forragem de baixo custo ou mantida em pastagens reservadas especialmente para essa categoria, podendo a dieta, caso seja necessário, ser corrigida com pequena quantidade (por exemplo, 0,5 kg a 0,7 kg) de farelos protéicos, como, por exemplo, farelo de algodão ou farelo de soja. Caso a opção utilizada seja cana-de-açúcar deve-se também incluir uréia.
Os requerimentos da vaca de corte nos primeiros meses de gestação são menores do que nos últimos meses de gestação. Os requerimentos de nutrientes da vaca de corte com 6 a 9 meses de gestação são mostrados nas Tabelas 6.7 e 6.8. Nessas tabelas são mostrados os requerimentos de proteína, energia, cálcio e fósforo. Contudo, outros nutrientes podem ser críticos, dependendo do teor na forragem, ou em outros alimentos que estão sendo consumidos, principalmente na seca. Os microelementos também podem estar deficientes. Como exemplo, cobre, cobalto e zinco podem ser deficientes em algumas áreas geográficas.
Os valores constantes das Tabelas 6.7 e 6.8 servem como guia, mas o leitor que não está bem familiarizado com o assunto não deve concluir que os requerimentos de nutrientes de vacas de corte em gestação são fixos conforme indicado nas tabelas. Existe grande variedade de fatores que podem influenciar as necessidades de um animal ou rebanho individualmente, como, por exemplo, deficiência de nutrientes, condição corporal da vaca, condições climáticas, idade da vaca, raça, etc.
Deve ser lembrado que a habilidade dos microrganismos do rúmen para utilizar forragem de baixa qualidade está relacionada a suprimento adequado de nitrogênio e minerais. Entre os macroelementos necessários para os microrganismos do rúmen, podem ser destacados o fósforo, o enxofre e o magnésio.
Durante a gestação, as necessidades de proteína na dieta são relativamente baixas. O teor de proteína na dieta para vacas em gestação pode ser suprido pelas forragens tropicais. Somente nos casos em que a forragem apresentar teor de proteína muito baixo, ou então quando se estiver usando alimentos como palhadas, sabugo, cana-de-açúcar e raiz de mandioca, haverá necessidade de suplementação protéica. Com relação a esse aspecto, e considerando a fase de gestação, é importante lembrar que normalmente o animal recicla parte da uréia sangüínea para o rúmen durante um período de baixo consumo de proteína, reduzindo, parcialmente, a quantidade necessária de suplemento nitrogenado. Nos animais zebuínos, a reciclagem da uréia sangüínea para o rúmen é maior do que em raças de gado de corte européias e, conseqüentemente, a resposta à suplementação com uréia será menor nas raças zebuínas.
Os efeitos da alimentação pré e pós-parto sobre a função reprodutiva de vacas de corte são marcantes. Na Tabela 6.9, é mostrado que animais bem alimentados antes do parto apresentam menor intervalo do parto ao primeiro cio do que aqueles submetidos a um plano nutricional baixo no período pré-parto, independentemente do nível nutricional pós-parto. O nível de alimentação pós-parto tem pouco efeito na atividade reprodutiva das vacas com boa condição corporal ao parto, mas tem influência marcante quando o nível nutricional pré-parto é baixo, particularmente na percentagem de vacas que exibem cio até 90 dias pós-parto. A literatura relata que a condição corporal ao parto é relativamente mais importante do que o nível de nutrição pós-parto. Assim, vacas que apresentavam baixa condição corporal ao parto, mas alimentadas para ganhar peso após o parto, tiveram média de intervalo à primeira ovulação de aproximadamente 76 dias. As vacas que pariram em boa condição corporal tiveram média de intervalo de 38 dias, embora tenham sido alimentadas após o parto apenas para manter o peso. 
No período pré-parto, novilhas e vacas gestantes com condição corporal abaixo do ideal, principalmente quando estão magras, tem de ganhar peso para apresentar boa condição corporal ao parto. Parte do aumento de peso, que normalmente se observa no terço final da gestação e que pode atingir de 40 a 50 kg, é resultado do crescimento do feto, das membranas e do acúmulo de líquidos fetais, bem como do aumento do próprio útero. Portanto, o animal pode ter apresentado aumento de peso sem ter melhorado a sua condição corporal ou mesmo pode ter tido perda de condição corporal, o que não é ideal, considerando que o desejado é que as vacas, principalmente as de primeira cria, voltem a ciclar o mais rapidamente possível após o parto.
