30 de ago de 2015

Flora Apícola

10. Flora Apícola

10.1 O que é considerado flora apícola?

Um conjunto de plantas de interesse para as abelhas. Normalmente, essas plantas são classificadas como nectaríferas ou poliníferas, mas as boas produtoras de própolis também podem ser incluídas. Outras plantas que devem integrar a flora apícola são aquelas que não se enquadram propriamente em nenhum dos tipos acima, mas são hospedeiras habituais de insetos que produzem um pseudonéctar (melato) que é colhido pelas abelhas e transformado em mel.

10.2 Como saber qual é a flora apícola de uma região?

Impossível dizer sem examiná-la. Cada região possui sua vegetação própria, plantada ou nativa, adaptada às condições de solo, clima, topologia e ecologia. Uma região distante poucas dezenas de quilômetros de outra pode ter flora apícola predominante bastante diferente.
Para conhecer as plantas principais, pode-se perguntar a um apicultor experiente da região, ou observar cuidadosamente a atividade das abelhas por um ou dois anos.

10.3 O que é o calendário apícola?

No que diz respeito à flora, o calendário determina os ciclos de floração da região por espécie. Em geral, muitas plantas florescem ao mesmo tempo, criando períodos de abundância de alimento que podem resultar em colheita para o apicultor. Esses períodos são chamados de safras. Em contrapartida, os períodos em que a quantidade de alimento disponível para as abelhas é escassa ou nula são chamados de entressafras.
No Brasil, o número de safras e os seus períodos de ocorrência são bastante variáveis. Duas safras por ano, uma maior e outra menor ocorrem em muitas regiões.

10.4 Como descobrir o calendário apícola de uma região?

Da mesma forma que a flora apícola - perguntando ou observando. Aqui também, grandes variações podem existir entre regiões próximas, especialmente se a diferença de altitude entre elas for significativa. Os livros, por exemplo, definem a época de floração numa faixa ampla, de dois, três ou mais meses. Um leitor desavisado pode imaginar que a floração se estende por todo esse intervalo, mas, na verdade, este é apenas o período provável da sua ocorrência.
Aliás, a mesma região pode apresentar variações significativas no seu calendário apícola, de um ano para outro, por conta de fenômenos climáticos. O que se consegue, na verdade, é apenas uma média, mas que já é muito importante para o apicultor.

10.5 Por que o calendário apícola é importante?

Porque ele determina grande parte do manejo. Alimentação artificial, troca de rainhas e substituição de quadros, por exemplo, são atividades típicas da entressafra, e todos guardam uma relação temporal importante com a safra.

10.6 Quanto dura em média uma florada?

Depende muito da espécie e do tipo de plantio. A família Myrtaceae (dos eucaliptos) floresce por um ou dois meses, às vezes mais. A Asteraceae (assa-peixes, vassouras, carquejas) também tem uma florada longa, e uma espécie sucede a outra, cobrindo um período longo. A Brassicaceae (canola, nabo, couve) pode florescer por mais de dois meses. A Rutaceae (citros) tem uma floração curta, de cerca de duas semanas. Muitas outras espécies, talvez a maioria, têm uma floração relativamente curta, de alguns dias a duas semanas.

10.7 Floradas curtas são inúteis para as abelhas?

Depende do momento de ocorrência. Uma florada curta, mesmo com bom volume de néctar e concentração de açúcar, não pode ser aproveitada pelas abelhas enquanto o enxame ainda não se desenvolveu o suficiente. Essa é a principal razão do sucesso dos apicultores que estimulam corretamente as suas abelhas com alimento na entressafra: elas conseguem aproveitar bem as primeiras floradas.
Depois de o enxame estar bem desenvolvido, naturalmente ou por intervenção do apicultor, qualquer florada que seja atrativa para as abelhas é útil.

10.8 Quais são as melhores plantas apícolas?

Essa é uma das perguntas mais feitas na apicultura. Há uma variedade enorme de plantas apícolas, mas há também um problema básico: plantas de excelente desempenho numa região podem se tornar más produtoras em outra. Por essa razão, diversos estudos chegam a conclusões aparentemente incompatíveis ou mesmo conflitantes.
Na prática, é preciso recorrer a informações de inúmeras fontes e extrair delas algum consenso sobre espécies mais úteis.

10.9 A flora apícola de uma região pode ser melhorada?

Sim. O plantio de espécies melíferas que tenham bom desempenho numa região pode resultar em grande melhora da flora apícola. Uma abordagem recomendada é o plantio de espécies arbóreas perenes, consorciadas com espécies herbáceas ou arbustivas anuais, para ganho a curto, médio e longo prazos.
A questão econômica, porém, não é tão clara. Por exemplo, alguns estudos identificaram espécies com altos potenciais melíferos, da ordem de 200 a 1.000 quilos por hectare. Mas este é um potencial teórico, calculado a partir de estimativas do número médio de flores por hectare durante uma safra e do volume e da concentração média de açúcar do néctar produzido por cada flor. Não custa lembrar que, para que este néctar seja recolhido, é preciso haver condições climáticas adequadas. Também, muitas vezes há uma enorme variação no desempenho das plantas de um ano para outro. E como se não bastassem essas incertezas, nada impede que um pasto apícola cuidadosamente cultivado seja aproveitado entusiasticamente por todos os demais enxames da região, sejam eles naturais ou alojados em colméias de outros apicultores.
Uma alternativa indiscutivelmente boa do ponto de vista econômico, é o aproveitamento das culturas comerciais, especialmente as voltadas para a produção de frutas, como os citros, ou grãos, como o girassol ou a canola.

