Abelha Uruçu

17 de nov de 20084comentários

A distribuição geográfica da abelha Uruçu
(Melipona scutellaris, Latreille 1811)
(Apidae, Meliponinae)
1. Ornamentação da entrada das colmeias com estrias de barro e resina.
2. Ornamentação menos comum da entrada das colmeias, com raias de barro elevadas, formando uma coroa.
3. Aspecto geral de uma abelha uruçu. Como ela não ferroa, é possível segura-la com os dedos.
Uruçu é uma palavra que vem do tupi "eiru'su", que nessa língua indígena significa "abelha grande".
O nome "uruçu" está relacionado com diversas abelhas do mesmo gênero, encontradas não só no Nordeste, mas também na região amazônica. A tendência, porém, é a de reservar o termo "uruçu" para a abelha da zona da mata do litoral baiano e nordestino, que se destaca pelo tamanho avantajado (semelhante à Apis), pela produção de mel expressiva entre os meliponíneos e pela facilidade do manejo.
Estudos realizados em Pernambuco (Almeida 1974) mostraram o relacionamento da uruçu com a mata úmida, que apresenta as condições ideais para as abelhas construírem seus ninhOs, além de encontrarem, em árvores de grande porte, espécies com floradas muito abundantes que são seus principais recursos tróficos e locais de nidificação.
Na região de Taquaritinga (PE), no Morro das Vertentes a 1100m de altura as abelhas uruçus são nativas e criadas racionalmente.
O Dr. Paulo Nogueira Neto (1970) comenta: "Há referências (Moure & Kerr 1950) de ocorrência da uruçu em localidades bem no interior da Bahia e Pernambuco. Lamartine (1962) fez um estudo sobre a distribição dessa espécie, mostrando que ela habita a região úmida do Nordeste. O Dr. Antonio Franco Filho, de Sergipe (inf. pessoal) afirmou que essa abelha não vive na caatinga. Ao que sei, na Natureza, a referida espécie reside somente em ocos de árvores."

Os indivíduos da colmeia
(Melipona scutellaris, Latreille 1811)
(Apidae, Meliponinae)
OPERÁRIA
MACHO
RAINHA VIRGEM
Vista frontal da cabeça
Vista lateral da terceira perna
OPERÁRIA
RAINHA
VIRGEM
MACHO

Os ninhos têm entrada típica, sempre com abertura no centro de raias de barro convergentes, sendo que também podemos encontrar ninhos cujas raias de barro são elevadas e formam uma coroa, freqüentemente voltada para baixo. Essa entrada, que dá passagem para as abelhas, é guardada por uma única operária.
No interior da colméia, encontramos várias camadas (lamelas) de cerume que formam o invólucro (ver imagem abaixo), material maleável resultante da mistura de cera produzida pelas abelhas misturado com a resina que elas coletam nas plantas. O cerume é o material básico utilizado em todas as estruturas que existem dentro do ninho.
As abelhas sem ferrão mantêm a cria e o alimento em estruturas diferentes. Os ovos são colocados em células de cria (foto 4) que contêm todo o alimento larval necessário para o desenvolvimento da larva.
Várias células de cria justapostas formam o favo, que pode ser horizontal ou mais raramente, helicoidal. Quando a abelha nasce, a célula de cria é desmanchada e o cerume reaproveitado em outras construções no ninho.
Os alimentos coletados nas flores, o pólen e néctar, constituem as fontes de proteínas e de açúcares e serão armazenados no interior da colmeia em potes diferentes chamados de potes de alimento (foto 8) e também, darão origem ao alimento larval que será depositado nas células do favo e alimentará a cria.
Segundo Nogueira Neto (1970) "os potes de alimento têm cerca de 4 ou 4,5cm de altura. A próprolis é relativamente pouco pegajosa e é usada misturada com barro (geoprópolis) no batume e na calefação dos ninhos." O cerume é formado da misturada de própolis com cera.