As vacas de primeira cria geralmente têm o período do parto ao primeiro cio maior do que as vacas com duas ou mais crias. Por essa razão, deve-se ter maiores cuidados com a alimentação das novilhas gestantes. Uma técnica que pode ser utilizada para melhorar a alimentação das novilhas gestantes é permitir que essa categoria de animais realize o pastejo de ponta, ou seja, consuma as pontas do capim antes das vacas adultas.
Tem sido observado que vacas magras não têm boa taxa de gestação e levam mais tempo para apresentar cio dentro da estação de monta. Vacas com condição corporal moderada têm boa taxa de gestação, porém um pouco inferior àquela das vacas em boa condição corporal. Assim, deve-se procurar fazer com que todas as vacas tenham pelo menos condição corporal moderada ao parto. Para isso, deve haver avaliação dos animais três a quatro meses antes do parto e manejo diferenciado para os animais que apresentarem condição corporal abaixo da desejada, para que possam chegar ao parto em condições corporais adequadas.
É importante lembrar que vacas adultas consomem maior quantidade de matéria seca do que novilhas, conseqüentemente, a ingestão de energia por essas duas categorias de animais na mesma pastagem será diferente. Novilhas gestantes magras devem ter manejo diferenciado de vacas gestantes magras, visto que a demanda nutricional da novilha gestante é maior, por se encontrar em fase de crescimento. Portanto, o manejo nutricional de animais de diferentes categorias em gestação deve ser diferenciado, para que os animais tenham as condições adequadas de alimentação que satisfaçam os seus requisitos nutricionais. 

Recria e terminação de bovinos para produção de carne

A recria é geralmente realizada em pastagem, com suplementação de mistura mineral durante o ano todo e com ou sem suplementação de concentrados nos períodos críticos de produção de forragem. Alguns autores, principalmente nos Estados Unidos, sugerem o uso de concentrados durante o verão, para aumentar a taxa de lotação das pastagens ou em pequenas quantidades para explorar o efeito aditivo de volumoso e concentrado no aumento do ganho diário de peso vivo (Owensby et al., 1995). Quando a quantidade de concentrados é elevada (>0,4% do peso vivo) ou a qualidade da forragem (pasto) é adequada, pode ocorrer redução do consumo de pasto (efeito substitutivo) (Pordomingo et al., 1991). Como o desejado é o consumo máximo de forragem durante a recria em pastagens de verão, o fornecimento de concentrados deve ser limitado a 0,4% do peso vivo dos animais.
A terminação de bovinos para produção de carne pode ser realizada das seguintes maneiras:
  1. no pasto;
  2. no pasto com suplementação no verão;
  3. no pasto com suplementação na seca (semiconfinamento); e
  4. em confinamento.
Nos sistemas extensivos de produção, a terminação dos bovinos geralmente é realizada no pasto, com suplementação de mistura mineral. Em conseqüência das limitações de produção de forragem, em quantidade e qualidade, os animais apresentam desempenho inadequado na seca, idade de abate elevada (acima de 36 meses), carcaça com baixo peso e terminação inadequada, resultando em baixa produtividade por unidade de área.
Nos sistemas que utilizam a suplementação com mistura de concentrados na seca (semiconfinamento), há necessidade de vedar áreas de pastagem para utilização durante a seca. Nesses sistemas, ocorre melhor distribuição (redução da sazonalidade) da produção de carne em relação aos sistemas de produção unicamente em pastagem, porém, a produtividade da propriedade ganha pequenos incrementos. Esses sistemas são atrativos pela simplicidade, isto é, requerem investimentos apenas na compra de cochos e concentrados, que são fornecidos na proporção de 1% do peso vivo dos animais, na própria pastagem (Almeida & Azevedo, 1996).
A tomada de decisão de fazer semiconfinamento ou confinamento depende do tipo de animal que o criador possui, do ganho de peso desejado ou necessário para produzir bovinos prontos para abate e do planejamento antecipado na produção de alimentos volumosos, entre outros fatores. O baixo ganho de peso vivo, entre 0,34 a 0,64 kg/animal/dia, dependendo do peso vivo inicial (Almeida et al., 1994), obtido com animais nelorados em sistema de semiconfinamento, pode ser considerado como uma desvantagem deste sistema de criação, em relação aos sistemas que utilizam o confinamento para a terminação de bovinos para abate, como mostrado a seguir.