10.10 Como saber o que deve ser plantado?

Este é um tema delicado, do ponto de vista ecológico. Muitos ecologistas recomendam que apenas as espécies nativas (ou exóticas há muito aclimatadas) sejam plantadas, a fim de evitar um possível desequilíbrio ecológico. É uma posição cautelosa, mas a multiplicação artificial e maciça de uma espécie nativa também pode causar algum desequilíbrio. Isso é especialmente importante em grandes vazios demográficos e áreas de preservação ambiental, onde uma planta invasora poderá se alastrar livremente antes que o seu dano seja percebido.
Uma lista de espécies locais de interesse apícola pode ser obtida com os apicultores mais experientes da região, especialmente os mais inclinados para este assunto (não são muitos, infelizmente). Naturalmente, a região considerada não precisa se restringir às vizinhanças do apiário; ela pode compreender, por exemplo, os estados geograficamente próximos.
E uma boa alternativa sempre será uma seleção pessoal do apicultor, a partir da observação cuidadosa e muita leitura.

10.11 Que critérios definem uma boa planta nectarífera?

Basicamente, três: quantidade, qualidade e disponibilidade do néctar produzido. No que diz respeito a néctar floral, os fatores levados em consideração são, principalmente, os seguintes:
· Duração da floração;
· Confiabilidade (previsibilidade) da floração;
· Volume de néctar produzido por planta;
· Concentração de açúcar do néctar;
· Acessibilidade da abelha ao nectário;
· Qualidade do mel produzido, consideradas as suas propriedades organolépticas (aroma, sabor, textura, aspecto, etc.).
Há autores que também incluem a abundância regional como um critério para qualificação de planta nectarífera. Na minha opinião, isso é um equívoco, pois confunde a avaliação individual de cada planta com a sua participação relativa no conjunto da flora apícola regional, que são pontos bem diferentes.
Alguns desses fatores não são mensuráveis senão em laboratório, mas são percebidos pelo nível de atratividade que as flores exercem nas abelhas e pela produção destas.
Ou seja, de forma mais simples, uma boa nectarífera é aquela que floresce intensamente, todos os anos (ou sempre que plantado), atrai muitas abelhas e dá um mel saboroso.

10.12 Há plantas de floração imprevisível?

Sim. Muitas espécies perenes apresentam grandes variações de um ano para outro. É o mesmo processo que ocorre com as frutíferas, para as quais, sem manejo adequado (raleio dos frutos), os anos de abundância precedem os de escassez. Os eucaliptos, por exemplo, reconhecidos mundialmente como uma excelente fonte de néctar e pólen, são notoriamente pouco confiáveis. A espécie robusta, muito difundida no Brasil e responsável por colheitas abundantes na região sul, é uma das mais confiáveis, com florações fortes e repetidas.

10.13 Que critérios definem uma boa planta polinífera?

A flora polinífera é muito mais abundante do que a nectarífera, e, talvez por esta razão, receba menos atenção. É comum encontrar-se plantas qualificadas como boas produtoras de pólen, mas não estimativas de produtividade por espécie, por exemplo.
Do ponto de vista da necessidade alimentar das larvas de abelha, porém, sabe-se que há polens muito melhores que outros. O primeiro dado importante é que o total de proteína no pólen deve ser igual ou superior a 20%, mas ele, por si só, não significa muito. Um estudo realizado por DeGroot em 1953 determinou as quantidades mínimas de 10 aminoácidos que devem estar presentes na proteína do pólen para que as larvas possam aproveitá-la integralmente. Por exemplo, a proteína presente num pólen deve conter no mínimo 4% do aminoácido isoleucina. Se tiver apenas 3%, segundo DeGroot, as larvas só conseguirão digerir 3/4 da proteína total. Nesse caso, se o volume total de proteína for de 24% e todos os demais aminoácidos estiverem dentro do mínimo necessário, a proteína digerível para as larvas será de apenas 18%, o que é um valor insuficiente.
Um exemplo desta situação é o que ocorre com a alfafa, que provoca um enfraquecimento do enxame pela intensa colheita de néctar sem um o pólen de qualidade suficiente para manter as crias [STA96]. Já o pólen da Corymbia (ex-Eucalyptus) maculata é tido como um dos melhores polens para as abelhas na Austrália. Sementes dessa árvore são facilmente encontráveis no Brasil, por exemplo, no site do IPEF (http://www.ipef.br).

10.14 Que critérios definem uma boa planta propolífera?

Menos informações ainda se têm sobre plantas propolíferas. Uma referência freqüente à Baccharis dracunculifolia (vassoura, alecrim) afirma que ela produz a própolis verde, um tipo especialmente procurado e valorizado pelos compradores internacionais.

10.15 Como identificar uma planta?

Uma vez que se tenha observado uma planta de interesse, o primeiro passo é fazer uma pesquisa como os moradores locais para descobrir o seu nome popular. Com o nome popular, pode-se descobrir a espécie com uma simples consulta à Internet  ou outro buscador). Não é garantido, pois o mesmo nome popular às vezes é usado para inúmeras espécies completamente diferentes.
Não conseguindo o nome popular, pode-se recorrer a herbários de universidades ou Jardins Botânicos. Biólogos que fazem trabalho de campo, como os que trabalham na preparação de relatórios de impacto ambiental (RIMAs), têm vasto conhecimento sobre a vegetação regional, e podem ajudar.
Uma alternativa é a pesquisa bibliográfica própria. Os livros de Harri Lorenzi, do Instituto Plantarum , por exemplo, são abrangentes, e as espécies são muito bem descritas e fotografadas. 



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