4. Abelhas uruçu no favo de cria
5. Abelha operária de uruçu recolhendo cerume na corbícula.
6. Abelha rainha de uruçu com abdômen bastante desenvolvido (foto de A. Moura)

7. Favos de cria tipo horizontal com células em construção circundadas por poucas lamelas de invólucro e alguns potes de alimento.
8. Favos de cria e potes de pólen ao redor.
9. Favo mais velho com o cerume das células de cria já retirado restando somente as pupas nos seus casulos.
Tipos de colmeias usadas para criação de Uruçu
(Melipona scutellaris, Latreille 1811)
(Apidae, Meliponinae)
1. Caixa de criação de uruçu (modelo CAPEL) com dois compartimentos: o dos favos e alguns potes, que fica na parte anterior da caixa, e outro posterior, com somente os potes de alimento. Os trabiques de madeira nesse segundo compartimento são para apoiar a construção dos potes. Observe a construção do batume vedando a borda das tampas.
2. Vista do interior do ninho de uruçu com enormes potes de alimento
3. Enquanto as abelhas eclodem na região central do terceiro favo de cria, outros dois favos já foram construídos. Cada um desses favos pode apresentar 16cm de diâmetro. Segundo Barros (1994) a temperatura nessa região varia pouco, de 29,6 a 31,7 graus Celsius.


4. Um pequeno tablado de madeira evita que os favos fiquem na parte mais baixa e úmida da caixa racional.

5. Caixa vertical com dois compartimentos e com os

Tabela 1 Principais árvores onde a uruçu nidifica na mata pernambucana (segundo Almeida 1974).

Nome vulgar
Nome científico
Família botânica
Ingá
Inga sp
Leguminosae
Pau d´arco roxo
Tabebuia avellanedae
Bignoniaceae
Pau pombo
Tapirira guianensis
Anacardiaceae
Mungaba
Bombax gracilipes
Bombacaceae
Camaçari
Caraipa densifolia
Guttiferae
Embiriba
Eschweilera luschnathii
Lecythidaceae
Jatobá
Hymenaea martiana
Leguminosae
Cajá
Spondias lutea
Anacardiaceae
Pau d´alho
Galezia gorazema
Phytolaceaceae
Sucupira mirim
Bowdichia virgilloides
Leguminosae
Prijui
Micropholis sp
Sapotaceae
Louro
Ocotea sp
Lauraceae
Pau d´arco
Tabebuia roseoalba
Bignoniaceae
Murici
Byrsonima sericea
Malpighiaceae
Pau d´arco amarelo
Tabebuia chrysotricha
Bignoniaceae
Visgueiro
Parkia pendula
Leguminosae

Preferências florais da abelha Uruçu
(Melipona scutellaris, Latreille 1811)
(Apidae, Meliponinae)


Tabela 1. Árvores visitadas pelas operárias de uruçu nas coletas de pólen e néctar (segundo Almeida 1974).
Nome vulgar
Nome cientifico
Época de floração
Cajá
Spondias mombin
Jan-fevereiro
Angilim
Andira nitida
Marc-abril
Sucupira
Bowdichia virgiloides
Janeiro
Jatobá
Hymenaea martiana
Janeiro
Murici
Byrsonima sericea
Janeiro
Pau d´arco roxo
Tabebuia avellanedae
Dezembro
Pau d´arco amarelo
Tabebuia chrysotricha
Dezembro
Pitanga
Eugenia uniflora
Jan-fevereiro
Embiriba
Eschweilera luschnathii
Jan-fevereiro
Munguba
Bombax gracilipes
Fev-março
Urucum
Bixa orellana
Na região de Catu-BA (Carvalho et al 1998), as famílias botânicas mais visitadas pela uruçu para as coletas de néctar foram Mimosaceae, Caesalpinaceae e Myrtaceae, dados que confirmam as observações de Almeida (1974) realizadas na região de Pernambuco.