Nos sistemas mais intensificados, a recria e ou a terminação pode ocorrer em pastos com diferentes graus de correção e fertilização dos solos. A correção e a adubação das pastagens aumenta a produção e a qualidade da forragem disponível para os bovinos. Dessa maneira, é possível aumentar a taxa de lotação e o ganho diário de peso vivo, resultando em maiores produções por unidade de área.
Os sistemas de produção de carne bovina da região Sudeste, que utilizam mais intensivamente o fator terra, fazem uso do confinamento de bovinos como técnica para reduzir a idade de abate, liberar áreas de pastagens para outras categorias de animais, reduzir a taxa de lotação das pastagens nos períodos críticos (seca), obtendo, dessa maneira, melhor taxa de abate, carcaças mais pesadas na entressafra e maior produção de carne por unidade de área. O confinamento de bovinos na década de 1990 era realizado com o objetivo de "estocar boi em pé", isto é, obter lucro com a variação de preço de safra-entressafra do boi gordo. 
O diferencial de preço em moeda americana (dólar) foi de 15,3%, em média, de 1992 a 1997. Atualmente, o confinamento tem de ser realizado com planejamento de tipo ou grupo genético de animais, disponibilidade de alimentos volumosos e concentrados, formulação da dieta adequada para os animais, instalações, época do ano mais apropriada e idade dos animais, entre outros fatores. Diversos estudos mostram que animais que entraram em confinamento acima de 20 meses de idade apresentaram eficiência de conversão alimentar (ECA) de 8,7, enquanto que aqueles que possuíam idade entre 7 e 17 meses apresentaram ECA de 6,3 kg de matéria seca ingerida por quilograma de ganho de peso vivo, mostrando vantagem de 27% em favor do confinamento de animais mais jovens. Por outro lado, animais de alto potencial para ganho de peso que foram recriados em pastagens podem apresentar elevado ganho de peso compensatório por períodos de até 60 dias, sendo então adequados para os sistemas que produzem carne para mercados pouco exigentes quanto à terminação dos bovinos, como pode ser observando na Tabela 6.10. 
Tabela 6.10. Ganho diário de peso vivo (GDP), consumo de alimentos e eficiência de conversão alimentar (ECA) em diversos períodos do confinamento1
Parâmetros
Período (dias)
Média

0-21
21-42
42-63
63-84
84-112
0-112
GDP, kg
1,95
1,91
2,05
1,33
1,12
1,67
Consumo – Silagem, kg
17,0
21,7
22,3
20,3
21,4
20,6
Consumo – Concentrado
4,6
5,9
6,0
5,5
5,8
5,6
ECA, kg MS/kg GDP
4,72
6,13
5,85
8,27
10,35
6,72
1 Adaptado de Cruz (2000). Média dos valores de 72 animais (32 Canchim; 16 Canchim x Nelore, 16 Gelbvieh x Nelore e 8 mestiços leiteiros) distribuídos em 4 baias.
Médias mais adequadas de eficiência de conversão alimentar em confinamento, por períodos mais prolongados do que aqueles apresentados na Tabela 6.10, podem ser observados com diversos grupos genéticos mostrados na Tabela 6.11. A principal razão das diferenças observadas na eficiência de conversão alimentar (ECA) está relacionada à idade mais jovem de entrada dos animais em confinamento. É importante observar também que animais de diferentes tamanhos de estrutura corporal podem permanecer no confinamento por mais tempo, apresentando alta ECA, em razão da deposição de gordura na carcaça ser mais tardia.
Na região Sudeste, a época mais apropriada para a realização da terminação de bovinos em confinamento é durante o período seco do ano, como forma de amenizar os efeitos adversos de alta umidade (lama) e altas temperaturas sobre o desempenho dos animais e para não competir com a produção de carne exclusivamente em pastagem durante o verão, que possui custos de produção mais baixos. O confinamento a céu aberto é o mais recomendado para o período seco na região Sudeste, por apresentar custo mais baixo do que os outros tipos de instalações.