O manejo da abelha Uruçu
(Melipona scutellaris, Latreille 1811)
(Apidae, Meliponinae)
Caixa racional vertical com dois compartimentos e uma só porta para criação de uruçu. Na parte inferior, os potes e dois alimentadores, os mesmos usados para pássaros.
Caixas racionais horizontais.
Superior: vedação feita com cera alveolada de Apis. Inferior: alimentadores com xarope de água e açúcar (50%).
A criação racional dessas abelhas tem sido feita em caixas de modelos os mais variados, muitos dos quais facilitam o manuseio na época da divisão e a retirada do mel. Caixas racionais verticais e horizontais, caixas retangulares e quadradas são utilizadas além de colmos de palmeiras (macaibeira) nativas da região.
A madeira mais comum usada para confecção das caixas de uruçu é a pau-pombo tambem conhecida como "pau-de-abelha" na região do Nordeste. Outras madeiras utilizadas são amarelo-vinhático e mais raramente, a jaca, que são madeiras que aceitam mais a umidade. Já pudemos observar também caixas de ripas de ipê, que não foram usadas como assoalho de alguma casa.
Os meliponários são também os mais diversos e podem ser construídos em cidades como Recife, observando-se com cuidado, a época e hora da passagem dos carros que dispersam inseticidas contra mosquitos. Nesse período, e no dia seguinte, as caixas devem ficar fechadas para que as abelhas e seus produtos não sofram os efeitos da contaminação do veneno (Cortopassi-Laurino & Moura 2000).
Os métodos de divisão racional dessas abelhas são variáveis. Com cuidados especiais, para que a multiplicação dos ninhos seja feita em épocas favoráveis do ano, essas abelhas têm sido introduzidas e criadas na região sul e sudeste do país, mesmo considerando que a uruçu tenha origem em região de clima bem diferente.
Em Recife, a divisão dos ninhos é realizada antes da chuva ou seja, no fim do ano. Entretanto, machos destas abelhas formavam aglomerados em maio de 2001 na região de Paulista, PE.

Caixa racional (modelo PNN) de uruçu com proteção contra largatixas na porta de entrada da colmeia e com diversas gavetas para aumentar a altura.
O favo de cria (onde os ovos são colocados) está à esquerda e os potes de alimento à direita - as varetas superiores são usadas para que potes não grudem na tampa.

Aspecto quase total do favo de cria recoberto por lamelas de cerume.
Retirada de todo o conjunto de favos para iniciar a divisão do ninho.

Meliponários de Uruçu
(Melipona scutellaris, Latreille 1811)
(Apidae, Meliponinae)
Os ninhos são transferidos para troncos de palmeiras, fechados nas extremidades. Estes ninhos uniformes são encontrados nas beiras das casas e utilizados pelas famílias.
FIG. 1
FIG. 2
1. Vista geral do meliponário do Sr. Francisco Chagas, em Paulista, PE.
2. Meliponário instalado no Jardim Botânico de Recife, mantido pela APIME, para atividades de educação ambiental.
FIG. 3
FIG. 4
3. Meliponário do Sr. José Correa, da cidade de Pau d'Alho, PE, também com duas fileiras de caixas no modelo horizontal.
4. Meliponário tipo "gaiola" de propriedade do Sr. Renato Barbosa, em Paulista, PE.
FIG 5
FIG. 6
5. Meliponário temporário, da época de chuva, do Sr. Ezequiel Macedo, no Jardim do Seridó, RN.
6. Detalhe das caixas do meliponário do Sr. Francisco Chagas, em Paulista, PE. Observe as canecas de alumínio colocadas na entrada do ninho, que impedem o acesso das lagartixas que se alimentam de abelhas.

O mel da abelha Uruçu
(Melipona scutellaris, Latreille 1811)
(Apidae, Meliponinae)