Tabela 6.11. Eficiência de conversão alimentar em diversos períodos do confinamento (kg de matéria seca/kg de ganho de peso vivo)1
Grupo Genético
Período de confinamento (dias)

0-31
31-59
59-74
74-87
87-108
108-129
Blonde d’Aquitaine x Nelore
4,5
6,2
5,9
6,2
7,4
10,2
Limousin x Nelore
4,9
6,4
5,6
6,1
6,9
9,7
Canchim
5,9
5,6
5,5
6,6
9,1
10,8
Canchim x Nelore
4,7
6,2
6,3
7,2
10,8
10,6
1 Adaptado de Cruz (2000). Média dos valores de 3 baias, de cada grupo genético.
O desempenho de bezerros de seis grupos genéticos confinados aos 12 meses de idade pode ser observado nas Tabelas 6.12 e 6.13. O ganho diário de peso vivo e o consumo diário de matéria seca, expresso em percentagem do peso vivo, sofreram reduções com o aumento do peso vivo de abate. A conversão alimentar aumentou (piorou) de 5,92 para 6,26 ou 6,49 kg de matéria seca por quilograma de ganho diário de peso vivo à medida que os pesos de abate tiveram acréscimos de 400 para 440 ou 480 kg. Dois fatores devem ter contribuído para a redução do ganho de peso e a piora na conversão alimentar, quais sejam, a redução na ingestão de nutrientes e a mudança na composição do ganho de peso (aumento da deposição de gordura) com o aumento do peso vivo de abate. A vantagem do animal cruzado em relação ao Nelore comercial quanto ao potencial para ganho de peso vivo (Tabela 6.4) é evidente quando os animais receberam ração com 13% de proteína bruta e 70% de nutrientes digestíveis totais (50% de silagem de milho, 28,3% de milho em grão moído, 9,2% de farelo de soja, 10,8% de farelo de trigo, 0,7% de calcário calcítico e 1% de mistura mineral, na base seca).
O ponto ideal de abate de bovinos machos não-castrados depende do peso mínimo exigido pelo mercado, que é de aproximadamente 240 kg de carcaça quente (16 @), à idade máxima de aproximadamente 18 meses, para evitar problemas de manejo e obter proporções equilibradas de quartos dianteiro e traseiro na carcaça e terminação adequada de no mínimo 3 mm de gordura externa, para proporcionar a qualidade desejada no produto final.
Tabela 6.13. Média estimada de ganho diário de peso de machos não-castrados em confinamento, por grupo genético, de acordo com o peso de abate.

Peso vivo de abate (kg)

Grupo genético
400 (I)
440 (II)
480 (III)
Erro Padrão
Blonde d’Aquitaine x Nelore
1,57a
1,53a
1,54a
0,06
Canchim
1,83a
1,60a
1,55a
0,10
Canchim x Nelore
1,64a
1,38a
1,40a
0,08
Limousin x Nelore
1,70ab
1,80a
1,58b
0,06
Piemontês x Nelore
1,47a
1,48a
1,49a
0,05
Nelore1
1,13a
1,12a
1,11a
0,06
1 Pesos previstos para abate foram de 380, 410 e 440 kg.
abc Médias seguidas de letras iguais na mesma linha não diferem (P > 0,05) pelo teste SNK. 
A castração de bovinos destinados ao abate é tradicionalmente realizada no Brasil por motivos econômicos e de aceitação do consumidor. Na pecuária extensiva brasileira, os bovinos são colocados em pastagens com baixa disponibilidade de forragem e de baixa qualidade nutricional por longos períodos, ocasionando idade de abate tardia. Nessas condições, é imperativo que se faça a castração para tornar os animais mais dóceis (facilitar o manejo), produzir carne de melhor qualidade e evitar o deságio praticado pelos frigoríficos. Nos sistemas intensivos de produção, com pastagens de melhor qualidade em combinação e uso de confinamento, quando necessário, o abate dos bovinos deve ocorrer entre 14 e 20 meses de idade. A decisão da castração ou não dos bovinos jovens é dependente da política dos frigoríficos em cada região. Geralmente não há restrição para machos não-castrados com dentição de leite intacta, peso mínimo de 240 kg de carcaça quente e terminação adequada.