pote de mel
pote de pólen
potes de alimento grudados na parede da caixa
A abelha uruçu do litoral baiano e nordestino se destaca de outras abelhas da região pelo seu porte avantajado (é do tamanho de Apis mellifera ou maior), pela grande produção de mel e pela facilidade de manejo, atividade que já era desenvolvida pelos povos nativos antes da chegada dos colonizadores. Baseado nesses conhecimentos, vários pesquisadores e meliponicultores dessa abelha têm se dedicado com êxito, ao trabalho de extensão e manejo, incentivando populações rurais, assentados e curiosos na criação de abelhas nativas com caixas e métodos de divisão simples.
Os méis, que podem ser comercializados em litros, são mais líquidos que os de Apis. São usados como remédio, renda extra ou mesmo um alimento melhor para essas famílias. Nos trabalhos mais criteriosos, os criadores das abelhas são incentivados a retirar o mel com bomba sugadora, o que diminui o manuseio, o desperdício de mel no fundo das caixas e evita a morte de ovos e larvas quando não se inclina a colméia para escorrer o mel.
O mel dessas abelhas, além de muito saboroso, pode ser produzido até 10 litros/ano/colônia em épocas favoráveis, embora a média seja de 2,5-3 litros/ano. É considerado medicinal principalmente pelas populações regionais. Segundo Mariano-Filho (citado por Nogueira Neto 1970) o mel dessa abelha é altamente balsâmico e infinitamente mais rico em princípios aromáticos do que o mel de Apis mellifera). Estudos feitos em laboratório confirmaram os seu poder antibacteriano (Cortopassi-Laurino & Gelli 1991 e Martins et al 1997). Devido ao alto teor de água, eles devem ser armazenados em geladeira ou freezer quando não forem consumidos imediatamente.
A análise da composição de mel de uruçu no município de Pirpirituba (PB) foi realizada coletando o mel com seringas de três potes fechados de dentro dos ninhos instalados em caixas de madeira. Com auxílio de refratômetro, foi analisado o teor de água desses méis. Os méis apresentaram porcentagem de água provavelmente influenciada pelas condições ambientais. Nos meses secos de out/98-jan/99, os méis (número de amostras=20) eram mais líquidos, com teores de água variando de 27-29,7%, sendo que encontramos também potes fechados com 92%, sugerindo que as abelhas armazenam esse líquido. Ao contrário, nos meses mais úmidos, de 2/99-6/99, os méis (número de amostras = 21) continham menores teores de água, variando de 25-26,3% (Cortopassi-Laurino & Aquino 2000).
A atividade externa da abelha Uruçu
(Melipona scutellaris, Latreille 1811)
(Apidae, Meliponinae)
O movimento externo de uma colônia de uruçu instalada em São Simão-SP, e algumas coletas do néctar regurgitado das abelhas que retornavam do campo para a colméia foram observados.
As observações sobre o movimento externo começaram com os primeiros raios de luz, quando já havia intensa coleta de pólen (19,8ºC, 91%, 6:07h). Após as 11:25h (26ºC e 70%) essa atividade específica cessou totalmente, mas as atividades de vôo prolongaram-se até 18:15h (24,5ºC e 75%), ainda com alguma penumbra.
As atividades externas dessa mesma espécie de abelha, no mês de outubro/93 pesquisadas por Barros (1994), ocorreram desde as 5:00h da manhã em Jaboticabal-SP e também indicaram pico de atividade polínica, entre 19-21ºC e entre 59-61% de umidade às 7:00h. Os dados de temperatura coincidem com os nossos resultados enquanto que os de umidade estão muito aquém dos obtidos nas nossas observações.
Roubik & Buchmann (1984) verificaram que quatro espécies de Melipona da floresta tropical do Panamá também têm pico de coleta de pólen no início da manhã, ou seja, entre 6-9 horas.
A coleta de néctar em colônias instaladas em São Simão, SP, realizada de maneira experimental, apresentou os resultados abaixo:
Período do dia
Concentração de açúcares no mel
10:45h (25ºC - 61%)
às
16:35h (27ºC - 70%)

Concentração de açúcares
12-51% (média=35,7%)
N=18

Volume máximo do papo da abelha
33,6 microlitros
74,7%
(25,3% de água)
N=4
Quantidade de água a ser desidratada
39%

O néctar coletado do papo de quatro epécies de Melipona do Panamá apresentou variação de 24-63% nos teores de açúcares, mostrando a grande amplitude de oferta na natureza ao longo do dia (Roubik & Buchmann 1984). Já em duas Melipona da Costa Rica, esses valores foram mais amplos, variando de 7,1-65,4% (Biesmeijer et al 1999).

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+ comentários + 4 comentários

Anônimo
30 de agosto de 2009 23:14

197377que imagens fantasticas desta abelha, patrimonio brasileiro tão pouco conhecida, parabens pelas fotos, fantasticas que coisa linda que abelha nobre produtiva e de rara beleza

1 de setembro de 2009 17:00

e o mais interessante,ela está migrando para o sul do Brasil,já sendo encontrada na zona da mata mineira,mais uma prova do aquecimento global.
abraços e obrigado pela visita.

Edgar
11 de fevereiro de 2013 22:57

eu to criando abelhas uruçu e tebi problemas con imbação das outras abelhas da mata nas caxas nobas eu to comensando fas dois meses e não tenho esperienca na criação o que debo face ..

edgar alfredo ..
estrada porto acre km.16
ehaddaycodo@hotmail.com

Paulo Jorge
27 de julho de 2013 02:44

Parabens pelas informações e fotos.

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